O Verdadeiro C.S.

Fevereiro 3, 2010

 

Em plena Sala de Visitas, Assunção, Santo Tirso, o verdadeiro e único: Rala Canelas (V7 cs). Escalador: José Abreu; Fotos: Sérgio Martins.

Odiado pelos puros falésistas. Levado às ultimas consequências pelos mais inveterados adeptos do bloco. O começo sentado (C.S.) é um dos movimentos do bloco mais mal interpretados e…traficados.

A definição é simples: na posição sentada em frente ao bloco, posicionamos mãos, posicionamos pés, na rocha, e o ultimo ponto a abandonar o chão é o rabo ou nádegas ou cu, bem… como preferirem.

O que não se deve fazer: serem os calcanhares os últimos pontos a abandonar o chão, usar mais do que uma crashpad (a não ser que assim seja especificado), alguns dirão mesmo – em Fontainebleau por exemplo – que nem se deve usar crash, mas talvez seja melhor deixar essa questão na gaveta da ética local, o nosso cóccix agradecerá com certeza.

Portanto, quando por aqui aparece um “Vqualquercoisa C.S.”, quer dizer que o bloco foi feito nas circunstancias acima referidas e não começando com os pés no chão ou com 5 crashs ou …agachado de cócoras.

E, para quem ainda não deixou de ler e quer conhecer o sítio onde melhor pode por em prática os começos sentados, uma escola NorteBouldering: Santo Tirso.

Santo Tirso tem, que eu conheça, o maior numero, os mais duros, os mais mitrados, os mais excruciantes começos sentados de VB a V13, vejamos:
Começamos com o Salto da lama (V2), indescritível. A seguir o Investida Pélvica (V3), bizarro no mínimo. Seguimos para o Devorador de Lanches Mistos (V4), pouco duro, depois o Viagra (V6), inqualificável. Não podemos deixar de fazer o excruciante Rala Canelas (V7) e o Passeio Micológico também (V7). A seguir e numa espécie de Twilightzone dos começos sentados: o Dunfer com uma estratosférica cotação de V13, só de arranque.

Depois desta escola, ou com esta escola, estamos preparados para viajar pelo mundo fora, sem nunca estranhar nem falhar um verdadeiro C.S.


Recordações da Época Passada

Janeiro 19, 2010

 Nós Eramos os Machacas

Sérgio Martins, Rui Pimentel, Rui Abreu, Martinho Almeida, Oldemiro Lima…

Uma via que já não existe, As 750 Divergências Filosóficas (6c+), dura, dura de roer. Encadeá-la era a senha para entrar no grupo. Nós éramos os “machacas”.

 O local era o mais improvável para uma escola de escalada. Em plena cidade do Porto entre o Bairro do Aleixo e o Rio Douro, uma antiga pedreira deixava à vista um granito saibroso vermelho único, que produzia vias também elas únicas, difíceis e bizarras como nunca mais conheci nenhumas. Um sítio urbano, sujo e perigoso. Mas, adorávamos aquilo, o lixo, a colher abandonada pelo junkie, os insultos de quem passava…eram rapidamente esquecidos quando nos embrenhávamos nas contorcidas sequências de escalada.

 Hoje já nada disto existe. A rua foi remodelada e a falésia estabilizada. Uma rede de aço cobre tudo deixando ainda à vista os velhos spits como testemunhas petrificadas.

 Mas, onde fomos buscar tal nome e o hábito de “machacar” vias?

 Agosto. Uma carrinha volkswagen com mais de 30 anos – incendiou-se passado umas semanas da viagem -, cinco mil quilómetros pela frente. Tudo a postos para o nosso primeiro tour de escalada por Espanha.

Ao fim de mil quilómetros, muitas peripécias e três dias de viagem chegamos a Montserrat. Porque fomos directos para esta zona e não outra? É algo de que já não me consigo lembrar, mas visto a esta distância parece que fez todo o sentido termos aterrado ali em plena praça central, no meio de mil turistas numa tórrida tarde de Agosto.

A estrada que levava ao parque de campismo estava encerrada devido a uma derrocada recente, por isso, armamos logo ali um circo impressionante de mochilas, tendas, cordas e literalmente dezenas de sacos de supermercado. Tudo nosso. Empacotadas as tralhas, estávamos preparados para uma semana inteirinha de estadia.  

