O Caso Red Bolt e a Ética na Escalada

Agosto 9, 2010
Aviso: este artigo é  longo e contem elementos que podem ferir as susceptibilidades de leitores que encarem a escalda de forma leve.
foto: www.wikipedia.org

A  grande controvérsia do ano, junta uma jovem estrela da escalada , uma temível e poderosa corporação  e uma das montanhas mais extremas, difíceis e controversas do planeta.

David Lama.

Tem apenas  20 anos, mas o percurso é já o de um veterano na escalada. Começou por brilhar nas competições e parece agora dedicar-se ao terreno de aventura. E, para começar em grande, partiu em Novembro de 2009 para a Patagónia para tentar fazer em livre nada mais nada menos que a Via do Compressor no Cerro Torre. Três meses depois, regressaram  a casa sem completar a ascensão, corridos pelo famoso mau tempo patagónico, deixando para trás 700 metros de corda fixa e 60 novos bolt’s adicionados à via.

Cerro Torre.

É uma agulha que pela sua forma não apresenta nenhuma fraqueza, isto é, no seu estado original não apresenta nenhuma via de fácil acesso, por isso sempre foi considerado uma espécie de  símbolo/ideal estético do alpinismo de dificuldade.

Em 1959 os alpinistas italianos Cesare Maestri e Toni Egger abordam a montanha  pela Face Este, em direcção ao “colo da esperança”, local – pelo lado Sul -  onde já havia estado o grande Bonnatti, numa tentativa prévia no ano anterior, declarando então a escalada até ao cogumelo de gelo como impossível – convêm notar que Walter Bonatti é considerado sem grande contestação o melhor alpinista da sua geração e talvez um dos melhores de sempre e, seria na altura, um grande rival para Maestri – . Egger viria a morrer, tragicamente,  na descida levando com ele a única máquina fotográfica da equipa e,  Maestri encontrado, gelado  a deambular no glaciar, reclamou a primeira ascensão da montanha, via o esporão NE. Inconsistências no seu relato associado ao futurismo da ascensão em estilo alpino de uma parede desta magnitude em pleno “mau tempo patagónico”, levarão muitos a contesta-lo, e de tal forma, que Maestri voltou  à montanha 11 anos depois  no intuito de  ”calar” os seus críticos. Escalou então o esporão sudeste abrindo uma via directa, “spitada”  com mais de 400 protecções, usando para o efeito um compressor a gás de mais de 100 quilos – que deixaria depois  na montanha – , parando a 35 metros do cume, por forma a evitar o famoso cogumelo de gelo, proclamando que este não fazia parte da montanha. A polémica rapidamente estalou e, esta via ficaria para a posteridade como um ícone das vias “directíssimas” dando origem ao famoso ensaio de Reinhold Messner intitulado ” O Assassínio do Impossível“, onde este formula uma tese de total repúdio por estas  tácticas de traçar vias a fio de prumo e onde reafirma ” É tempo de pagarmos as nossas dívidas e procurar outra vez os limites do possível, porque temos de ter esses limites, se vamos usar a coragem como virtude para nos aproximarmos deles.”

Em 1974 uma equipa italiana de Lecco composta por Daniele Chiappa, Mario Conti, Casimiro Ferrari e Pino Negrseria escalaria  a face Oeste, que ficaria por repetir por muitos anos e em 2005 uma equipa liderada por Rolando Garibotti escalou o que seria a via original de 1959 encontrando somente traços da passagem de Maestri no primeiro terço da via, facto já referenciado na primeira ascensão de Jim Donini à torre Egger em 1976. A conclusão geral é que a primeira ascensão verdadeira do Cerro Torre foi em 1974 via a face Oeste, uma escalada em gelo de nível mundial, e que a ascensão de Maestri de 1959 é o maior logro da história do alpinismo, logro que viria a ser acentuado pela total aberração da via do compressor. Esta via viria a tornar-se, no entanto, a via mais popular na montanha permitindo múltiplas ascensões e levando Jim Donini a chama-la ironicamente ” a via ferrata mais dura do mundo”. Num mundo perfeito, o Cerro Torre seria provavelmente  a montanha mais difícil do planeta, uma distinção, que a juntar ao facto de ser uma das mais bonitas formaria  o ícone perfeito do alpinismo.

Novembro de 2009.

É este o terreno delicado que David Lama quer pisar, partindo para a montanha como um herdeiro eticamente esclarecido dos antigos mas imperfeitos heróis, como atestam as declarações feitas  numa entrevista antes de partir: ” Back in the days of old school mountaineering only conquering the peak was important – not so much how this goal was reached”. Acontece que Lama é patrocinado pela Red Bull e esta apostou forte na expedição, sendo montada uma expedição, quase autónoma, exclusivamente para filmar a ascensão apoiada em exclusivo por três  guias profissionais. Quando as equipas abandonaram o local, ao fim de três meses, deixaram para trás 700 metros de corda fixa e mais 60 novos spit’s na via, que o mau tempo e o perigo de avalanches impediram alegadamente de recuperar. Mais tarde a Red Bull contrataria guias locais para recuperar o material alegando que as fixações ficariam para uma posterior tentativa no próximo Verão austral.

