Recordações da Época Passada. A Lua de Zaratustra.

Outubro 14, 2013

 

Recordações da Época Passada. A Lua de Zaratustra.

Negras conjecturas adensam-se na noite. Como nuvens, tudo vão escurecendo. Uma luz, no entanto, resiste na noite, desafiante e inamovível. Magnetizado pelo apelo incandescente, durmo devagar, levado por sonhos que sonhos não são. Li uma vez que a Lua cegava os mendigos que dormiam ao relento na Índia. Um exagero, talvez. Nunca estive na Índia, mas gosto de acreditar, como quem acredita num sonho. Um sorriso rasga a noite branca. Salvo por um instante, a memória leva-me a outra Lua, a outra vida, à Lua de Zaratustra.  

Pirenéus. Vale de Ordesa. Cimo do Espolón Galinero. Dois vultos esperavam na escuridão da noite. Um deles, sentado, dobrou os joelhos e enfiou a cabeça entre as pernas sucumbindo num transe de exaustão: “Acorda-me quando a Lua aparecer”, disse antes de desligar e entrar num familiar modo de stand by. Olho com inveja o sono aparente, na minha cabeça ele dormia como um bebé, enquanto eu, sem conseguir pregar olho, deambulava às voltas como numa sala de espera. Sem luz não nos atrevíamos a enfrentar as terríveis clavijas que flanqueiam a cascata e permitem o acesso à base das paredes e ao mini-refúgio onde temos o material de bivaque. Só nos restava esperar.

Há coisas que nos perseguem. Coisas que às vezes sonhos são. Um homem e uma mulher abraçam-se no abismo. Abismo que haveria de os tragar ainda jovens. Aquele efémero instante, com mais céu do que terra, transformou-os, para mim, em estátuas de memória. Estarão sempre ali, suspensos sobre a via que acabaram de escalar, de tal forma que estranhei não os ver quando eu próprio pisei aquele lugar pela primeira vez.

Al Filo de lo Impossible. Uma serie de televisão espanhola que naturalmente, ou há falta de melhor, quem diz melhor diz talvez reality shows concursos avulsos e futebol, passava na televisão portuguesa. Tratava, e ainda trata, de aventura, abordando muitos desportos outdoor. Mas para o caso o que nos interessa é o episódio de 1986 onde aparece a via Asi Hablaba Zaratusra. A cena que acabo de descrever, no parágrafo anterior, era o final do episódio que retratava a escalada do famoso pilar. A cordada protagonista eram Miriam García Pascual e Félix García de Pablos. Ambos teriam fins trágicos, alguns anos depois, os dois vítimas de avalanches, Miriam no Meru e Félix no Aconcagua. Miriam teve ainda tempo de nos deixar um aclamado livro de seu nome Bajame Una Estrella. Certamente continuam vivos nas memórias de quem os conheceu e amou, para mim é como se vivessem cristalizados em imagens de vídeo. Eternamente jovens, eternamente abraçados sobre o abismo, eternamente suspensos naquele momento com mais céu do que terra.

Assim conheci Zaratustra, primeiro a via e só depois o livro, como qualquer escalador que preza de forma séria as suas prioridades culturais. E, este, foi dançando connosco, enquanto nos formávamos como escaladores, num caminho, ou dança, que inexoravelmente um dia nos levou à base do famoso Pilar.

Coube-me a mim abrir as hostilidades. Já não me lembro bem porquê. Decidir quem começa uma via gigante é sempre um momento delicado numa cordada alternada. Os calculistas fazem contas de cabeça para ficar com os largos mais fáceis, ou difíceis conforme os casos. Os impulsivos simplesmente não querem saber e, freneticamente, apenas pensam em despachar-se.

Escalar em alternado é um carrossel emocional. A sensação do conforto da reunião atinge o zénite quando passamos o leme ou “batata quente” ao próximo. Só que como tudo que é bom, não dura, e lá somos obrigados a abandonar o conforto do ninho, escalar de segundo, chegar à próxima reunião, sem poder lá estacionar, infelizmente, mais do que cinco minutos, sempre perante o sorriso condescende do nosso companheiro, que parece estar sempre a dizer: “despacha-te, pega no material e faz-te à vida, se não saímos daqui de noite”. Este é o “ânimo leve”, quando as coisas correm bem, quando as coisas começam a mudar e os tomates a apertarem. Algo mais interior e visceral, literalmente, vem ao de cima, fazendo com que a palavra cordada deixe de ser uma mera metáfora simbólica da união entre dois escaladores. E aí sim, quando existe uma verdadeira ligação para além da corda, nasce uma equipa onde sem recriminações os dois começam a trabalhar em conjunto para um objectivo que muitas vezes se resume simplesmente em “sair dali para fora”…

 O primeiro largo não apresentava muita história, embora as dificuldades parecessem desajustadas, como de resto acontece sempre nas vias grandes. O Rui passou para a frente e a coisa começou a piar fino, parecia intranquilo, indeciso, soltando palavrões avulsos à medida que ia subindo. Quando cheguei à reunião notei-o lívido e incaracteristicamente nervoso. “Viste o frigorífico?”. Encolhi os ombros. Como sempre acontece, de segundo, muita coisa passa ao lado. “Pá! Agarrei-me a um bloco maior que um frigorifico e aquela merda mexeu”, continuou visivelmente nervoso. “Foda-se”, exclamei. “Acho melhor descermos, isto não está a ter piada nenhuma, a via está toda podre”. “Espera, deixa ver o que isto dá, e olha o tecto está já ali, e com duas expresses abandonadas prontas para nós as irmos catar”. Arrastado pela minha negligente vontade de quem tinha passado pelo largo terrorífico na “mama” da corda por cima, e com mau humor, lá aceitou ir para cima. Retrospectivamente quando olhamos para outro croquis da via, que entretanto encontramos, reparamos que a sorte tinha sido madrasta para o meu companheiro de cordada oferecendo-lhe os dois largos mais descompostos da via, alterando assim, para sempre, a sua experiencia da escalada.

