Quarta-Feira Foto – Novo Ano, Novo Projecto

Janeiro 10, 2020
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Na véspera de Ano Novo, Júlio Braga (JB) ensaia os passos do seu novo projecto em Corno do Bico. Ao contrário do vaticinado, a reforma ainda está longe de chegar. No novo sector a ser desenvolvido, surgiu mais uma linha dura e explosiva, que terá de ser decifrada. Na foto, JB (em apneia) tira as medidas a um dos passos de saída, sob olhar fotográfico de João Sabugueiro.


Quarta-Feira Fotos – Labirinto

Janeiro 1, 2020
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Luísa e Francisco Rodrigues observam atentamente José Abreu, a ensaiar um pegue sentado no Labirinto (Corno do Bico). Mais uma das pérolas buriladas por Júlio Braga. Uma verdadeira lição de técnica, força e foco nos ínfimos detalhes, dada pelos “tios” Zé e Julião.


NB Series #3_A última fronteira

Outubro 21, 2019

A via Le loup des steppes, localizada no Parque Natural de Montesinho (PNM), não será uma vias mais conhecidas de Portugal. Provavelmente, a maioria dos escaladores portugueses nunca terá sequer ouvido falar dela. No entanto, esta é a primeira proposta de 8a em Portugal, realizada numa altura em que a escalada desportiva nacional começava a dar os primeiros passos. Durante anos, esta via ficou no esquecimento. Uma via curta, num lugar remoto, mas que representa na perfeição o que era a escalada desportiva na Europa, no final dos anos 80.

Vamos então à História da via. Le loup des steppes foi encadeada em 1988 por Robert Cortijo, um forte escalador francês que fazia parte dos nomes mais sonantes da escalada mundial da época, numa altura em que era moda escalar com calças de licra justas fluorescentes, tipo ”maço de tabaco”,  e usar pés de gato do estilo “bota da tropa”. À data, a cotação máxima proposta, à escala mundial, era 8c. Robert Cortijo,  conjuntamente com Fernando Ferreira, um transmontano radicado em França, também ele escalador e um excelente fotógrafo de montanha, decidiram explorar as potencialidades para a escalada do PNM, numa viagem que realizaram por Espanha.

Quem já ouviu falar da via recorda-se sobretudo que esta tem presas talhadas. Convém, porém, colocar este aspecto no contexto da época. Nesta altura, quase  todas as vias duras das época eram vias curtas e explosivas, o que hoje apelidamos de vias “à bloco”.  No sul de França, na época o epicentro da escalada mundial, foram criadas escolas de escalada com tecnovias, onde as presas talhadas proliferavam sem  se colocarem quaisquer questões éticas. Esta foi uma tendência que se alastrou a outros países e que permitiu criar uma pirâmide de vias de dificuldade com diferentes estilos. Portugal escapou, de uma forma geral, à regra duma tendência que se inverteu até à repulsa das presas talhadas. Ganhámos na beleza das vias, pagámos com o atraso na evolução da dificuldade.

Passemos agora à história da repetição. Para um via com “História”, a sua localização em Portugal não poderia ser mais remota, pois encontra-se no  extremo nordeste do país (por curiosidade localiza-se a 500m da fronteira com Espanha e se estivesse do lado de Sanábria, seria apenas mais uma via sem grande coisa para contar). Num raio de uma centena de km em torno dela, não existe mais nada aberto para se escalar. Como tal,  encontrar alguém motivado para a provar é uma tarefa complexa. Ainda tentei desencaminhar amigos, mas sempre sem sucesso. Assim, o melhor que consegui foi, uma vez emigrado, utilizar as viagens de carro entre França e Portugal, fazendo um desvio para parar, espairecer e esticar as pernas e os braços (contando sempre com a enorme paciência da Romana).

