Recordações da Época Passada. Yosemite – À Sombra de Gigantes –

Abril 29, 2010

  

Camp Four, Yosemite. Se este é um dos centros do mundo da escalada, o centro do próprio campo é centro do mundo do Bloco, pois é lá que está o boulder mais famoso do mundo: o Midnight Lightning, situado no Columbia Boulder.

As manhãs são lentas, a maior parte do campo está à sombra até tarde e à sombra em Yosemite faz frio, um frio de rachar a partir de Outubro. Acendem-se algumas fogueiras das cinzas da véspera e o café começa a ferver nas cafeteiras.

Do meu campsite vejo um tipo seco, alto e de cabelos compridos já bem grisalhos. Umas calças rotas e uma t-shirt sem mangas associadas a um olhar fixo na acção em volta do Midnight Lightning indicam tratar-se de um escalador, como de resto seria de esperar aqui. Aproximo-me um pouco do bloco e a personagem volta a chamar-me a atenção, um bigode tipo Frank Zappa, e uma cara enrugada como um pergaminho onde brilham uns olhos metálicos. Merda! É o Jim Bridwel! Exclamo para mim mesmo, enquanto uma súbita e estúpida emoção apodera-se de mim. O meu primeiro impulso é ir cumprimentar o homem como um fã que vai pedir um autografo ao seu ídolo. Ridículo. Resisto a este impulso, mas fico estático como se tivesse sido atingido por um raio.

As estrelas da escalada, não me causam grande impressão. Mas o Jim Bridwel é o Jim Bridwel. Não é o que escalou ou deixou de escalar, é a personalidade, as aventuras, uma espécie de modelo da escalada beatnik e politicamente incorrecta ou mesmo insurrecta. A personificação da liberdade da escalada. E, uma espécie de personificação deste lugar, não uma personificação new age em que se transformou o Ron Kauk por exemplo, mas uma espécie de símbolo vivo.

O bloco tem ainda uma particularidade, um “lightning bolt” desenhado com magnésio que aparece misteriosamente todos os dias desenhado de fresco. O efémero magnésio tal como a escalada de circunstância e perseguidora de graus necessitam de uma renovação constante para se perpetuarem no tempo. Já a presença de Jim Bridwell envelhecido é uma imagem viva do espírito da escalada onde cada ruga esconde uma história, numa face que se confunde com a própria história da escalada.

Existe um cartaz, que infelizmente não tenho, em que ele aparece em primeiro plano a acender um cigarro, sempre Camel, e em pano de fundo uma montanha, uma das suas últimas ascensões talvez. Esta imagem, de uma provocação extrema, traduz na perfeição o estilo indomável que sempre o caracterizou, principalmente numa América que parece voltar ao puritanismo original e onde fumar se confunde com o pecado capital da religião/culto da eterna juventude. A imagem parece dizer: o alpinismo é viciante e prejudicial para a saúde, o que não deixa de ser verdade.

Alguém disse que um escalador é um semideus quando as suas vias não são repetidas durante dez anos e um deus quando passam mais de 20 anos sem repetição. O Jim Bridwell encaixa provavelmente na segunda parte e para isso muito contribui vias como a The Dance of the Woo-Li Masters na face Este do Moose’s Tooth no Alasca escalada no fim do Inverno de 1981, em estilo alpino e em apenas 3 dias, que, claro está, nunca foi repetida.

Deuses, semideuses, monstros e lendas vivas. Tal como todas as actividades humanas a escalada tem o seu próprio panteão e os seus heróis, uns por direito próprio outros atirados para lá por mecanismos mediáticos. São referências que cada um escolhe e cola na sua caderneta de cromos pessoal, e que acabam por constituir uma teia de mitologias pessoais que nos servem de marcos para superar ou simplesmente percebermos a nossa terrena condição.

