Dai e a História dos Dois Mundos

Junho 13, 2012
[vimeo https://vimeo.com/43727285 w=700&h=393]

Se Dai Koyamada fosse um objecto seria o nosso escalador fetiche. Haviam de fazer dele um bonequinho coleccionável, tipo star-wars, para colocarmos em cenários imaginários de bloco nas posições mais bizarras e mesmo assim seria impossível imitar o original. Só que Dai é tudo menos um boneco, como prova o seu comportamento ético irrepreensível de fazer corar muitos incautos.

O que para muitos seria um mero detalhe, começar um bloco uma presa mais à frente, e uma cruz, soft convenhamos, certeira na caderneta online, para ele transformou-se num épico, obrigando-se a dar meia volta ao mundo, repetir o bloco e melhora-lo, no sentido em que fez mais do que o que estava feito. Melhorar o que existe e está feito é o caminho da ética. Os escaladores são naturalmente livres de escalarem como entenderem um problema estabelecido, agora não podem reclamar uma ascensão e muitos mais publicamente, seja com um vídeo ou anotação online, se não cumprirem os preceitos éticos mínimos. Por isso esta história é exemplar, e exemplar é o escalador que associa o mais alto nível com uma ética equiparada.

Esta ascensão provocou algum sururu virtual, pelo grau fim de tabela V16, pela bizarra entrada, etc. Não vale a pena escrever muito sobre essas discussões, mas quem quiser ver o pior da net, pode ver aqui, quem quiser aprender algo, e todos precisamos sempre de aprender, pode ver aqui.

O ambiente intimista da entrada, a alternância cromática, a serenidade faz com que se destaque da corrente normal de vídeos de bloco e pareça um óvni no ambiente mediático, um óvni pesado claro está, devido ao grau e ao bloco que é.

O que este vídeo em particular explora, e bem, é o inferno particular que significa o trabalho necessário para a realização de um bloco no limite das capacidades. Como Jonas e a Baleia, Dai é engolido pelo bloco em si e este mantém-no prisioneiro, não três dias mas dois anos, o aprisionamento e descida aos infernos do “trabalho”, as dúvidas, a ansiedade, os altos e baixos, só obtêm apaziguamento com o encadeamento, ou novo nascimento. Livre da obsessão o vazio instala-se para ser prontamente preenchido por novos projectos. Não será por acaso que outra grande linha deste escalador chama-se Wheel of Life. SM

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O que faria o Dai?

Janeiro 10, 2012

Não faz parte dos propósitos deste sítio ser eco de notícias de relevo internacional. Koyamada escalar um V15 também já não é grande novidade, nem causa grande frisson na metralhadora numérica das notícias de escalada.

A desculpa desta notícia é olhar para o vídeo do bloco um vídeo já com alguns meses que mostra precisamente o encadeamento em pé de Agartha, V14, e no fim revela os primeiros movimentos daquilo que é o objecto da notícia actual: o encadeamento integral do bloco ou seja o Shanbara V15.

No artigo Dai, o Táctico tínhamos focado a atenção no aspecto cerebral da sua escalada, e o que se podia aprender com isso. Vendo este vídeo é impossível não reparar na perfeição técnica dos movimentos para além da força, obviamente também presente. Mas outros aspectos saltam à vista: a determinação e a insistência no trabalho de um movimento de aspecto impossível, o crux do bloco, e por fim a resiliência do escalador quando realiza o problema uma hora depois de ter batido, e bem, com os costados no chão ao cair na parte final.

Pode-se, e deve-se, aprender a ver Koyamada a escalar, a fina expressão de movimentos perfeitos sobre o mais exigente dos terrenos, o granito, torna-se quase magnético. Dez minutos de escalada muito pura.

Ainda outro dia experimentávamos um bloco de presas especialmente pequenas e cristaleiras ao sol, com resultados evidentemente pouco satisfatórios, até que surgiu a cínica sentença “O Dai certamente não estaria aqui a esta hora a experimentar isto”.

O que faria o Dai? Como escalaria o Dai? Escalaria a 110%, seria mais preciso, mais dinâmico, mais  combativo e certamente esperaria pelas melhores condições possíveis.

Isto pode, e deve, ser a personificação de um ideal, pois obviamente o Dai também terá os seus dias horríveis como humano que é. No entanto se dermos mais 1% para além do nosso limite se formos mais resilientes e mais concentrados obviamente iremos  melhorar aquilo que estamos a tentar e com isso já terá valido a pena ter feito a pergunta: O que faria o Dai?