A via era temível e insegura, muitos pitões podres e muitos buris. Uma reunião em particular ficou-me na memória. Situada numa plataforma perfeita, a plomo sobre o abismo, poucos sítios têm tanto plomo como aquele pilar, só um buril ferrugento a abrilhantava como única protecção. Em vão tentei proteger com outra coisa qualquer, não era nosso hábito andar com martelos e pitões, o nosso estilo era orgulhosamente “clean and light”, mas se tivesse um tinha espetado um pitão como um prego. À falta de melhor lá protegi o esquálido buril, infelizmente na altura já sabia bem o que era um buril, e berrei eufemísticamente ”reunião”, entregando-me nas mãos da deusa da fortuna, ou nas mãos do pedaço de metal ferrugento de 7 mm espetado, na melhor das hipóteses 20 mm na rocha, rezando para que ninguém caísse. Numa negação infantil do perigo entrei num modo de hiper-concentração para tentar, fintando o pânico, sair daquela ratoeira da melhor forma.

Depois fez-se noite. Fazia-se sempre “de noite”, por mais cedo que começasse-mos, acabávamos sempre “de noite”. Sentíamos sempre inveja das cordadas perfeitas, que realizavam os tempos perfeitos, dos perfeitos topos-guias. Chegavam sempre a tempo ao refúgio e ao conforto, uns modelos de perfeição. Uns príncipes da escalada, todos eles! Nós não. Lentos como lesmas, acabávamos sempre a arrastarmo-nos na noite escura ou na lama dos bivaques improvisados. Mas se rápidos não éramos, duros de roer seriamos, resistíamos tentando escalar em livre ao máximo. Fazíamos o melhor que sabíamos tentando salvar a pele no fim do dia. Era esta a definição de escalada de aventura para nós. Uma definição que nunca nos saía de graça…

Foi assim, à luz do frontal, que chegamos à mítica plataforma sobranceira sobre o abismo. Fugíamos a sete pés ao negro abismo e suspiramos de alívio quando aquilo tudo acabou e nos esgueirávamos pelo estreito trilho sobre as paredes que levava à parte superior da cascata. Entretanto, para apimentar um pouco mais as coisas, o nosso único frontal “deu o berro”. Sim, houve um tempo em que os frontais não eram de led’s e eram uns cabrões devoradores de umas pilhas gigantescas caras e pesadas, e claro, como a perfeição não faz parte de nenhuma aventura, não havia pilhas sobresselentes. Perante a perspectiva de enfrentar as clavijas às escuras resolvemos esperar pelo luar.

Eventualmente a Lua lá apareceu para nos salvar. A Lua de Zaratustra. SM

Ilustração: Vitor Batista.


Recordações da Época Passada. O sótão.

Fevereiro 27, 2012

Oldemiro Lima, a dar duro no Sótão.

Smells Like Teen Spirit. Cheira a pó e a magnésio. Aneurysm. Abrenuncio. Mais pó, mais magnésio, mais dores nos dedos. The Man Who Sold The World. Toca a campainha. Molly’s Lips. Vem alguém a subir as escadas. Son Of A Gun. Risos. Mexican Seafood. Merda de presas. Something in the Way. A cassete enrolou outra vez. The Man Who Sold The World. Outra vez. Territorial Pissings. Merda de aparelhagem. Come as You Are. Por quatro contos não se podia esperar melhor.

No inicio era o pó. Literalmente o pó. Toneladas de pó, cristalizando objectos, moveis e até o próprio tempo. Cada vez que levantávamos uma tábua ou desviávamos um armário, viajamos no tempo. Andávamos para trás uma geração e efabulávamos as mais loucas histórias. Éramos bons nisso. Ficavam a doer-nos os abdominais de tanto rir. Éramos bons nisso.

Quando as vigas de madeira do telhado ficaram à vista, surgiram aquelas palavras escritas a vermelho vivo. Abrenuncio. Depois outra. És feliz não tens problemas. Pedimos explicações. Não nos deram. As histórias ali passadas não eram nossas. Aceitamos. O futuro sim seria nosso, e para já, se nos portássemos bem, o sótão também.

Começamos a carregar placas pela longa escadaria acima. Mais vigas, meios-fios e barrotes afins, em quantidades tais que os donos da casa ficaram com medo que o telhado lhes caísse em cima da cabeça. “Não há problema. Isto é mesmo assim, faz parte da construção de muros de escalada em sótãos”, dissemos tranquilizadores. “Ai, sim?”.