Instalamo-nos e aos poucos fomo-nos apercebendo que aquilo não era um camping normal, era antes um “sítio” onde a escalada estava entranhada. Incrustada na madeira, escavada nas pedras dos muros, só faltando estar envolvido por uma nuvem permanente de magnésio. Locais assim existem muito poucos no mundo, digamos que, literalmente gerações de escaladores locais e legiões de visitantes moldam-nos, dotando-os de uma identidade própria e subtraindo-os a um destino banal.

Foi uma sorte conhecer um sítio assim logo na primeira viagem de escalada. As vias não deixaram grandes recordações mas o ambiente e as personagens ficaram marcados a fogo.

O nosso espaço, rapidamente ficou uma espécie de pocilga. Uma mesa permanentemente montada com, fogões, restos de comida, tachos e panelas que raramente viam a água. Bom, uma noite choveu e o que estava em cima da mesa e interessava preservar, passou para baixo. O resto ficou em cima a lavar. Simples. Mas, algo lamacento.

Ao nosso lado estava uma escalador Italiano. Sempre impecável, bandolete no cabelo cortado com estilo e trajes imaculados. Todas as manhãs, cumpria um estranho ritual: saía da tenda e, a primeira coisa que fazia era retirar os pés de gato de dentro e deposita-los com extremo cuidado e precisão no vértice do iglu. Uns magníficos e brilhantes La sportiva Kendo, ficando, por momentos, a olhar para eles embevecido. E nós, acabados de acordar, todos javardos, ficava-mos ali a olhar para aquilo, enquanto íamos tomando café, embasbacados. 

O dono ou guarda do antro chamava-se Marcel Millet, ele próprio uma personagem carismática da escalada Catalã. Conversador, produzia a cada duas frases uma história única, pejada de ideias fortes e controversas. Por aquela altura fazia muita escada artificial e estava justamente a recuperar de um acidente derivado de uma queda numa via nova que estava a abrir. Teria partido as pernas ou algo assim. Gostava de usar ditados ou máximas de ocasião e houve um que nunca esqueci e que vim eu próprio a sentir na pele algumas vezes: “ Quién mucho va a escalar, el hospital va a visitar”. Não aprecio muito este género de sentenças proféticas mas o facto é que ele próprio já tinha visitado o hospital muitas vezes e eu algumas vezes vim a visitar também. Noutra visita que fiz a Montserrat anos depois, vi-o a passar caminho acima com uma enxada ao ombro e um filhote de 3 ou 4 anos pela mão, “Viva, onde vais?” perguntei, “ desenterrar blocos!” respondeu,” estou a fazer um circuito de bloco infantil para o meu filho”. “ há…., pois!”. 

Uma zona do parque rapidamente ganhou para nós contornos magnéticos: a casa de banho. Ok, não a casa de banho em si, mas os muros em redor. Estavam escavados com presas e marcados com vias em código de cores, oferecendo travessias de escalada de todos os níveis. E, ao fim da tarde, também nós, cumpríamos o ritual de ir escalar lá, atraídos pelo circo que ali se formava. Ficávamos a ver o pessoal a fazer as travessias, tentando também entrar na dança, mas, reparando imediatamente que éramos dotados de dois pés esquerdos. Uma personagem chamava particularmente a atenção: rabo de cavalo, seco e musculado – tal e qual aquelas personagens dos cartoons do Manolo que sairiam na revista Escalar anos depois -  executava uma travessia baixa, cheia de passos bizarros e estranhas contorções com notória fluidez. Ia, vinha, ia e tornava a vir, sem nunca se cansar. Curiosos, perguntamos ao Marcel, “Quem é?” ele olhou para nós, reflectiu um pouco e respondeu “ Es un Machaca”.


Área 32 – Teaser 2 –

Janeiro 13, 2010

Algo mais da Área 32, o super-sector da Pedra do Urso.

Continua inacessível devido ao mau tempo que se tem feito sentir. Primeiro chuva e agora neve. Enquanto não voltamos a subir para blocar e recolher mais imagens, fica este registo em forma de aperitivo.


Enigma, a Máquina

Dezembro 30, 2009

Enigma, decifrando a saída. Escalador: Júlio Braga; Fotos: Oldemiro Lima.

Um Verão de treino específico, dezenas de tentativas para…um passo. É qualquer coisa.  

Um escalador, quando criativo, é um caçador de linhas. Sempre à procura de pedaços de rocha novos onde aplicar a sua imaginação. Quanto mais escala, mais vê. Quanto mais “abre”, mais educa o seu olhar. Já não vê, sonha acordado.  