A controvérsia.

Quando os factos vêm a lume rapidamente incendeiam a comunidade global da escalada, especialmente a de origem anglo-saxónica historicamente mais adversa às protecções fixas. Forçado a responder, Lama declara no seu site, no fim de Julho, que compreende a decisão dos guias, e nesse sentido a apoia, de instalar as protecções fixas como  forma de garantir a absoluta segurança da equipa de filmagem. E, reafirma a sua vontade de voltar à montanha para tentar a escalada em livre com uma equipa mais leve de produção, de forma a não serem necessários mais bolt’s , mesmo que isso signifique baixar a qualidade do projecto ou mesmo abandonar a sua produção.

Entretanto a própria Red Bull tornou-se um alvo em si na comunidade escaladora, ensaiando-se mesmo um ridículo boicote à bebida.

As implicações éticas.

No meio disto tudo foram atropeladas algumas das mais importante regras éticas da escalada.

O caso Maestri dessacraliza, de forma peremptória, a palavra do escalador como único testemunho necessário para confirmar uma ascensão, e foram necessários 50 anos para tal. Podendo permanecer como uma excepção à regra ou, simplesmente, acabar com a própria regra, que para muitos já não existe, ou não faz sentido, como vem afirmando Alex Huber tomando como paradigma  o caso Chilam Balam. Ou querendo outro exemplo do alpinismo: o caso Tomo Cesen no Lhotse.

Em minha opinião deverão permanecer como desvios à regra, talvez a mais importante de todas. Escalar sem necessidade de provar nada a ninguém afirma o carácter livre da própria escalada, que será a parte mais importante do património ético que herdamos dos nossos antecessores. Eu acredito na palavra do escalador, ou no sentido “x-files do termo”: Eu  quero acreditar.

Segunda regra não escrita: Tentar sempre melhorar o estilo da ascensão anterior, que leva à terceira regra: não adicionar protecções fixas a vias já existentes. Lama demarca-se desta polémica dizendo que a responsabilidade foi dos guias e da equipa de filmagem. Mas uma vez que se assume como um pro que tem de ser continuamente filmado e fotografado de forma a vender a sua imagem e a dos produtos que ostenta, não se pode demarcar das acções éticas da equipa de cobertura mediática, pois a sua acção tem impacto como um todo na montanha.

Existe a promessa que as protecções serão retiradas e os furos remendados, mesmo supondo que isso seja exequível, as cicatrizes ficarão para sempre e não serão só cicatrizes físicas.

Danos colaterais

A reacção desmesurada contra a Red Bull, mostra um certo atrito contra as grandes marcas ou corporações fora do contexto da montanha, como se a escalada fosse comida orgânica e as corporações fast food, o idealismo hippie colado ao munda da escalada e montanha tem destas coisas.

Muitos questionam-se se é aconselhável levar equipas pesadas de cobertura mediática para a montanha. Porque estamos perante uma cobertura mediática para o grande público, com meios pesados a sério e não uma equipa de dois ou três escaladores como é usual nas pequenas produtoras de vídeos de escalada. As grandes montanhas são ambientes extremos e sensíveis, levar equipas profissionais mas amadoras na escalada, pode dar muito mau resultado e já foi provado ser possível fazer trabalhos de qualidade com poucos meios inclusive no próprio Cerro Torre. 

Grandes marcas, meios audiovisuais pesados, grande público. Tudo isto são sinais de um crescimento inevitável e de certa forma incontrolável. Muitos desportos já passaram por aqui como o surf, por exemplo. Um meio maior e com mais dinheiro, não significa só mais escaladores pro’s, significa a afirmação de toda uma industria com ramificações imensas que pode tocar e beneficiar um numero muito alargado de pessoas  que escolham o munda da montanha ou escalada como forma e meio de vida.

No meio disto tudo, teme-se que a própria essência da escalada se perca. O que me parece exagerado. A essência da escalada mantêm-se compreendendo, aceitando e perpetuando as poucas regras éticas que a regem. Se isto acontecer, as grande marcas não serão um  bicho-papão e a expansão para um público mais alargado não será negativa em si.