Os muros construíam-se com ângulos de 60º ou 70º em relação à vertical. Assim conseguia-se em espaços com um pé-direito reduzido maximizar a distância escalável, mas é também um dos ângulos menos eficazes para treinar porque limita muito o tamanho das presas para além de não ter quase relação para a rocha real. Enfim, era a fruta da época. Tínhamos visto um em Sintra, do Rui Carvalheira, então um dos primeiros a surgir para as bandas de Lisboa e prometeram-nos um power infinito treinando em semelhante máquina de tortura. Não precisávamos de muito mais para ficar convencidos, só precisávamos de um espaço. O Martinho tinha um sótão vazio e mão-de-obra não faltava.

Exageramos. Nunca fomos de meias medidas. E aquilo nunca mais ficava pronto, mesmo trabalhando todos os dias depois das aulas. Ao fim de um mês épico de trabalho quase diário o primeiro muro ficou montado, o tal de 60º, depois ao longo de um ano foram-se fazendo melhorias e acrescentos como se de uma teia de aranha se tratasse. Na versão final teria 50 metros quadrados escaláveis, mais de 500 presas, campus board, sala de musculação, tudo e mais alguma coisa.

A instalação sonora era garantida pelo rádio-gravador mais barato que encontramos, e inexplicavelmente, ou por preguiça, ou por eficácia, só existia uma cassete, um mix dos Nirvana que passou milhares de vezes, a tal ponto que ainda hoje ouvindo algumas daquelas musicas sinto um impulso nervoso para começar a apertar.

Os treinos eram caóticos, duros e divertidos, sempre pontuados pela presença eléctrica do anfitrião. Que mal conseguia dormir, estudar ou pensar com uma muro daqueles a pairar por cima do seu próprio quarto. Um tipo com dezassete anos a explodir para a escalada com uma coisa daquelas literalmente por cima da cabeça, retrospectivamente tenho de admitir que é demais para qualquer um.

Um dia, por exemplo, o Martinho estava pendurado a aquecer fazendo tracções numas presas por cima de uma porta e alguém disse: “Aposto que não te aguentas aí com um gajo pendurado em ti”, não foi preciso mais, perante o seu ar de desafio, alguém saltou logo e agarrou-se a ele, que impávido e sereno continuou pendurado como se nada fosse, face à provocação, saltou outro, e já eram dois pendurados, e o Martinho nada, “E três?”, salta mais um, agora é um tipo agarrado a dois puxadores a ranger os dentes e outros três pendurados nele a rir e a gritar. Até que de repente caem todos com estrondo, no meio da confusão olho para o chão e o Martinho continua titanicamente agarrado às duas presas, olhamos todos para cima incrédulos, a placa de madeira apresentava dois buracos redondos perfeitos. Para nós isto passou a ser a definição de treino com carga.

Depois desvaneceu-se. Os interesses divergiram, as trajectórias separaram-se, muitas para mal se voltarem a tocar. O pó voltou. Lentamente. Cristalizando mais uma vez o tempo algures num sótão da cidade do Porto.

The Man Who Sold The World. As coisas nunca mais serão como antes. Come as You Are. Vem alguém a subir as escadas. Smells Like Teen Spirit. Decididamente nunca mais serão assim. Aneurysm. Risos. Something in the Way. O espelho quebrou-se algures pelo caminho. Molly’s Lips.  Riamos até nos doerem os abdominais. Son Of A Gun.  Éramos bons nisso. SM


Recordações da Época Passada. Épico Para Que Te Quero.

Janeiro 3, 2012

Ao princípio tudo eram épicos.

As vias eram grandes de mais, difíceis de mais, sujas de mais, boas de mais para lhes resistirmos. Nós éramos lentos de mais, inexperientes de mais, ambiciosos de mais para lhes resistirmos. O resultado só podia ser um: grandes épicos.

Épico em português vem de epopeia, que pode ser, para nossa conveniência, sinónimo de grande aventura. Na tradição anglo-saxónica, que aqui utilizo, “epic” significa também uma grande aventura, geralmente associada a bivaques inesperados na parede ou montanha, tempestades, situações imprevisíveis que resultam em quase desgraças que felizmente não se concretizam, deixando apenas algumas mossas e intensas impressões gravadas para sempre na memória dos protagonistas. Estes são os ingredientes dos “bons épicos”. Os maus também existem mas são bons para esquecer. As tragédias só são boas histórias para os outros.

Na escalada/alpinismo anglo-saxónico os épicos são levados a sério. A revista Climbing, por exemplo, tem números especiais só dedicados a eles com as histórias mais mirabolantes. Se existisse um rei dos épicos, Joe Simpson não teria dificuldade em ser coroado. Conhecidíssimo pelo ultra-mega-épico dos Andes, é no entanto na sua autobiografia, This Game OF Ghosts, que encontramos as mais deliciosas e incríveis aventuras, e claro épicos inacreditáveis. Mas, para se ter um épico, não é preciso quase ressuscitar dos mortos como o Joe Simpson no Siula Grande, basta ser inexperiente quanto baste e ter azar com a meteorologia.

Depois da nossa quase escalada da Meadinha, precisávamos de algo grandioso que eclipsasse por uns tempos a frustração causada pela tentativa falhada. Um pouco mais abaixo no vale ficava a Nédia, a maior parede de Portugal. Perfeito, a título de grandiosidade não se podia pedir, nem havia, mais. O facto de a Nédia ser uma espécie de encosta com granito projectado, era um detalhe, aquilo tinha cerca de vinte largos para escalar com corda e a última parte torna-se quase vertical, e acima de tudo parecia, e era, selvagem como o caraças.