Primeira tentativa, Verão de 2011, a única pessoa que eu conhecia que tinha estado na via era o Sérgio Martins, que lá tinha passado numa das suas idas ao Naranjo, 15 anos antes. A melhor indicação que consegui foi a de um caminho de terra batida, antes da aldeia de Montesinho e de um bloco de granito evidente. O único problema é que o caminho de 10km, que liga à aldeia de Montesinho à zona de estacionamento, tem dezenas de blocos “evidentes”, e como resultado:  um dia inteiro a vasculhar todos os blocos visíveis, sem sucesso. No dia seguinte, chegámos ao final do caminho, resignado a não encontrar a via, dirigi-me ao último bloco evidente, em forma de pinguim, a 10 minutos do estacionamento. Ao dar a volta ao bloco de granito consegui identificar um “longlife” envolto em musgo, quase impercetível. O tempo que restava foi para escovar a grossa camada de musgo e provar os movimentos: um início com duas presas pequenas, dinâmico até uma presa média, seguido de uma travessia com presas dolorosas até uma “barbatana” que permite restabelecer o fôlego. Daí segue-se um movimento aleatório para o “tridedo” talhado, para finalizar com um movimento largo para uma presa inexistente e subir em equilíbrio para o topo do bloco.

Segunda tentativa, Verão de 2012, sem o périplo para encontrar e escovar a linha, pensei que seria possível encadear a via no próprio dia, mas estava enganado. O primeiro movimento decepou-me a ponta dos dedos e na única vez que encaixei o passo, acabei por cair no movimento de cima.

Terceira tentativa, Verão de 2019, tínhamos dois dias para acabar com este assunto pendente. Os primeiros movimentos não defraudaram as expectativas, pois continuavam tão agressivos para a pele como me recordava. No primeiro dia, caí outra vez no movimento de cima, no segundo dia decidi perder tempo a estudar exclusivamente esse movimento aleatório, até encontrar as presas de pés correctas. Finalmente, no último ensaio do dia, consegui chegar ao topo do pinguim. Não foi a via mais dura, nem a mais espetacular que encadeei, mas foi o fim de um Mito. Fica a faltar o fechar de ciclo, que será abrir a variante pela esquerda e evitar o talhado. Quem sabe… numa próxima viagem?…

JA

 


Quarta-Feira Fotos. Mítico Karma.

Março 20, 2019
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José Abreu a fazer bons progressos no Karma, Franchard Cuisinière, Fontainebleau. Um bloco com vários sósias por terras lusas.


Quarta-Feira Fotos. Zé Bleausard.

Março 14, 2019
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José Abreu aplica-se no Miséricorde, Franchard Cuisinière, Fontainebleau. Cada vez mais um connaisseur da floresta.

 


The Bombe: a máquina de Turing

Fevereiro 7, 2019

Júlio Braga em Enigma, a máquina, num dos seus últimos pegues, sob vigilância atenta.

Feito!  Enigma, a máquina está “decifrado”.

Àqueles que não escalam, das duas, uma: se se interessarem pela WWII, sabem que este é um feito que tem décadas e que conduziu ao Dia D, nada de novo portanto; se não se interessarem por criptanálise, isto nada lhes dirá (o que serve, à partida, para desdramatizar o texto romanceado que se segue).

Àqueles que acompanham o panorama da escalada nacional, mas são puros escaladores de falésia, algo lhes soará. Mas julgo que apenas aqueles que compreendem a essência do Bloco, poderão verdadeiramente apreciar o que o Júlio conseguiu, há umas semanas atrás. Não pelos números envolvidos (nem sei quais serão – nem me interessa – pois acho que, nestes anos todos, se perdeu a noção do grau), mas por tudo o que este processo representou para ele e, por arrasto, para todos os que o acompanharam de perto. De facto, o problema é muito duro, mas esta é “apenas” uma inerência do processo.

Vale mesmo a pena recordar o que SM escreveu em 2009, aquando do início deste longo périplo. Em jeito de fio-condutor, recupero agora alguns excertos:

(..) Prisioneiro de uma busca incessante. Muitas vezes é essa busca que o define, outras, é o objecto da própria busca. Então, em raras ocasiões, aparece uma via que funciona como o espelho perfeito do escalador.  