O Cerro Torre já mereceria descanso, e ser apenas uma montanha extremamente difícil e feroz que só os mais audazes ou corajosos – no sentido de Messner- se atreveriam a enfrentar, mas isso seria ,como já disse, num mundo perfeito, neste mundo onde vivemos e temos de aceitar, remendar os danos colaterais da natureza humana é o que nos resta. Surgindo como única alternativa aprender com os erros, pois estes vão sempre existir e, como vimos, repetir-se. SM


Altitude Sickness

Agosto 8, 2010

ICLIMB é um novo site de digital climbing media e loja especializada em downloads de vídeos. Possui já uma extensa colecção de filmes de escalada para downloads e em associação com Chuck Fryberger criaram um pequeno filme que pode ser visto de forma grátis ou na máxima resolução por uma quantia simbólica.

O filme retrata a abertura de alguns problemas, na badalada nova zona alpina a que deram o nome Wolverine Land, no Colorado, EUA. Maioritariamente aparece Daniel Woods em duas FA’s de alto calibre e conta ainda com depoimentos e aparecimentos fugazes de Dave Graham, Jon Cardwell, Jon Gass,e Jimmy Webb. Como sempre Dave Graham é o mais eloquente nas declarações, repare-se por exemplo quando define DW “he is really motivated, he tries really hard and is really strong “ uma verdadeira afirmação do que se poderia chamar uma espécie de trindade do bloco, só sendo pena que não apareça a escalar, aqui nota-se uma selecção ou segregação, parecendo só haver espaço para uma estrela, dando um carácter estranho e de inverosimilhança ao conteúdo. O que seria uma sessão clássica de bloco de alto nível transforma-se numa ficção aos olhos do espectador.

O filme insere-se no bom pornclimb, não trazendo nada de novo ou diferente, mas vendo a sessão de bloco que dá origem ao Evil Backwards, estamos perante um bom exemplo da descoberta de um bloco e dos seus movimentos num trabalho em conjunto de vários escaladores, para  mim o melhor que a escalada de bloco tem para oferecer e,  sem querer, estava a desejar ardentemente que o tempo arrefecesse pelo menos 30 graus. SM


The Reel Rock Film Tour Fall 2010

Agosto 3, 2010

O Reel Rock film Tour é um evento organizado todos os anos por altura do Outono e consiste na projecção, muitas vezes em cinemas, do melhor da produção anual da Big UP Productions e da Sender Films. Já vai no quinto ano consecutivo e tem crescido de ano para ano. Inicialmente só com projecções nos Estados Unidos, em 2009 estiveram em 120 localizações diferentes abrangendo já mais países, este ano aparece já uma data na Europa, sendo provável que o número de localizações cresça à medida que o tempo passa. Quem sabe não aparecerá uma perto.

Não havendo nenhum filme “grande” em estreia, parecem apostar em segmentos curtos diversificados: Chris Sharma na “infame” First Round First Minute, Daniel Woods e Paul Robinson numa espécie de competição pelo V16 mais duro, o segundo episódio da série “Origins” que vai chamar-se “The Hulk” com Peter Croft e Lisa Rands, “Tasmanian Devils ” traz  escalada de aventura na Austrália, a nova e esotérica modalidade FreeBaseClimb com Dean Potter e finalmente “The Swiss Machine” sobre speedAlpinism.

Todos os anos existe ainda uma interessante competição para cineastas amadores, onde aparecem sempre verdadeiras pérolas. Desta vez  são 9 filmes a concurso quase todos na vertente comédia e podem ser vistos e votados aqui , as votações fecham a 10 de Setembro e o vencedor além dos prémios da praxe  verá o seu filme juntar-se ao pacote dos filmes a projectar na Tour.

Destaca-se o verdadeiramente hilariante “Top Rope Tough Guys”, dois minutos sempre a rir neste hino ao top rope, seguido de muito perto do magnifico “ROXXX”, o “Feel the Moment” apresenta efeitos simpáticos e um final muito bem filmado com uma iluminação nocturna muito bem conseguida. SM


A Peneda

Julho 21, 2010

Durante muito tempo ir à Peneda, era sinónimo de ir escalar na fraga da Meadinha. Foi esse o nome que aprendemos, foi esse o nome que ficou.

De longe a melhor parede portuguesa, de longe a parede menos portuguesa. Como é que isto aconteceu? Porque é que isto aconteceu?

Existem várias razões.

Primeiro. Geografia. Os difíceis acessos, sempre foi muito mais fácil aceder desde a Galiza ou seja  pelo Norte do que pelo Sul. Durante muito tempo os acessos pelo Mezio eram feitos por um estradão de 25 Km, e os transportes públicos eram inexistentes ou inexequíveis.

