Escalada 2084. XIV Álbion.

Março 15, 2013

 

Escalada 2084 XIV Álbion.

No capítulo anterior: Nas entranhas do Argus a história da Revolução é revelada, em primeira mão, por um dos seus protagonistas, a Sebastião. O futuro afigura-se mais assustador do que nunca…

 

Um pontapé nas costas foi-me servido, como pequeno-almoço, ao quarto dia de navegação: “´Tá a acordar poltrão!”

 A custo, peguei no meu saco e segui o esbirro até ao convés. “Mas ainda é noite escura!”, exclamei desconfiado.

“Por minha vontade não verias mais o dia, mas existem outros planos para ti…”, disse o marinheiro com um sorriso de escárnio a bailar-lhe no rosto.

Aos poucos, na grande massa negra do oceano, comecei a vislumbrar umas luzes a aproximarem-se. Uma embarcação minúscula aproximava-se do gigante Argus. Baixaram-me num bote até ao mar e passados uns minutos estávamos encostados à pequena embarcação. Um salto e já estava no outro barco.

Mal toquei no convés, estatelei-me no chão ao comprido, parecia coberto de visgo. Um cheiro fortíssimo invadiu-me as narinas fazendo-me vomitar instantaneamente em cima de umas botas de borracha.

Bloodyhell!”, berrou uma voz acima de mim. Era o dono das botas, um tipo enorme e hirsuto vestido de borracha até ao peito, a olhar para mim furioso. A custo consegui sentar-me, ainda a tempo de ver o Argus a afastar-se. Que barco seria este e o que levaria no porão com este cheiro nauseabundo.

“Que cheiro é este?”, disse levando a mão ao nariz instintivamente.

A tripulação era composta por três ou quatro homens, pareciam admirados e divertidos: “Fish, old chap, that’sfish.”, e desataram às gargalhadas, “This is a fishing boat.

Devia parecer extremamente confuso, pois eles continuaram: “Fish, you know? Fish and chips?”, e puseram-se a fazer que comiam com as mãos.

Foi assim, a bordo de uma traineira de pesca, que cheguei à costa de Inglaterra.

O dia clareava quando chegámos ao porto. O movimento era caótico. Grandes caixotes eram descarregados, uma multidão difusa e ululante aglomerava-se na doca a implorar por um peixe, eclodindo num motim sempre que os pescadores lhes atiravam alguma coisa. Gaivotas faziam voos picados tentando a sua sorte, enquanto uma espécie de polícia andrajosa distribuía bastonadas a belo prazer. Os meus recentes amigos, alheios à confusão, faziam cigarros, sorriam e diziam palavrões com gosto, pareciam satisfeitos e em casa. Era isto a Inglaterra? Para mim, para já, não passava de um cheiro, um cheiro fedorento.

Despedi-me dos pescadores e encaminhei-me para a saída do porto, ninguém parecia dar por mim no caos, principalmente porque não levava comigo nada parecido com um peixe. Sentia-me verdadeiramente um estranho em terra estranha. Não era necessário ser criado por marcianos e viajar no espaço, quando os marcianos éramos nós mesmos.

O caos continuava fora da doca. Não havia viaturas, pelo menos como eu as conhecia. Carroças eram puxadas por animais, que só conhecia de fotos de história. Seriam provavelmente cavalos e bois. Enormes e ameaçadoras criaturas resfolegantes no frio da manhã.

Um assobio fez-me virar a cara. Vinha de uma carruagem ou coisa parecida. Aproximei-me e, para minha grande surpresa, em cima da carroça, segurando o que deveriam ser umas rédeas, estava Arnaldo.

“Li? Não percebo nada. Como desembarcaste?”

“No mesmo barco que tu”, riu, “ não me viste porque estavas muito ocupado a vomitar. Sobe!”

Subi e sentei-me ao lado dele. Destravou a carroça e o animal começou a andar. Começámos a afastarmo-nos da zona portuária por ruas pejadas de lama e excrementos de animais, a abarrotar de gente num bulício constante. Decorreu assim uma hora, até que saímos da povoação para entrarmos numa auto-estrada de seis faixas.

“Este…veículo…pode circular aqui?”, perguntei incrédulo.

“Aqui podem”, respondeu, “não há outros…”

E de facto o trânsito de carroças, carros de bois, caleches e demais veículos movidos a animais era intenso, assim como o de bicicletas, muitas bicicletas, até pareciam ter uma faixa própria por causa dos excrementos. Nas margens circulava também muita gente a pé, a grande maioria com ar acossado.

“Não fazia ideia que isto era o resultado do embargo.”

“Isto? Isto…não é nada.”

O preço a pagar por ficar de fora da União das Repúblicas Populares da Eurásia, valia ao Reino Unido o estatuto de “Cuba do séc. XXI”. O petróleo há muito que não existia, novos combustíveis desenvolvidos com tecnologia chinesa, garantiam à Eurásia o monopólio mundial energético. O embargo total que durava há mais de 40 anos, provocara um declínio tecnológico acentuado, os motores de combustão interna que funcionavam a derivados de petróleo ficaram obsoletos. Sem acesso aos novos combustíveis, nem a novas tecnologias e sem capacidade para as desenvolver, a única solução fora o regresso ao carvão e ao vapor, fazendo uso das suas famosas jazidas. A electricidade tornara-se um bem muito escasso e só fornecido a edifícios públicos, a tracção animal voltara em força. A Inglaterra estava de volta ao séc. XIX.

Umas horas largas de viagem passaram e não se podia dizer fosse a correr. A princípio, o ritmo lento enervara-me, mas depois comecei a apreciar, havia tempo para olhar e pensar o que acontecia à nossa volta, como se fosse uma desaceleração temporal. Estava de facto noutro mundo. Um admirável mundo velho.

Saímos da auto-estrada e uma via secundária levou-nos até uma velha estalagem. Uma placa, presa a um ferro retorcido, rangia com a brisa da tarde. Dizia: The Old Job Inn. Entrámos. Um cheiro a fritos misturado com tabaco deu-nos as boas vindas. De resto, nada se mexeu na penumbra interior, a única clientela era um par de velhos desgrenhados, a beberricarem uma mistela preta em grandes canecas de vidro.

Sentámo-nos a um canto. As paredes, cobertas de alcatifa peganhenta, ostentavam fotos de outros tempos com pessoas felizes, em poses sorridentes, nos seus postos de trabalho. O chão estava coberto se serrim e beatas, um pasto ideal para as muitas baratas que por ali andavam a monte.

Um tipo ruivo enorme, envolvido num avental que em tempos teria sido branco, aproximou-se, era o estalajadeiro. Quando reconheceu o meu companheiro, abriu os braços gigantescos, como tenazes. Fez-se um ridículo compasso de espera, com o homem ali parado de braços abertos, até que Arnaldo, relutantemente, se levantou para se deixar esmagar. Todo o seu velho esqueleto rangia quando o estalajadeiro disse: “Arnaldo! You are fatter than ever! Welcome to the Old Job Inn!” , e redobrou a força do abraço. “Já vos trago algo para comer e beber, devem estar famintos.”

Eu estava maravilhado com a voz cristalina de tenor que saíra das entranhas da criatura, e observava divertido Li a ficar asfixiado. Por fim separaram-se e o homem afastou-se na direcção da cozinha.

“Já aqui havias estado?”

“Demasiadas vezes…”, desabafou Li, sentando-se e tentando recuperar o fôlego.

O estalajadeiro reapareceu: “Venham para dentro, estamos mais confortáveis na cozinha.”

Seguimo-lo por uma espécie de porta de saloon, para entrarmos na cozinha do estabelecimento. Pilhas de louça suja encastelavam-se em cima de bancas, um fogão a lenha escorria, literalmente, óleo para o chão, coberto de serrim como o resto do estabelecimento. Ao centro, numa mesa redonda, estavam sentados dois tipos com ar de poucos amigos e um terceiro, armado, estava de pé a vigiar a porta. “Sentem-se”, disse o estalajadeiro, puxando uma cadeira e pontapeando com raiva, ao mesmo tempo, uma ratazana que se lhe atravessara no caminho.

Os desconhecidos, não diziam palavra. Sentámo-nos. O nosso anfitrião colocou  em cima da mesa um monte de batatas e peixe frito, envolto em papel mata-borrão, e duas canecas de uma mistela preta. “Vá empanturrem-se, que precisam de encher essas peles.”

Sentia-me ameaçado por aquela comida desconhecida. Li, por seu lado, tirou uma batata delicadamente como se estivesse na presença da mais fina iguaria. Atrevi-me a perguntar: “Não terá algo vegetariano?”

“Não gostas de peixinho?”, disse o cozinheiro desatando a rir, “vais ter de te habituar a comida de homem, a partir de agora”, e escarrou para o chão, como que a acentuar o que acabara de dizer.

“És um javardo de merda, Patrick!” Alguém acabara de entrar e a voz era-me terrivelmente familiar.

“Carlos!?!”

 

Na próxima semana será publicado a décima quinta parte: Revelations. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Março 8, 2013

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

 

No capítulo anterior: A mudança de chip num salão de tatoos clandestino deixa Sebastião KO.

 

Dor. Suores frios. Algo me queimava as costas. Mais dor. Não, definitivamente não sonhava. Acordei ainda na cadeira de barbeiro, dentro da cave bolorenta. Olhei em volta e lá estava o velho a um canto a fumar. Sentei-me e um espasmo fez-me encolher instintivamente.

“Vai precisar disto por uns tempos”, disse o velho secamente, atirando-me de seguida um tubo cheio de analgésicos.

Saí para o beco. Ao fechar-se a porta, o som dos sininhos quebrou o silêncio na noite escura. Entrara ali como operário fabril da linha montagem de tofu e saía agora com outro chip, este programável com um dispositivo especial, conforme as circunstâncias e situações. Ainda me encontrava sob o efeito da surpresa, nem sequer concebera que fosse possível este género de operação, nem nunca ouvira falar de tal. Eis uma vantagem de ter entrado no submundo. Nessa noite, seria um estivador do Porto de Leixões com licença para trabalhar no super porta-contentores da Tofu Brothers, o Argus. Amanhã, não sabia o que seria, a única certeza que tinha é que seria um clandestino para sempre, não havia retorno.

Tinha aproveitado a última semana para me despedir deste mundo, deste país sempre à beira do abismo e sempre a reinventar-se. Não teria saudades. Bom, havia a LG, mas isso era uma utopia maior que todo o comunismo deste mundo e do outro.

Entrei no terminal de Leixões pela antiga doca de pesca para não levantar suspeitas. Os pórticos não constituíram problemas devido ao meu novo chip. Tentava fazer um andar pesado e confiante, o que eu imaginava ser o andar de um estivador empedernido nascido e criado em Leixões. Pareceu resultar, provavelmente por não estar ninguém aquela hora por ali, ao fundo já se via o gigantesco Argus, o mega porta-contentores com pavilhão Madeirense ao serviço da Tofu Brothers, com destino às Repúblicas Populares do Norte da Europa.

