Graus no País das Maravilhas

Março 10, 2010

Agora que os comentários, aqui, entraram numa fase “Alice no País das Maravilhas”. Convinha assentar a poeira e tentar tirar alguma coisa desta espécie de debate. Ou, isto é de facto uma torre de Babel para linguarudos viciados em magnésio? E, a discussão acerca dos graus é estéril e inconsequente.

Ficaram algumas questões por resolver ou desenvolver:

Valerá a pena estabelecermos standards para cada grau em ordem a facilitar a cotação de futuras ascensões?

 Existe de facto inflação de graus devido ao efeito 8a.nu. Ou, pelo contrario existe uma deflação devido ao efeito sandbag? Este efeito reflecte-se em Portugal? Reparem que em Portugal não existem praticamente Guias de Escalada, por isso os graus são maioritariamente fixos no 8a.nu.

 Este efeito de inflação só afecta os escaladores profissionais? Que obviamente quantificam as suas performances por forma a terem uma moeda de troca palpável para oferecer.

 Existe o efeito ” primeiro ascensionista”? Em que devido à barreira mental que é necessário quebrar para desvendar um bloco/via novo, poderá existir uma tendência para hipervalorizar a ascensão.

 O efeito “este é do meu estilo” pesa na hora de cotar? Dando origem a um grau mais “duro”. Não deveria ser ao contrario e a pessoa estar mais certa do grau no seu estilo?

Os limites continuarão a ser esticados ou estamos numa espécie de fronteira do possível?

Procuram-se respostas sinceras, para relacionamento sério com tema duvidoso.


A equação da discórdia ou o Grande Debate do Grau

Março 4, 2010

Cá vamos nós, de novo, cavalgar na polémica do momento.

Daniel Woods encadeou recentemente Desperanza, em Hueco Tanks e cotou V15. Este encadeamento gerou uma onda de choque, leia-se comentários, por aparentemente ser uma entrada de V7 para um V14 o que na opinião de muitos não dará V15. Seguir a discussão aqui ou muito melhor aqui  .

O que está em causa não é saber se será V15 ou não, pois é ridículo discutir  o grau de uma via que não se encadeou.

O que é interessante é discutir a “teoria do grau” subjacente a esta discussão. Os mais contestatários serão os adeptos da “matemática” dizendo  que V7 + V14 é impossível dar V15, sugerindo-se exemplos de V14+V14 ser igual a V15 como no Story of Two Worlds, Cresciano, o que aparentemente é de facto uma grossa incongruência.

O debate chegou ao rubro com Dave Graham a tecer o seu comentário no B3 do qual destaco a incrível sentença: “I think this boulder being graded v15 could be devastating to the future of the v15 grade.” Daniel Woods talvez espantado com a polémica deixa o seu comentario no 8a, destacando-se o seguinte: “So in my mind the math makes no sense because yea if v12 to 14 is 15 then how can 7 to 14 be 15? Well many things play a role styles of climbing… different strengths and weaknesses type of terrain the list goes on. I do not base the difficulty of a climb based on how its graded in sections, I base it on the number of ascents it has seen and how long it takes to complete it.”  Estes dois comentários pungentes descrevem por si só duas personalidades muito diferentes de dois dos melhores escaladores de bloco e com certeza duas das opiniões mais avalizadas nesta nebulosa e cinzenta matéria dos “graus do fim da tabela”.

Então, de um lado temos DG apoiado pela teoria da matemática fundada ou muito bem sistematizada aqui  e que diz o seguinte resumidamente: a metade da soma das partes de um bloco acrescida do numero dois, será a cotação final desse bloco, desde que o modulo da diferença entre as partes seja sempre menor do que quatro. Um bonito teorema. E, quem à partida  quiser atirar a horrível matemática para fora de jogo, é preciso ter sempre em mente que…  ” O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”…