Segundo. História. Escala-se há 40 anos na Peneda, e é preciso compreender o contexto da escalada em Portugal nessas quatro décadas. Nos anos setenta a escalada em Portugal era uma coisa difusa e centrada em algumas individualidades localizadas maioritariamente em Lisboa, ler a entrevista de Paulo Alves aqui para se compreender o contexto. Em Vigo, pelo contrario, uma forte geração de escaladores/alpinistas, liderada pelo malogrado por Santi Surarez, formava-se e encontrava na Peneda um terreno de jogo ideal. Entre meados dos anos setenta e meados dos oitenta foi a época de ouro da abertura das vias mais evidentes e clássicas, passando-se do artificial gradualmente para a escalada livre. Quando em 87 os irmãos Pedro e Francisco Pacheco chegam à Peneda só encontram espaço para aberturas de corte clássico  no extremo direito da parede, abrindo nessa altura 3 vias, que ficaram por ali meias esquecidas e com fama de muito sujas para se tentar uma escalada livre. Entretanto as gerações de escaladores renovaram-se ou revezaram-se e continua-se a abrir e a preservar os itinerários mais populares, no inicio dos anos noventa pontifica por ali  José Carlos Iglesias, escalador de rara sensibilidade, muito forte em fissuras e que imprimiu à zona um espírito de escalada livre “clean” que se traduzia simplificadamente por ” fissuras limpas e placas equipadas” e faziam da Peneda ”o último reduto dos discípulos de Meyers”, (mais um reflexo da enorme influencia do livro de 1979 de Meyers ”Yosemite Climber” na escalada espanhola). Por esta altura os nossos caminhos cruzaram-se na Peneda, e claro nós também quisemos ser “discípulos de Meyers” e a Peneda seria o trampolim de aprendizagem para outros voos. Os “highlights” da escalada livre eram a via do S, o tecto da Via Meadinha ou a placa Potencia 5.5. Os anos que se seguiram foram de algum abandono e no inicio de 2000 surge de novo um surto de actividade encabeçado por Jesús Martínez Novas que viria a culminar em 2008 com o total reequipamento e limpeza de todas as vias, ano em que voltaria a ser aberta uma via por escaladores portugueses, a Edelweiss de Paulo Roxo e Daniela Teixeira. Hoje existem na Peneda mais de 50 vias, sendo apenas 4 de abertura “tuga”.

Terceiro. Natureza da escalada. Escalada de autoprotecção e placas técnicas em cristais com protecções não muito próximas, pelo menos nas vias originais, formam um cocktail não muito popular.

Quarto. Off-widths. São raras as vias completas em que não se tem de enfrentar uma destas bestas. Para o escalador não iniciado é de longe um das técnicas mais difíceis de dominar e “gostar”.

Explicadas sumariamente as razões de a Meadinha também ser conhecida por parede dos espanhóis. Em que ponto se encontra a Peneda nos dias de hoje? Em 2008 realizaram um encontro para comemorar o fim dos trabalhos de limpeza e reequipamento um trabalho incrível e massivo de vários anos. E, apresentaram também o novo site  com todos os croquis com um detalhe impressionante. Neste interessante sítio podemos ainda encontrar documentação histórica digitalizada com velhos croquis e artigos de revistas de varias épocas. Este ano aparece também um blog .

Mas, na apresentação faltava algo. O site é impressionante e repleto de informação, a parede está limpa e equipada, existem placas em baixo com os croquis das vias. A Peneda apresenta-se ao mundo de uma forma nunca vista. E, continua a faltar algo: A escalada livre. Mais concretamente a história da escalada livre. As vias foram-se forçando em livre com o passar dos anos, mas não sabemos por quem e em que circunstancias foram feitas. Temos assim dois planos ou dimensões, uma, a das aberturas sempre com algum artificial imperando um espírito de “sair por cima”, que está muito bem documentado nos croquis. Depois, temos a dimensão da escalada livre onde apenas aparecem alguns graus. A escalada em livre numa parede destas merece e sobretudo custa muito mais do que uma simples quantificação numérica. Sem querer fazer comparações que pecariam pelo absurdo, basta olhar para a dimensão do “El Captain vias artificiais” e a dimensão “El Captain vias em livre”. Uma análise detalhada dos croquis revela uns graus velados escudados por pontos de interrogação, 7c+? 8b? 8c?, depois uma olhada para os largos mais duros encadeados revela 7b+ como a via mais dura. Muitas questões se colocam, Está tudo por fazer? O grau será ajustado? Será pura especulação?

O que motivou esta, longa de mais, dissertação, mas a Peneda é mesmo assim provoca excessos por natureza, é o encontro que se vai realizar este fim-de-semana onde, imagine-se, uma das actividades propostas é a libertação de quatro lagos de algumas das vais mais emblemáticas. Um despertar para a escalada livre, ou a sequência lógica dos “trabalhos” iniciados no inicio da década.

Bom, o que interessa é que existem páginas em branco na história da escalada livre na Peneda. As mais belas páginas na mais bela das paredes para quem quiser e poder escreve-las. SM


Why Do We Climb?