Prisioneiro de uma busca incessante. Muitas vezes é essa busca que o define, outras, é o objecto da própria busca. Então, em raras ocasiões, aparece uma via que funciona como o espelho perfeito do escalador.  

Este bloco, o Enigma, acaba por ser esse Bloco para o Júlio Braga: complexo, extremamente poderoso e exposto. Exigindo, desde o início, uma determinação e resiliência fora do comum: descobrir os movimentos, experimentar, falhar, treinar especificamente, tudo isto ao longo de meses.  

Acaba de ser encadeado na versão drop off (V13 cs). E o processo começa de novo, para enfrentar a continuação, desta vez associando a dificuldade pura à exposição.  

Mas, o que é o Enigma?  

Um muro de 30º. Um arranque sentado a duas mãos numa réglete diagonal, leva a outra réglete que se apanha com a ponta dos dedos em extensão e aí, devido ao posicionamento das presas, o corpo começa a torcer. É necessário dominar essa torção ao mesmo tempo que a mão passa de extensão para arqueio. Este é o famoso movimento. Mas ainda faltam mais 12 pelo menos. A mão esquerda passa para uma inexistência, para equilibrar e toca a blocar mais uma lâminas até umas boas régletes que marcam o meio do bloco e servem de drop off para a primeira versão em V13. O resto é um bloco por si só e está em trabalho ou decifração, ainda. Alto e exposto, apresenta um final digno do começo, isto é, não dá tréguas até ao puxador final.  

Acabamos o ano a falar de um projecto. Meio feito, meio por fazer. Meio em 2009, meio em 2010? Não se sabe. Nunca se sabe. Mas, nada como fazer a transição com um monte de projectos às costas. Os que estão longe, tão longe que não se vê luz ao fim do túnel e aqueles que estão perto, tão perto, que quase ficaram feitos. Bom 2010.  

  


NBLéxico

Dezembro 23, 2009

Reglette, reglêta, crimp ou réglete? Nada como ver no NBLéxico. Bloco: Quarto Escuro V7 cs, Balinhas, Arouca; Escalador: Bruno Gaspar; Foto: Oldemiro Lima.

Já aqui referi que a escalada portuguesa está infestada de estrangeirismos irritantes. Fartos de tropeçar em “aspas” e itálicos avulsos, vamos tentar estabilizar o nosso léxico.    

Aqui ficam alguns dos termos mais usados. E as nossas sugestões.   

Á-platte. Difícil de encontrar um substituto: o “abaulado” brasileiro é interessante. Quase exótico. O “romo” espanhol é curto e bruto, uma alegoria quase perfeita dos nossos vecinos? O “Sloper” anglo-saxónico não pega. Vamos então tentar a via do aportuguesamento sugerindo-se áplate.  

Bi-doight. Aqui parece evidente o aportuguesamento para bidedo. A palavra não existe mas o seu uso é tão corrente que esta é sem dúvida a melhor opção. A título de curiosidade o termo mais próximo no dicionário é bidigitado, mas não é tentador, já “bidigital” seria engraçado. Aplicaremos o mesmo princípio para monodedo e tridedo, obviamente.   

Blocar. Embora o verbo exista, não tem propriamente o significado de bouldering. Mas aqui parece interessante uma apropriação da palavra para nosso benefício. Passando a definir-se blocar como a actividade de escalar blocos. Mas “blocador” já não existe teria de se escrever bloqueador, o que não é tão interessante e nos leva para o – harg! – universo das cordas. Usando blocar no sentido de bouldering faz sentido usar blocador no sentido de Boulderer ou praticante de Bouldering.   

Campus. A palavra aparece já nos dicionários mais recentes, por isso é fácil e pode-se escrever: movimento de campus já sem itálico. Claro que um não iniciado vai pensar em algo como movimentos contestatários com origem em algum campus… universitário.    

Crashpad. Vulgo crash. Deveríamos dizer colchão-de-queda. Mas realmente não pega, imaginem: – Bolas! Não trago colchões-de-queda suficientes para tentar este bloco!… Aqui o mais sensato é manter o anglicismo: crash.    

Drop off. Difícil de arranjar um termo de substituição. Imaginem: – Este bloco acaba neste puxador-de-largar! Ou: – Este bloco é de largar no fim! Ou: – Este bloco é um deixa-te cair. Impossível. Ficamos com o Drop off. Lindo seria escrever Drópofe, mas não nos atrevemos a tanto.    