Bom, vamos tentar aplicar a teoria num bloco bem conhecido de todos e muitas vezes encadeado: O bloco da Rosa Negra na Pedra do Urso. Assim, por exemplo o Rosa Negra pode bem ser dividido em duas partes: Um arranque meio deitado que vale bem V6 e uma segunda parte em presas médias/boas até uma difícil saída em àplates que rondará V6 também, aplicando a equação daria ((6+6)/2)+2=8 ou seja V8. E, esta? Parece que funciona. Vamos para a linha ao lado o Deixem Blocar o Zé Mantorras, um começo duro que isolado poderá ser algo como V8+ leva à saída do Rosa V6, aplicando mais uma vez a equação teríamos ((8,5+6)/2)+2=9,25 ou seja V9 duro. Olha! funcionou outra vez.

O autor ou promotor do teorema tem um artigo inteiro bem escrito e com muitos exemplos dizendo, no final, que assim poderemos tornar o debate dos graus um pouco mais objectivo e imparcial. Também é rebatido com muitos exemplos, quem quiser explorar mais o tema tem muito com que se entreter.

Do outro lado da barricada DW, diz que devemos contar outros factores, o numero de repetições, no qual é fundado o excelente sistema e  escala dos B original do John Gill  por exemplo, que foi o primeiro sistema de cotação de blocos e que por diversas razões não vingou. Outro factor seria quanto tempo de trabalho é necessário para encadear um bloco. E, eu acrescentaria, a comparação com problemas similares na área.

Entretanto Nalle Hukkataival junta-se à festa e escreve um excelente artigo. Onde, de alguma forma toma o partido do DG, não pelo lado da matemática, mas pelo lado da necessidade de parar coma a inflação do grau especialmente no fim da tabela. Numa peça muito bem fundamentada aponta vários exemplos de problemas que foram decotados, pondo o dedo na ferida ao apontar o 8a.nu e o seu sistema de pontos como um dos principais causadores da ego-ingflação. E, estabelece como prioridade a necessidade de estabelecer novos standards para o grau especialmente para o 8C/V15, emergindo outra vez o Story of Two Worlds do DG, escalado em 2005, como possível standard para o grau, tal como o afirmou na altura o próprio DG.

E o que era o debate em torno do Desperanza rapidamente se está a transformar no “Debate do Grau”, com mais uma vez o B3 a tomar a iniciativa e a tentar liderar o debate, tendo como ponto de partida a necessidade de estabelecer parâmetros e parar com a inflação ou tentar perceber a inflação potenciada pelo ego.

Uma coisa que salta imediatamente à vista é que a formula do John Gill, se aplicada, daria logo o bloco do DG como B3 ou o mais duro de todos porque nunca foi repetido. Interessante. Mas este sistema, presta-se muito pouco ao ego e não serve de nada para pseudo-rankings como os do 8a.nu. Parece deslocado e anacrónico, mas é simples eficaz e quase perfeito como sistema de graduação de blocos.

Podemos divertirmo-nos a aplicar a equação ou simplesmente tentar usa-la para perceber a graduação de um bloco mas no final deverá sempre prevalecer os factores enumerados por DW, e só quem penou dias a fio ou horas ou minutos às vezes para encadear um bloco poderá estimar com sinceridade o lugar que este ocupará na efémera e solúvel escala dos graus.

Um escalador carrega consigo forças e fraquezas, hiper-tecnicismo ou duas rodas nos pés, tendões de aço ou de manteiga, bíceps de pedra ou de farinha, veterana experiencia ou eterna adolescência, um ego gigantesco ou do tamanho de uma ervilha, raiva, generosidade, orgulho, preconceito…E, é desta amalgama que, geralmente, é debitado o grau. Nada para levar muito a sério, pois não?


The Season

Fevereiro 23, 2010

 

Esta é a época. E, de facto, esta época ou temporada, está a ser muito interessante em termos de produção de conteúdos vídeo para a web. O conceito de produção para distribuição gratuita na net – um pouco o caminho que tentamos percorrer de forma amadora aqui –  ganha terreno, com produções a surgirem um pouco em todo o lado. 