Subi a bordo sem dificuldades. Um marinheiro, com cara de poucos amigos, reconheceu o meu chip com um dispositivo. Devia ser um infiltrado. Fez-me descer para as entranhas do navio, passando por estreitos corredores de metal, cada vez mais apertados. O barco a certa altura transformou-se num emaranhado de passagens estreitas, escadas, tubagens e cabos. Abriu uma porta, não sem dificuldade, e de dentro saiu uma nuvem quente. Tabaco misturado com urina, devia ser o ar condicionado. “Aqui está o camarote”, disse o marinheiro com um sorriso trocista, “Boa viagem.” E desapareceu no labirinto de metal.

Entrei, não conseguia ver nada na obscuridade. Tacteei, do meu lado esquerdo, aquilo que parecia ser um beliche, em frente pressentia alguém a fumar. Já mais habituado à escuridão, encontrei uma espécie de interruptor, liguei-o e uma luz amarelada acendeu-se por cima da porta. Era um camarote mais a fugir para cela, dois beliches, um de cada lado, e ao fundo um balde com uma tampa de madeira. À minha frente estava sentado, na cama de baixo, um velho chinês a fumar.

Apanhei um susto: “Foda-se!”, exclamei sem me conseguir conter.

Ele fitou-me interrogativamente.

“Você…não trabalha no Red October? Ou então não tem um irmão ou primo lá, que gosta de dizer provérbios?”

“Acha que todos os chineses são iguais, é isso que está a querer dizer?”

“Não, não … de todo, só que você é de facto muito, muito parecido, com uma pessoa que conheci hoje”, disse desconfiado.

“Aquele que pergunta, pode ser um tolo por cinco minutos…”

“Ok, ok…Já vi que é você”, interrompi.

“… aquele que deixa de perguntar, será um tolo para o resto da vida”, continuou com um sorriso.

“Estou a ver que vai ser uma longa viagem…”

Era a minha primeira viagem de barco e por isso passei as primeiras vinte e quatro horas praticamente deitado com um enjoo constante, só me atrevendo a levantar para ir ao balde. Ao segundo dia, consegui sentar-me pela primeira vez sem sentir o mundo a andar à roda. Sentia-me pessimamente. O meu amigo chinês estava sentado à minha frente a comer, ou melhor sorver, uma canja fumegante. Sugava avidamente os últimos restos de líquido e depois ficou a roer, fleumaticamente, uma espécie de osso sintético que encontra no fundo. Aquilo fez-me imediatamente correr para o balde.

“Merda!”, praguejei, tropeçando e quase enfiando a cara no fétido recipiente. Voltei ao meu lugar, lívido, devia parecer um fantasma, sentei-me, enfiei a cabeça entre os joelhos e só conseguia dizer: “Merda, merda.”

Um ruído à minha frente fez-me levantar a cabeça. O chinês estendia-me uma taça de chá: ”Beba isto.” Bebi sem hesitar e de facto passado algum tempo já me sentia um pouco melhor.

“Obrigado, você terá um nome, não?”

“Chamam-me Li, mas fui baptizado Arnaldo Li.”

Perante a minha perplexidade, acrescenta: “Nasci em Portugal, em Vila do Conde mais precisamente na cave de um bazar chinês.”

Foi assim que conheci Li. Como sempre, nada era aquilo que parecia ser. Nos quatro dias que durou aquela viagem aprendi mais sobre a História recente do que ao longo de toda a minha vida. O velho decrépito que estava à minha frente tinha sido uma figura de proa no movimento revolucionário dos anos trinta, que culminara na grande revolução de 2040. Nascera em 2013, o segundo de muitos anos de intervenção externa em Portugal, era o que se podia chamar um filho da crise. Correspondeu às expectativas dos que viam a nova geração como a única salvação para a construção de um futuro radioso. Transformou-se num proeminente intelectual comunista, mas fiel aos seus princípios não alinhou no que viria a seguir. Antes que o fizessem desaparecer, passara à clandestinidade. Seguiram-se anos de provações, fugas, fome e frio, até que foi acolhido no seio das BMV.

Na penumbra das entranhas do Argus perdera a noção do dia e da noite, dormia quando via o meu companheiro dormir, acordava geralmente com o seu primeiro cigarro, acendia um para mim e pedia-lhe que me falasse dos tempos antigos: “Li, como é que tudo começou verdadeiramente? O que nos foi ensinado, em minha opinião, não passam de patranhas acerca dos actos heróicos e luta titânica dos membros da Comissão contras os porcos capitalistas, uma história que nem para entreter crianças serve.”

“A origem do movimento esteve na grande massa de desempregados criada pela crise da divida soberana nos países da antiga União Europeia. A certo ponto da crise essa massa atingiu proporções inimagináveis de milhões e milhões de indivíduos politicamente neutros, isto é, não enquadrados em nenhuma força política, muitos nunca haviam votado sequer. Tinham em comum, para além da situação laboral, um desprezo absoluto pela própria política em si e uma indignação feroz provocado pelo estilo de vida perdido, ou como diziam os mais cínicos, pelo poder de compra perdido.”

Estava lançado, sorveu um pouco de chá e continuou: “Politicamente neutros constituíam um campo fértil onde semear uma nova ideologia, mas nada de novo surgia. Assim à falta de melhor o Marxismo estava ali à mão, como sempre e à semelhança do que já se passara na Grande Depressão do séc. XX, explicava o declínio do Capitalismo e prometia um mundo igualitário e justo, livre dos capitalistas de casino que através da alta finança levaram milhões ao desemprego e miséria e colocaram velhas nações soberanas de joelhos, uma ideia geral aliás bem vendida pela propaganda. A crise, essa, era dificilmente compreendida e assimilada nas suas origens pelo homem comum. Contra esse demónio inexplicável que se abatia sobre ele com fúria, erguia a sua indignação cega, num processo de acção-reação. O indivíduo atomizado só era capaz de uma dicotomia: indignação-devoção. Indignação contra o monstro difuso do capital, devoção para com o sistema marxista que se apresentava como solução salvadora.”

“Claro, uma ideia simples, com a dicotomia do Bem e do Mal claramente identificada num demónio e numa salvação aparente, uma fórmula de génio e recorrente.” Acendo um cigarro, e ofereci outro a Li.

“Absolutamente, mas o momento em que foi aplicada é que foi de génio, enfim…foi eficaz…”, acende o cigarro e continua: “Chegados a um beco sem saída histórico, toda essa gente era como um conjunto de moléculas individualizadas e desesperada, prontas a movimentar-se em qualquer direcção.”

“Mas essa direcção tardava em surgir, não?”

“Sim. O fim da história, o abismo, pressupunha um novo começo, mas ele nunca chegou, cada homem perdeu a esperança em si mesmo.”

“Uma vez li que cada homem foi criado para que houvesse um começo.”

“ Sim, sim… a Cidade de Deus… é de facto um livro admirável, mas continuo a acreditar que Deus não é chamado aos negócios dos Homens, aliás Ele próprio é uma criação do Homem e não o contrário. Nem precisamos Dele para chegarmos ao Paraíso e, ao contrário de Santo Agostinho, acredito que esse Paraíso é possível aqui na Terra. De qualquer forma, a única tábua de salvação que nos foi oferecida foi o Marxismo.”

“Isso foi como morrer de novo… para mim Santo Agostinho refere-se à capacidade de cada homem criar algo de novo a partir de si mesmo e assim regenerar-se pela criatividade, assumindo no processo a sua liberdade…enveredar pela torrente materialista foi um suicídio colectivo.”

“Pode haver razão nesse argumento, mas esse homem nunca surgiu e os que existiam estavam vazios e mais predispostas a caminhar em direcção ao abismo que a nascer de novo. Na altura foi como se acendesse uma luz ao fundo do túnel, as moléculas precipitaram-se numa longa marcha e luta suicida, nada mais interessava do que fugir da realidade instalada.”

“E essa luz…quem a acendeu foi a Comissão…”

“Exactamente, da qual eu fazia parte… infelizmente…”

“Mas o que despoletou mesmo a Revolução?”

“Existia a matéria-prima, faltava a faísca para a ignição do movimento. A descoberta de um relatório secreto com os planos de remilitarização da Alemanha, financiada através das mais-valias obtidas com os juros dos empréstimos aos países sobre-endividados do Sul, foi o suficiente para despertar o movimento e iniciar a Revolução simultaneamente em vários países do Sul, depois a guerra civil alastrou-se por toda a Eurásia, até à vitória final do movimento. Não interessava que esse relatório fosse falso e forjado pelo núcleo duro do que viria a ser a Comissão, uma mentira repetida milhões de vezes e de forma viral, rapidamente se transforma na verdade mais cristalina.”

“Esse relatório era falso? Não foi isso que nos ensinaram na escola?”, perguntei perplexo e incrédulo.

“Eu próprio ajudei a escrevê-lo”, disse Li a sorrir, “na altura a minha mente soltava chispas, não media as consequências daquilo que fazia.”

“Jogaram com o fantasma do nazismo, brilhante…”

“É sempre mais fácil acordar um fantasma que um vivo…”

“A rede naturalmente ajudou à disseminação do relatório.”

“Foi facílimo, uma questão de dias, uma infecção viral como se dizia na altura e o movimento revolucionário começou.”

“Engraçado que…por outro lado esse relatório lembra-me Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Li desatou a rir: “O princípio foi o mesmo, mas os efeitos… os efeitos foram muito mais devastadores…ou não… pensando bem foi uma inversão irónica dos papéis, mas o que interessou na altura foi a eficácia da mentira, o elemento certo na altura certa para desencadear a explosão.”

“Foi assim que nasceu o Governo da Comissão?”

“Mais ou menos. Das cinzas da guerra e da destruição nasceu um novo governo de inspiração Marxista, comum a todos os países da Eurásia: A Ditadura dos Indignados. Era suposto ser um governo de transição até ser implementado o Comunismo verdadeiro e a paz e a prosperidade justa reinarem  finalmente na Terra.”

“Mas…ainda dura até hoje…a ditadura.”

“Sim, instalados no poder, o passo seguinte foi naturalmente educar o povo e a correcção dos degenerados, de modo a criarem o “homem novo” sem vícios, apto a viver em pleno as alegrias do Comunismo.

“Foi então que começaram as purgas. A grande purificação.”

“Inicialmente, a fúria foi dirigida naturalmente aos opositores do regime e às camadas sociais que ainda detinham alguns privilégios. Mas uma vez que a oposição se deixou de fazer sentir, passaram a actuar contra as divergências ideológicas que naturalmente surgiam no próprio movimento, até conseguirem criar uma só corrente e um pensamento único. A estratégia seguinte, que se estende até aos dias de hoje, constitui em isolar ainda mais os próprios indivíduos.”

“E aí ,mais uma vez, as redes sociais tiveram um papel fundamental.”

“Exacto, tal como no início, para desencadear o movimento, eram o instrumento perfeito, uma linha de manipulação gratuita com acesso privilegiado a cada cérebro. No auge da sua hegemonia, o antigo Facebook era como um Campo de Concentração das Ideias”

“Como?”

Li sorriu: “ Um local para onde as ideias eram mandadas para morrer.”

