DawnWallmania#3. A Cobertura dos Jornais Portugueses.

Janeiro 21, 2015

capa dn dawn wall

 

Com tal brado e eco na imprensa americana, especialmente no NYTimes, não era de estranhar que a imprensa indígena começasse a salivar pavloviamente perante tão inusitado e inexplicável acontecimento.

O JN foi o primeiro a morder o isco, e no seu notório estilo trauliteiro, e de informação cuidada ao mais ínfimo pormenor, informou-nos via online que:

Yosemite tinha sido despromovido à triste e portuguesa condição de Parque Natural, depois de quase um século como Parque Nacional. Bem instalados no novíssimo Parque Natural, dois homens tinham prescindido de instrumentos de escalada para subirem o El Capitan contentes que estavam com a força das suas mãos e pés para treparem.

Sabiam, por exemplo, o que mais ninguém sabia a nível mundial, que a escalda estava destinada a demorar apenas 18 dias. Descontentes com o léxico que os escaladores portugueses usam no dia-a-dia, resolveram inovar criando um glossário novo para a escalada, aparecendo assim a Dwam Wall dividida em 32 bonitos sectores.

O jornalismo isento do JN não se coibiu de anunciar que a marca Patagonia tinha pago aquilo tudo, para grande gáudio de Tommy Caldwell, o patrocionado, e Yvon Chouinard, o dono. Estes prontamente vieram a terreiro agradecer a publicidade gratuita e de caminho a conhecida marca de luxo de montanha declarou que está a pensar abrir uma loja na Rua mais cara da cidade do Porto, para aproveitar o efeito bola de neve da divulgação da sua marca entre os leitores do JN.

Por fim num acto ao melhor estilo estalinista, a história da escalada foi reescrita, com Yvon Chouinard, ele próprio, a fazer parte da primeira equipa a tentar escalar o “El Cap”, vislumbra-se aqui um puro delírio do JN? Ou outro frete à Patagonia? Com tudo isto consta que Kevin Jorgeson e a Adidas estão bastante agastados com o esquecimento, que dizem deliberado, e exigem uma reparação, colocando-se o próprio fundador da Adidas, Adi Dassler, nessa famosa primeira equipa que tentou escalar o El Cap, o Jornal aí recuou dizendo que havia limites e não se podia brincar com o gajo que inventou as chuteiras.

O Jornal de Notícias e o Diário de Notícias apesar de terem o mesmo dono são um bocadinho diferentes. A malta do DN empolgou-se a sério e a Dawn Wall teve honras primeira página, é ver para crer.

A informação já aparece um pouco melhor, a referência ao famoso tweet da Casa Branca etc. Mas informar sobriamente é demasiado fácil, é preciso inventar um pouco e também quiseram inovar criando um novo termo para via de escalada, rota, num ousado brasileirismo ou talvez lançando mão do novo acordo ortográfico.

Garantem depois que TC e KJ escalaram “sem usar nada mais do que os dedos das mãos e dos pés (com cordas apenas para amparar as quedas)” eis a nova definição de escalada livre onde os dedos dos pés parecem ter um papel preponderante, ainda bem que TC tem os dedos dos pés todos ao contrário das mãos. Esta nova definição da escalada vem talvez dar razão à grande atoarda de Yvon Chouinard sobre esta escalada quando refere, aqui na tradução livre do JN, “Isto não deixa alternativa ao Papa Francisco senão considerar o chimpanzé como o nosso parente mais próximo”.

A subir de nível chegamos agora ao Observador, a coisa parece bem encaminhada, com os másculos “dois homens” do JN e DN, a serem substituídos por um agradável “dois amigos”, mas logo no lead metem o pé na…corda: “Kevin Jorgeson e Tommy Caldewell são os primeiros a alcançar o topo de Dawn Wall sem ajuda das cordas (para subir…)”, eu percebo…mas o tal público generalista que parece agora estar apaixonado pela escalada deve ter ficado um pouco baralhado logo a abrir.