Levando as coisas um pouco mais longe temos agora um novo conceito, no mundo da escalada ou do outdoor se quiserem, uma série de 22 episódios produzida e pensada como “webtelevision”. 

Criada por Bryan Smith e Fitz Cahall, que são também os autores do The Dirtbag Diaries um original site com historias em formato de podcasts. Histórias escritas narradas e sonorizadas pelos próprios ou por ouvintes tendo como pano de fundo o mundo da montanha. 

Esta série webtelevisiva, um bonito neologismo, conta as histórias de cinco personagens, a que eles chamam atletas. Nunca gostei deste termo aplicado à escalada ou desportos outdoor. Imaginem, “conta as histórias de cinco atletas”…, e começamos logo a ver o Fernando Mamede a falhar mais uma medalha ou o Carlos Lopes 20 anos depois de LA, com o dobro do tamanho, a explicar o que sentiu quando deixou John Tracy e Charles Speddeing a comer asfalto ao km 37…enfim histórias do atletismo.

 Temos então cinco personagens: um escalador tradicional, um snowboarder, uma escaladora de bloco, um moutainbiker e um kayaker. Tendo como ponto de partida e motores da narrativa as suas histórias e vivências pessoais, todos se comprometem com a época que aí vem em busca de uma redenção, um sentido para a vida ou simplesmente passar um bom bocado a fazer o que mais gostam. A ideia da série é seguir as suas aventuras ao longo de uma temporada no Pacific Northwest, EUA, tentando, segundo os autores, focar a paixão pela actividade que praticam, e não a fama ou recompensas monetárias. E, nesse sentido, temos profissionais e amadores misturados nos famosos cinco, Tim, Ana, Zé…ok esqueçam. 

A origem no Dirtbags Diaries é importante, pois a grande mais valia desta série parece ser um argumento consistente, baseado em cinco histórias, de cinco pessoas de carne e osso e não cinco personagens de banda desenhada em que são muitas vezes transformados os escaladores nos filmes de escalada. Pessoas singulares, com defeitos, aspirações, demónios interiores e vidas comuns, humanos portanto. 

Totalmente filmada em HD, as imagens são deslumbrantes, precisas e profissionais. O cenário do Pacific Northwest  torna as coisas fáceis também. Imaginem a mesma série filmada na Serra de Valongo. Pois é! Eu sei. É mais o filme “Balas e Bolinhos”.

Para já saíram seis episódios, um geral de apresentação e os subsequentes onde as personagens se vão apresentando. O terceiro será talvez o que desperte mais curiosidade aos leitores desta página, uma vez que trata de bloco com uma história pungente de uma escaladora que tenta recuperar a sua forma depois de nove operações ao joelho esquerdo. Sim, simplesmente tentar voltar à escalada e não escalar a ou b cotados de x ou y,  simplesmente escalar porque o corpo mesmo massacrado parece já não saber fazer outra coisa. 

O sexto apresenta o escalador tradicional ou clássico, e tem um momento circense de cortar a respiração logo a abrir. Mas o objectivo central ou motivo é construir um novo entalador ou friend para tentar resolver um problema específico de uma via com uma perigosa expanding flack. Pouco comum e interessante, este argumento fez-me lembrar o famoso “Boni” um entalador mecânico desenvolvido pelo escalador de Vigo com o mesmo nome, nos anos 70 ou 80 não tenho a certeza, para as fissuras gigantes da Peneda. Todo um programa…engenho e adaptação sempre acompanharam a historia da escalada e nem sempre nos sítios mais óbvios. 

Apresentados os magníficos cinco, o meu episódio favorito até agora foi o do kayaker, mas todos são interessantes e cumprem o objectivo de prender o webtelespectador. 

A mecânica é a seguinte: Todas as semanas um episódio novo estreia no site da Arc’teryx e sempre que entra um novo o anterior passa para site da série  e para o Vimeo onde ficam todos alojados.

 É gratuito e é bom. A net no seu melhor.


Valinhas Connection

Fevereiro 13, 2010

De volta a Santo Tirso. Onde tudo começou.