Sorri, perplexo… a mente daquele velho chinês brilhava na penumbra daquela cela, fazendo encaixar peça com peça no puzzle histórico: “Nunca percebi porque é que chamavam redes sociais ao antigo Facebook.”

“Era um eufemismo para disfarçar a sua hegemonia. A criatividade humana foi sendo destruída aos poucos. Digo criatividade como a capacidade de acrescentar algo de si mesmo ao mundo. Sem conteúdo apenas ficava na rede uma presença espectral, a ilusão participativa conseguia-se pela apropriação e não pela criação, a seguir vinha a replicação, milhões e milhões de vezes criando uma nuvem de lixo virtual, a vida transformara-se num nevoeiro infinito.”

“Mas essas redes que então existiam não eram supostamente para fazer amigos e promover a socialização.”

“A dependência pelo computador há muito que isolara o individuo, desumanizando-o, as redes sociais só acentuaram o caminho e levaram-no mais além. Rodear-se amigos virtuais apenas incrementava a solidão face aos outros homens, já não eram pessoas que estavam atrás de cada perfil mas sim produtos.”

“Nunquam minus solum esse quam cum solus esset.”

“Sabes Latim, Sebastião?”, perguntou visivelmente surpreendido.

“Tenho uma amiga que sabe…outro dia mandou-me essa frase…e desde então não me sai da cabeça.”

“Nunca ele esteve menos solitário do que quando estava a sós”, disse Li, quase para ele próprio, como que a pensar alto, “Cícero sabia bem do que falava…dois mil anos e nada muda, nada…apenas se agudizaram e aperfeiçoaram os instrumentos de tortura”

“Foi por essa altura que saltaste fora?”

“Não saltei fora, fui digamos assim, apagado da fotografia, o caminho do terror totalitário, não era o meu caminho…”

“Então acreditas mesmo que o Paraíso é possível na Terra.”

“Acredito nos Homens, apenas isso, acredito que é possível construir um mundo melhor…aqui na Terra, acredito que é sempre possível começar de novo, como disseste.”

“Porque é que a história se repete continuamente, Li?”

“Porque a natureza humana é una e imutável…”

Levantei-me para caminhar um pouco: “Achas mesmo que a Ditadura dos Indignados se vai transformar num sistema totalitário?”

“Não acho, tenho a certeza, existem planos para uma expansão militar para lá da Eurásia, para além de planos terríveis de edução e reeducação do indivíduo e claro a manipulação genética abusiva continua, em busca do Homem perfeito.”

“Que planos são esses?…”

“Por exemplo, o plano educacional avançado, que consiste basicamente em abolir a escolaridade obrigatória para a maioria da população, um plano a ser concretizado em duas ou três gerações. Primeiro acabam com a escolaridade, depois com as próprias escolas, segundo os especialistas em 50 anos a maioria da população será analfabeta.”

“Isso é terrível, terrível, é um retrocesso civilizacional.”

“Achas?”

“Como pensam eles manter o progresso tecnológico dessa forma?”

“É simples, pela segregação, haverá sempre um grupo ou extracto de indivíduos instruídos e apurados geneticamente para pensarem exclusivamente em termos matemáticos e lógicos, cérebros exclusivamente geométricos… serão a elite.”

“Essa ideia não é nova, acho que Jaques Barzun profetizou uma coisa parecida num dos seus livros, na altura fez-me sorrir, nunca imaginei que as coisas pudessem chegar a esse ponto.”

“Não sei onde se inspiraram e custa-me a crer que as luminárias da Comissão algumas vez tenham lido esse Barzun, mas imaginação para nos foder não lhes falta, e o caminho que têm seguido naturalmente os levou a essa solução”

“Como é que eles pensam impor isso…é a machadada final na liberdade individual, a seguir só a lobotomia generalizada.”

“Será fácil…”, Li sorria, enquanto acendia mais um cigarro. Soltou uma longa baforada e a sua cara assumiu uma expressão sombria quando continuou: “Não será imposto…não será imposto… e sim será uma lobotomia geral… mas consentida.”

“Como assim.”

“A liberdade não interessa minimamente a ninguém, a única coisa que interessa é…digamos assim…o prazer…o famoso estilo de vida ocidental centrado no consumo, que no nosso regime é garantido pelo capitalismo selvagem ao estilo chinês. Quanto à escola…já ninguém a quer frequentar e os professores, de resto, não conseguem ensinar. Por exemplo, ninguém lê, ler mesmo, nem sequer sente necessidade disso, pois a tecnologia é baseada na imagem e na oralidade. Da iliteracia ao analfabetismo é um simples passo, será indolor e ninguém dará por isso.”

Estava incrédulo com estas revelações que excediam a imaginação mais audaz, puxei também de um cigarro e fiquei um longo momento a matutar, mas o silêncio queimava como ácido, fazendo-me fervilhar a cabeça: ” Li, mas tu ajudastes a que as coisas chegassem a este ponto, porquê as Brigadas Marxistas, para quê lutar, para começar tudo de novo…”

“Eu estou velho e acabado, Sebastião… procuro apenas um espécie de redenção, para não ir deste mundo com o peso da sua destruição. Uma bala na cabeça se calhar teria sido o melhor caminho para mim… “, parecia, ao falar, ter cem anos, e cheguei a temer que sucumbisse ali à minha frente. “Mas a bala do destino nunca me encontrou, ou talvez a minha cobardia me desse artes de malabarista para dela fugir…não sei.”

Um silêncio pesado instalou-se. O navio parára por uma razão qualquer, deixando-nos à deriva nos nossos próprios pensamentos. Sentia-me como Jonas o profeta. Preso numas estranhas entranhas…

 

 

Na próxima semana será publicado a décima quarta parte: Álbion. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

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Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

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Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Março 1, 2013

Escalada 2084 XII Outubro Vermelho.

No capítulo anterior: “Aristides”, o pombo, acompanha agora Sebastião para todo o lado. No fim da noite uma decisão impôs-se, abrindo-se uma porta num aparente beco sem saída.

 

Não foi difícil dar com o sítio. A morada, que tinha vindo na pata do pombo, batia certo.

A resposta havia tardado em chegar. Uma semana, que me pareceu um ano, havia passado. Sentia agora que todos os meus passos eram vigiados, como se tivesse acordado para uma realidade diferente. Hipersensível e a ressacar da droga do embrutecimento, todos os olhos eram câmaras e todas as câmaras tinham olhos inquisidores por trás. Na infinita espiral paranóica onde caíra, parecia sentir os impulsos eléctricos do chip a revelarem todos os meus passos para e os esbirros da DRAS. Falava sozinho, suava, descobria novos tiques todos os dias. Estava um farrapo. O Carlos desapareceu. Geralmente isso acontecia quando era chamado para treinos no exército, do qual era reservista. Sabíamos que geralmente em duas semanas estaria de volta. Mas agora perguntava-me se não teria sido apagado do mapa, o que só fazia aumentar a minha inquietação e alimentar negras conjecturas. Seria eu o próximo?

Num beco escuro numa zona suja da Baixa, uma montra estilhaçada estava tapada com posters, de modo a não se ver o interior. Em cima, uma placa dizia, escrito numa fonte a imitar caracteres cirílicos, Red OctoberTattoo.

Entrei. Ao bater a porta, um espanta espíritos com pequenos sinos anunciou a minha presença. A sala era escura, apenas iluminada por um candeeiro do género dos usados nas salas de operações. Debaixo da luz intensa estava uma cliente deitada de costas numa cadeira de barbeiro reclinada. Sobre ela, sentado num banco ridiculamente pequeno, estava um tipo gordo e careca com cara de mongol, sem um único pelo, excepto uma barbicha pontiaguda de mais de um palmo, espetada debaixo do queixo. Parecia imperturbável com a minha chegada. Já mais habituado à iluminação reparo que a um canto, sentado num banco corrido de madeira, está um velho chinês a fumar um cigarro. A silhueta escanzelada era pobremente dissimulada por um fato de trabalho cinzento. A cara, apagada e enrugada e também ela cinzenta, dava a sensação de todo ele ser feito de cinzas. 

Aproximei-me do tatuador. Estava concentrado a desenhar o que parecia ser o famoso quadro de Gerasimov, Lenine na tribuna, nas costas de uma mulher gorda adormecida. As tatuagens eram bem aceites e até encorajadas pela Comissão, estando na moda as cenas do realismo social soviético.

“Bonita tatuagem”, digo tentando quebrar o gelo, “as bandeiras em baixo vão ficar vermelhas?”

O homem continuou impávido o seu trabalho sem desviar a atenção da agulha laser.

“Com essas costinhas quase que dá para representar o quadro em tamanho real…” Nem sequer olhou para mim. A piada também não ajudara. Em desespero de causa resolvi dizer: “Rosebud”.

O tatuador continuou na mesma, mas o velho chinês, que parecia uma estátua de cera, levantou-se, apagou o cigarro no chão e fez-me sinal para o seguir. Fez-me passar por uma porta ridiculamente baixa, com fitas para as moscas, e entrar numa sala cheia de fumo, onde, ao centro, um grupo de velhos chineses jogava majong a dinheiro. Nem deram pela nossa passagem. Mais uma porta levou-nos a um quarto vazio e sem janelas. O velho ligou uma lanterna que trazia no bolso e abriu um alçapão dissimulado por um tapete, começou a descer dizendo: “Siga-me”.

“Hah! afinal alguém fala aqui.”

“As palavras são prata…o silêncio é de ouro…”, disse o chinês enquanto desaparecia na escuridão.

Segui-o pelas escadas que davam para uma cave escura e bafienta. O velho ligou uma luz. Não existe mais nada para além de uma cadeira de barbeiro, uma estranha máquina e uma banca com rodas com o que pareciam ser instrumentos de cirurgia.

“O seu amigo lá em cima não é nada simpático.”

“Tem de o desculpar, é surdo de nascença.”

“Hah…”

“Mas é um excelente tatuador, por falar nisso já escolheu que tatuagem quer…para disfarçar.”

“Tinha pensado num lagarto, sabe… como sou cidadão-atleta-escalador …”

“Parece apropriado, embora esteja um pouco fora de moda.”

“E o que é que estaria na moda, já agora, se tiver a delicadeza de elucidar-me.”

“Um coração selvagem, por exemplo…”

“Pois…acho que me fico pelo  lagarto, obrigado.”

“Deite-se aí e relaxe, que ele não tarda em descer”, e encostou-se a um canto a fumar.

“Vai doer?”

“A tattoo?”

“Não! A porra da mudança do chip!”

“A alegria tal como a dor não vêm por si, respondem ao chamado dos homens.”

“Isso é suposto ajudar-me?”

“Pareceu-me mais simpático do que dizer-lhe que não temos anestesia.”

Começava a ficar com suores frios. Por fim, o tatuador surdo chegou, calçou as luvas de borracha e pegou num bisturi, ficando especado à minha frente. O velho disse baixinho: “Vire-se”. Depois afastou-se um pouco e pareceu procurar qualquer coisa na banca de cirurgia. Quando voltou, entregou-me um tubo de PVC envolvido numa gaze.

“Morda isto.”

 

Na próxima semana será publicado um episódio duplo como décima terceira parte: Estranhas Entranhas. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. XI Aristides.