Julho 16, 2010

 O fotografo francês  Alexandre Buisse tenta responder a esta clássica e pertinente pergunta, à qual segundo ele “algum dia todos teremos de responder”, da melhor forma que sabe, isto é, fazendo um slideshow com as suas melhores imagens. Maioritariamente são  imagens de montanha apresentadas com uma montagem muito rápida, pausando apenas quando as respostas/perguntas surgem e ficam a pairar numa espécie de limbo imponderável, precisamente o terreno onde depositamos as nossas motivações.

Porque escalamos? Pelo desafio? Pela beleza? Pela liberdade? Pela emoção? Pela vastidão (wilderness será mais lugar selvagem, pelo lado selvagem, seria mais correcto, talvez)? Pela fraternidade? Ou simplesmente…porque está lá?

O resultado é um pouco de tirar a respiração perante o esmagamento da beleza das imagens conjugado com o encadeamento rápido da apresentação. No turbilhão das perguntas poderemos encontrar quem sabe uma resposta ou pelo menos interiorizar um pouco a nossa actividade, quantas vezes afastada destes bons caminhos.

O lendário escalador americano Jim Donini hoje com 67 anos e ainda a apertar bem forte, deu uma vez num filme qualquer uma resposta que me deixou a pensar e que me parece incontornável. Questionado sobre porque escalava e principalmente porque continuava a faze-lo de forma intensa com a idade que tinha, responde: “ Escalo porque me relaxa”, “ Quando escalo não penso em mais nada e isso de certa forma relaxa-me”. Uma resposta aparentemente simples mas plena de maturidade e que até agora é uma das melhores que conheço. SM


Camp4 Collective

Julho 6, 2010

Os fotógrafos Tim Kemple, Renan Ozturk, e Jimmy Chin formam um colectivo/produtora  centrado na captura, edição e distribuição de vídeo chamado Camp4 Collective. O seu trabalho tem como objectivo produzir  webvídeos curtos  para a industria outdoor, para empresas que, nas suas  próprias palavras,”aspiram a comunicar a sua mensagem de forma autentica”.

São fotógrafos profissionais com trajectórias muito diversificadas, Tim Kemple é um forte escalador de bloco e vias originário do Nordeste dos Estados Unidos, Jimmy Chin é uma escalador, alpinista e esquiador, esquiou o Everest  por exemplo, é colaborador da National Geographic e discípulo de Galen Rowel, definindo-se a si próprio, em primeiro lugar, como um membro activo e sólido das expedições em que participa e só depois como fotografo. Renan Ozturk é um artista gráfico, um forte  escalador “trad” com inúmeras FA em bigwalls  e participações em expedições aos Himalayas. Um colectivo de peso em todos os aspectos.

Até agora o seu trabalho mais conhecido foi feito para a  The North Face  no Sul da Turquia mais concretamente na província da Antália, na qual produziram uma série de curtas às quais chamaram “Free Range Turkey dispatch’s”, oito ” despachos”mais propriamente, que acompanharam a viagem “exploratória” de uma espécie de Ateam da TNF a saber: Emily Harrington, Sam Elias, Daniel Woods, Yuji Hiriyama, Eneko Pou, James Person e o próprio Renan Ozturk.

Os vídeos mesmo tendo um carácter fortemente promocional quer de produtos como de pessoas, têm uma vantagem: a promoção não sendo encapotada é assumida à partida. Criando-se assim uma nova forma de transmitir uma imagem corporativa talvez mais leve mas nem por isso mais autentica.

Os fotógrafos, tirando amplo partido das novas SLR com capacidade para filmar em HD, produzem imagens fixas e filmam ao mesmo tempo. O resultado é muito bom quer em qualidade e composição  de imagem quer na edição.

Vendo os 8 “despachos” seguidos ficamos com a noção da viagem, das personagens – os “pro climbers” – e do próprio local como, por exemplo, potencial destino para uma viagem de escalada. E, só por isso já valem bem a pena.

Não deixam no entanto de ser bilhetes postais onde os clichés estão todos presentes: “A comida é extraordinária”, ” As pessoas são autenticas”, ” A paisagem é deslumbrante”, o escalador que nunca equipou e agora se vê deslumbrado pela descoberta dessa “arte” como atesta o “veterano de ocasião com mais de 200 vias equipadas”.