Valinhas é, digamos, a zona 2 de Santo Tirso sendo a principal ou original o Monte da Nª Senhora da Assunção. Também é conhecida por “laboratório Juliano” ou “quintal do Júlio”. Tem características muito próprias. É um labirinto de eucaliptos e mimosas compreendido entre a margem do Rio Leça, na sua nascente, e a pedreira de Cortinhas, essa vegetação está muitas vezes queimada, incrementando o caos para um cenário muitas vezes dantesco. Mesmo assim é uma zona mais tranquila e mais limpa que a Assunção, porque devido à sua natureza e localização não atrai muita gente.

No meio deste caos tranquilo encontram-se poucas mas autenticas pérolas. Blocos únicos e uma elevada concentração de dificuldade com linhas esmiuçadas até à última presa sobre o melhor granito de Santo-Tirso.

Os blocos que aparecem no vídeo têm características muito diferentes, sendo de colheitas diferentes também.

O Devuelve la Piedra cs, é uma pequena maravilha de 4 movimentos, com uma blocagem a fundo num áplate extremamente fugidio. Feito pelo Júlio à já alguns anos vê agora a primeira repetição.

O Escudo cs é uma descoberta mais recente – ano passado – . Um começo um pouco encaixado leva a uma invertida que é preciso ganhar para chegar a uma espécie de réglete que é necessário blocar a fundo para chegar ao escudo propriamente dito, aí umas presas boas permitem respirar e ganhar animo para a saída e respectiva dobragem, uma espécie de piano diagonal em presas inexistentes acompanhadas de pés muito delicados. Um bloco excelente muito variado e completo, exigente em força e em técnica. Um achado.


O Verdadeiro C.S.

Fevereiro 3, 2010

 

Em plena Sala de Visitas, Assunção, Santo Tirso, o verdadeiro e único: Rala Canelas (V7 cs). Escalador: José Abreu; Fotos: Sérgio Martins.

Odiado pelos puros falésistas. Levado às ultimas consequências pelos mais inveterados adeptos do bloco. O começo sentado (C.S.) é um dos movimentos do bloco mais mal interpretados e…traficados.

A definição é simples: na posição sentada em frente ao bloco, posicionamos mãos, posicionamos pés, na rocha, e o ultimo ponto a abandonar o chão é o rabo ou nádegas ou cu, bem… como preferirem.

O que não se deve fazer: serem os calcanhares os últimos pontos a abandonar o chão, usar mais do que uma crashpad (a não ser que assim seja especificado), alguns dirão mesmo – em Fontainebleau por exemplo – que nem se deve usar crash, mas talvez seja melhor deixar essa questão na gaveta da ética local, o nosso cóccix agradecerá com certeza.

Portanto, quando por aqui aparece um “Vqualquercoisa C.S.”, quer dizer que o bloco foi feito nas circunstancias acima referidas e não começando com os pés no chão ou com 5 crashs ou …agachado de cócoras.

E, para quem ainda não deixou de ler e quer conhecer o sítio onde melhor pode por em prática os começos sentados, uma escola NorteBouldering: Santo Tirso.

Santo Tirso tem, que eu conheça, o maior numero, os mais duros, os mais mitrados, os mais excruciantes começos sentados de VB a V13, vejamos:
Começamos com o Salto da lama (V2), indescritível. A seguir o Investida Pélvica (V3), bizarro no mínimo. Seguimos para o Devorador de Lanches Mistos (V4), pouco duro, depois o Viagra (V6), inqualificável. Não podemos deixar de fazer o excruciante Rala Canelas (V7) e o Passeio Micológico também (V7). A seguir e numa espécie de Twilightzone dos começos sentados: o Dunfer com uma estratosférica cotação de V13, só de arranque.

Depois desta escola, ou com esta escola, estamos preparados para viajar pelo mundo fora, sem nunca estranhar nem falhar um verdadeiro C.S.