Fevereiro 22, 2013

Escalada 2084. XI Aristides. 

No capítulo anterior: A chave do enigma “Rosebud” parece estar com as Brigadas Marxistas Verdadeiras. Uma proposta/ultimato é oferecida a Sebastião no pombal secreto da União Columbófila Ocidente Vermelho.

“Que trazes aí?”

Estávamos presos dentro do Verme, num dos túneis, aparentemente uma avaria no sistema magnético central parara toda a circulação de comboios. A gaiola com o pombo acompanhava-me para todo o lado agora. Não me atrevia a deixá-la em lado nenhum. Um medo visceral apoderara-se de mim. Uma coisa era o chip e o controlo aparente ou imaginado, outra coisa era conhecer a sede da polícia secreta e estar cara a cara com eles. Transformar dúvidas em certezas nunca foi o melhor paliativo para um animal neurótico.

Ter uma vida controlada era uma questão que quase não se colocava quando se levava com um chip à nascença e não se conhecia outro mundo senão este. Na infância era-nos estendida uma mão invisível. Há falta de melhor, agarrávamo-la com força. Servia-nos de guia, tomava conta de nós, levando-nos ao colo e à tona no rio de solidão espessa a que chamávamos vida. Quando a idade, doença ou desvio fazia de nós uma areia na engrenagem, era simples, simplesmente a mesma mão empurrávamos para baixo, afogando-nos na lama para sempre. De criadores a criaturas dispensáveis. Existe sempre alguém que concebe um céu que é o inferno dos outros.

Ao sair da zona de conforto, em que a actividade cerebral não era muito diferente da de um Zombie, colocara-me numa posição insustentável entre dois muros, um institucional e, agora, outro terrorista. Como num torno, sentia esses muros a moverem-se e a prepararem-se para me esmagar.

Levantei discretamente o pano que cobria a gaiola: “ É um pombo.”

“Foda-se, para que queres isso?”

“Vou montar um pombal.”

Deixara-os sem palavras, olhavam para mim confusos e receosos ao mesmo tempo como se estivessem na presença de um louco perigoso: “’Tás a falar a sério?”

“Completamente, comprei este pombo, é um campeão?”, e levantei a gaiola para mostrar o bicho, mas este, infelizmente, mostrava um ar pouco competitivo.

“Não me parece que vás longe com esse…que hobby mais fatela.”

“Não é um hobby é um desporto…e dá para ganhar muito dinheirinho nas apostas.”

“Claro,vais ficar milionário, tu que vens de uma conhecida linhagem de criadores de pombos”, escarneceu Jaime.

“Está-te na massa do sangue”, continuou Carlos.

A risota era geral, o que acabava por servir os meus propósitos, lancei mais uma acha para a fogueira: “Também serve de animal de estimação…chamei-o Aristides.”

O Jaime virou-se para o pombo: “Aristides, o teu dono não bate bem da bola.”

“Podes sempre por uma trela no pombo e levá-lo a passear, ou a fazer xixi”, disse Carlos.

“Com uma trela andamos nós todos!”, rematei, fingindo-me exasperado.

“Uma trela?”, e Guilherme levou a mão ao pescoço como que a procurar algo.

“Ele refere-se ao chip, palerma”, rosnou Jaime.

“Eu sei estúpido…a ironia grossa nunca foi o teu forte…por outro lado, talvez se referisse à erosão da liberdade na sociedade pós-revolucionária, acompanhada de uma desumanização crescente que nos tornou marionetes do sistema.”

Olharam todos para ele atónitos.

“Obrigado por me interpretares de forma tão graciosa”, disse a sorrir.

“Não tens de quê. E digo mais. Isso na escalada pós-moderna é traduzidopela perda gradual da subjectividade, do carácter aleatório, da fé simples no outro e pela subserviência ao sistema pontual.”

O espanto era geral. Jaime estava boquiaberto. Tomás enrolava um charro nervoso. Carlos dava grandes passadas, inquieto, pois nunca punha em causa o sistema, que para ele era perfeito, aliás o mundo para ele começara com o nascimento de Marx e a própria escalada não era mais que uma extensão do materialismo Marxista.

“Não me olhem assim, também posso por tudo em causa se para aí estiver virado”, disse Guilherme pegando no charro que Tomás lhe passou, “só que é muito stressante.”

Carlos estava mais raivoso do que nunca: “Se o sistema de pontos e de rankings é assim tão perverso e odioso, porque é que a esmagadora maioria dos escaladores aderiu a ele?” E de dedo em riste acrescentou: “E com gosto?”

Eza é a grande guestão!”, disse Guilherme pelo nariz.

“Para a qual não há guesposta”, rematou Tomás no mesmo tom.

A questão ficou a pairar no ar, o ambiente claustrofóbico do comboio preso no túnel estava a passar a sua factura e a conversa estava a extremar-se.

Disparei quase num monólogo: “A deserção gradual do espírito crítico conjugado com o abandono dos valores tradicionais da escalada criaram, aos poucos, um vácuo, que foi naturalmente ocupado por rankings e sistemas de graduação e pontuação. Estes favorecem e potenciam a criação de uma estrutura competitiva, que aos pouco foi isolando os indivíduos no seu próprio ego.”

“Vai-te foder…”, disse Carlos.

“Tens toda a razão”, apoiou Guilherme.

“Isso não explica a adesão em massa dos escaladores”, disparou Carlos.

Continuei: “Este sistema é abraçado com fervor, mesmo pelos que são inicialmente contra, porque não existe força para nadar para fora da corrente. O escalador isolado e sem valores agarra-se à única coisa que parece fazer sentido: a lógica pesada dos números. Essa é uma lógica infinita e constitui a única estrutura que habita o vazio, o deserto dos valores. A barca da lógica recolhe o náufrago e leva-o cada vez para mais longe do espírito e como bilhete de entrada apenas exigiu lealdade, devoção, zero de autonomia e zero de emoções complexas, apenas reacções emocionais básicas e imediatas do género das usadas no antigo Facebook, sem necessidade de explicação ou argumentarão, aliás o vácuo não se explica.”

“Olhem vai andar!”, disse Guilherme. “ Segurem-se!”

Um solavanco e o verme disparou a toda a velocidade, pondo um ponto final às dissertações, como se o movimento do comboio fosse o próprio movimento da História.

Chegámos com atraso ao Muralha, onde a confusão já estava instalada. Uma amálgama de “agarrados” lutava por um espaço na parede. “Macacos” saltavam de presa em presa, com os pés no ar. “Técnicos” esmiuçavam bizarros movimentos, numa tentativa de camuflar a falta de força macaca. “Treiners” exercitavam-se cronometrando-se ao segundo. “Preguiçosos” jaziam languidamente em cima dos colchões como se estivessem num lupanar. “Indecisos” davam voltas ao muro, tocando em todas as presas, sem se decidirem por nenhuma via ou bloco, eram os chamados “vagabundos dos colchões”. “Desportivos” faziam de hamsters na parede, entupindo o trânsito vertical a toda a hora.

O dono-do-muro assistia a tudo, com um sorriso beatífico, no seu promontório envidraçado a que gostava de chamar sala de meditação.

Mal me viu a entrar com a gaiola desceu furioso: “Que é que trazes aí?”

“É um pombo…é o Aristides…”, e levantei a gaiola para que visse melhor.

Pareceu desconcertado por momentos, depois rapidamente retomou a compostura: “Leva já isso lá para fora, não são permitidos animais aqui!”

“ A sério?…pensei que era exactamente ao contrário…”

“Muito engraçado…leva já esse, esse…rato dos céus…esse monte de doenças daqui para fora!”

“É um pombo correio, idiota! São vacinados.”

“Até podia estar embalsamado, já lá fora!”, berrou vermelho de raiva, meneando a cabeça ao mesmo tempo e fazendo a trança que lhe pendia de lado parecer um chicote.

Não sabia o que fazer, não me podia separar do bicho. Saí para a rua e sentei-me no passeio encostado a uma parede. Tinha de tomar uma decisão, não podia adiar mais. Iria custar-me deixar este mundo e, por incrível que parecesse, também as pessoas que por reflexo ainda chamava de amigos. Pressentia que existia ainda algo, talvez escondido no tutano dos nossos ossos, um resto de humanidade que nenhuma ideologia ou sistema conseguira sugar, algo que em tempos se dizia fazer rodar o mundo.

Rasguei uma folha de papel do meu caderno e escrevi: “sim”. Dobrei-a e metia na cápsula presa à pata do pombo.

Fiquei ali sentado mais de uma hora com o pombo nas mãos, afagando-o, adiando a decisão eternamente. Depois, de repente, levantei-me e soltei-o, ficando a vê-lo a desaparecer no céu nocturno.

Quando o pessoal saiu, encontrou-me sentado encostado ao muro a fumar, com a gaiola vazia ao meu lado.

“O Aristides?”

“Soltei-o…para animais enjaulados bastamos nós…”

Na próxima semana será publicada a décima segunda parte: Outubro Vermelho. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. X Aves Raras.

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Escalada 2084. X Aves Raras.

Fevereiro 15, 2013

Escalada 2084. X Aves Raras

 

No capítulo anterior: Um difícil interrogatório na sede da DRAS deixa Sebastião desnorteado a vaguear no antigo cemitério do Prado do Repouso. Um estranho vagabundo e uma mensagem na pata de um pombo colocam-no novamente no encalço de Rosebud.

“Taaac!” Os nós de uma mão pesada esmagaram-se com violência no tampo de uma mesa, enquanto uma carta foi despejada e uma voz gutural gritou: “Incha porco.”

“Taaacc!” Mais uma mão, pesada de anéis, bateu na mesa com violência saltando ao mesmo tempo um ás de trunfo. “’Dassss, d’onde é que saiu esse ás… Há aqui massete!” Uma mão fechou-se como uma tenaz numa garganta, cartas, fichas e cadeiras saltaram pelos ares. Cabeças, copos partidos, membros torcidos amontoaram-se numa amálgama turva, até que uma voz espessa, curtida a bagaço, se impôs: “Já chega caralho! Lá para fora!”, e os jogadores de sueca foram pontapeados com violência para fora do estabelecimento.

Este era o antro que se dava pelo nome de sede da União Columbófila Ocidente Vermelho. A Columbofilia era um desporto extremamente popular, especialmente desde que entrara dinheiro fresco chinês e fora criado um sofisticado sistema de apostas que seguia em tempo real cada largada.

Parecia ser a época alta. A um canto um grupo de indivíduos discutia apaixonadamente as virtudes de uma ave campeã. Ao centro, num conjunto de mesas, eminentes batoteiros jogavam ruidosamente à sueca sob o olhar guloso de amadores candidatos a trapaceiros. Uma vitrina, acolhendo centenas de taças e medalhas alinhadas com aprumo sob uma luz florescente tremelicante, compunha a sala, ocupando inteiramente uma das paredes laterais. Em frente ficava o bar. Uma barra e um conjunto de bancos corridos e, em cima, na parede, uma série de ecrãs gigantes a seguir as largadas em tempo real.