Estas lendas deviam viver para sempre num lugar ficcional ideal, uma espécie de terreno onírico onde a nossa imaginação as projecta. Mas, a realidade é como uma locomotiva furiosa para a qual o terreno dos sonhos é mera paisagem. E, a realidade económica em 2010 é das piores de sempre. Jim, agora com 64 anos, parece agonizar em dívidas, talvez vitima da aguda crise que se abate sobre os EUA e o Mundo. Acabou de ocorrer uma espécie de festa de beneficência em Joshua Tree a que chamaram Bridwellfest com o objectivo de angariar 10.000 USD para ajudar a família a fazer face às suas obrigações. Os amigos constituíram um fundo para donativos e organizaram uma espécie de leilão com todo o seu material autografado, uns pés de gato usados  com assinatura personalizada são vendidos a 50 USD por exemplo…. 

A decadência, é terreno fértil para sábios de ocasião tecerem das suas confortáveis poltronas comentários acerca de possíveis “planos de poupança e reforma”. Mas ppr’s e jim Bridwel de certeza que são palavras incompatíveis. Ele vive ou viveu o momento fazendo acontecer coisas impossíveis e tão improváveis como um relâmpago atingir um bloco precisamente à meia-noite.

O relâmpago nunca chegou a atingir o bloco, mas o improvável aconteceu, e acontece, muito por culpa dos deuses da escalada. SM


Recordações da Época Passada – Um Dia em Hueco –

Março 12, 2010

Baú!Aú!Grrrrrr! O rafeiro sai disparado atrás da bola de golfe, que trás diligentemente, passado pouco tempo. Taq! Sai outra bola, e o jogo começa de novo.

Hueco Tanks, Texas, EUA. O green é uma plataforma feita de restos de madeira e um bocado de relva artificial, o resto é providenciado pela imaginação. Fora isto, nada se passa e o Rock Ranch está tranquilo em mais uma gloriosa manhã texana. Os ovos já estão na frigideira prontos a mexer. O pequeno almoço de lei são huevos rancheros e black coffee. Já se vêem os clientes habituais na slack line e o resto é deserto. Literalmente.

Harrrrrghh! Mudança de cenário. Entrada do Parque. Estamos na fila por uma vaga na Northmountain – um dos sectores de Hueco e o único de livre acesso e esperamos há um par de horas. Podemos ver já os primeiros blocos, mas não podemos tocar-lhes. Jogamos à bola, conversamos, mas a impaciência vai tomando conta de nós e os mais irascíveis começam já a saltar e a soltar urros de fúria, especialmente os nossos amigos espanhóis, que como locomotivas a vapor vão acumulando pressão e estão prestes a estourar e a escalar qualquer coisa que apareça pela frente. “Foooooderrrrrrr!” 

Zingh! “ we are leaving now S.A.D.” zongh! “Ok, roger! Out”. O nosso guia acaba de comunicar via rádio a posição do nosso grupo e preparamo-nos para seguir para outros blocos. S.A.D. significa Sex After Death e é o nome de um bloco bem conhecido, só que, pela rádio não podem dizer, digamos, palavrões, e tem de usar as siglas. É sempre hilariante, quando a hipocrisia latente na sociedade americana vem à tona. Os guias e os rangers devem maldizer todos os dias o John Shermam e os seu nomes escabrosos. O humor nunca se dá bem em ambientes autoritários, quanto mais humor politicamente incorrecto. Seguimos. Mudamos de planos. Decidimos entrar num tour pela Eastmountain em vez de esperar por vagas para a North. Um tour são as famosas visitas guiadas, que podem durar de duas horas ao dia inteiro, dependendo do grau de fama de cada um ou amizade com os guias, mas oficialmente são duas horas. 

“Vengaaaaaaaa!!” mais um ensaio, mais uma tentativa num típico problema enfiado num corridor. Aparentemente e visto de fora ninguém dá nada por Hueco, só que as três montanhas têm múltiplas entradas, corredores, falhas e passagens que multiplicam infinitamente as possibilidades para linhas novas. Uma espécie de labirinto de pedra com inúmeros Minotauros sempre à solta. A rocha é excelente e à prova de bala, as linhas são perfeitas. O clima é frio e seco no Inverno, o mau tempo são as ocasionais tempestades de areia, que não interferindo grande coisa na escalada, apenas são incomodativas para quem dorme numa tenda e acorda literalmente a mastigar o pó do deserto. Um paraíso do Bloco. Ainda não perdido, mas severamente condicionado. 