Rota continua a aparecer em vez de via, talvez esteja na altura de nos adaptarmos. A notícia segue agradável de seguir, realçando-se a importância das redes sociais como forma de comunicação preferencial enquanto os escaladores estavam na parede. Depois aparece a criatividade: “Estas espécies de seguidores do Homem-Aranha contam apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés”, a referência à BD é suportável, mas os dedos dos pés outra vez…

A coisa continua A dupla chegou, aliás, a recorrer a fita adesiva e cola para acelerar a coisa, quais MacGyver da escalada. Não houvesse cordas e…” sim, como a famosa personagem televisiva, a dupla tirou da cartola o truque de colocar adesivo nos dedos para grande espanto da comunidade escaladora…

O resto da história corre ligeira com informações acertadas e fontes bem referenciadas. A reportagem do Observador, apesar do colorido, é de longe a melhor, é notório, e talvez também um sinal dos tempos, tratar-se de um jornal online.

O circo na parede, deu origem a um circo mediático que teve o seu eco também nos Jornais Portugueses, com Obama, Papa Francisco, Homem-Aranha, MacGyver à mistura, a ajudarem a encher o chouriço das belas peças que apresentam aos seus fieis leitores.

A escalada por aqui segue uma coisa estranha que não se entranha. Mas por mais estranha e absurda que seja esta actividade não merece um jornalismo preguiçoso e boçal, é possível fazer melhor e bem, mesmo com um assunto à partida estranho à maioria como prova a reportagem do NYTimes, não digo mandar um repórter com um Pulitzer para o local, mas talvez um pouco de pesquisa, só um bocadinho, estão a ver, sim dedos dos pés dão jeito, mas dentro de sapatos, sim uns sapatos próprios para escalar, chamados pés de gato…pés de gato?…ups.  SM

 

Post Scriptum. Tal como no Inimigo Público parte do conteúdo deste texto se não aconteceu podia ter acontecido….


DawnWallmania#2. A Cobertura do New York Times.

Janeiro 19, 2015

NYTimes

A cobertura do New York Times é, em minha opinião, a chave da loucura mediática que se apoderou da América, é verdadeiramente impressionante a coleção de primeiras páginas a nível nacional que apresenta a Climbing, loucura em termos do que seria “normal” uma escalada, mesmo desta magnitude, atingir.

O Reporter. Começa-se a ler as reportagens e, algo não bate certo, estão bem escritas, mesmo bem, os perfis dos escaladores impecáveis. É estranho a escalada merecer este tratamento, é preciso ir mais fundo. O NYTimes destacou para o local, enquanto durou a escalada, John Branch. Bom, nada de mais dirão alguns, pagaram a um esbirro para estar ali, in loco, a seguir os acontecimentos. Acontece que John Branch tem um Pulitzer na algibeira, que no jornalismo tem mais ou menos o mesmo significado que um Nobel. O pulitzer é sobre a reportagem multimédia Snow Fall The Avalanche at Tunnel Creek, uma reportagem do outro mundo sobre uma avalanche que matou vários esquiadores, não se pode falar em reportagem é mais um projecto multimédia, uma espécie de jornalismo online do futuro, curiosamente, na altura, Filipe Carvalho já me tinha mandado o link com a reportagem, precisamente como exemplo do que para ele seria o futuro, não estava nada enganado, não senhor, e aqui está John Branch em Yosemite, um luxo.

O Editor. Cabe ao editor decidir o que é publicado e publicável e aparentemente o editor de desporto é um esacalador ele próprio, e terá de ser um escalador “a sério” para perceber o que estava em causa, pode ser uma explicação para este súbito, e profundo, interesse pela escalada. É, como já disse no artigo anterior, outra forma de a escalada chegar lá. No fundo o caos da vida resume-se a muitas situações parecidas com esta, fazem-se mil campanhas, mil acções de divulgação, etc, etc, mas basta a pessoa certa no lugar certo, e o grande público já é servido com doses maciças de informação de qualidade sobre escalda, e não reclama…

A Reportagem. A reportagem em si é constituída por uma série de artigos desde o primeiro generalista, quase de apresentação, passando por perfis dos escaladores, o dia-a-dia na parede etc etc, apresentando mesmo no fim um glossário, para ninguém se perder nos termos próprios da escalada. A definição de escalada livre que apresentam ao publico em geral é correcta: To free climb means to climb without aid — propelled only by hands and feet, attached to a rope merely to catch a fall. And fall they do, sometimes several times while trying to complete a crux, or difficult maneuver.” Uma tarefa que pode parecer simples, mas como veremos quando analisarmos a cobertura dos jornais portugueses é tudo menos isso.