Dirigi-me ao balcão e, ao sentar-me, um cheiro intenso a bagaço esbofeteou-me com violência, quase me fazendo saltar os olhos das órbitas. O “Barman”, o tipo que tinha posto na ordem os jogadores desordeiros, era um daqueles homens maciços de criação minhota, com mais de cem quilos e não mais de um metro e cinquenta de altura, pescoço inexistente e uma cara redonda  injectada de milhares de pequenos capilares sanguíneos, o que lhe conferia um ar de bomba relógio prestes a rebentar.

Olhou-me com desprezo e soltou metálica e guturalmente: “Qu’é que vai ser?”

“Uma cerveja”, disse acanhado. Preparei-me para acender um cigarro e ao fazê-lo reparei que o cepo olhava para mim de olhos esbugalhados. Olho para ele interrogativamente.

Escarrou ruidosamente para o chão e disse: “Não se pode fumar aqui, oh camóne.”

“Desculpe?”

“Não se pode f-u-m-a-r.”

“Porquê?”, era a primeira vez que me acontecia tal coisa, era permitido fumar em todo o lado até nos hospitais e maternidades.

“Por causa dos animais, faz-lhes mal.”

“Mas aqueles ali estão a fumar”, apontei para um grupo que a um canto admirava um borracho emplumado numa gaiola.

Olhou-me directamente nos olhos: “Aqueles são sócios.”

Esmaguei o meu cigarro no chão e resolvi ficar calado. O homem serviu-me com mau humor. Ao cabo de uma hora já estava farto de ali estar e resolvi fazer uma pergunta à besta: “A palavra Rosebud diz-lhe alguma coisa?”

Inicialmente pareceu desconfiado, depois levou uma mão ao avental sebento e colocou algo no balcão com a mão por cima. Coloquei a minha mão em cima da barra e ele passou-me uma chave discretamente, fazendo um sinal na direcção da casa de banho.

Entrei na minúscula e estranhamente asseada casa de banho e rapidamente notei uma quase imperceptível porta lateral. A chave servia. Abri a porta. Esta dava acesso a uma estreita e decrépita escada metálica em caracol. Subi com cuidado e abri mais uma porta, antes não o tivesse feito, um bafo intenso a excremento de pombo misturado com poeira de penugens atingiu-me em cheio quase me fazendo vomitar. Entrei no que parecia ser um pombal dentro de um sótão obscuro. Estreitos e labirínticos corredores, cheios de gaiolas até ao tecto, dominavam o espaço onde reinava um estranho silêncio, só entrecortado pelo sussurrar ritmado das aves.

Da penumbra, ao fundo, saiu uma voz rouca: “ Seja bem vindo Sr. Sebastião, ao meu humilde pombal.”

“Sabe o meu nome?”, disse caminhando na direcção da voz.

“Sabemos tudo o que é necessário sobre si.”

“Hoje, tenho a sensação que toda a gente sabe tudo sobre mim, que dia…”, disse tentando  aproximar-me um pouco mais.

“Deixe-se estar aí onde está, estamos bem assim”, disse a voz na sombra.

“Que é que vocês sabem sobre Rosebud?”

“Tudo…e nada.”

“Como assim?”

“Temos uma proposta para si, se aceitar saberá tudo, se não aceitar não saberá nada, a decisão será sua, o que nestes dias se pode considerar um luxo.”

“Que proposta? Quem são vocês?”

“Nós somos os únicos que o podem ajudar neste momento, pois o seu futuro não se afigura, por assim dizer, auspicioso… nem mesmo longo… somos conhecidos por BMV, já ouviu falar de nós com certeza.”

Fiquei aterrado, estava em presença das Brigadas do  Marxismo Verdadeiro, o braço armado de um partido marxista revolucionário clandestino que lutava pela restauração daquilo que consideravam como o verdadeiro Marxismo, que segundo eles teria sido desvirtuado pela Comissão a partir da revolução de 2040.

“Não quero saber disso, já me chega o Marxismo que tenho de aturar todos os dias no trabalho, em casa, na rua, na casa de banho, debaixo do tapete…”

“Muito engraçado, mas o verdadeiro Marxismo nunca chegou a ser conhecido na Eurásia, tem noção disso, não tem? Os porcos reacionários da Comissão apropriaram-se dos ideais originais  do grande movimento da Ditadura dos Indignados criando aos poucos um governo despótico com tendências totalitárias que foram impregnando de capitalismo selvagem ao estilo chinês. Do Comunismo só sobrou a iconografia, como à Igreja Católica só sobravam os santos pouco antes da extinção”, e escarrou para o chão ao dizer Igreja Católica.

“E vocês querem começar tudo de novo…mais sangue e destruição…”

“Nada pode travar a o processo histórico em curso, quando pensamos que a hidra do Capitalismo está morta ela nasce sobre outras formas e feitios, criando desigualdades e miséria sem cessar, favorecendo uns e desfavorecendo a larga maioria.”

“Em tempos, o comunismo tocou-me o coração, mas as utopias não nos conduziram por bom caminho até aqui. Hoje, só o presente me interessa e a única ideologia em que acredito é a que me salva as costas de uma bordoada certeira.”

“Não pode deixar de acreditar camarada, é uma luta contínua, que veio e vai muito para além das nossas vidas, está para além de nós, nós somos apenas vectores… mas não o chamei aqui para lhe vender um ideal. Você está marcado pela DRAS, o que aliás com certeza já sabe, e não tardará a desaparecer, varrido sabe-se lá para onde…fez demasiadas perguntas…”

“Sim, sei disso…”, disso baixinho, “sei bem disso, não precisei de vir aqui para ter essa certeza.”

“Dentro de duas semanas vai partir um barco do Porto de Leixões, que lhe pode abrir um novo futuro, uma oportunidade para começar de novo, mas não pode fazer perguntas, é pegar ou largar, tem uma semana para decidir…leve este pombo e quando tomar a sua decisão basta escrever “sim”, colocar a mensagem na pata e soltar o bicho, ele se encarregará do resto”, e da sombra saiu uma gaiola com um pombo.

 

Na próxima semana será publicada a décima primeira parte: Aristides. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

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Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Fevereiro 8, 2013

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

 

No capítulo anterior: Um dia de Bloco na Pedra da Foice passa uma factura pesada de dedos sangrentos e músculos doridos. Uma mensagem de última hora aviva um fogo que arde sem se ver.

Seis da manhã. Arrastei-me a custo para fora da cama, doíam-me músculos que desconhecia existirem. O Bloco definitivamente não era para meninos. À minha espera já estava, sinistramente especado, o cliente seguinte. Sem sequer esperar que a cama arrefecesse, o meu companheiro de partilha de cama deitou-se e adormeceu imediatamente exausto.

Ficava sempre momentaneamente incrédulo com aquela situação, como se o filme da minha vida parasse naquele segundo para me castigar. Depois reiniciava-se outra vez e a vassoura da razão varria o momento para debaixo do tapete do inconcebível, empurrando-me, com um safanão, para a frente, para longe da demência.

Era assim em todo aquele edifício de quartos para trabalhadores solteiros da fábrica de tofu. Longos corredores com quartos de cada lado, em cada quarto duas camas, em cada cama três pessoas a dormir por turnos.

Dirigi-me para a saída e mesmo em frente ao pórtico de entrada estava uma viatura parada com dois tipos encostados a fumar. Não enganavam ninguém. Estranhei a DRAS estar ali aquela hora, mas nada era surpreendente vindo daqueles senhores. Deviam estar ali para apanhar algum degenerado. Aliás, não existiam surpresas, apenas incertezas, esperávamos tudo sem ter a certeza de nada.

Quando passei perto deles, apagaram os cigarros e dirigiram-se a mim: “Bom dia.”

“Bom dia“, disse interrogativamente.

“Gostaríamos que nos acompanhasse, se não for muita maçada.” Não fiz mais perguntas, não se recusava um convite da DRAS e não havia para onde fugir também.

A grande fábrica de tofu, com os seus complexos habitacionais, ficava nos arredores do Porto, mais precisamente numa zona que fora conhecida como a Zona Industrial da Maia. Não fazia ideia para onde me levavam. Na parte de trás da viatura foram desfilando diante mim os inenarráveis subúrbios do Porto, até que entrámos na cidade pela zona de Campanhã. Subimos a Rua do Heroísmo e, para minha surpresa, parámos diante do antigo Museu Militar. Uma entrada de garagem, de construção recente, dava acesso a uma ampla cave que parecia recente também. De antigo, o edifício só mantinha a fachada.

Estava atónito, não consegui deixar de exclamar: “A vossa sede é aqui?”

“Porquê a surpresa?”, disse um dos agentes preparando-se para sair da viatura, “a morada está em qualquer dispositivo, é pública.”

“Esta…era…era…”, resolvi ficar calado, depois não resisti, “…era a sede de uma antiga polícia.”

“Não, isto era o Museu Militar, deve estar enganado”, e saiu da viatura para me abrir a porta.

Levaram-me para uma espartana sala sem janelas, profusamente iluminada por uma luz branca fluorescente, tendo apenas como mobiliário uma mesa e duas cadeiras.

“Sente-se aqui”, disse secamente o agente, arrastando uma das cadeiras e saindo em seguida.

Devo ter esperado mais de uma hora, ora contorcendo-me na dura cadeira, ora andando às voltas na sala. Uma porta abriu-se e entrou um tipo sorridente com um dispositivo na mão.

“Posso saber porque estou aqui?”, atirei exasperado.

“Bom dia, para o senhor também…”, respondeu com um sorriso desconcertante.

“Bom dia, será que me podiam dizer porque estou nesta sala, na antiga sede da PIDE?”

“PIDE? Não. Museu Militar…”

“É no mínimo bizarra esta vossa localização, ou então uma ironia do destino…”, murmurei.

“As instalações do antigo Museu Militar eram as mais adequadas para a nossa missão”, disse de forma extremamente polida, enquanto puxava da cadeira para se sentar. “Mas deixemos a aula de História e passemos ao presente, que é disso que nos ocupamos e é disso que todos nos devíamos ocupar.” Esta última afirmação foi acompanhada por um olhar gelado.

“Muito bem, posso saber porque estou aqui?”, voltei a insistir.

“Se eu responder a isso ficaria a saber tanto como nós, e… isso como compreenderá… não pode ser”, disse o agente, novamente com um sorriso a bailar-lhe no rosto, enquanto puxava de um maço de tabaco. “Deixe-me oferecer-lhe um cigarro ou talvez…prefira A64?”

”Um cigarro está bem, nunca se sabe se não será o último…”

“Não seja melodramático. “ Acendeu ele próprio um cigarro, e de seguida atirou-me o maço e um velho isqueiro Zippo a deslizar pela mesa de fórmica.

“Posso saber porque estou preso?”, digo acendendo o cigarro e deixando o isqueiro acesso um pouco mais tempo do que o necessário. Por breves instante o característico cheiro a gasolina invadiu a sala, adorava aquele cheiro, era uma pena estes isqueiros serem muito difíceis de arranjar.

“Você não está preso, se estivesse preso não estaria aqui… para aqui só trazemos…convidados”, respondeu expelindo uma baforada.

“Então porque me obrigaram a entrar no carro?”