Os ingredientes eram apetitosos e  algo inquietantes: aproximação excruciante, reuniões onde a única protecção era uma martelo entalado, passagens com “passos de homem” na mais pura tradição alpina e finalmente uma saída selvagem até voltar à “civilização”.

Nada disto nos demoveu, estávamos à altura do desafio, tínhamos o martelo e tudo. Só não nos decidíamos por que pés-de-gato usar, “Vão dois pares para cada um, e não se fala mais nisso!”, “Sim, parece ajuizado”. Comida suficiente, água de reserva e roupa de abrigo eram pormenores secundários que pensar neles e calcula-los só atrapalharia os nossos planos grandiosos e tiraria brilho à nossa ansiada aventura, alem de mais pesavam e ocupavam espaço na nossa já atulhada, de bens essenciais, mochila.

A nossa estratégia resumiu-se em procurar um sitio para dormir o mais perto possível do inicio da marcha de aproximação. A escolha caiu sobre Tibo, a aldeia onde se deixa o carro, onde uma casa em construção serviu na perfeição para residência nocturna.

Madrugamos. Ainda era noite quando fomos deixando para traz o nosso refúgio improvisado. Atravessamos a aldeia adormecida, acossados pelos latidos de dezenas de cães furiosos. Rapidamente chegamos ao rio, que decidimos atravessar cedo de mais, uma primeira decisão errada, numa série de várias que fatalmente traçariam o caminho do épico. Às apalpadelas corrigimos a trajectória encontrando um caminho que seguia ao longo da margem até estarmos em linha com a parede, aqui teríamos de abandonar os caminhos e navegar no mato até há base da parede, seria um presságio para o que aí vinha: até à tarde do dia seguinte não veríamos mais caminhos e “comeríamos” mais mato do que alguma vez sonháramos.

Mas eis que finalmente tínhamos alguma rocha pela frente, “ livres do mato!” exultamos inocentemente. A via – dos Narizes, para os poucos conhecedores – nos primeiros dois terços é muito tranquila, super tombada, às vezes a um ponto em que deixamos de escalar e ridiculamente passamos a andar. Passa por um jardim a meio e depois entra numa espécie de canal até que, por fim, chega a terrenos um pouco mais verticais.

O dia já ia bem avançado quando chegamos à base da famosa fissura do “passo de homem”. Estávamos a torrar, tínhamos estado a escalar todo o dia à chapa do sol, e já quase não tínhamos água. Água que em breve seria o nosso principal problema. Sem darmos conta, o tempo mudara, e preparava-se uma típica tempestade de Verão de fim de tarde. Mas a nossa preocupação do momento era chegar ao spit que era a única protecção do offwidth que tínhamos pela frente. Sem friends gigantes, ou tubos, resolvemos usar mesmo o método original: um trepa para cima do outro e meia fissura fica feita e o spit protegido, arrasta daqui arrasta dali e estamos já perto da saída, tendo pela frente uma série de placas. Entretanto o céu fechara completamente e começa a chover copiosamente. Apanhados na ratoeira, só temos uma saída, o Rui decide avançar, pois parte da placa fica debaixo de uma espécie de tecto, meio fora meio dentro, já com a chuva a cair com intensidade, conseguiu sair. Ainda hoje não sei como conseguiu escalar aquela placa ensopada praticamente sem protecção nenhuma. Mas o que é facto é que conseguiu e estávamos fora da via e no cimo. A tradicional exultação e alívio de sair de uma via grande estavam, por assim dizer, diluídas na montanha de água que nos caía em cima. Ensopados, literalmente, até aos ossos, não tínhamos mais nada para vestir alem de uma sweatshirt, e para ajudar à festa estava a anoitecer e não sabíamos para onde ir ou seja não sabíamos como sair daquele monte.

Começamos a andar, como dois zombies na noite, errantes e sem destino debaixo de uma chuva diluviana. Ao fim de algum tempo, desesperados, começamos à procura de um abrigo ou algo que se assemelhasse. Não encontrando nada, encostamo-nos a um calhau e colocamos uns ramos muito mal amanhados por cima de nós, pelo menos agora a chuva não nos caía na cabeça, só nas pernas e nos pés. E eis que estavam reunidas as condições para um bivaque de emergência na montanha. A noite nestas circunstâncias é uma espécie de insónia forçada só que ao invés de rebolar indolentemente na cama à procura de uma melhor posição, não paramos de tremer e à medida que a hipotermia se tenta instalar vamos contando o lento passar das horas sempre com a secreta esperança de começar ver a luz da madrugada no horizonte. A meio da noite o Rui decide pegar fogo às folhas que estão debaixo de nós, agarramo-nos logo a esse objectivo que rapidamente passou ao topo das nossas prioridades. Finalmente, quando já sonhávamos com uma lareira, começou a sair fumo das folhas molhadas, fogo nem velo, mas saía fumo o que não era mau, rapidamente transformamo-nos em fumeiros humanos disputando avidamente o lugar por cima da fumarada. Por fim lá nasceu o dia e como sempre acontece depois de uma tempestade de Verão, completamente limpo. Procuramos um sítio alto e exposto e aos poucos fomos aquecendo e secando a roupa e a tralha. À medida que o dia ia aquecendo, rapidamente percebemos que iríamos enfrentar outro problema: não bebíamos nada desde o dia anterior, não tínhamos água nenhuma, nem onde a ir buscar. Uma situação no mínimo bizarra depois de estar debaixo de uma tempestade.