O perfil de Tommy Caldwell é impecável e mesmo para um escalador medianamente conhecedor é interessante. O pai Caldweel sobre o filho em criança: “He once dug a hole so darn big, we could have used it as a foundation for a small house.” E claro pegaram na incrível história do Kyrgyzstan e na do  dedo cortado por uma serra num acidente de bricolage, que como “cicatrizes de carácter”  lhe dão, e bem, uma densidade muito maior que o simplesmente super-atleta-escalador para o qual não há impossíveis.

Os comentários. Os comentários online nos jornais generalistas são no geral repugnantes, uma espécie de esgoto em forma de vox-populi, e estes no NYtimes, apesar de tidos como dos mais suaves na imprensa generalista, não ficam muito atrás. Serviram para os escaladores se rirem, mais uma vez do entendimento que o publico em geral tem da escalada, com opiniões a voarem em todos os sentidos sem nunca acertarem no alvo, eis aqui uma recoleção dos melhores. Em suma, entre um camponês da Serra da Freita e um new yorker, não há muita diferença no que toca ao entendimento da escalada e tudo se resume a uma pergunta: Que andaiiss vós ali a fajer naquelas pedras?

Para concluir, a melhor cobertura do acontecimento foi de um jornal generalista. Onde andavam as revistas especializadas? A reboque da social media, e no final das televisões, salvou-se talvez Andrew Bisharat da Rock and Ice com os seus artigos no seu site evening sends e artigos para a National Geographic Adventure. SM


DawnWallmania #1. Porque É Que Nunca Iremos a Lado Nenhum.

Janeiro 15, 2015

As coisas estão pretty much out of control  do outro lado do Atlântico com o estrondoso sucesso dos escaladores na Dawn Wall. Nós por aqui continuamos na mesma. Imagens que valem mil palavras.

obama e cavaco


A Escalada do Século. The Dawn Wall Quest.

Janeiro 14, 2015

the dawn wall jpeg (3)

A não ser que tenham estado reclusos noutro planeta, que não o planeta da escalada, é impossível não terem reparado que está a decorrer, e quase a acabar, aquela que já é apelidada por alguns de “ a escalada do século”: A tentativa, por parte de Tommy Caldwell e Kevin Jorgeson, de escalar em livre a Dawn Wall de uma só vez, porque tecnicamente já está “libertada”, mas seguindo a ética yosemítica, já lá vamos, é preciso faze-la “in a single push”.

Uma vez mais o mundo da escalada gira à volta do “El Cap”. Dir-se-ia que o seu peso gravitacional medido em quilos de história da escalada é tão grande que faz, com todo o mérito, girar o resto do mundo à sua volta.

As coisas levam o seu tempo por ali, a logística é monstruosa, a dificuldade é enorme e ultra específica, as proteções são muitas vezes precárias, a barreira está tão alta que escalar um largo de 8b+ protegido com beak’s parece algo banal nesta via.

Há aqui também uma luta mediática, no munda profissional da escalada é preciso procurar desafios cada vez mais altos e longínquos para os outros, neste caso “os outros” já nem são a população escaladora em geral são os “colegas” profissionais, que os deixem, por uns bons anos, a uma distância segura de forma a poderem gozar o Olimpo sozinhos e com o Olimpo vem um grossa fatia do escasso maná disponível na escalada profissional.

Depois deste parágrafo cínico, vem o parágrafo onírico. É preciso sonhar em grande para conceber esta escalada. E depois de sonhar é preciso agarrar o animal pelos cornos, Tommy Caldwell sendo americano, e não do Barroso ou da Lezíria, recorre ao grande monstro do imaginário literário americano, o Moby Dick. Chama à escalada ou “quest” o seu Moby Dick. O valor simbólico de Moby Dick varia muito conforme o interlocutor, pode ser por exemplo um sonho mortífero, o que até poderia ser adequado. Mas é também o grande romance da perseguição e da obsessão. E nesse aspecto é uma metáfora perfeita com a própria abordagem de TC à via em si. Nada poderia ser mais acertado, perseguir tenazmente um sonho por seis anos, sem ter a mínima certeza que é possível. Eis a grande aventura, a aventura do sonho mortífero e da obsessão, uma aventura física mas talvez mais psicológica, uma vez que se trata de perseguir algo tido como impossível ou quase intangível.