Este bloco, o Enigma, acaba por ser esse Bloco para o Júlio Braga: complexo, extremamente poderoso e exposto. Exigindo, desde o início, uma determinação e resiliência fora do comum: descobrir os movimentos, experimentar, falhar, treinar especificamente, tudo isto ao longo de meses. (…)

Quando SM escreveu isto, estava longe de imaginar que os meses, se tornariam anos. E que os anos se tornariam num monstruoso teste a todas estas qualidades, com particular ênfase na determinação e resiliência. Essas terão sido as chaves para o sucesso, a capacidade de ser derrotado sistematicamente e voltar a tentar com vontade redobrada. A capacidade de buscar sistematicamente a melhor conjugação possível de factores físicos, psicológicos, meteorológicos, entre outros mais.

Um bloco que ganhou uma aura própria. Seria este o problema que vergaria o Júlio? Esta era a questão que a todos se colocava. Tantas vezes falhado, que a razão nos dizia que sim. Mas ao mesmo tempo, tantas vezes tão próximo, que nos fazia intuir que não. Quem conhece a personalidade sui generis e a obstinação da pessoa em causa, não podia deixar de contrariar a razão e, a cada fim-de-semana propício que surgia, esperançosamente acreditar que era dessa vez.  O Júlio vai ao Enigma para encadear este fim-de-semana. Já corre no bloco. Deve sair no Domingo. Frases que se ouviram, vezes sem conta. Tentativas goradas e vaticínios errados. Alguns já não acreditavam. Outros sabiam que, cada vez mais, era uma questão de pormenor.

Importa enquadrar então o que é o Enigma, a máquina, recorrendo mais uma vez à excelente descrição do SM, para a parte inicial do bloco:

(…) Um muro de 30º. Um arranque sentado a duas mãos numa réglete diagonal, leva a outra réglete que se apanha com a ponta dos dedos em extensão e aí, devido ao posicionamento das presas, o corpo começa a torcer. É necessário dominar essa torção ao mesmo tempo que a mão passa de extensão para arqueio. Este é o famoso movimento. (…)

O arranque… o famigerado arranque. O passo que por si só é um quase um problema, bem duro. O passo em que o vimos tantas vezes cair. O passo que o Júlio ousou dominar, para ser literalmente cuspido da linha, por uma presa partida, em jeito de “escusas de cá vir, que isto não é para ti”. O passo que muito provavelmente levou o Júlio a suspender, por uns anos, a escalada, para amenizar as dores que sentia nos dedos. Algo que nos levou a todos a pensar que tinha chegado ao fim da escalada para ele. Era o lógico. Acima dos 40, já tinha atingido um nível elevado, o Enigma estava a tornar-se um problema obsessivo, que o levava a subir todas as semanas (muitas vezes sozinho), a seguir um plano de treino específico e duro, a não disfrutar de outras linhas, nem a sair para outros locais. Que diabo, era o lógico. O Júlio deixou de escalar, dizia-se. Provavelmente o “reactor nuclear”, que se diz ter dentro de si, ter-se-ia extinguido. E bem ao seu jeito, desapareceu por entre a neblina de Corno de Bico, criando um mito sebastiânico. Para muitos era um afastamento definitivo, ainda para mais quando se soube que começara a dar cartas nas competições de Moto 4. Sentença passada. Com muita pena para todos, certamente já não regressaria. Dizia-se que o Bloco por estas bandas já não seria tão divertido, pois era ele quem elevava a fasquia e, de certa forma, nos fazia querer ser mais fortes. E na verdade, durante uns tempos não foi tão divertido. O Último dos Motoqueiros será, provavelmente, a linha que melhor alude a esse tempo de ressaca mental.

Facto é que, messianicamente, voltou… e segundo as más línguas, estava mais forte e motivado que nunca… para terminar o seu projecto. Outros (Planeta Zork e Furacão) ainda se meteram pelo meio, mas apesar de serem verdadeiramente ameaçadores, não tinham a escala e a aura do verdadeiro Enigma.

Mas voltando à descrição,

(…) Este é o famoso movimento. Mas ainda faltam mais 12 pelo menos. A mão esquerda passa para uma inexistência, para equilibrar e toca a blocar mais uma lâminas até umas boas régletes que marcam o meio do bloco e servem de drop off para a primeira versão em V13. O resto é um bloco por si só e está em trabalho ou decifração, ainda. Alto e exposto, apresenta um final digno do começo, isto é, não dá tréguas até ao puxador final. (…) ,

escreveu ainda SM, acerca da primeira metade do Bloco.