“Some more colesterol, please!” a americana olha para mim, primeiro atónita, depois ri-se às bandeiras despregadas, “ ha…you want more casserole?”. “yah…sim… that´s isso…” Jantar de Acção de Graças. Os donos do rancho, resolveram abrir a casa e fazer por um preço irrisório um grande jantar, diga-se banquete, para todos os escaladores presentes. Nós comparecemos, claro, um jantarinho na acolhedora casa de madeira é uma mudança de cenário bem vinda para fugir à chungaria poeirenta do quintal diga-se camping onde estamos instalados. 

Trásssss! Uma nuvem de faúlhas levanta-se da fogueira gigante. Acabam de atirar mais uma carrada de restos de paletes, cortesia de uma fábrica vizinha. Quando a fogueira não está monstruosa o suficiente alguém voluntaria-se para ir buscar com um carrinho de mão uma carga. Carrega, e ao aproximar-se da fogueira começa a correr e atira o carro contra uma pedra colocada convenientemente, este pára violentamente e a carga desliza com estrondo para dentro da fornalha provocando um efeito pirotécnico…

One! Dos! Three! Quatro!… mais um jogo demente, desta vez trata-se de contar quantas voltas sobre si próprio consegue dar um tipo, enquanto abraça uma trave de madeira. Dois voluntários são destacados para “darem spot” e impedir que com a “oura” o jogador se precipite na fogueira. Começa a rodar e a multidão vai contando em coro  “ um, dois, três…” até que este já não aguenta mais, larga o tronco e cai no chão ou sai disparado para direcção incerta. E, a noite vai seguindo até que a multidão vai dispersando, e o ruído ainda há pouco intenso vai dando lugar a um murmúrio das conversas dos resistentes, e por fim, o silêncio do deserto instala-se só entrecortado pelos uivos ocasionais dos coyotes. Um dia em Hueco. SM


Recordações da Época Passada. Nós Eramos os Machacas.

Janeiro 19, 2010

 Nós Eramos os Machacas

Sérgio Martins, Rui Pimentel, Rui Abreu, Martinho Almeida, Oldemiro Lima…

Uma via que já não existe, As 750 Divergências Filosóficas (6c+), dura, dura de roer. Encadeá-la era a senha para entrar no grupo. Nós éramos os “machacas”.

 O local era o mais improvável para uma escola de escalada. Em plena cidade do Porto entre o Bairro do Aleixo e o Rio Douro, uma antiga pedreira deixava à vista um granito saibroso vermelho único, que produzia vias também elas únicas, difíceis e bizarras como nunca mais conheci nenhumas. Um sítio urbano, sujo e perigoso. Mas, adorávamos aquilo, o lixo, a colher abandonada pelo junkie, os insultos de quem passava…eram rapidamente esquecidos quando nos embrenhávamos nas contorcidas sequências de escalada.

 Hoje já nada disto existe. A rua foi remodelada e a falésia estabilizada. Uma rede de aço cobre tudo deixando ainda à vista os velhos spits como testemunhas petrificadas.

 Mas, onde fomos buscar tal nome e o hábito de “machacar” vias?

 Agosto. Uma carrinha volkswagen com mais de 30 anos – incendiou-se passado umas semanas da viagem -, cinco mil quilómetros pela frente. Tudo a postos para o nosso primeiro tour de escalada por Espanha.

Ao fim de mil quilómetros, muitas peripécias e três dias de viagem chegamos a Montserrat. Porque fomos directos para esta zona e não outra? É algo de que já não me consigo lembrar, mas visto a esta distância parece que fez todo o sentido termos aterrado ali em plena praça central, no meio de mil turistas numa tórrida tarde de Agosto.

A estrada que levava ao parque de campismo estava encerrada devido a uma derrocada recente, por isso, armamos logo ali um circo impressionante de mochilas, tendas, cordas e literalmente dezenas de sacos de supermercado. Tudo nosso. Empacotadas as tralhas, estávamos preparados para uma semana inteirinha de estadia.  

Instalamo-nos e aos poucos fomo-nos apercebendo que aquilo não era um camping normal, era antes um “sítio” onde a escalada estava entranhada. Incrustada na madeira, escavada nas pedras dos muros, só faltando estar envolvido por uma nuvem permanente de magnésio. Locais assim existem muito poucos no mundo, digamos que, literalmente gerações de escaladores locais e legiões de visitantes moldam-nos, dotando-os de uma identidade própria e subtraindo-os a um destino banal.