Flash. Um bloco pode ser feito em flash. Mas não pode ser “flachado” porque o verbo “flachar” não existe. De qualquer forma o termo já pode ser escrito como flash ou flache, nós optaremos por flash.    

Highball. Não há substituto possível. Poderia ser simplesmente bloco alto, mas nem todos os blocos altos são altos blocos. Bola alta não ficava mal, mas é linguagem do –harg! – mundo dos desportos com bola. Fica highball.     

Mantel. O movimento fetiche (sim senhor, fetiche em vez de fétiche) na arte do bloco. Existe um termo muito usado por estas paragens: Salto de cavalo. Não é muito prático mas já está de certa forma enraizado por isso a nossa sugestão vai no sentido de usar salto de cavalo no sentido de rétablissement ou mantel.    

Reglette. Há! Esta é a palavra fulcral, pois um bloco a sério tem de ter várias. Uma tradução possível seria réguazinha, mas é impraticável dizer: – Ui, que duro! Estas réguazinhas estão muito afastadas! Por isso e devido aos anos de uso quase generalizado sugerimos o aportuguesamento para réglete.    

Swing. Já se pode escrever em português ou já foi feito o aportuguesamento. Imagino que não será tanto pelos começos swing dos blocos, mas mais pela popularização… dos clubes de swing. Assim, quando começar-mos um bloco dando impulso com o pezinho que está no chão seremos… swingers. Embora isto não signifique que se viabilize a troca de encadeamentos entre escaladores praticantes de começos swing.    

Estas são as nossas sugestões, para uso neste sítio…ou site. Segundo o livro de estilo do Público seria sítio, mas enquanto não publicamos o Livro de Estilo Nortebouldering optamos por ficar com o estado de sítio neste site.

Mais sugestões ou correcções?


Pure, a Bouldering Flick

Dezembro 21, 2009

Uma viagem incrível pelo mundo do boulder. Rocklands, California, Fountainbleau, Aústria e por fim a incontornável Suiça. Com um elenco forte, Nalle Hukktaival, Killian Fischhhuber, Ana Stoehr e os irmãos Fred e François Nicole, somos presenteados com boas linhas e movimentos de pura beleza.

É sem dúvida um filme muito bem explorado a nível de imagens e cor, apesar de excessiva saturação cromática, uma imagem de marca do realizador Chuck Fryberger. A música escolhida oferece outra relevância a essa mesma viagem. Muito bem escolhida e adequada dá outro sentimento ao filme, apesar de falhar em alguns segmentos. É o caso do tema que acompanha o escalador finlândes no bloco The Island em Fountainbleau, dando a sensação de que a música não acompanha a linha em causa.

“Bouldering is the purest form of climbing.” Quem o diz é Nalle Hukktaival, um dos escaladores mais fortes do momento e com exclusiva dedicação ao bloco. Dotado de uma força inumana, somos bombardeados com uma chuva de blocos do V9 ao V15, entre eles, dois dos blocos considerados mais duros no mundo: The Island (V15) aberto pelo Dave Graham, em Maio de 2007 em Fontainbleau e, Amandla (V15), que significa Poder, abertura e primeira ascensão de Fred Nicole em Agosto de 2005.

Este mesmo, Fred Nicole aparece uma única vez no filme demonstrando, como sempre, um estilo de escalada impressionante, dando a ilusão de cristalizar cada movimento à medida que se move bloco acima. Associado ao nome Nicole, aparece também o seu irmão François Nicole. Engane-se quem pensar que este é apenas mais um escalador que vive por trás do nome. Escalador exímio de V13 e 9a+ de via, não deixa qualquer dúvida em relação ao seu potencial. Aparecem destacadamente na Suiça, zona de onde são originais.

Já na Aústria, acompanhando as aventuras de Cody Roth, juntamo-nos aos escaladores aústriacos Killian Fischhhuber e Ana Stoeher. Ambos contam com vitórias no campeonato do mundo de bloco mas, ao contrário de muitos escaladores deste nível competitivo, dizem que não se imaginam sem escalar em rocha.

Kevin Jorgeson aparece, mais uma vez, associado aos highballs. Agora, numa zona secreta em Sonoma County, California, aparece num bloco/via classificado como 5.13a, 7c+, e outros blocos marinhos, um spot que não convence muito.