Começamos a andar para Norte na cumeada, sabendo apenas que teríamos de descer a determinada altura para o vale da Peneda, só não víamos como. Sempre que tentávamos descer éramos engolidos pelo mato, e tínhamos de voltar à cumeada, começávamos a desesperar, o cansaço, a fome e principalmente a sede iam tomando conta do nosso discernimento. A fome aguenta-se bem, mas a sede, em muito pouco tempo, torna a situação extrema, exacerbada pelo calor excruciante.

De repente, face a mais uma descida de aspecto intransponível, o Rui diz, “ Pá, não quero saber, vou usar o método do meu primo!”. O “método do primo” era uma muito discutida, entre nós, teoria que no monte em última escolha a linha recta é a melhor opção. E, sem mais, atirou-se literalmente ao mato começando a descer a direito. O mato, uma mistura de giestas de mais de dois metros, silvas e árvores caídas, era de tal maneira denso que ele desapareceu de vista num instante.

Durante uns segundos, que pareceram eternos, fiquei isolado no cimo do monte, bloqueado e sem saber o que fazer. Sentindo um lento desespero a crescer. Antes de quebrar e começar a chorar cheio de pena de mim mesmo, grito: “ Foda-se, espera aí!”.

O que se seguiu foi a mais louca descida que jamais fiz, atiramo-nos, como kamikazes, a correr pela encosta abaixo, rasgados e arranhados pelas silvas, tropeçando e caindo nas árvores caídas, às vezes com cambalhotas completas, fomos abrindo com o nosso próprio corpo o caminho. Até que rebolando demos com um tubo preto, “ Eh! isto parece um tubo de água”, desesperadamente começamos a tentar cortar o tubo, mas não tínhamos como, “Espera! deve ter uma emenda”, percorremos o tubo sofregamente e lá estava ela, separamos as duas parte e imediatamente jorrou água em abundância, não sabíamos de onde vinha aquilo, mas era a água mais fresca e deliciosa que alguma vez bebi, que dádiva. Saciada a sede, recompusemo-nos um pouco melhor e já conseguíamos pensar com mais clareza, se andava ali um tubo não devíamos estar longe de um caminho.

A rebolar, literalmente, mais uma vez, caímos em cima do caminho que levava ao vale. Estávamos safos. Quando chegamos ao rio vejo uma poça de água cristalina que, qual  miragem, começa a atrair-me como um íman, começo a tira a roupa e só então vou tomando noção de como estávamos: arranhados, esfolados e com a roupa reduzida a trapos, tudo rasgado. Atiro-me à água sem pensar mais. Quando emergi da água gelada, já tudo estava para trás, tudo estava bem e o nosso épico começava já lentamente a ocupar o seu lugar nas finas páginas da memória escritas a fogo ou, neste caso, talvez a água. SM


Recordações da Época Passada. O Rei Dos Frangos.

Outubro 24, 2011

“Taque!” O som rápido e metálico de algo a fritar faz-me despertar do torpor. “Taque!” Outra vez. Desta vez abro os olhos, não sem dificuldade, para tentar perceber o que se passa.

Redinha. Falésia da Senhora da Estrela. Agosto. Temperaturas proibitivas. Escalamos de manhã muito cedo e ao fim da tarde. Pelo meio vamos para o café-restaurante ” O Farol da Srª da Estrela”, vulgo “O Pipo”, e estamos ali, à sombra do alpendre, a dormir e a comer gelados, vendo o lento passar das horas mais quentes do dia.

“Taque”! Outra vez. Já sei de onde vem o som. É daquelas horríveis armadilhas eléctricas para apanhar moscas, mas esta está a funcionar muito bem, ou as moscas estão com tendências suicidas. Desperto, vou verificar o que se passa. Há! O Martinho, irrequieto como sempre, não se deixa dormir, e arranjou algo com que se entreter: diverte-se a apanhar moscas com as mãos e depois atira-as com força para a fritadeira. “Taque!” Mais uma. Enfim… é uma maneira de passar o tempo.

O Martinho é, para mim, a personificação de uma época e de um estilo de vias na Srª da Estrela ou Redinha como nós sempre chamamos aquilo. Vias curtas e explosivas, uma espécie de bloco com corda. Esse estilo culminou com o encadeamento em 1995 do Abrenuncio primeiro 8a de Portugal, ou segundo conforme os historiadores verticais que se consultem, ou terceiro se contarmos com o Lobo das Estepes, em Trás-os-montes. Mas, uma via é talvez ainda mais icónica para mim: o Rei dos Frangos. Esta via, na realidade um bloco, consiste basicamente em superar uma típica pança da Redinha com quatro ou cinco passos explosivos e marcou uma época, sendo também uma das primeiras que o próprio Martinho equipou.

Tendo já feito todas as vias existentes na altura, que não eram muitas, começamos a olhar para outras linhas. Aquela pança era apelativa, já tinha um par de spits no tope e tudo. Decididos, montamos a corda para se dar uns pegues. Começamos a assediar a via mas a única coisa que saía eram uns bonitos pêndulos.