Mas, no meio dos postais à algo de diferente, o nº7  cinco minutos com e sobre Yuji Hirayama, o arqui-conhecido escalador Japonês, mil vezes filmado, em competição, em blocos, em vias desportivas, em vias de auto-protecção,  etc, etc, todos sabemos que é um escalador extraordinário e, que de facto desenvolveu um estilo que lhe permite quase “flutuar” nas vias. O que é diferente e resultou maravilhosamente é ouvir-se em off a voz do Yuji em japonês. Assim, em vês do “broken french” ou “english” com que geralmente presta os seus depoimentos e aparece, pelo menos nos media ocidentais, somos brindados com uma voz pausada, natural e profunda que realmente acentua o carácter de escalador “zen” que parece ter colado à sua imagem. Um “efeito” que se for acidental é muito feliz, sendo intencional resulta em cheio.

Os vídeos podem ser todos vistos no vimeo aqui. SM


OneMove

Junho 11, 2010

Quando no texto sobre Richard Cilley referi que ele fazia bloco em Espanha quando ninguém sonhava com tal, cometi uma imprecisão, existia uma excepção há regra: Celso Martínez, mais conhecido por “Finuco”. Finuco é unanimemente considerado o “pai do bloco espanhol”, começou a fazer bloco no famoso dique da Corunha, um paredão de mais de um quilometro de extensão e uma altura de 5 metros, que apresenta fissuras espaçadas e placas cheias de régletes, onde metodicamente foi adicionando centenas de problemas de bloco e desenvolvendo a sua conhecida força de dedos e uma técnica apuradíssima. Em 1985 viajou a Yosemite pela primeira vez, uma viagem iniciática que mudaria a sua vida. Conseguiu a sexta ascensão do Midnight Lightning, colocando o seu nome numa lista onde pontificavam nomes como Kauk, Bachar, Gulich ou Kurt Smith.

Apresenta agora um show multimédia onde passa em revista 25 anos de bloco, primeiro em Bilbao, hoje, e no dia 25 de Junho, na Corunha, na véspera do Campeonato de Espanha de Escalada. Boas razões para visitar a Corunha, às quais podemos juntar uma visita a Corme uma zona de bloco junto ao Atlântico com um granito fino com formações incríveis e onde é possível blocar no Verão.


Recordações da Época Passada – No Salto Tudo é Perfeito –

Junho 8, 2010

A temporada começa em força no Salto, o galego José António Villar à vista na Idade do Gelo (7a+). Foto: Oldemiro Lima

Escalar no Salto é uma aventura. Uma aventura que começa na estrada. Rapidamente baptizamos dois troços, como se de um rally se tratasse, entre a auto-estrada e a Sra. do Salto. Dez quilómetros de puro desassossego. O primeiro, entre a A4 e Recarei, ganhou o nome de Recarei Racers, porque a probabilidade de apanhar um carro tuning fora de mão em sentido contrário são para aí… dez em dez. Chegados a Recarei, respiramos fundo, por breves segundos, e preparamo-nos para enfrentar o troço: Mad Max Racers, onde entram em acção os motoqueiros aceleras sem capacete, executando desde configurações do estilo festival da GNR, isto é, ver quantas pessoas consegue levar uma mota em andamento, até malabarismos que só me lembro de ter visto no Poço da Morte.

O Poço da Morte. Como eu adorava aquilo, não havia S. João ou Sr. de Matosinhos em que não implorasse um bilhete. Primeiro era o fascínio das motas do mais puro estilo anos 70, depois o pré-espectáculo cá fora em que um mestre-de-cerimónias apresentava os intrépidos pilotos kamikaze, prestes a enfrentar uma morte certa. Convencidos, subíamos a íngreme escada e era preciso furar entre a multidão para se conseguir uma janela entre braços e ferros e assim ganhar a vista picada e vertiginosa sobre a arena. Aquilo começava e o barulho era ensurdecedor, primeiro, um carro ou kart ou sei lá o quê, depois as motas, com os pilotos a usarem lenços na cabeça em vez de capacete e sempre a acelerarem cada vez mais depressa, sem uma mão…sem duas… abriam o peito e esticavam os braços sempre com uma expressão impávida. Como é bom ser pequeno, desconhecer toda a Física, e as forças centrípetas e centrífugas servirem apenas para alimentar o vórtice da nossa imaginação. Acordo de repente. Esta não é estrada para se sonhar acordado. E, já chegamos ao Salto.

Descemos a pique para o terreiro, uma espécie de “tarrafal” poeirento onde conforme os dias podemos encontrar de tudo, literalmente de tudo. Motoqueiros de duas e quatro rodas em permanente e infernal sobe e desce da ladeira. Vendedores de banha da cobra. Piqueniques entre o caos de carros estacionados. Concentrações de smart´s. Equipas de vídeo casamenteiro a filmar pares de noivos, numa espécie de twilight zone nupcial. Insufláveis. Paredes artificiais de escalada. Campeões do rappel e do slide. E, por fim pescadores e banhistas num rio em que o oxigénio não abunda.