Apesar de alguns detalhes, Chuck Fryberger realizou um óptimo trabalho com este filme. Sabe-se que anda a preparar outro, que contará com uma extensa entrevista a Fred Nicole. Ficamos ansiosamente à espera.

Curiosamente, este filme chegou a Portugal pelas mãos do representante da La Sportiva, numa espécie de cinema improvisado no bar Labirinto, situado no Porto, oferecendo outro tipo de impacto numa projecção deste género. No final, um sortudo foi presenteado com um par de La Sportiva Speedster, as novas bailarinas da marca. Um final feliz?  Filipe Carvalho


O Resgate do Soldado Magno

Dezembro 11, 2009

Na génese de um bom nome de uma via de escalada ou problema de bloco tem, em minha opinião, de haver uma boa história. Daquelas que recordamos sempre com um sorriso fazendo-nos lembrar bons ou intensos momentos.

Aproveitando a onda das fissuras, que terá este fim-de-semana uma gala com concerto de vários maestros, mostramos este vídeo onde se aprende de tudo menos a escalar uma fissura com eficiência.

Vários maestros do bloco, tentam progredir como podem por uma fissura, – A Fissura da Granja – entalando-se somente quando absolutamente necessário. Uns ficam entalados, literalmente. Outros conseguem, no final, a ascensão, com poucos “entalanços”, mas conseguindo a repetição.

O bloco que dá nome a este post é um projecto que ficou ao lado da fissura em questão.

A fissura em si, aparece num bloco com cerca de 5 metros nos Viveiros da Granja, na Serra da Freita, começa extraprumada em fissura de mãos e depois na passagem para a vertical passa a “mãos e punhos”. Foi aberta pelo Americano Richard Cilley na sua estadia pela Serra da Freita, ver Um Fantasma na Freita. Primeiro, fez o bloco em pé e depois trabalhou a entrada sentada até conseguir ligar tudo, sempre sozinho e sem crashspads. Só para maestros, mesmo. Lembro-me de ele me ter dito que era hard, não sei bem o que isso significa na escala esotérica da classificação de fissuras, mas uma coisa sei, para escaladores, digamos “de face”, será sempre f#@$%hard.

Portanto, a fissura foi repetida, e abriu-se e ficou como projecto mais um magnífico bloco: O Resgate do Solado Magno, a ver nas cenas dos próximos capítulos.


Haverá Sangue

Dezembro 4, 2009

Inimigo número um dos “blocadores”. Pode ditar o fim de uma sessão ou simplesmente acabar com uma roadtrip. Assume vários nomes e variantes conforme a região ou país onde estamos. Mas, no fim, vai dar tudo ao mesmo e de certeza que…haverá sangue.

Estamos a falar de bifes, mas se estivéssemos em Hueco Tanks só nos entenderiam se disséssemos bloody flapers. Se estivéssemos em França teríamos de dizer steak em inglês mas com pronúncia francesa. Por uma vez, fintamos o jogo dos galicismos, anglicismos, espanholismos e neologismos que infestam a escalada portuguesa e ficamos bem servidos com um excelente bife. Que, por acaso, resulta de um aportuguesamento do inglês beef, português, português seria naco ou posta, pois não somos muito dados a filetes, mas não seria prático e muito menos correcto dizer: falta-me um naco no dedo ou saiu-me uma posta da mão. 

A Nortebouldering preocupada com o derrame intempestivo de hemácias e leucócitos em presas alheias, deixa aqui algumas sugestões, ou conselhos, para evitar essa festa dos sentidos que constitui a experiência de fazer um bife na pedra. E, também um guia de tratamento para quem não seguir esses conselhos e se vir com um bife em mãos. 

O nécessaire 

Pois é, mesmo o “blocador” mais endurecido, tem de ter um, especialmente em roadtrip, se quiser escalar o dia inteiro e fazer a sua pele durar para sempre. Eis o que é mesmo necessário o nécessaire carregar. 

Lixa fina. Pode ser um, muito pratico, bloco usado para lixar madeira, à venda em lojas de ferragens ou tiras de lixa para unhas, à venda em qualquer supermercado, aqui podem pedir sempre às vossas namoradas, esposas, irmãs ou mães que adquiram o produto se não quiserem ser vistos a deambular por semelhantes expositores. 