Depois deste passeio por lâminas afiadas (em que os movimentos dos pés deveriam ser contabilizados como passos, pela precisão e técnica que implicam) e de um passo de prova ao mais íntimo do nosso Core, temos a famosa saída. Um lançamento para uma lateral aparentemente boa, mas que o acumular dos movimentos anteriores e a periclitância da posição sobre minúsculas presas de mãos e pés, o tornam num passo aleatório e lancinante para os dedos. Este passo teve de ser seriamente trabalhado, fosse com ajuda para colocação nos passos, fosse vindo de baixo, fosse testando subidas de calcanhares, rotações ou trocas de pés. Não havia volta a dar. Era ligar o “reactor nuclear” e explodir literalmente. Bom, mas mesmo em modo de ensaio, a ida para cima já se torna exposta. E a partir de aqui já não dá para trabalhar o bloco em Modo Ermita. Há que ter pessoal a apoiar. E foi numa dessas sessões de apoio, que os passos da saída foram aparentemente decifrados. Juntou-se muita gente e crashpads, e cedo se percebeu que a saída era mais dura do que aparentava. A solução temporariamente encontrada foi sair pela beirada adjacente, o que chegou a ser ensaiado. Mas também aí os amigos têm um papel importante de nos elevar a fasquia. Lembro-me da frase do Magno na base do Bloco: F*#d@-se!!!… tanto tempo a dares nisto, para depois quereres sair pelo entulho?!? Gargalhada geral, mas o tónico necessário para constatar o óbvio: este problema merecia ser encadeado da forma certa.

Ou seja, o tal puxador final que o SM falava no texto inicial, estava longe de o ser. Haveria ainda mais uma sequência de 3 passos rijos, onde um pequeno azar, como um cristal partir, poderia comprometer um encadeamento quase certo. E esses passos ainda implicaram puxar dos galões: uma apneia, um julianço (jargão para um passo característico, onde se traciona uma réglete ao máximo, levando a um bloqueio total do cotovelo, com a mão ao nível ou abaixo do ombro) e um pé alto num cristal. Depois daí é uma saída em placa tombada… que segundo o Miro é o berço da técnica.

Decifrado o método, restava ganhar forma física e juntar tudo, num dia perfeito. Mas esta era a verdadeira batalha a travar. O teste à incrível capacidade de determinação e resiliência do Júlio é o que confere a verdadeira dificuldade ao Bloco. Não duvido que alguém no futuro lá vá e encadeie a linha com maior facilidade (bom, honestamente duvido um pouco…). Mas não é isso que aqui se celebra. É o concluir de um processo, o fechar de um capítulo que não se sabia se seria possível de fechar e, no fundo, um ciclo que termina com a motivação de dedicar a vitória pessoal a alguém especial (como já todos suspeitávamos, nestes tempos recentes, apesar de só ter sido tornado público depois do encadeamento).

Deixo-vos aqui uma breve ilustração visual deste intrincado relato textual. A maioria destes momentos foram registados com gravações de baixa qualidade, em diversos dispositivos, alguns actualmente obsoletos. A maioria das imagens estão tremidas, desfocadas ou estouradas, pois estas sessões ocorriam em “espaço sagrado”, onde se privilegiava verdadeiramente o ambiente de concentração, em detrimento do circo mediático.

No fundo, esta questão da baixa qualidade do vídeo é uma analogia para um velho cliché, que ilustra que não há processos perfeitos e que mesmo num período menos propício (como aparentemente era o caso do dia do encadeamento), o sucesso pode bater-nos à porta. Basta que nos ponhamos a jeito, tentando com empenho e acreditando sempre.

PR


Linha ténue

Janeiro 3, 2018
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Primeiro pôr-do-sol de 2018, na Praia do Beliche, Sagres.

Há um ano a realidade brutalizou-me com a constatação da fragilidade da vida. Contemplar as pequenas pérolas do quotidiano tornou-se num exercício de meditação, dantes menos valorizado. Tudo pelo legado deixado de apreciação da fina flor da vida.

PR