O estilo. A questão ética sobre a escalda livre de grandes paredes está na ordem do dia, com a confusão lançada pelo impasse de KJ no agora famoso largo 15 e a sua infame “presa lâmina de barbear”. Por momentos a confusão imperou, como ficaria se um fizesse tudo e outro menos um ou mais largos? O consenso seria que se TC conseguisse encadear o resto dos largos, e está bem lançado, seria considerada uma escalada em livre limpa, mesmo que tenha escalada alguns largos em top rope. O estilo que estão a adoptar é “team free climb” ou seja um encadeia o largo e o outro faz em top, sem cair também, variando nesta via, por razões que só eles sabem, os largos que cada um faz em top. A realidade é, como é salientado no sempre excelente evening sends, que estes escaladores são dois expoentes máximos da escalada, mesmo em termos éticos, especialmente TC e o que ele decidir estará bem, mesmo que estabeleça um precedente. Depois ficará sempre um caminho ético pela frente, o que significa sempre uma melhoria em termos de estilo do que já foi feito, toda a via encadeada por uma pessoa, por uma pessoa num só dia, à vista, free solo, etc etc ad absurdum…ou não.

Só uma nota de rodapé, o estilo clássico de libertar uma via, e que é o meu preferido pessoalmente, é a via ser considerada escalada em livre quando todos os largos são escalados em livre por pelo menos por um dos escalados da cordada, foi assim que a Salalethé Wall foi libertada por Todd Skinner e Paul Piana. É algo mais centrado no espirito de equipa e de cordada, onde cada um contribuiu com o melhor das suas habilidades e menos centrado no espirito individual tão caro à escalada desportiva.

Wino Tower. A wino tower é um ponto icónico da Dawn wall, é a chave da escalada onde as grandes dificuldades acabam, TC chegou lá primeiro, colocando um ponto final nas dificuldades máximas da via, KJ também já lá está, uma vez ultrapassado o impasse. Vale a pena recordar o grande renegado da escalada Warren Harding, quando nessa mesma plataforma, durante a primeira ascensão recebeu assim os seus pretensos salvadores:

 “Good Evening! What can we do for you.”
“We’ve come to rescue you!”
“Really? Come now, get hold of yourselves – have some wine.”

Sem mais. Há nestes quarenta anos que separam as duas ascensões um tal abismo de diferenças que quase parece outra dimensão. Harding já era patrocinado, mas por uma marca de vinhos que lhe fornecia os garrafões de tinto carrascão necessários para a sua sedenta hidratação, TC é visto e vendido como um atleta, quase forçosamente. Um era um mulherengo inveterado, o outro é um dedicado pai de família. Mas ambos têm em comum uma determinação muito, muito incomum que é e foi a base destas duas escaladas. E um é herdeiro do outro, fazendo a transição de um mundo quase analógico, para este frenético mundo tecnológico que vivemos. A escalada de Harding encerrou a chamada época dourada de Yosemite e diz-se que esta fechará outra.

Mediatização mainstream. Outro ponto em comum entre as duas escaladas é a mediatização intensa por meios de comunicação fora do mundo da escalada, a chamada imprensa ou média mainstream. Na altura foi o pseudodrama dos escaladores 27 dias presos na parede e principalmente a sua recusa em serem “salvos” que atraiu a imprensa e notoriamente, para a época, as televisões. Desta vez a presença de um repórter do New York Times no local, que vai fazendo cronicas da ascensão, serviu de motor para a diversificação e o alastrar da coisa. O NYTimes não é um jornal qualquer, é uma referência mundial da boa informação, do qual a outra imprensa anda naturalmente a reboque.