“Gostamos de tratar bem os nossos convidados, providenciar o seu transporte faz parte dos pequenos mimos que gostamos de proporcionar.”

“Então, depreendo das suas palavras que posso sair?”

“Isso seria falta de educação da sua parte.” Parou de sorrir e a sua cara adquiriu um tom cinzento de rato ao preparar-se para falar: “Espero que já tenha feito todas as perguntas que deseja, porque a inversão de papéis não é muito bem tolerada neste…digamos assim…palco.”

“Um palco…sim de facto tudo não passa de um palco.”

“Vejo que conhecemos o nosso Shakespeare, mas infelizmente não estamos aqui para uma tertúlia literária”, disse o agente apagando o cigarro no chão. “Rosebud, o que me tem a dizer sobre Rosebud?” Atirou à queima roupa.

“Era o trenó do Kane… no filme…conhece…o Citizen Kane…”

“O quê?”, quase deu um salto da cadeira, mas imediatamente recuperou a compostura: “Caríssimo, nós sabemos tudo, porque andou a pesquisar essa palavra nos motores de busca?”

“Gosto de cinema, só isso, e Rosebud é um famoso enigma do Citizen Kane, há quem diga que significa a infância perdida, o intangível imaterial…”

“Hum…intangível imaterial…muito bem. Você esteve no velhinho Estádio do Dragão, no último nono?”

“Sim…para além de cinema gosto muito de fado também, mas isso vocês já sabem, o chip não mente.”

“Pois sim…fado…mas porque insistiu em ir falar com LG?”

“Pretendia um autógrafo e como tinha estado presente no local onde MG tinha morrido, resolvi aproveitar-me disso para chegar até ela.”

“Foi um autógrafo muito demorado…esteve lá dentro mais de meia-hora.”

“Não sabia que podia constituir um crime pedir um autógrafo demorado.”

“Caríssimo, não se arme em esperto…nada é crime para nós… no entanto tudo o que um cidadão faz pode ser potencialmente criminoso.”

“Como assim?”

“Só a nós cabe determinar o que é crime ou não, é um fardo eu sei, mas o esqueleto do estado assenta sempre na eficiência da sua segurança interna…”

“Folgo em saber.”

“Muito bem!”, cortou o agente rispidamente, “Penso que por hoje é tudo, pode ir, infelizmente não podemos providenciar o seu transporte de volta.”

“Não há problema, gosto de andar a pé.”

As minhas respostas pareciam satisfazer as necessidades imediatas da DRAS, mas a verdade é que sabia pouco mais do que eles. Tinham-me deixado ir porque na realidade, actualmente, não havia muita diferença entre estar preso ou andar cá fora. Mas estava marcado, não me largariam mais enquanto não chegassem ao fundo da questão.

Saí do edifício antigo por uma porta lateral que dava acesso a uma pequeno jardim, um vento gelado fustigou-me a cara. Procurei o gorro no bolso do casaco. Aquele vento frio contrastava deliciosamente com o ar da sala bafienta e fazia-me sentir vivo e livre, nem que fosse por breves momentos. As temperaturas estavam estupidamente baixas para Abril. O “Aquecimento Global” tinha sido substituído no chavão alarmista científico por “Arrefecimento Global” e havia mesmo quem, num excesso de zelo, falasse em “Mini Ice Age”, levando a que os mais loucos recomendassem mesmo uma retirada ordeira para sul.

Coloquei os auriculares sem fios debaixo do gorro e escolhi no dispositivo a música que LG havia mandado. Aos primeiros acordes de “Erros meus” comecei a caminhar sem sentido, apenas para não ficar ali parado meio atordoado. Um portão de ferro com uma inscrição detém-me. Em cima lia-se: “ Necrópole do Porto, Museu de Arte Funerária e Tanatório”. Nunca ali havia estado. Desde que a cremação passara a ser a prática institucional obrigatória, os cemitérios tradicionais haviam deixado de existir. No local do antigo cemitério do Prado do Repouso, agora funcionava o grande forno crematório da cidade, com as suas sinistras chaminés sempre a fumegarem. Mas num acesso de cinismo tinham resolvido deixar a zona próxima à Rua do Heroísmo no estado original, como museu histórico sobre a arte e costumes funerários. Parecia ser um tremendo sucesso entre os turistas asiáticos e afins.

Resolvi entrar. Comecei a descer uma longa e estreita avenida ladeada de ciprestes. Reinava uma estranha calma neste lugar que me fez desligar a música. Não fosse o zumbido omnipresente do forno crematório a trabalhar e o silêncio seria perfeito ou, mais adequadamente, sepulcral. Gatos passeavam-se, cuidadosos, entre as campas como se soubessem de antemão o que podiam ou não podiam pisar. Um sinistro mausoléu com a estátua em tamanho real de um cão a uivar, fez-me gelar e estugar o passo instintivamente.

Quase no fim da avenida, encostado às grades do bizarro jazigo Baquet, estava sentado um homem andrajoso e descalço, afagando um pombo nas mãos, enquanto lhe sussurrava algo baixinho ou pelo menos parecia sussurrar. Olhou para mim estranhamente, como se me conhecesse. Desviei o olhar, com incómodo, e segui o meu caminho, quando subitamente atrás de mim ouvi: “Rosebud.”

Virei-me imediatamente, mas o homem já havia desaparecido, ficando no seu lugar apenas o pombo a debicar no chão. Aproximei-me. Havia algo estranho no pombo. Com infinito cuidado consegui agarrá-lo e retirar-lhe uma cápsula da pata. Dentro estava uma mensagem escrita à mão. Dizia: “Hoje, 21h00m, União Columbófila Ocidente Vermelho”.

Na próxima semana será publicada a décima parte: Aves Raras. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Fevereiro 1, 2013

Escalada 2084 VIII Banho de Sangue.

No capítulo anterior: Chove sem parar na Invicta. Um Concerto de LG no velhinho Estádio do Dragão. Uma longa conversa nos bastidores revela-se auspiciosa…

Uma minúscula viatura sulcava a madrugada a toda a velocidade. Dentro, a confusão era total. Uma amálgama de pernas, braços, pescoços torcidos, mochilas, crashs insufláveis gigantes, grandes paus com escovas de aço, pulverizadores de musgo e grandes sacos com comida, que na realidade apenas continham sandes de tofu, uma cortesia empresarial.

“Merda! Podias ter alugado um carro mais pequeno!”, exclamei sem me poder virar, pois tinha a cabeça entalada entre uma mochila e dois paus que surgiam ameaçadores da bagageira.

“Para a próxima pagas e eu alugo um autocarro, para poderes viajar com todo o conforto e fazeres o teu soninho de beleza”, cuspiu-me Jaime ao ouvido, dando uma guinada, que me pareceu propositada, no volante.

“Cuidado com as curvas, cabrão! Se não morremos aqui atrás!”, guincharam das traseiras.

“Vou por música para vos calar”, disse Jaime sincronizando o seu dispositivo com o sistema de som da viatura. Começou a ouvir-se o prelúdio das Variações Goldberg.

“Por favor…”, disse eu, “… não estamos na linha de embalagem.”

“Se serve para embalar tofu, também serve para a estrada, ajuda-me a concentrar e assim vamos mais depressa.”

“Eu escolho a música!”, gritou Guilherme das catacumbas da bagageira.

“Está bem, está bem”, rendeu-se Jaime.

“Mete Nirvana”, disse eu.

“Nirvana? Isso é mais antigo do que Bach”, uivou Tomás. “O dono-do-Muralha arranjou-me isto”, e começaram a ouvir-se os acordes melosos de música neo-new-age.

“Mand’o foder, mais a sua música de paneleiros!”, berrou Jaime.

“ É suposto pôr-te em contacto com o teu eu interior e com isso sintonizar-te com as energias perdidas do Universo”, disse Tomás num tom sério.

“Então é por isso que o gajo tem aquela trança na careca, para o ligar às energias perdidas, bem me parecia que devia servir para alguma coisa”, disse eu.

“Precisamente.”

“Isto é bom para um elevador, ou então para enganares alguma miúda. Fodei-vos!”, disse Jaime e meteu Ziggy Stardust.

“Fodei-vos?”

“Iá, disseram-me que era assim que se diz em Trás-os-Montes, Fodei-vos!”, e começou a cantarolar, “Oh…Oooh… yeah…Ah…Ziggy played guitar, jamming good with weird and gilly…And the spiders from mars…”

Passadas umas horas, lá chegamos à Pedra da Foice. Estacionámos. Insuflámos as crashs e fomos até ao primeiro sector, passando pelo pórtico. No Bloco, a acreditação de pontos e homologação de encadeamentos funcionava de forma um pouco diferente da escalada desportiva, devido à ausência de material fixo. Era necessário montar um dos dispositivos num tripé a filmar. Depois as imagens eram submetidas a um programa que com reconhecimento facial e análise ética incorporada homologava o encadeamento, tudo em tempo real, uma questão de segundos e os pontinhos estavam na carteira. Qualquer falha, um começo sentado mal executado, um toque numa pedra ou árvore, uma saída diferente e o problema não era validado.

De resto, a pontuação era idêntica à escalada e tal como na escalada desportiva existia a compensação biométrica, conforme a configuração das presas e distância entre elas, distância ao solo nos começos sentados, etc., determinava-se um factor biométrico que era inserido na pontuação, descontando pontos ou acrescentando, conforme a biometria de cada escalador. Nada era deixado ao acaso, a subjectividade já não existia há muito tempo. Para muitos era quase uma questão de justiça histórica, louvavam o sistema maquinal e perfeito que colocara um fim a anos e anos de discussões de grau e sibilinas acusações de fraude entre os escaladores. Para outros, muito poucos, já não era escalada, era outra coisa qualquer, ao eliminar-se a subjectividade e a fé simples no próximo. O materialismo ideológico também tomara conta da escalada como de tudo o resto, a sensação era agora uma equação, a dúvida uma certeza, a exaltação um número e o movimento uma geometria. A escalada fundira-se no seu próprio elemento: a rocha, tornando-se mais amorfa que o próprio mineral.

Tentava-se, à vez, um bloco perdido no meio do nada, uma proa perfeita em cima de uma laje granítica. Um começo sentado com um calcanhar alto levava a um movimento largo para palmar às cegas um áplate em oposição. O movimento não saía e dávamos tiros sucessivos, fazendo do bloco um carrossel. O Carlos sentou-se preparou-se para lançar. Um movimento rápido, uma palmada e….um grito horrível irrompe no silêncio da montanha: “Aiiiiiiiiiiiii!”

“Merda! Eu bem tinha dito que não tinha pele”, disse agarrando o dedo sangrento, “puta que pariu estes cristais de merda.”

“Sai que estás cansado!”, berrou Guilherme saltando para a crash. Posicionou-se nas presas, contorceu-se, arquejou, estremeceu da cabeça aos pés, a cabeça pareceu que ia explodir de tão vermelha, mas o rabo não levantou um milímetro do chão. “Isto… do bloco é complicado”, disse saindo de fininho de cena.

Como nos tectos não dava, tentámos a nossa sorte numa placa.

“Uhhh… que técnico, não se vê uma única presa!”