Foi uma sorte conhecer um sítio assim logo na primeira viagem de escalada. As vias não deixaram grandes recordações mas o ambiente e as personagens ficaram marcados a fogo.

O nosso espaço, rapidamente ficou uma espécie de pocilga. Uma mesa permanentemente montada com, fogões, restos de comida, tachos e panelas que raramente viam a água. Bom, uma noite choveu e o que estava em cima da mesa e interessava preservar, passou para baixo. O resto ficou em cima a lavar. Simples. Mas, algo lamacento.

Ao nosso lado estava uma escalador Italiano. Sempre impecável, bandolete no cabelo cortado com estilo e trajes imaculados. Todas as manhãs, cumpria um estranho ritual: saía da tenda e, a primeira coisa que fazia era retirar os pés de gato de dentro e deposita-los com extremo cuidado e precisão no vértice do iglu. Uns magníficos e brilhantes La sportiva Kendo, ficando, por momentos, a olhar para eles embevecido. E nós, acabados de acordar, todos javardos, ficava-mos ali a olhar para aquilo, enquanto íamos tomando café, embasbacados. 

O dono ou guarda do antro chamava-se Marcel Millet, ele próprio uma personagem carismática da escalada Catalã. Conversador, produzia a cada duas frases uma história única, pejada de ideias fortes e controversas. Por aquela altura fazia muita escada artificial e estava justamente a recuperar de um acidente derivado de uma queda numa via nova que estava a abrir. Teria partido as pernas ou algo assim. Gostava de usar ditados ou máximas de ocasião e houve um que nunca esqueci e que vim eu próprio a sentir na pele algumas vezes: “ Quién mucho va a escalar, el hospital va a visitar”. Não aprecio muito este género de sentenças proféticas mas o facto é que ele próprio já tinha visitado o hospital muitas vezes e eu algumas vezes vim a visitar também. Noutra visita que fiz a Montserrat anos depois, vi-o a passar caminho acima com uma enxada ao ombro e um filhote de 3 ou 4 anos pela mão, “Viva, onde vais?” perguntei, “ desenterrar blocos!” respondeu,” estou a fazer um circuito de bloco infantil para o meu filho”. “ há…., pois!”. 

Uma zona do parque rapidamente ganhou para nós contornos magnéticos: a casa de banho. Ok, não a casa de banho em si, mas os muros em redor. Estavam escavados com presas e marcados com vias em código de cores, oferecendo travessias de escalada de todos os níveis. E, ao fim da tarde, também nós, cumpríamos o ritual de ir escalar lá, atraídos pelo circo que ali se formava. Ficávamos a ver o pessoal a fazer as travessias, tentando também entrar na dança, mas, reparando imediatamente que éramos dotados de dois pés esquerdos. Uma personagem chamava particularmente a atenção: rabo de cavalo, seco e musculado – tal e qual aquelas personagens dos cartoons do Manolo que sairiam na revista Escalar anos depois –  executava uma travessia baixa, cheia de passos bizarros e estranhas contorções com notória fluidez. Ia, vinha, ia e tornava a vir, sem nunca se cansar. Curiosos, perguntamos ao Marcel, “Quem é?” ele olhou para nós, reflectiu um pouco e respondeu “ Es un Machaca”.


Recordações da Época Passada

Setembro 29, 2009

mãos vendadas

Um Fantasma na Freita

Agora? Vienen agora!?

Freita. Uma sexta-feira ao fim do dia. Sessão nocturna de bloco. A pergunta vem de um estranho vulto, que vemos ao longe, à medida que nos aproximamos de um dos sectores dos Viveiros da Granja.

Quem será? Perguntamo-nos imediatamente. A probabilidade de encontrar escaladores de bloco na Freita são reduzidíssimas, quanto mais a escovar e de noite.

O vulto está tão espantado como nós. Há duas semanas que vive – literalmente – na Freita, a escalar, não tendo visto ainda um único “blocador”, e quando finalmente aparecem, é de noite, mesmo para um tipo muito vivido no mundo da escalada, é demais.