Do outro lado do rio, mesmo em frente ao “tarrafal”e na base da falésia trad fica uma bucólica e bonita quinta-casa- moinho. Mas, também, para os felizes moradores nesse jardim do éden terrestre a vida é uma aventura, pois são protagonistas da mais incrível história do Salto, o que não é pouco, e que dá nome a um sector: o Sonho Interrompido. A história prestes a passar à categoria de mito suburbano é mais ou menos assim: A noite decorria tranquila, embalada pelo doce correr das águas, quando, na estrada que passa em cima da falésia uns rufias da zona decidem atirar um carro pela ribanceira abaixo. Onde vai cair a viatura? Precisamente na divisão ao lado onde dormiam os donos e moradores de tão tranquila villa. Garantindo-lhes um despertar arrasador, alem do sonho interrompido.

Passamos este cenário de guerra, e esgueiramo-nos pela margem do rio, por um trilho secreto que nos leva ao nosso sector preferido: o Suaves Prestações, onde a base das vias forma uma espécie de ilha de tranquilidade. Ali a acção do tarrafal apenas nos chega como um som longínquo e incomodativo, um pouco como a televisão de uns vizinhos octogenários permanentemente sintonizada nas telenovelas e com o som nas alturas.  

E a escalada? Bom, a escalar, depois do que passamos, sentimo-nos tão radicais como os frequentadores de um shopping ao Domingo de tarde, ou tão aventureiros como quem tem de mudar de barbeiro. A única coisa que faz a adrenalina voltar a um estado latente é ter de voltar…SM


Vertigem

Junho 2, 2010

Já com uma semana de atraso, saúda-se a estreia online da Revista Vertigem, um trabalho enorme e um verdadeiro tour de force dos três directores: Frederico Silva, Nuno Pinheiro e Filipe Costa e Silva.

Confesso que não gosto da palavra vertigem em si, associo-a sempre à noção de escalada de um não iniciado, “Eh pá! Isso da escalagem deve dar vertigens, não?”, vertigem e escalada não casam, geralmente quem tem vertigens não escala e quem escala não tem vertigens. Por isso logo aqui começam as dificuldades de cimentar um nome como este. Dificuldade, ultrapassada logo a abrir, no editorial, onde FCS no primeiro tour de force dobra e expande a palavra girando à volta dela sem nunca cair na “vertigem” do facilitismo e do chavão. “O escalador é aquele que procura sempre a vertigem, para lhe resistir, para a vencer. Ele é o senhor da Vertigem”, duplo sentido de belo efeito para vertigem palavra e vertigem revista.

O Grafismo é sóbrio, assumindo somente alguns riscos no artigo de Albarracin. A entrevista ao Paulo Alves dá dimensão histórica e serve de suporte ao artigo do Espinhaço. Neste aspecto a revista assume à partida um papel fundamental ao dar profundidade temporal à escalada portuguesa. Sendo a entrevista algo insípida vale essencialmente para dar a conhecer o escalador e a sua actividade principalmente no contexto dos anos 70/80, sendo ainda de notar algumas fotos interessantes.

Depois a pérola: o artigo do Espinhaço. Do qual destaco esta frase “…também nós somos uma fortaleza sobre um penhasco, vigiando um oceano e esperando navios que virão ou não, ameaçados de ruína pelas tempestades dos anos…” num artigo informativo e fluido, temos informação histórica, perspectiva pessoal, reflexão sobre as virtude da escalada clássica, que mais se pode pedir? Sublinha-se ainda a excelente qualidade fotográfica deste artigo.

A importância de uma revista é uma evidência. A sua sobrevivência num país pequeno e com uma microscópica comunidade escaladora, é que está mais do que comprometida. Mas talvez me engane e surjam surpresas como este fim-de-semana na Maia por exemplo. No final um esforço destes nunca é inglório e este primeiro número é já parte da história, uma história que exige futuro. Acta Est Fabula, esperamos pelo próximo acto.SM


Maia 2010, o Rescaldo.

Junho 1, 2010

Um dos melhores escaladores em competição. Foto: Sérgio Duarte

Decorreu no último fim-de-semana aquilo a que se convencionou chamar segunda prova do Circuito de Boulder/ Fpme. Por ser um equipadores assisti à prova por dentro e por fora, e que extraordinária prova.

No Sábado tivemos os concorrentes séniores e juniores masculinos e femininos. Depois de um contest divertido e descontraído do qual saíram vencedores a Kimie Kon e o José Abreu, passamos às finais, primeiro as senhoras, onde a Kimie dominou devido a uma excelente actuação no bloco nº3, um tecto físico seguido de um diedro trickie mostrando estar à vontade nas duas situações. Depois, os juniores masculinos, nos mesmos problemas, mostraram muito power mas pouca técnica numa luta renhida, e passamos à final masculina.