Recordações da Época Passada

Janeiro 19, 2010

 Nós Eramos os Machacas

Sérgio Martins, Rui Pimentel, Rui Abreu, Martinho Almeida, Oldemiro Lima…

Uma via que já não existe, As 750 Divergências Filosóficas (6c+), dura, dura de roer. Encadeá-la era a senha para entrar no grupo. Nós éramos os “machacas”.

 O local era o mais improvável para uma escola de escalada. Em plena cidade do Porto entre o Bairro do Aleixo e o Rio Douro, uma antiga pedreira deixava à vista um granito saibroso vermelho único, que produzia vias também elas únicas, difíceis e bizarras como nunca mais conheci nenhumas. Um sítio urbano, sujo e perigoso. Mas, adorávamos aquilo, o lixo, a colher abandonada pelo junkie, os insultos de quem passava…eram rapidamente esquecidos quando nos embrenhávamos nas contorcidas sequências de escalada.

 Hoje já nada disto existe. A rua foi remodelada e a falésia estabilizada. Uma rede de aço cobre tudo deixando ainda à vista os velhos spits como testemunhas petrificadas.

 Mas, onde fomos buscar tal nome e o hábito de “machacar” vias?

 Agosto. Uma carrinha volkswagen com mais de 30 anos – incendiou-se passado umas semanas da viagem -, cinco mil quilómetros pela frente. Tudo a postos para o nosso primeiro tour de escalada por Espanha.

Ao fim de mil quilómetros, muitas peripécias e três dias de viagem chegamos a Montserrat. Porque fomos directos para esta zona e não outra? É algo de que já não me consigo lembrar, mas visto a esta distância parece que fez todo o sentido termos aterrado ali em plena praça central, no meio de mil turistas numa tórrida tarde de Agosto.

A estrada que levava ao parque de campismo estava encerrada devido a uma derrocada recente, por isso, armamos logo ali um circo impressionante de mochilas, tendas, cordas e literalmente dezenas de sacos de supermercado. Tudo nosso. Empacotadas as tralhas, estávamos preparados para uma semana inteirinha de estadia.  

Instalamo-nos e aos poucos fomo-nos apercebendo que aquilo não era um camping normal, era antes um “sítio” onde a escalada estava entranhada. Incrustada na madeira, escavada nas pedras dos muros, só faltando estar envolvido por uma nuvem permanente de magnésio. Locais assim existem muito poucos no mundo, digamos que, literalmente gerações de escaladores locais e legiões de visitantes moldam-nos, dotando-os de uma identidade própria e subtraindo-os a um destino banal.

Foi uma sorte conhecer um sítio assim logo na primeira viagem de escalada. As vias não deixaram grandes recordações mas o ambiente e as personagens ficaram marcados a fogo.

O nosso espaço, rapidamente ficou uma espécie de pocilga. Uma mesa permanentemente montada com, fogões, restos de comida, tachos e panelas que raramente viam a água. Bom, uma noite choveu e o que estava em cima da mesa e interessava preservar, passou para baixo. O resto ficou em cima a lavar. Simples. Mas, algo lamacento.

Ao nosso lado estava uma escalador Italiano. Sempre impecável, bandolete no cabelo cortado com estilo e trajes imaculados. Todas as manhãs, cumpria um estranho ritual: saía da tenda e, a primeira coisa que fazia era retirar os pés de gato de dentro e deposita-los com extremo cuidado e precisão no vértice do iglu. Uns magníficos e brilhantes La sportiva Kendo, ficando, por momentos, a olhar para eles embevecido. E nós, acabados de acordar, todos javardos, ficava-mos ali a olhar para aquilo, enquanto íamos tomando café, embasbacados. 