“Parece um muro coberto com vidro partido!”

“Tenho treinado técnica no muro, vai sair-me fácil”, disse Tomás montando a crash e preparando-se para subir. Um passo, dois passos e tudo parecia estar a correr bem. De repente, um pé resvala e como estava todo esticado como um acordeão cai a raspar a cara pela placa abaixo.

“Ui! Já fizeste a barba!”

“Merda!”, queixou-se Tomás caído na crash e agarrado à bochecha esfolada e sangrenta.

“Esta placa resolve-se com uma entrada a correr”, disse Guilherme, “saiam da frente.” Ganhou balanço e começou a correr em direcção ao bloco, com um salto apoiou um pé na crash, mas ao apoiar-se no bloco com o outro resvalou indo de cabeça contra o calhau, por segundos ficou KO estatelado nas crashs. “Ai, Ai…devia ter ficado a trabalhar na fábrica”, disse arrastando-se para fora agarrado à cabeça, com o sangue já a escorrer-lhe entre os dedos.

“Toma lá ó…Carl Lewis”, disse Jaime sem se conter e atirando-lhe um estojo de primeiros socorros para as mãos.

“Qual é o nome desta placa de merda?!?”, guinchou Guilherme enquanto se preparava para enfaixar a cabeça.

“Galo na testa…”, disse Jaime a contorcer-se de riso.

“Vai-te foder! isso é uma via de Vale de Mao…”

Mudámos mais ma vez de bloco. Desta vez tínhamos pela frente um highball com um começo sentado ridículo. Preparámos tudo e o Jaime fez-se ao grande. Executou os movimentos com grande mestria, hesitou longamente na saída, mas empolgado com os gritos de incentivo arriscou e saiu vitorioso.

Quando apareceu, vindo do outro lado do bloco, era todo sorrisos, que rapidamente se desfizeram em raiva quando consultou o dispositivo: “Filhos da puta não me deram a pontuação toda!”

“Pois não, não fizeste o começo sentado.”

“Como assim”, disse desconfiado, “tenho a certeza que comecei nas presas certas.”

“Mas agachaste-te em vez de te sentares, pensei que a esta altura do campeonato já soubesses o que andas a fazer, sinceramente pensei que quisesses fazer assim o bloco para facilitar.”

Ficou a remoer a um canto vendo vezes sem conta as imagens do bloco no dispositivo e a vociferar palavrões entre dentes.

Resolvi dar um pegue ao bloco também. Uma blocagem baixa leva-me a uma lateral de aspecto duvidoso, “Está sólida?”, gritei para o Jaime. “Vai-te foder”, foi a resposta. Zangado agarro a presa com ganância e puxo ao máximo para ir directo ao topo do bloco, quando já sentia o áplate de saída a presa explodiu-me na mão mandando-me num voo, sem pára-quedas, para o soalho. “Merda de broa de milho!”, chorei agarrado a dois dedos sangrentos.

A meio do dia, estávamos todos estendidos ao sol no Pátio Vermelho, que hoje fazia jus ao nome tal era a quantidade de mãos sangrentas, dedos “bifentos”, cabeças partidas e bochechas esfoladas que ali se juntaram. Uns ligavam os dedos com adesivo, como se fossem múmias, outros comiam qualquer coisa e havia mesmo quem estivesse já estendido ao sol a dormir, peguei num caderno e tentei praticar um pouco de caligrafia e desenho manual.

O que é isso?”, perguntou o Tomás enquanto enrolava um charro, não sem alguma dificuldade, com os dedos enfaixados de adesivo.

“É um caderno Moleskine.”

“Man… isso é mesmo retro!”, disse falando pelo nariz enquanto expelia uma baforada. “Para que serve?”

“Merda! Serve para escrever, o que é que achas?”

“Mas já ninguém escreve à mão, porque não ditas para o dispositivo.”

“É um desperdício de árvores, é o que isso é!”, disse Carlos despregando um olho e juntando-se à conversa.

“De qualquer forma, onde aprendeste a escrever à mão, há muito que não ensinam isso?”

“Acho que é proibido”, voltou Carlos espreguiçando-se, “se não é, devia ser. Uma pessoa não pode ser responsável pelo assassínio de árvores inocentes.”

“Fiz um curso, pronto, tinha curiosidade e resolvi aprender, é super lento, mas sabe bem, sinto-me mais humano, seja lá o que isso for.”

“Sim, seja lá o que isso for…”, e Carlos voltou a fechar os olhos.

“Ser humano não tem nada a ver com escrever à mão”, irritou-se Jaime, “Isso é apenas para maricas revivalistas pseudo-intelectuais.”

“Enganaste…as miúdas gramam…”, isto pareceu fazer acordar o resto do grupo do torpor.

“A sério?!?”, disseram em coro Guilherme e Tomás.

“Iá…chama a atenção e dá um aspecto romântico, tem funcionado…é melhor e dá menos trabalho que andar com um cão pela trela ou com um bebé ao colo…”

“Ah!… és fodido.”

“Não conheço nenhuma camarada que caia nesse género de esparrelas anacrónicas, o amor romântico não deveria ter cabimento numa sociedade evoluída pós-moderna e especialmente desde que o sexo deixou de ser essencial para a reprodução deveria ser severamente restringido”, resmungou Carlos, que entretanto se levantara e andava de um lado para o outro efervescente, como sempre que a conversa chegava à política.

“Essas gajas que tu conheces são piores que as Freiras de Mao, são umas chatas, só se excitam com citações do pequeno livro vermelho, uma seca”, interrompeu Guilherme.

“Antes havia uma expressão que se te podia aplicar bem, ser mais papista que o Papa, ou se quiseres traduzindo para os tempos modernos, ser mais maoísta que Mao. Há coisas em que a mão alheia da política não se deve meter e o sexo é uma delas…”

“A mão da Comissão chega a todo o lado…”

“Só se for para apertar os tomates dos cidadãos…”, explodiu Jaime a rir.

Um beep no dispositivo desviou a minha atenção. Uma mensagem de LG: “Mando-te uma versão inédita do “Erros meus”, gravada ao vivo ontem à noite, acho que a minha melhor de sempre, para um fã de Camões e Amália…” Respondi imediatamente. “E agora de L. Giant…”

As dores nos dedos sangrentos, como que por magia desapareceram. A anestesia pode vir por várias formas e feitios…

 

Na próxima semana será publicada a nona parte: Eterno Repouso. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

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Escalada 2084. I Chipados.

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Escalada 2084. VII Erros Meus.

Janeiro 25, 2013

Escalada 2084. VII Erros Meus

No capítulo anterior: Uma vigília em honra de MG e um discurso demasiado longo quase goram as perspectivas de uma sessão de treino no Muralha. O velhinho Estádio do Dragão será o palco do primeiro concerto da fadista L. Giant após a morte do seu marido.

 

Chovia há nove dias sem parar. A água escorria das caleiras, das paredes, das ruas, das caras, das almas, das pessoas. Despia a cidade escura, mostrando-a como veio ao mundo. Se existiu um Génesis para as cidades, o Porto foi criado cinzento, escuro e triste. Devia estar a chover nesse dia, muito. A seguir, o monstro criador, talvez com remorsos, deu-lhe entranhas de granito e da mesma massa fez os seus habitantes, condenando-os a serem eternos sobreviventes. Em 2084 chovia como sempre choveu, mas a cidade parecia escorrer sangue, em vez de água. A ditadura da Comissão servia-lhe como um fato demasiado justo, um incómodo latente que a fazia arrastar-se no passo de um condenado com grilhetas.

Saí do Muralha já atrasado e corri para a estação sob a chuva cerrada. O que em tempos seria um dilúvio, era agora classificado como um fenómeno meteorológico de classe três. O verme deixou-me mesmo à porta do velhinho Estádio do Dragão, onde o concerto de LG havia já começado.

Dei a volta ao recinto, fintando os candongueiros que me tentavam impingir entradas de ultima hora, e aproximei-me da grande porta de entrada de autocarros e camiões que estava cercada de grades.

Era suposto encontrar-me com um amigo de um amigo que era roupeiro da equipa de futebol, para me arranjar um livre-trânsito com acesso aos bastidores. Aproximei-me das grades, não sem dificuldade, e vi um sujeito da parte de dentro a andar de um lado para o outro, que conferia com a descrição. Fiz um sinal com a cabeça e ele aproximou-se. Estava furioso.

“Como é caralho? Se não fosses amigo de quem és, ficavas aí à chuva.”

“Desculpe, desculpe… o trânsito na VCI está um pandemónio.”

“VCI o caralho! Em vez de estares em casa a bater uma, para a próxima chegas a horas! Tem de estar aqui um gajo de pernas abertas para estes filhos da puta!”

Fiquei vermelho como um pimento, balbuciei mais umas desculpas e lá entrei. À primeira oportunidade livrei-me do chato. Cheguei ao relvado e o silêncio era impressionante. No palco, L. Giant erguia-se sozinha, toda de negro e de olhos fechados. Saíra propositadamente da zona coberta e a água escorria-lhe pelo corpo. Imperturbável, como um pilar negro no meio do nada. Com um gesto de mão mandou afastar alguém que se aproximou a correr com um guarda-chuva, virou-se para trás e fez sinal aos guitarristas.

As guitarras portuguesas arrancaram e, sem aviso, uma voz portentosa elevou-se no ar, “Erros meus, má fortuna, amor ardente…”. Fiquei esmagado, a voz envolveu tudo, sobrepôs-se a tudo, “Em minha perdição se conjuraram…”. Bebi aquelas palavras como a chuva que caía do céu, nunca aquele soneto de Camões me soara assim, era como se uma luz iluminasse os versos, fazendo-os brilhar como fogo. Cantaria sempre assim, ou estaria transtornada com a perda de MG. Afinal parecia existir ainda uma alma em Portugal, um núcleo ainda não corroído, algo indestrutível e inexplicável e, por momentos, atrevia-me a pensar: divino.

O concerto continuou, ardendo como uma fogueira na noite escura. No final e graças ao meu livre-trânsito consegui acercar-me dos bastidores.

A porta do camarim de LG era guardada por um tipo que parecia ter cento e cinquenta quilos, era de tal forma grande e largo que escondia a própria porta. O corrupio era intenso. Assistentes carregados com grandes ramos de flores, circulavam com ar solícito. Criados austeros empurravam carrinhos carregados de toalhas e fruta fresca. Um chef, famoso pelo seu sushi sintético, passou empurrando o que parecia ser uma banca de cozinha com rodas. Políticos engravatados discutiam as virtudes do novo fado com desgrenhados músicos da velha guarda. Bandos de adolescentes cobertos de piercings e com boinas à Che teclavam frenéticos em dispositivos coloridos. Um capitão-de-fragata em farda de gala conversava com uma opulenta ministra de Mar e Terra. Irados intelectuais marxistas de fartos bigodes zangavam-se com revolucionários maoístas de trazer por casa. Sentia-me deslocado ali, a minha cabeça rapada e ar lívido não desmentiam a minha condição de trabalhador das fábricas de tofu, mas mesmo assim decidi avançar.

“O que é que você quer?”

“Preciso…de dar uma palavra a LG.”