Num desses dias andava pela Redinha outro Martinho, mais conhecido por “Flau”. Estava então no auge das suas capacidades e era, sem dúvida, um dos escaladores portugueses mais fortes, uma máquina dotada de dois hidráulicos no lugar dos normais apêndices a que chamamos braços. Gostávamos especialmente de o picar, para assistirmos da bancada à maquina a funcionar a pleno gás. Já tínhamos, por exemplo, apostado com ele o flash da Electra, e para nosso gáudio não nos desiludiu, triturando os monodedos da via enquanto arrastava os pés pela parede acima como se de dois pesos mortos e incomodativos se tratassem, não se podia dizer que fosse bonito mas era tremendamente eficaz.

Pedimos-lhe para experimentar a nova linha e para nossa surpresa rapidamente fez os passos, até que ao aproximar-se do top, solta um grito: “Ei baixem rápido que está aqui um ninho com pássaros”.

“São grandes? São pequenos?” “Pá…não sei dizer…são assim do tamanho de … frangos!” Perplexos deixamos a via a marinar e esperamos que os pássaros crescessem e fossem à sua vida, a via só se equipou e encadeou muito depois quando nos certificamos que o ninho estava abandonado. Mas o mito ficou, e fomos criando histórias sempre com os frangos às voltas, pois sempre que se ia de baixo não se sabia se haveria surpresas no fim da via. “Sérgio, se chegar lá acima e estiveram lá os frangos mando-me logo.” “Ok, tranquilo”. “Mas o encadeamento vale na mesma, não vale?”, “Claro! Rei dos Frangos”.SM


Recordações da Época Passada. O Primeiro Passo.

Setembro 14, 2011

Privados, por humanas limitações, das nossas primeiríssimas memórias. Sabemos apenas que o primeiro ar deste mundo nos fez berrar, o primeiro passo nos fez cair e a primeira vez que caímos foi para nos levantarmos. Será assim pela vida fora: prisioneiros de um instinto que faz de cada queda uma aprendizagem. A nossa tragédia é também a nossa salvação. Se a escalada é ascensão a sua antítese, a queda, é a ignição. Uma não vive sem a outra na grande metáfora da vida que é, para quem assim quiser ver, a escalada.

O primeiro passo é como a primeira passa. Não sabemos bem o que estamos a fazer, é intoxicante e vicia.

O primeiro passo que me viciou foi nas Fragas do Castelo, em Valongo. Não foi a primeira vez que escalei, mas sim a primeira vez que encontrei um passo que não conseguia fazer. E comigo aconteceu logo no primeiro dia. Um caso de predestinação, poder-se-ia dizer.

O passo era de placa, concretamente um arranque de uma via. Envolvia subir um pé bastante alto para uma réglete, colar a cara à parede e esticar um braço, em precário equilíbrio, até uma boa presa. Sem pés de gato, sem magnésio e sem arnês, era como se a parede estivesse coberta com uma fina camada de massa consistente, fazendo com que a diferença entre a minha escalada e a escalada de um pau de sebo por um folião em busca do prémio fosse quase nenhuma. Bom, a escalada do folião seria, sem dúvida, mais estética.

Como tinha chegado aquela situação? Tudo começou nos escuteiros. Cansados de atar nós e praticar boas acções, começávamos a sentir uma atracção pela aventura. E aventuras, como sabem, envolvem cabos e ganchos e vertiginosas montanhas.

Para cumprir o nosso desígnio tínhamos uma certeza: precisávamos de material. Das vertiginosas montanhas trataríamos depois. Ora, material de escalada pura e simplesmente não existia, ou se existia não sabíamos onde o conseguir. Estávamos neste impasse quando encontramos, no nosso agrupamento, uns opúsculos da federação de espeleologia onde se ensinava a construir arneses com correias de cintos de segurança de automóveis. Esmiuçamos o esquema, parecia fácil de fazer e era exactamente o que precisávamos. Rapidamente posemos mãos à obra. Uma visita ao sucateiro local. Os dotes e a maquina de costura de uma das mães e, nasciam uns magníficos arneses integrais que fechavam no peito, com um sofisticado “click”, usando própria fivela automática dos cintos de segurança. Agora que éramos orgulhosos proprietários de luxuosos arneses de fecho automático, precisávamos de cordas. Uma incursão à drogaria local revelou imediatamente que as cordas plásticas eram as melhores. Resistentes, coloridas e ainda por cima baratas. Não se podia pedir mais. Sentíamo-nos uns sortudos.

Assim aprovisionados estávamos prontos para um encontro com o destino, ou melhor: prontos para a aventura. Quis a deusa da fortuna que não fizéssemos a mínima ideia onde se escalava. Na altura não abundavam falésias equipadas, ficando a nossa experiência reduzida a uma atabalhoada subida de uma encosta de mato em que seguíamos todos atados uns aos outros, tal e qual uma cordada múltipla de progressão em glaciar. Esta ascensão teve o condão de sossegar o nosso espírito aventureiro por uns tempos, pois subir encostas de denso mato não nos pareceu assim tão espectacular e perigoso ao ponto de insuflar doses industriais de adrenalina nas nossas veias.

Andamos sossegados por uns tempos até que chegou ao Palácio de Cristal uma feira de campismo, não sei se chamaria já Campisport. Sendo os escuteiros um alvo preferencial destes eventos também recebemos convites.