Desta vez, felizmente, nada de trágico se está a passar no El Cap, daí ser estranha a cobertura. Terá o grande público visto a luz e de um momento para o outro interessar-se, e dar opiniões, sobre a melhor forma de colocar adesivo num dedo para agarrar micro presas de forma ainda eficiente ou sobre as nuances éticas da escalada livre em grande parede. Não me parece. E os agora famosos comentários nos artigos do NYT provam bem que não. O facto de aparentemente o editor do jornal ser um escalador ele próprio parece-me um facto um pouco mais relevante, o que mostra outra maneira de a escalada chegar lá. Só que eram precisas Dawn walls semanais para aos poucos os detalhes e minudencias da escalada, do género fora-de-jogo ou Lei Bosman no futebol, fossem entrando na opinião pública. E como se vê esta será a escalda do século e não do mês, por isso, hélas, uma vez acabada, o fenómeno voltará a adormecer na inconsciência colectiva, nada de escalada nos telejornais, estátuas gigantescas de TC e KJ na praça da aldeia, ou o tão desejado olimpismo.

Aventura. À medida que a história se desenrola, e agora caminha para um feliz epílogo, aparecem algumas vozes dissonantes a queixarem-se da ausência de aventura nesta escalada, vale a pena ler esse artigo sobre esse aspecto. Vendo o assunto de forma mais abrangente: o importante não é a ausência de aventura, não parece possível neste momento da evolução da escalada abordar este projecto de forma aventurosa e incerta, mas para onde a escalada caminha. Um caminho para longe da aventura de certeza. Nesse aspecto é uma escalada que reflete na perfeição o zeitgeist, o famoso espirito do tempo… as tácticas desportivas e do bloco a serem levadas para o big-wall, o circo mediático, com os escaladores a estarem constantemente envolvidos num teia de cordas e fotógrafos, dois amigos a servirem de carrejões a levarem mantimentos permanentemente para a parede, o famoso acordar de quatro em quatro horas para hidratar a pele dos dedos. Tudo isto aplana a dimensão do El Cap, torna-o mais humano e menos selvagem, como se hidratassem própria pedra, e a sua história, com um balsamo hidratante e calmante, e transformassem o outrora terrível terreno de jogo para hirsutos e duros tipos numa espécie de spa para metro-escaladores.

Mas, estes gajos são bons de mais, se parece escalada desportiva, é porque são bons de mais, se parece bloco, é porque apertam bem de mais. Malharam de mais, grandes voos em material incerto, partiram pés, amassaram costelas, foram embora de mãos vazias e voltaram com os bolsos cheios de sonhos. Se agora parece fácil e suave, é mesmo assim que as coisas são com os grandes escaladores, fazem o difícil parecer fácil e de caminho o impossível ser possível.

O rapelador despido. A nossa era e o nosso tempo é o tempo dos reality shows, e esta escalada pode ser também o reflexo disso mesmo. A casa/prisão é a parede de Big-Wall na qual os escaladores estão encerrados só podendo sair uma vez o jogo acabado ou seja a via encadeada, constantemente vigiada, equipas penduradas fazem o filme, equipas em terra fotografam exaustivamente, reduzindo a privacidade dos escaladores ao exíguo espaço das suas portledges. A extensa cobertura mediática vai construindo o acontecimento e com um efeito bola de neve vai formando a multidão, atrai turistas e escaladores ao local físico para assistir in loco à acção, mesmo que não consigam ver nada, levando a casos extremos de alienação como o sujeito que apareceu a repelar nu do topo do El Cap sobre a linha de escalada. Esse desejo intenso dos forasteiros de fazerem parte da acção num realty show está muito bem expresso no grande filme italiano, Reality, de Matteo Garrone. Luciano é um exuberante peixeiro napolitano, que, para alem do peixe, vive de pequenos esquemas com a sua mulher, estraga toda a sua vida por um desejo intenso de participar na versão italiana do Big Brother, Il Grand Fratello. Para seu grande desgosto nunca consegue entrar, na cena final consegue infiltrar-se no estúdio e sentando-se num sofá observa por dentro e já não pela televisão os acontecimentos, fazendo parte da acção à força consegue ao fim de muitas peripécias e loucuras uma espécie de apaziguamento final. Tal como Luciano o rapelador nu, também conseguiu fazer parte da acção por escaços minutos.