E, acreditem que é vivido, 52 anos, e toda uma vida dedicada à escalada, principalmente às fissuras que o levaram a uma busca incessante por todos os Estados Unidos e a passar pelo menos os últimos 10 anos em Espanha, vivendo em zonas de bloco.

E, afinal somos velhos conhecidos, é Richard Cilley, uma personagem com quem me tenho cruzado esporadicamente ao longo dos últimos anos em Espanha. E cuja abordagem da escalada é no mínimo singular.

Um lento remar contra a maré: fazia bloco em Espanha quando ninguém sonhava com tal. Uma abordagem muito pessoal, com objectivos muito concretos, da escalada. Um total – aparentemente – desprezo pelo reconhecimento dos seus pares. Uma visão desassombrada e ácida do “mundinho” da escalada, própria de quem já viu tudo e não espera nada.

Portanto, a escalada reduzida à sua forma mais pura, Bloco, sem crashpad, apenas uns pés de gato rotos e algum magnésio, fornecido por escaladores que encontra ocasionalmente.

Diz-se sem força para bloquear, “ Já não tenho power, fui até ao fim da linha, acreditam que já não consigo fazer um tracção de braços?”. É difícil acreditar, ao vê-lo a escalar. Por outro lado é muito belo pensar numa escalada com total ausência de força, apenas a primazia da técnica a vir ao de cima, puro movimento sobre rocha.

Move-se de forma lenta, e ainda mais lenta quando escala, como se existisse noutra dimensão temporal, e de facto existe. Um tempo criado por ele próprio, sem constrangimentos sociais, vivendo apenas com o essencial. Uma existência reduzida ao mínimo, mínimo mesmo: “ Como é que cozinhas? Há, uso uma can, como se diz? Lata, sim é isso, e álcool, não preciso de mais nada”.

No entanto não está desfasado do nosso tempo, consulta a Internet, participa em fóruns, principalmente para pesquisar novas zonas para onde ir, mas “sempre em bibliotecas públicas”. E tem opiniões muito singulares e fortes reminiscências de uma ética cimentada há muitos anos: “existe esta fissura, um tecto, na Galiza, incrível. Acreditas que estava um tipo a faze-la e a meio deixou cair um pé apoiando-se com ele no chão, continuou depois a escalar como se nada fosse e no fim festejou com o spoter o encadeamento, simplesmente não queria acreditar”.

Se a escalada, é sinónimo de liberdade, é difícil pensar numa abordagem mais ascética: Viver nas zonas de escalada, levantar-se ao ritmo da natureza, deambular por montes e vales incorporando no trajecto a rocha, tentando captar a sua essência através do movimento, impermeável a rótulos, classificações e tendências.

Tem, no entanto, por vezes um olhar nebuloso, característica talvez de uma existência centrada em si próprio, temperada por inúmeros dias de conversas apenas consigo mesmo.

As mãos são impressionantes, se as mãos de um escalador são sempre singulares, as dele impressionam por ter uma camada de pele na parte superior que parece geneticamente modificada para escalar fissuras, e de facto escala sem vendar as mãos, mesmo as fissuras mais excruciantes, como se fosse desprovido de terminações nervosas, “ magoa? não é nada, com insistência habituas-te e depois não sentes nada” Diz-me calmamente, enquanto eu desesperado olho para as minhas pobres mãos vendadas. Estamos a experimentar um velho projecto da Freita uma incrível pança com uma fissura de dedos a fugir para mãos. Onde os entalamentos até parecem confortáveis, mas uma vez que nos penduramos, é como se uma prensa nos esmagasse as mãos, tal é a dor.

Este é o seu último objectivo, quer mudar de zona, mas esta fissura que já resolveu em pé, faz com que fique e espere mais uns dias, trabalhando pacientemente os seus movimentos, tempo não lhe falta efectivamente.

São oito e meia da noite, instala-se um nevoeiro típico da Freita, dando uma dimensão fantasmagórica aos montes que nos rodeiam. Estamos ali isolados num microcosmos, suspensos no tempo, na companhia de uma personagem que facilmente se enquadra naquele ambiente, existe? Existiu? Ou será apenas: Um Fantasma na Freita.