Lá andávamos a tentar orientar-nos no labirinto de caravanas, tendas familiares, barcos e churrasqueiras, quando demos de caras com o stand do Clube de Campismo do Porto. O stand ficava a um nível superior, uma espécie de segundo anel que hoje já não existe, e tinha um boneco vestido de alpinista pendurado numas cordas sobre o vazio. “Uau! isto sim é o que nós queremos!” Exclamamos. Enquanto observávamos, esgazeados, a precária dança do boneco sobre o abismo. Ficamos com o contacto do clube e fomos à nossa vida com a promessa de uma visita próxima.

Aparentemente o clube reunia todas as quintas à noite. Enviamos dois batedores, os dois com mais liberdade para sair à noite, e as novidades não tardaram a chegar. “ Pá! Há lá um gajo muito fixe, ficou um tempão a falar connosco, acho que podemos aprender lá umas coisas”. Esse “gajo” chamava-se Vitor Teixeira e iria mudar as nossas vidas para sempre, pelo menos a minha mudaria.

Ao nosso entusiasmo de aprender juntou a sua vontade e talento para ensinar e rapidamente se organizou um curso de escalada para a próxima Páscoa em Valongo. Perfeito.

Seriam umas cinco da tarde e a aula do curso tinha chegado ao fim. Tratávamos do acampamento na zona dos moinhos das Fragas do Castelo. Não me dava por vencido e não conseguia desviar a minha atenção da parede ao fundo. “Vitor? O que é necessário para conseguir fazer aquele passo?” Perguntei. “ Pá, tens de ter pés de gato”. “Hum…podias emprestar-me os teus velhos?”. Ele olhou-me estranhamente, o Vitor tem um metro e noventa, “Tá bem, já que insistes, mal não te vai fazer” e lá fui eu com uns Boreal Firé 44 todos esburacados tentar o meu primeiro passo. SM


Recordações da Época Passada – Peneda, Uma Primeira Vez que Não o Foi. –

Novembro 8, 2010

Vroummm!! O som rouco do motor do velho Renault 11 do Rui Pimentel corta o silencio sepulcral da Serra do Soajo, ao mesmo tempo que uma nuvem gigante de poeira, vai assinalando a nossa passagem  com um longo traço de pó na paisagem.

Estávamos, pela primeira vez, a caminho da Peneda, mais concretamente da Fraga da Meadinha e na bagageira  levávamos todo o tipo de material e aspirações. Dois arneses  integrais e dois de cadeira, pés de gato de cordões e bailarinas ninja, stopers, pitões, excêntricos e tricams, martelos,  capacetes,  estribos, joelheiras e friends, cordas simples e duplas, cintas curtas e cintas longas e por fim surtidos de mosquetões variados. Na realidade  não fazíamos a mínima ideia ao que íamos.

A fama da Meadinha era tremenda – uma espécie de bicho-papão para os escaladores do Porto -. Tal como a pesca, a escalada de aventura vive muito de enfatizações. São criados monstros e adamastores que fazem da antecipação e preparação para as escaladas etapas tão memoráveis como a própria escalada em si. E, para o processo ficar completo exige-se  uma desmitificação em ordem a superar o mostro e cavalgá-lo a posteriori. Mas para chegar aí é preciso sofrer, e muito, como estávamos prestes a descobrir.

Chegados à imponente praceta do santuário,  rapidamente montamos o nosso estendal, sentindo sobre nós a sombra da tremenda parede, que mal nos atrevíamos a olhar de frente. Timidamente pegamos no croqui,  e tal como na  ementa de um restaurante demasiado caro, escolhemos o prato da direita para esquerda, olhando primeiro para os graus e só depois para as vias. E, o cardápio marcava para a nosso dieta: uma das vias do Irmãos Pacheco, V+/A0, mesmo no extremo direito da parede. “Ok! V+/A0! isto parece fazível”  dissemos muito satisfeitos com a nossa sábia escolha.

Começamos a equiparmo-nos e optamos pelos arneses integrais. Tinham-nos dito que para o artificial eram do melhor,” ficas como um bebé!”, e logo nos imaginamos a cruzar um tecto confortavelmente metidos numa espécie de  berço, “até deve dar sono!”. Depois, começamos a pendurar toda a espécie de quinquilharia que achávamos necessária, capacetes incluídos, mais água e comida. Faltava escolher os pés de gato: uns Boreal fire de cordões ou umas bailarina ninja?  Indecisos, decidimos levar os dois, nas placas escalaríamos de ninja e nas fissuras de fire. Contentes, com mais esta  sábia decisão, fizemo-nos ao caminho com toda a quinquilharia a tilintar.

O caminho empedrado é muito bonito, mas sobe e sobe e não para de subir. E, numa tarde de Julho parece subir ainda mais. Exaustos e a suar em bica chegamos à base. Segundo o croqui teríamos de  ir para a direita até ao fim da parede. Olhamos, e vimos uma zona de mato cerrado  com muito mau aspecto “ups! parece que vamos ter de nos meter ali!”

“É fácil! Deve ser sempre a direito pelo meio do mato!”. Começamos a embrenharmo-nos no matagal, e este ia ficando cada vez mais denso. Ora um friend ficava preso. Ora uma das cordas ficava presa nas silvas. Até que se desatavam e começávamos a lutar wrestling com  ramos, silvas e friends, acabando sempre vencidos e embrulhados nas nossas próprias cordas. Para cima, para baixo, contornando pedras  e evitando árvores. Movíamo-nos à velocidade de cruzeiro de cem metros por hora. Desesperados, tentávamos chegar à base das vias,” hum, não deve ser esta, não bate certo!” e voltávamos para baixo. Até que nos perdemos, naqueles túneis de javalis. Arranhados, esfolados e esfarrapados, passamos a ter como principal objectivo sair dali para fora.