O dono ou guarda do antro chamava-se Marcel Millet, ele próprio uma personagem carismática da escalada Catalã. Conversador, produzia a cada duas frases uma história única, pejada de ideias fortes e controversas. Por aquela altura fazia muita escada artificial e estava justamente a recuperar de um acidente derivado de uma queda numa via nova que estava a abrir. Teria partido as pernas ou algo assim. Gostava de usar ditados ou máximas de ocasião e houve um que nunca esqueci e que vim eu próprio a sentir na pele algumas vezes: “ Quién mucho va a escalar, el hospital va a visitar”. Não aprecio muito este género de sentenças proféticas mas o facto é que ele próprio já tinha visitado o hospital muitas vezes e eu algumas vezes vim a visitar também. Noutra visita que fiz a Montserrat anos depois, vi-o a passar caminho acima com uma enxada ao ombro e um filhote de 3 ou 4 anos pela mão, “Viva, onde vais?” perguntei, “ desenterrar blocos!” respondeu,” estou a fazer um circuito de bloco infantil para o meu filho”. “ há…., pois!”. 

Uma zona do parque rapidamente ganhou para nós contornos magnéticos: a casa de banho. Ok, não a casa de banho em si, mas os muros em redor. Estavam escavados com presas e marcados com vias em código de cores, oferecendo travessias de escalada de todos os níveis. E, ao fim da tarde, também nós, cumpríamos o ritual de ir escalar lá, atraídos pelo circo que ali se formava. Ficávamos a ver o pessoal a fazer as travessias, tentando também entrar na dança, mas, reparando imediatamente que éramos dotados de dois pés esquerdos. Uma personagem chamava particularmente a atenção: rabo de cavalo, seco e musculado – tal e qual aquelas personagens dos cartoons do Manolo que sairiam na revista Escalar anos depois -  executava uma travessia baixa, cheia de passos bizarros e estranhas contorções com notória fluidez. Ia, vinha, ia e tornava a vir, sem nunca se cansar. Curiosos, perguntamos ao Marcel, “Quem é?” ele olhou para nós, reflectiu um pouco e respondeu “ Es un Machaca”.


Área 32 – Teaser 2 –

Janeiro 13, 2010

Algo mais da Área 32, o super-sector da Pedra do Urso.

Continua inacessível devido ao mau tempo que se tem feito sentir. Primeiro chuva e agora neve. Enquanto não voltamos a subir para blocar e recolher mais imagens, fica este registo em forma de aperitivo.


Enigma, a Máquina

Dezembro 30, 2009

Enigma, decifrando a saída. Escalador: Júlio Braga; Fotos: Oldemiro Lima.

Um Verão de treino específico, dezenas de tentativas para…um passo. É qualquer coisa.  

Um escalador, quando criativo, é um caçador de linhas. Sempre à procura de pedaços de rocha novos onde aplicar a sua imaginação. Quanto mais escala, mais vê. Quanto mais “abre”, mais educa o seu olhar. Já não vê, sonha acordado.  

Prisioneiro de uma busca incessante. Muitas vezes é essa busca que o define, outras, é o objecto da própria busca. Então, em raras ocasiões, aparece uma via que funciona como o espelho perfeito do escalador.  

Este bloco, o Enigma, acaba por ser esse Bloco para o Júlio Braga: complexo, extremamente poderoso e exposto. Exigindo, desde o início, uma determinação e resiliência fora do comum: descobrir os movimentos, experimentar, falhar, treinar especificamente, tudo isto ao longo de meses.  

Acaba de ser encadeado na versão drop off (V13 cs). E o processo começa de novo, para enfrentar a continuação, desta vez associando a dificuldade pura à exposição.  

Mas, o que é o Enigma?  

Um muro de 30º. Um arranque sentado a duas mãos numa réglete diagonal, leva a outra réglete que se apanha com a ponta dos dedos em extensão e aí, devido ao posicionamento das presas, o corpo começa a torcer. É necessário dominar essa torção ao mesmo tempo que a mão passa de extensão para arqueio. Este é o famoso movimento. Mas ainda faltam mais 12 pelo menos. A mão esquerda passa para uma inexistência, para equilibrar e toca a blocar mais uma lâminas até umas boas régletes que marcam o meio do bloco e servem de drop off para a primeira versão em V13. O resto é um bloco por si só e está em trabalho ou decifração, ainda. Alto e exposto, apresenta um final digno do começo, isto é, não dá tréguas até ao puxador final.  