Bálsamo. Vulgo creme hidratante para mãos. Existem dezenas de marcas e cada um tem a sua preferida, havendo já produtos específicos para a escalada como o excelente Climb-on

Corta-unhas. Útil para cortar pequenos pedaços de pele recalcitrantes. 

Gaze estéril e um desinfectante, uma solução interessante é betadine em pomada. 

Adesivo, vulgo Strappal

Super-cola. Isto merece um comentário mais aprofundado, ver mais à frente. 

Cuidados preventivos 

Lixar a pele. A ideia aqui é lixar os calos para os deixar uniformes com o resto da pele.

Não vamos lixar a pele que está boa, a rocha encarrega-se disso, mas as irregularidades que podem, digamos, “engatar” na rocha e fazer estragos. Ostentar calos monstruosos, como medalhas de treinos compulsivos, é o caminho mais rápido para um bife. 

Usar magnésio com moderação, principalmente o líquido. E, uma vez acabada a sessão lavar rapidamente as mãos. Nada de saltar directamente para o carro, fazer a pequena viagem Pedra do Urso – Porto e chegados a casa cair, exaustos, na cama, só lavando as mãos no dia seguinte. 

Hidratação. Todas as manicuras sabem que a pele tem uma coisa chamada balanço hídrico, que, como é bom de perceber é desequilibrado pelo nosso pó preferido e pelas condições que mais gostamos para “blocar”: frio seco. Assim, uma vez livres do magnésio, toca a hidratar para devolver à pele as condições ideais para a sua regeneração. 

Por fim, a sugestão mais difícil: saber parar. Fazer repetidamente o mesmo passo é o caminho para furar um dedo mas também é o caminho para fazer um bloco por isso a solução é ir observando os dedos e parar antes que seja tarde demais. 

Se, mesmo com estas milagrosas sugestões as vossas mãos se transformarem em delicatessen, eis o que fazer, conforme os casos: 

Cortes e furos  

Irmãos mais novos do bife, constituem o dano mais comum nestas paragens, mas se não formos cuidadosos acabam por levar ao famigerado bife. Uma vez o dedo furado, nada a fazer, lavar com água limpa, desinfectar e se quisermos continuar a escalar temos de passar à arte do adesivo, operação que tem de ser feita com algum cuidado para que o adesivo não salte fora ao primeiro ensaio. Eis o que fazer: Colar um pedaço de adesivo ao longo do dedo, em cima e em baixo. Depois, com um pedaço mais fino – aí 0,5 cm de espessura – começar a enrolar o dedo da ponta para trás, desta forma impedimos que as dobras do adesivo engatem na rocha. Conforme a localização do furo enrolar duas ou três falanges. 

Gretas, fissuras e crevasses 

Frio, magnésio, escalada em excesso em presa muito pequena, leva muitas vezes a estas irritantes ocorrências, a pele simplesmente cede e abre, produzindo-se fissuras extremamente dolorosas, podendo levar dias até que fechem outra vez. Para as evitar: lixa e creme hidratante, uma vez ocorridas um dos remédios pode ser recorrer à super-cola, para as fechar. Já nos debruçaremos sobre o seu uso e aplicação. 

Bifes 

Um bife verdadeiro, é algo sério e sangrento. Geralmente ocorre na falange intermédia onde a pele levanta toda, sob a acção de uma presa cortante. E aqui, podemos seguir dois caminhos, a famosa “cura de Hueco” que reside em colar a pele outra vez usando KrazyGlue  - uma marca de super-cola – , usar adesivo e continuara a escalar. Esta solução é altamente desaconselhada pois o risco de infecção é grande numa ferida destas e essas colas não são propriamente feitas para esse fim.

O outro caminho é simplesmente lavar, desinfectar, fazer um penso com gaze e adesivo e esperar por melhores dias. 

A super-cola 

O uso da super-cola na escalada, tem a aura de quase um mito urbano, senão vejamos: Uns dizem que foi desenvolvida na Segunda Guerra Mundial para fechar feridas de batalha em cirurgias de emergência. Outros dizem que foi inventada, pelos mesmos motivos, mas na Guerra do Vietname. Isto para garantir que pode ser usada para fechar os nossos famosos bifes. Diz-se ainda que varia com o tipo de cola, a super-cola é cancerígena e a Krazyglue não. Muita desinformação.