Esta distorção pelo absurdo da realidade da Dawn wall serve apenas para ilustrar um possível caminho ou um hipotético futuro dos grandes acontecimentos da escalada. O facto de estarmos sempre a ser observados e, pior, potenciarmos essa observação pela exposição mediática que fazemos de nós próprios. Mudará a nossa maneira de actuar, ou mais generalista, mudará o observado. O princípio físico do observador diz-nos que sim. A paranoia como se sabe faz parte do humano, podendo ir de manifestações ligeiras a estados patológicos. Se o ser observado muda a sua acção, pode em virtude da observação a que está sujeito desenvolver a paranoia de que está sempre a ser observado, como no filme, mudando o seu comportamento e transformando-se no processo em algo artificial. Navegar neste mar de equívocos faz parte dos desafios do nosso tempo e esta via, ou acontecimento reflete isso também.

Que grande escalada, a dos seis anos, não esta das três semanas que é apenas a ponta da iceberg. Pode mudar a face da escalada em si e por fim a uma era? Não sei. Sei que o que se está a passar neste preciso momento é absolutamente histórico, em termos de escalada, por isso levanta todas estas questões e desperta toda a atenção ao ponto de eu não conseguir por um ponto final neste artigo sem me lembrar de mais um ângulo relevante ou interessante, mas agora vai ter mesmo que ser. SM

Ilustração: Vitor Baptista


NBabugem. Far West.

Dezembro 22, 2014

No seguimento do post anterior….

Um grupo de visionários antecipou, há dois anos atrás, a cowboyada que aí vem, em termos de acesso à escalada em Albarracín, fruto da massificação e principalmente da falta de respeito de alguns pelo meio envolvente. Aqui fica uma previsão do que o futuro reserva… vai ser o verdadeiro Far WestPedro Rodrigues


O Pacto e o Impacto.

Dezembro 11, 2014

Albarracín fechou o tasco. A notícia é brutal. Fecharam cinco sectores e…proibiram o magnésio. Só os mais incautos pensarão que dá para continuar a escalar sem magnésio. A escalada sem magnésio não existe. É assim, pura e simplesmente. Desde que John Gill importou o pó da ginástica desportiva, há uns cinquenta anos atrás, que andamos a sujar as pedras ou a pinta-las conforme as sensibilidades.

Tive a sorte de conhecer Albarracín, mesmo, mesmo no início e o azar de ver a estrada para o fim. Não sou um santo, e as minhas acções também contribuírem para este desfecho, por mais passageiras que fossem e por mais que tente diminuir o meu impacto quando escalo ou frequento as zonas de escalada.

Albarracín será uma miragem se a lei for para a frente e, conhecendo o país vizinho, dificilmente um exemplo. Adiante, analisemos o nosso cantinho à beira mar plantado e o que podemos fazer para melhorar o estado das coisas.

Em Portugal dificilmente uma área poderá ser fechada pelas mesmas razões, porque pura e simplesmente não existem escaladores suficientes para massificar um local. Essa é a nossa sina. Não sei se será a nossa sorte, isso é outra discussão. O desenvolvimento lento ou muito lento, permite ir corrigindo erros e desviando trajectórias, mas se existisse uma massa de escaladores suficiente, o resultado seria igual ao dos nossos vizinhos.

Tomemos, a título de exemplo, Poios, um local geograficamente central, frequentado por escaladores de todo o país, não sei se será a falésia mais frequentada do país, mas é frequentada o suficiente para se começar a notar o impacto.

Não tive a sorte de conhecer poios sem vias de escalada, mas conheci com duas vias…o Galo na Testa e a inexplicável Manos e…era isso. E as coisas eram um bocadinho diferentes, mas só um pouco, não se pode dizer que o vale foi alterado pelos escaladores, mas pouco a pouco…

O caminho na pendente, hoje usado por toda a gente, não existia, nem o parque de estacionamento, que não foi culpa nossa já agora. A escalada não é a principal preocupação das Juntas de Freguesias e Municípios, temos, lá está, a sorte de escapar como ninjas às instituições, para eles somos umas espécies de fantasmas pendurados, que hora aparecem ora desaparecem, ora estão ora não estão, enquanto a caravana de turistas passa, por isso não recebemos nenhum apoio e por isso também somos riscados no plano legislativo quando é necessário mostrar algum zelo e serviço.