Acabamos o ano a falar de um projecto. Meio feito, meio por fazer. Meio em 2009, meio em 2010? Não se sabe. Nunca se sabe. Mas, nada como fazer a transição com um monte de projectos às costas. Os que estão longe, tão longe que não se vê luz ao fim do túnel e aqueles que estão perto, tão perto, que quase ficaram feitos. Bom 2010.  

  


NBLéxico

Dezembro 23, 2009

Reglette, reglêta, crimp ou réglete? Nada como ver no NBLéxico. Bloco: Quarto Escuro V7 cs, Balinhas, Arouca; Escalador: Bruno Gaspar; Foto: Oldemiro Lima.

Já aqui referi que a escalada portuguesa está infestada de estrangeirismos irritantes. Fartos de tropeçar em “aspas” e itálicos avulsos, vamos tentar estabilizar o nosso léxico.    

Aqui ficam alguns dos termos mais usados. E as nossas sugestões.   

Á-platte. Difícil de encontrar um substituto: o “abaulado” brasileiro é interessante. Quase exótico. O “romo” espanhol é curto e bruto, uma alegoria quase perfeita dos nossos vecinos? O “Sloper” anglo-saxónico não pega. Vamos então tentar a via do aportuguesamento sugerindo-se áplate.  

Bi-doight. Aqui parece evidente o aportuguesamento para bidedo. A palavra não existe mas o seu uso é tão corrente que esta é sem dúvida a melhor opção. A título de curiosidade o termo mais próximo no dicionário é bidigitado, mas não é tentador, já “bidigital” seria engraçado. Aplicaremos o mesmo princípio para monodedo e tridedo, obviamente.   

Blocar. Embora o verbo exista, não tem propriamente o significado de bouldering. Mas aqui parece interessante uma apropriação da palavra para nosso benefício. Passando a definir-se blocar como a actividade de escalar blocos. Mas “blocador” já não existe teria de se escrever bloqueador, o que não é tão interessante e nos leva para o – harg! – universo das cordas. Usando blocar no sentido de bouldering faz sentido usar blocador no sentido de Boulderer ou praticante de Bouldering.   

Campus. A palavra aparece já nos dicionários mais recentes, por isso é fácil e pode-se escrever: movimento de campus já sem itálico. Claro que um não iniciado vai pensar em algo como movimentos contestatários com origem em algum campus… universitário.    

Crashpad. Vulgo crash. Deveríamos dizer colchão-de-queda. Mas realmente não pega, imaginem: – Bolas! Não trago colchões-de-queda suficientes para tentar este bloco!… Aqui o mais sensato é manter o anglicismo: crash.    

Drop off. Difícil de arranjar um termo de substituição. Imaginem: – Este bloco acaba neste puxador-de-largar! Ou: – Este bloco é de largar no fim! Ou: – Este bloco é um deixa-te cair. Impossível. Ficamos com o Drop off. Lindo seria escrever Drópofe, mas não nos atrevemos a tanto.    

Flash. Um bloco pode ser feito em flash. Mas não pode ser “flachado” porque o verbo “flachar” não existe. De qualquer forma o termo já pode ser escrito como flash ou flache, nós optaremos por flash.    

Highball. Não há substituto possível. Poderia ser simplesmente bloco alto, mas nem todos os blocos altos são altos blocos. Bola alta não ficava mal, mas é linguagem do –harg! – mundo dos desportos com bola. Fica highball.     

Mantel. O movimento fetiche (sim senhor, fetiche em vez de fétiche) na arte do bloco. Existe um termo muito usado por estas paragens: Salto de cavalo. Não é muito prático mas já está de certa forma enraizado por isso a nossa sugestão vai no sentido de usar salto de cavalo no sentido de rétablissement ou mantel.    