Super-cola, krazyglue etc. são produtos similares que tem como base o cianoacrilato, produto inventado em 1942 nos laboratórios da KodaK, e comercializado anos mais tarde como cola sob o nome Eastman 910. Desde o inicio que o seu uso em medicina foi considerado e aparentemente foi mesmo usado em 1966 na guerra do Vietname por equipas médicas especiais. Apesar disto a FDA mostrou-se relutante em aprovar o seu uso “civil”, devido a efeitos irritantes para a pele. Foram por isso desenvolvidas novas versões do composto chegando-se ao “2-octyl-cyanoacrylate” aprovado para fechar incisões cirúrgicas em 1998 pela FDA. Havendo actualmente um produto comercializado sob o nome de dermabond que usa este componente.

Mas, podemos ou não usar a super-cola corriqueira? As super-colas para bricolage usam outro composto o: “methyl-2-cyanoacrylate”, um adesivo mais forte, que não só pode irritar a pele como provocar queimaduras, pois a polimerização da cola provoca uma libertação de calor significativa. Assim, se formos pelo lado da segurança este produto não deve ser usado numa ferida aberta ou mesmo sobre a pele. 

Bom, continuaremos a furar os dedos, pois não há cola que nos mantenha em casa quando as condições são perfeitas para blocar. Mas, para quem chegou até aqui, não será por falta de informação.


Caveira Mágica

Novembro 27, 2009

Corno de Bico, outra vez. Correndo o risco de os maçar com este bloco, pois está amplamente documentado no “Abertura de Caça”, faltava no entanto alguma coisa: a concretização, isto é, fazê-lo.

Apesar de este ser um vídeo do estilo curto, algo a que poderíamos chamar “VídeoBloco”, um vídeo um problema, tentamos ir um pouco mais longe e mostrar as tentativas, os falhanços e as viagens frustradas pelo mau tempo. A insistência talvez. Motivação para uns, determinação para outros. Sem isso, podemos ser hulk’s, malabaristas ou fakir’s, mas não chegamos lá.

O Caveira Mágica, propriamente dito. Mais um bloco descoberto, aberto e encadeado pelo Júlio. Partilha o extraprumo com o Cubo Mágico. Movimentos amplos levam-nos ao lip onde travamos conhecimento com os simpáticos cristais de Corno de Bico, aqui, num movimento largo, aprimorado tecnicamente pelo José Abreu, desviamo-nos para a esquerda. Posicionamo-nos para colocar o calcanhar com absoluta precisão num dos cristais anteriores, e blocamos a fundo para uma presa que é todo um programa. Apanhada mal ou bem, começamos a tentar ganhar centímetro a centímetro, agarrando o que podemos do lado esquerdo, numa posição extremamente desconfortável e…bastante arriscada…para os huevos, para no último segundo lançar para um puxador salvador. Este era o método original, eu usei uma sequência ligeiramente diferente, num passo explosivo trago o pé direito para esquerda conseguindo assim um dinâmico para o puxador mais controlado e…não arriscando tanto, vocês imaginam o quê.

Esta última sequência é a que faz toda a diferença no bloco, em comparação com o seu vizinho, o Cubo Mágico, uma linha muito mais perfeita e directa. Pois, no final de tudo ter de explodir naquele passo é desesperante, e de cortar a respiração, de tal maneira que quando chegamos à placa e tudo acaba, a descompressão é tal que é necessário ordenar ao corpo para se mexer de forma a fazer os últimos passos que levam ao cimo do bloco.

 Duas grandes linhas, grande ambiente, Corno de Bico no seu melhor.


Ópera Vertical

Novembro 18, 2009

Patrick Edlinger. Quem? Perguntam os nascidos nos anos 80 ou 90. Ha! Dizem os outros. Mito vivo, principalmente em França, é a imagem colada ao nascimento da escalada desportiva no início dos anos 80 e o protagonista dos filmes Ópera Vertical, La Vie Au Bout des Doigs e muitos outros.

Vem isto a propósito de quê? Bom, sendo este um site assente na imagem videográfica, é normal que exploremos as suas origens. E, estes dois filmes estão na origem, quer da escalada desportiva, quer dos filmes de escalada. Recentemente foram editados em DVD, uma peça fundamental para os colecionadores do género, e também estão disponíveis no Youtube embora em péssima qualidade.

Realizados por Jean-Paul Jansen em 1982 são talvez os filmes de escalada, pelo menos na Europa, mais influentes de sempre. Revelando ao Mundo uma nova disciplina que se viria a impor, para o melhor e para o pior, nos anos subsequentes: A escalada desportiva.