Com isto quero dizer que o caminho novo não seria assim tão necessário, o antigo que começava na aldeia e levava directamente à base da parede servia perfeitamente, mas as coisas são o que são, e hoje quando vou a Poios também uso este novo caminho, do outro já não sobrará o mínimo vestígio, outro dia perdi-me mesmo quando o tentei reencontrar. É simples, basta questionarmo-nos se era realmente necessário, e facilmente se encontra a resposta.

Um pequeno banco feito nos arbustos, quase não se nota e está camuflado, como é que estas coisas aparecem. E porquê que aos poucos queremos trazer o conforto do lar para o pé de via? Estas pequenas transformações humanas num local que é selvagem, ou natural se quiserem, vão moldando a paisagem em vez de sermos nós a moldarmo-nos a ela.

Casa de banho, eis o principal problema, basta dobrar o sector dos “quintos” para se perceber, não será tão perceptível e visível como os arredores do Parking em Albarrracín por exemplo, mas para lá caminha, porque o espaço não é imenso, nem há biombos naturais com fartura.

Este é assunto malcheiroso, literalmente, que não há outra maneira de ser abordado sem ser directamente. Em Espanha existe um livro, que é uma tradução, com um título bastante sugestivo, Cómo cagar en el monte, que já vai na sexta edição, não há que ter vergonha, a maioria das pessoas que frequentam as montanhas e falésias provêm de meios urbanos onde existem infraestruturas sanitárias, aprender a fazer as coisas no monte sem deixar rasto exige educação e leva o seu tempo. Penso que não será necessário escrever tratados sobre o assunto, este cartaz e vídeo do Acess Fund abordam a questão muito bem. Em Poios, por exemplo a solução será o saquinho…

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No Bloco o principal problema, para além do anterior, serão as Tick marks ou clecas, como dizem os espanhóis. Cada um faz as marcas que quer e precisa, nada contra, mas depois não custa nada apagá-las e já agora limpar o magnésio das presas para que as mesmas não se tornem numa pasta ou, pior, em porcelana. Diminui o impacto e é um serviço que o próximo escalador irá agradecer.

Vem isto a propósito do Pacto:

O pacto é uma iniciativa do Access Fund e visa criar um compromisso ético entre os escaladores no sentido de proteger as áreas de escalada. São dez comportamentos e atitudes a adotar fora de casa em ambientes naturais que para além da protecção ambiental irão garantir o acesso às zonas, que como se vê em Abarracín não é um dado adquiridopara sempre.

Eis uma tradução livre do mesmo:

Respeitar os outros utilizadores.

Tratar os dejectos humanos correctamente.

Aparcar e acampar apenas nas áreas designadas para o efeito.

Andar apenas nos caminhos estabelecidos.

Colocar material e crash pads em superfícies duráveis.

Limpar o magnésio e tick marks.

Manter um low profile, minimizando o tamanho do grupo e o barulho.

Levar embora todo o lixo, crash pads e material.

Respeitar encerramentos.

Ser proactivo e não um expectador passivo.

Estes 10 magníficos mandamentos parecem senso comum e um comportamento cívico normal, mas se pensarem bem e olharem bem à vossa volta, verão que não é bem assim. Em Portugal ainda não é tarde, pelas razões que referi, para se adoptarem comportamentos que melhorem as nossas áreas preferidas de jogo.

SM


Seven (@Porklands)

Dezembro 5, 2014

 

Às 7 em Porklands. Tudo gira em torno do número mágico, tanto nos nomes, como nos graus. Seven é um pequeno vídeo acerca das duas linhas mais evidentes no bloco da moda deste início de época. Se a linha da esquerda é mais forçada (javarda) e foi aberta pelos melhores exemplares de suínos locais (javardos rurais, vulgo javalis), a da direita só está ao alcance daqueles mais rijos, que provarem suportar as provações dos 7 vícios rurais. Por último, não podíamos deixar aqui de destacar o novo amigo, Sr. Manuel, que tem a seu cargo a importante tarefa de atempadamente reportar a meteorologia e condições locais e que tão bem nos tem recebido “no seu quintal”, sempre com o seu sorriso rasgado. Há quem diga que descobriu agora um novo uso para o seu cajado, apontar presas. Aqui fica então um pequeno registo a atestar o resultado do frenesim que se tem vivido nesta pequena zona.

Porklands. Mais certo, só no Caracol.

Pedro Rodrigues

 

 


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