Os concorrentes entram pela porta dos gladiadores e rapidamente se deparam com quatro feras difíceis de dominar. O resultado era mais do que incerto nessa altura. Começam a sair para o problema nº1, um tecto em aresta seguido de um diedro e um passo esticado para acabar. Os quatro primeiros não conseguem bonificar, colocando-lhes grandes dificuldades o movimento intermédio para chegar à presa de bonificação. Então, sai André Neres, começa bem, mas hesita no primeiro movimento do tecto, fica parado durante uns segundos, em presas realmente más, reformula a sequência liga o turbo e só pára no tope, está encadeado o primeiro bloco. A seguir entra José Abreu, escalador cem por cento CEM, cruza o tecto com grande à-vontade, hesita no diedro, calca um pé com convicção, e segue sem problemas para o tope. A partir deste momento a competição será jogada entre estes dois.

Problema número dois. Uma prancha a 45º, técnica e física exigindo power de dedos também. Um movimento de uma lateral para uma réglete em compressão, exige colocar uma ponteira extrema para conseguir blocar para um sistema de régletes, que levam a um passo de ombro que blocado a fundo permite atingir o final do problema. O primeiro passo “mata” os primeiros concorrentes, até que chega André Neres e “flacha” o problema numa escalada incrível de solidez. Um grande momento. Sai o Zé, começa sem problemas e cai a tentar agarrar uma mini pinça que parece uma formiga nas suas mãos gigantes. Concentra-se, cerra os dentes e na segunda tentativa saca o problema.

Problema número três. Um tecto poderoso seguido de uma saída com blocagem completa numa réglete ínfima para as presas do tope. Uma sequência intricada debaixo do tecto parece deter todos os concorrentes inclusive o André que esgota quase o seu tempo a tentar resolver o problema. Inconformado, dá mais um pegue, a corneta soa parecendo anunciar o seu falhanço, mas sacando forças sabe-se lá de onde resolve a sequência e voa na horizontal para a presa de bonificação, chega à réglete, bloca uma vez e nada, vem abaixo, tenta outra vez e cai esgotado. A seguir entra o Zé que ficaria na dura sequência do tecto, nessa altura a competição parece estar nas mãos do André.

Problema número quatro. Uma travessia mista de técnica e de força à base de áplates permite atingir uma meia bola de onde era preciso voar na diagonal para a presa final. A sequência de áplates dá a estocada final nos primeiros concorrentes até que chega a vez do André, numa escalada sólida, mas com os dentes bem cerrados para conter os movimentos, chega à bola, ali não hesita e dispara num voo extraordinário, agarra a presa e as pernas “swingam” violentamente para a direita quase tocando no tecto, a mão escapa e mergulha de cabeça a mais de quatro metros de altura, gelando a sala. Nota-se imediatamente que a situação é grave, activam-se os primeiros socorros e em cinco minutos o escalador é imobilizado por uma equipa de bombeiros e levado da competição numa saída dramática debaixo de uma salva de palmas. Mais tarde soube-se que os exames não revelaram nada de grave e esperamos que não passe de um grande susto e uma dor de pescoço durante uns dias. O show não para e a competição avança para o seu zénite, com o próximo concorrente. O Zé Abreu cruza o problema até à bola, olha para a presa final. Lança. Agarra. “Swinga”, chega a tocar na presa com a mão mas cai de seguida. Instala-se alguma confusão. Fez tope? Não fez? O director da competição o Filipe Cardinal, manda continuar. O escalador da casa não parece cansado e no segundo “pegue” executa o problema ganhando a competição.

No Domingo entraram em acção os escaladores sub16. Confesso que nunca os tinha visto em actuação, diziam-me: “Os putos são fortes!”, “Olha que são máquinas”. Mas não estava preparado para o que veria. Ver miúdos de nove ou dez anos a escalar de modo natural, com intuição, técnica e garra é uma coisa extraordinária e que pensava não existir em Portugal. Estão de parabéns os “prof’s” e os pais que os aturam, ensinam e trazem para as competições. Richard Cilley disse-me uma vez numa das suas sentenças pseudo-proféticas, nasalando as vogais num típico sotaque americano: “Climbing is dying”. Na altura a frase fez-me impressão, quem sabe não terá razão? Ou será a escalada como ele a concebe que está a morrer? Mas ao ver este miúdos percebe-se que a escalada é um jogo natural, que se calhar todos praticamos e esquecemos quando chegamos a adultos. Falta apenas que dêem o salto do plástico para a rocha e se transformem em máquinas destruidoras de vias e problemas, abrindo novos caminhos para que a escalada não morra.

A organização esteve excelente. E, passada a caravana, fica um muro muito bom para treinar, que era uma coisa que fazia muita falta, por estas bandas. SM