Olhemos mais especificamente o Ópera Vertical. A abertura viria a tornar-se clássica, o escalador e os seus atributos físicos: a elasticidade e a força, com exercícios – a famosa Bachar ladder e a slackline – e estilo importados directamente do Camp4 para o Verdon. Depois, passamos para falésia mais propriamente para a via L’Ange en Décomposition, onde Patrick vai explicando em off o que é a escalada desportiva, fala de cordas e quedas e sem mais, manda um mega “balde”, consta que estourou o tornozelo, mas impávido, responde quando Jean-Paul Janssen, atrás da câmara pergunta: “Ça va Patrick? Tu t’es pas fait mal au moins? “…Moi?! Non, non! Impeccable!…” . Esta conversa entre o camaraman e o actor/escalador destina-se a instruir o espectador explicando o que acaba de acontecer. Esta espécie de diálogo é uma marca do cinema documental de cariz jornalístico, que é a origem do próprio realizador, um camaraman muito experiente que esteve na Guerra do Vietnam, onde por exemplo, participou numa famosa entrevista a um piloto americano detido numa prisão Vietcong que era nada mais nada menos que John Mccain o futuro candidato republicano às eleições presidenciais americanas de 2008.

Temos assim uma equipa de realização, literalmente suspensa, incluída no próprio filme, tornando-se parte do espectáculo. Essa postura foi posteriormente abandonada no cinema/vídeo de escalada, à medida que este se foi aproximando de um conceito mais clássico.

Estes filmes são claramente destinados ao grande público, daí a necessidade de estar sempre a explicar em voz off como as presas são pequenas e os equilíbrios são precários. Esta explicação dá o contexto. O perigo e a vertigem de uma falésia de 200 metros fazem o resto. E, para maximizar as emoções temos, perto do final, o truque perfeito. Edlinger é descido para as profundezas do abismo. Faz subir o baudrier, os pés de gato e começa a famosíssima sequencia: o solo integral descalço da via Débiloff . Quando emerge do vazio e o filme acaba a escalada nunca mais será a mesma.

O “Ópera Vertical” tem uma penetração nos meios fora da escalada, sem precedentes e sem comparação com o que se passa actualmente. Se não acreditam, reparem nesta história edificante: Ouve uns tempos, até me custa contar isto, em que a televisão falhava. Sim. Falhava. Imaginem: Está a família tranquilamente a ver o telejornal, e de repente a emissão vai abaixo, deixa de haver sinal do estúdio, então, têm de meter um separador. E o que era que metiam? Pois é. O “Ópera Vertical”. De repente em todos os lares de Portugal aparecia um gajo loiro a escalar descalço e em solo integral, no – viria a aprender muitos anos depois – Verdon. Eram imagens hipnotizantes e muito para alem da compreensão.

Hoje essas falhas técnicas já não acontecem e a escalada foi para sempre banida do prime-time para nunca mais voltar. Mas o mito ficou.

Qual a influência do “mito Edlinger” e dos seu filmes na escalada portuguesa? Dizem por aí que a Catalunha está cheia de clones do Sharma, os colares, o corte de cabelo etc. Por cá só me lembro de um clone do Edlinger: O “Edlinger da Guarda” de seu nome Murzanga. E de facto era parecido, alto, delgado, uma cabeleira a preceito e com feitos “escalatórios” mitificados, disseram-me uma vez, por exemplo, que o Murzanga fez a placa dos Fantasmas em solo integral e sem por as mãos na rocha!

Bom, fait-divers à parte, toda a gente queria escalar como o Edlinger, e se nem todos podíamos ser altos, delgados e gadelhudos, podíamos tentar usar ao máximo o sua famosa pose: a grenouille ou posição de rã, movimento mítico dos anos 80 que com o advento da escalada em extraprumo foi remetido a curiosidade histórica. E, ainda bem pois usar aquela posição, movimento sim, movimento não, revela-se tudo menos prático.

Um mito, ou quando os feitos de um escalador transcendem a realidade nas nossas imaginações. Porque precisamos ou criamos estas personagens, meios homens, meios deuses? Se a viagem de Ulisses pode simbolizar a inquietude masculina. Estes mitos da escalada simbolizam a inquietude do escalador comum, órfão do modo de vida, da força, da técnica e dos feitos destas estrelas de pedra.