Quando finalmente vimos, literalmente, luz ao fim do túnel, já era demasiado tarde para tentar o quer que fosse.

Tínhamos aprendido duras lições, os arneses integrais foram postos de parte para sempre, uma mochila passou a fazer parte do material de aproximação e começaríamos a explorar a parede pelo lado esquerdo. E, principalmente, ganhamos uma aversão ao mato que nos ficou para sempre.

Decidimos deixar de parte  a Meadinha por uns tempos e no dia seguinte iríamos escalar a Nédia, que ostentava e ostenta ainda  o estrondoso título de maior parede portuguesa, onde nem suspeitávamos que iríamos viver um dos maiores épicos das nossas vidas. SM


Recordações da Época Passada – No Salto Tudo é Perfeito –

Junho 8, 2010

A temporada começa em força no Salto, o galego José António Villar à vista na Idade do Gelo (7a+). Foto: Oldemiro Lima

Escalar no Salto é uma aventura. Uma aventura que começa na estrada. Rapidamente baptizamos dois troços, como se de um rally se tratasse, entre a auto-estrada e a Sra. do Salto. Dez quilómetros de puro desassossego. O primeiro, entre a A4 e Recarei, ganhou o nome de Recarei Racers, porque a probabilidade de apanhar um carro tuning fora de mão em sentido contrário são para aí… dez em dez. Chegados a Recarei, respiramos fundo, por breves segundos, e preparamo-nos para enfrentar o troço: Mad Max Racers, onde entram em acção os motoqueiros aceleras sem capacete, executando desde configurações do estilo festival da GNR, isto é, ver quantas pessoas consegue levar uma mota em andamento, até malabarismos que só me lembro de ter visto no Poço da Morte.

O Poço da Morte. Como eu adorava aquilo, não havia S. João ou Sr. de Matosinhos em que não implorasse um bilhete. Primeiro era o fascínio das motas do mais puro estilo anos 70, depois o pré-espectáculo cá fora em que um mestre-de-cerimónias apresentava os intrépidos pilotos kamikaze, prestes a enfrentar uma morte certa. Convencidos, subíamos a íngreme escada e era preciso furar entre a multidão para se conseguir uma janela entre braços e ferros e assim ganhar a vista picada e vertiginosa sobre a arena. Aquilo começava e o barulho era ensurdecedor, primeiro, um carro ou kart ou sei lá o quê, depois as motas, com os pilotos a usarem lenços na cabeça em vez de capacete e sempre a acelerarem cada vez mais depressa, sem uma mão…sem duas… abriam o peito e esticavam os braços sempre com uma expressão impávida. Como é bom ser pequeno, desconhecer toda a Física, e as forças centrípetas e centrífugas servirem apenas para alimentar o vórtice da nossa imaginação. Acordo de repente. Esta não é estrada para se sonhar acordado. E, já chegamos ao Salto.

Descemos a pique para o terreiro, uma espécie de “tarrafal” poeirento onde conforme os dias podemos encontrar de tudo, literalmente de tudo. Motoqueiros de duas e quatro rodas em permanente e infernal sobe e desce da ladeira. Vendedores de banha da cobra. Piqueniques entre o caos de carros estacionados. Concentrações de smart´s. Equipas de vídeo casamenteiro a filmar pares de noivos, numa espécie de twilight zone nupcial. Insufláveis. Paredes artificiais de escalada. Campeões do rappel e do slide. E, por fim pescadores e banhistas num rio em que o oxigénio não abunda.

Do outro lado do rio, mesmo em frente ao “tarrafal”e na base da falésia trad fica uma bucólica e bonita quinta-casa- moinho. Mas, também, para os felizes moradores nesse jardim do éden terrestre a vida é uma aventura, pois são protagonistas da mais incrível história do Salto, o que não é pouco, e que dá nome a um sector: o Sonho Interrompido. A história prestes a passar à categoria de mito suburbano é mais ou menos assim: A noite decorria tranquila, embalada pelo doce correr das águas, quando, na estrada que passa em cima da falésia uns rufias da zona decidem atirar um carro pela ribanceira abaixo. Onde vai cair a viatura? Precisamente na divisão ao lado onde dormiam os donos e moradores de tão tranquila villa. Garantindo-lhes um despertar arrasador, alem do sonho interrompido.

Passamos este cenário de guerra, e esgueiramo-nos pela margem do rio, por um trilho secreto que nos leva ao nosso sector preferido: o Suaves Prestações, onde a base das vias forma uma espécie de ilha de tranquilidade. Ali a acção do tarrafal apenas nos chega como um som longínquo e incomodativo, um pouco como a televisão de uns vizinhos octogenários permanentemente sintonizada nas telenovelas e com o som nas alturas.  

E a escalada? Bom, a escalar, depois do que passamos, sentimo-nos tão radicais como os frequentadores de um shopping ao Domingo de tarde, ou tão aventureiros como quem tem de mudar de barbeiro. A única coisa que faz a adrenalina voltar a um estado latente é ter de voltar…SM