Reglette. Há! Esta é a palavra fulcral, pois um bloco a sério tem de ter várias. Uma tradução possível seria réguazinha, mas é impraticável dizer: – Ui, que duro! Estas réguazinhas estão muito afastadas! Por isso e devido aos anos de uso quase generalizado sugerimos o aportuguesamento para réglete.    

Swing. Já se pode escrever em português ou já foi feito o aportuguesamento. Imagino que não será tanto pelos começos swing dos blocos, mas mais pela popularização… dos clubes de swing. Assim, quando começar-mos um bloco dando impulso com o pezinho que está no chão seremos… swingers. Embora isto não signifique que se viabilize a troca de encadeamentos entre escaladores praticantes de começos swing.    

Estas são as nossas sugestões, para uso neste sítio…ou site. Segundo o livro de estilo do Público seria sítio, mas enquanto não publicamos o Livro de Estilo Nortebouldering optamos por ficar com o estado de sítio neste site.

Mais sugestões ou correcções?


Pure, a Bouldering Flick

Dezembro 21, 2009

Uma viagem incrível pelo mundo do boulder. Rocklands, California, Fountainbleau, Aústria e por fim a incontornável Suiça. Com um elenco forte, Nalle Hukktaival, Killian Fischhhuber, Ana Stoehr e os irmãos Fred e François Nicole, somos presenteados com boas linhas e movimentos de pura beleza.

É sem dúvida um filme muito bem explorado a nível de imagens e cor, apesar de excessiva saturação cromática, uma imagem de marca do realizador Chuck Fryberger. A música escolhida oferece outra relevância a essa mesma viagem. Muito bem escolhida e adequada dá outro sentimento ao filme, apesar de falhar em alguns segmentos. É o caso do tema que acompanha o escalador finlândes no bloco The Island em Fountainbleau, dando a sensação de que a música não acompanha a linha em causa.

“Bouldering is the purest form of climbing.” Quem o diz é Nalle Hukktaival, um dos escaladores mais fortes do momento e com exclusiva dedicação ao bloco. Dotado de uma força inumana, somos bombardeados com uma chuva de blocos do V9 ao V15, entre eles, dois dos blocos considerados mais duros no mundo: The Island (V15) aberto pelo Dave Graham, em Maio de 2007 em Fontainbleau e, Amandla (V15), que significa Poder, abertura e primeira ascensão de Fred Nicole em Agosto de 2005.

Este mesmo, Fred Nicole aparece uma única vez no filme demonstrando, como sempre, um estilo de escalada impressionante, dando a ilusão de cristalizar cada movimento à medida que se move bloco acima. Associado ao nome Nicole, aparece também o seu irmão François Nicole. Engane-se quem pensar que este é apenas mais um escalador que vive por trás do nome. Escalador exímio de V13 e 9a+ de via, não deixa qualquer dúvida em relação ao seu potencial. Aparecem destacadamente na Suiça, zona de onde são originais.

Já na Aústria, acompanhando as aventuras de Cody Roth, juntamo-nos aos escaladores aústriacos Killian Fischhhuber e Ana Stoeher. Ambos contam com vitórias no campeonato do mundo de bloco mas, ao contrário de muitos escaladores deste nível competitivo, dizem que não se imaginam sem escalar em rocha.

Kevin Jorgeson aparece, mais uma vez, associado aos highballs. Agora, numa zona secreta em Sonoma County, California, aparece num bloco/via classificado como 5.13a, 7c+, e outros blocos marinhos, um spot que não convence muito.

Apesar de alguns detalhes, Chuck Fryberger realizou um óptimo trabalho com este filme. Sabe-se que anda a preparar outro, que contará com uma extensa entrevista a Fred Nicole. Ficamos ansiosamente à espera.

Curiosamente, este filme chegou a Portugal pelas mãos do representante da La Sportiva, numa espécie de cinema improvisado no bar Labirinto, situado no Porto, oferecendo outro tipo de impacto numa projecção deste género. No final, um sortudo foi presenteado com um par de La Sportiva Speedster, as novas bailarinas da marca. Um final feliz?  Filipe Carvalho