“Eu não o conheço, e se eu não o conheço quer dizer que miss L. também não o conhece, o que cria um impasse chato… para si pelo menos.”

“Podia transmitir a miss L. que eu estava presente no local onde M.Giant morreu?”,  isto pareceu fazer arrebitar as orelhas do monte de banhas.

“Um momento.” Escreveu algo no dispositivo e passado uns segundos levou o dedo ao auricular para ouvir melhor. “Está com sorte, pode passar”, e deslocou-se para o lado com a graciosidade de uma porta de correr.

Entrei, LG estava sentada ao fundo, numa cadeira em frente à mesa de caracterização, vestia um roupão de turco negro e tinha os cabelos ainda molhados. Não era um cliché dizer que ao vivo era extraordinariamente bonita. Virou-se e fitou-me com um olhar magnético, parecia perplexa. Fez  sinal para que me aproximasse e ficou expectante. Não consegui articular palavra, estava siderado, como se tivesse sido vítima de um encantamento.

“É…mudo?”

“Des…desculpe, estou apenas espantado. A sua imagem que se vê por aí não a favorece nada, ou pelo menos é amputada da magia que emana da sua presença.” Mal disse isto arrependi-me logo, magia amputada, que idiota, mas aquele atrevimento saíra-me da boca sem controlo racional nenhum.

“É excessivamente simpático…ou tolo.”

“Espero que não… na parte do tolo pelo menos, embora dissessem em tempos que era dos tolos o Reino do Senhor. Entre uma coisa e outra, opto sempre por ser simpático, é uma questão de princípio.”

“O quê? Prefere a empatia terrena ao Reino dos Céus?”, exclamou com um sorriso malicioso.

“O Céu se existe… há muito que nos foi roubado.” Aquelas palavras pareceram ter um estranho efeito em L., apenas denunciado por uma faísca repentina que lhe trespassou o olhar. “Embora, em abono da verdade, há pouco quando a ouvi cantar o ”Erros meus”, a ideia de Deus, pela primeira vez, não me pareceu uma coisa estranha.”

“Então é crente…para além de…simpático.”

“Nunca pensei muito nisso, apenas aprendi a acreditar em mim.”

“Isso é trágico”, disse levantando-se. Com um gesto vago fez desaparecer toda a gente do camarim. O que se concretizou com extraordinária facilidade e rapidez.

“Não me parece…pelo menos segundo a Comissão.”

“Precisamente segundo a Comissão, tem de acreditar nalguma coisa: Deus, Marx ou o Diabo. Assim, podem sempre prendê-lo ou agraciá-lo, classificá-lo em certa medida. O pior que pode acontecer é precisamente ficar sozinho…a ter ideia próprias…e com isso criar algumas ilusões de liberdade.”

“Isso…são ideias largas para uma fadista…”

“Cantar o fado permite-me uma certa flexibilidade…ou permissividade, são tradições sabe, posso mentir a toda a gente, até a mim própria, mas ao fado não.”

“Será a sua forma de chegar a um plano superior…”

“Eu…gostava de chegar a algum lado…tenho em mim a convicção que estes poemas e estas músicas foram feitos para isso, pois vão muito além da gaiola materialista onde me meteram…mas na maior parte dos dias sinto-me uma aberração anacrónica para turistas.”

”Está a castigar-se injustamente…“

“Anseio apenas por encontrar os signos esquecidos para aquilo que faço, ao ponto de isso me tirar o sono… mas aprendi há muito que…Deus é inacessível à nossa razão.”

“Em tempos ancestrais dizia-se… que não era inacessível ao nosso amor…embora não compreenda muito bem o que isso quer dizer.”

Fitou-me por momentos nos olhos, genuinamente surpreendida, depois desviou a cara e começou a soluçar baixinho, algo não estava bem.

“Isso são ideias bem largas para um trabalhador das fábricas de tofu.”

“Desculpe, acho que falei de mais. Não sei o que tenho, estranhamente parece que a conheço desde sempre, o que me confere o direito e a confiança de lhe falar desta forma. Tem de me perdoar.”

“A Amália era extraordinariamente devota, sabia?”, disse fungando. “Sabe quem é Amália não sabe?”

“Sim, claro, a prima do Eusébio.”

L. pareceu perplexa por momentos, depois sorriu e voltava a não ser  um lugar comum dizer que ainda ficou mais bonita: “Você não está a ser sério.”

“Estava apenas a tentar animá-la, ao contrário do sorriso as lágrimas não a favorecem.”

“É galanteador…”

“Não sei o que tenho hoje, deve ter sido de algo que comi.”

L. sorriu outra vez e depois instalou-se momentaneamente um silêncio desconfortável. Uma sombra passou-lhe pelo olhar e por fim disse: “Então estava na falésia onde morreu MG.”

“É verdade, foi horrível.”

“Acredito”, disse afastando-se um pouco para tirar um cigarro de uma cigarreira de prata. Por momentos pareceu procurar qualquer coisa e eu mataria por ter o meu velho zippo comigo, para lhe dar lume com estilo, mas há muito que mo tinham confiscado. Por fim encontrou o isqueiro, acendeu o cigarro e disse: “Mas presenciou os acontecimentos?”

“Não directamente, estávamos perto e quando chegámos ainda prestámos socorro, mas já não havia nada a fazer.”

“Agradeço-lhe muito…e transmita os meus agradecimentos a todos os seus amigos também.”

“Obrigado, mas na realidade vinha cá com a intenção de lhe fazer uma pergunta…”

“Que pena, tinha ficado com a sensação que seria eu a intenção da sua visita…vanitas vanitatum omnia vanitas…”, disse com um sorriso,”Diga lá então.”

Roborizei mais uma vez como um pimento: “Aparentemente MG antes de morrer ainda conseguiu articular uma palavra, disse apenas Rosebud. Isso tem algum significado para si?”

“Não, não me ocorre nada com essa palavra.”

Parecia sincera, “MG gostava de cinema?”, voltei a insistir.

Ficou surpreendida: “Cinema propriamente dito, não…que eu saiba os únicos filmes que ele via eram filmes pornográficos.”

“Desculpe?…”, disse embaraçado.

“Não se desculpe, MG era muito diferente da imagem que faziam dele, especialmente nos meios da escalada. E esse nem era o seu defeito mais grave, se é que isso se pode considerar um defeito. A pornografia tem as suas virtudes.”

“Acha?”

“Ajuda a passar o tempo…mas como digo esse, por assim dizer, hábito não era o seu pior defeito, pois não tentava escondê-lo.”

“Pois… toda a gente mente.”

“Ah…é fã do antigo Dr. House.”

“Não sei quem é…trata-se apenas de uma constatação.”

“Humm…”, acabou o cigarro e voltou a sentar-se na cadeira de caracterização. “Então e você? Escala também?”

“Tento, pelo menos…”

“Sabe, em tempos também escalei. O que me fez apaixonar inicialmente pelo MG foi precisamente a sua paixão pela escalada e pela natureza.”

“Uma fadista escaladora, aí está algo inusual.”

“Não troce de mim, foi há muito tempo, mas era agradável a sensação de liberdade que vinha da absoluta inutilidade da coisa.”

“Bom, não é totalmente inútil…pode dar jeito se por exemplo se esquecer das chaves de casa.”

“Você tem piada…”, e levantou-se mais uma vez inquieta, “…mas agora tem de ir, estamos aqui sozinhos há tempo de mais e isso deve estar a causar algum burburinho nos bastidores e não queremos isso, pois não?”, disse soltando uma risada juvenil.

“Deus nos livre…”

“ Definitivamente… você…agora temos mesmo que nos despedir…espero que esta não seja a última vez que o vejo…”

“Assim queira…Mao…”

Uma risada franca despediu-me da presença de L., quando dei por mim já estava no verme a caminho de casa, poderia dizer-se que saíra do velhinho Estádio do Dragão a flutuar em vez de andar. Os acontecimentos recentes não me deixávam sossegar, primeiro a morte de MG, agora a sua viúva não me saía da cabeça. Estava bem lixado. Ia ser difícil adormecer e no dia seguinte escalava-se e logo na Pedra da Foice.

Na próxima semana será publicada a oitava parte. Banho de Sangue. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. VI Shit Happens.

Janeiro 18, 2013

Escalada 2084 VI Shit Happens.

No capítulo anterior: Uma visita ao “Museu do Livro” avivou uma memória entorpecida, trazendo alguma luz sobre o significado de “Rosebud”. O duro e alienante dia a dia na fábrica de tofu não faz esmorecer a vontade de escalar dos nossos cidadãos-atletas, e no final do turno dirigiram-se ao “Muralha” para mais uma sessão de treino.

 

A multidão era enorme à porta do Muralha. Numa das paredes estava um poster gigante com uma foto de MG a escalar em solo integral à vista a via Corazón de Ensueño no Vale de Getu na China. Em baixo estavam depositados ramos de flores, rosas soltas e muitas, muitas Edelweisses transgénicas lilases. Alguém havia dito que era a flor preferida de MG e o boato rapidamente assumira proporções de avalanche floral. Muitas velas acesas, pequenos textos e cartas, desenhos de crianças e fotos diversas, no meio disto tudo jazia, bizarramente, um sutiã.

Os escaladores e não escaladores aproximavam-se, depositavam uma vela acesa e ficavam uns minutos em silêncio a olhar o cartaz. De seguida, afastavam-se para dar lugar aos muitos que ali se juntavam. No cartaz era possível ler, numa imitação de caligrafia manual: “Para os camaradas da República Popular Portuguesa, com muita, muita grip, M. Giant”. Pertencia à colecção particular do dono-do-muro, um filho da puta como havia poucos.

Um pouco à margem da confusão, encontrei o pessoal.

O Guilherme estava inconsolável: “Olha para aquilo, o tipo escalou à vista em solo integral uma via daquelas, e vem morrer a Vale de Mao. É incompreensível!”

Shit happens”, soltou Jaime.

“Estamos muito ingleses…É para impressionar alguma miúda que possa estar a ouvir?”, escarneceu Carlos.

“Não, a merda acontece mesmo. Nunca ouviste falar na Lei de Murphy?

Nisto aproxima-se Tomás, vindo de dentro do muro, onde era trabalhador-equipador.

“Como é…”, alguém disse. “ ‘Tá-se, foi a resposta.

“Vai dar para escalar?”

“Não sei ainda, o dono-do-muro, quer fazer um discurso e depois logo se vê.”

“ ‘Tamos fodidos!”

Quando a multidão já era significativa, finalmente apareceu o dono do Muralha. Vestia uma túnica árabe de linho branco que lhe dava pelos tornozelos e estava descalço. Rapara o cabelo recentemente só deixando uma longa trança, que lhe pendia de lado na cabeça como um cabo eléctrico solto. No peito aparecia uma Edelweiss lilás espetada, naquilo que parecia ser já um símbolo oficial de consternação pela morte de MG.

“Amigos, obrigado por terem vindo a esta singela homenagem que esta casa quis fazer à memória de MG. Giant não era só um escalador, era um símbolo, um paladino da humildade e um campeão da bondade. Lembro-me, como se fosse hoje, quando aqui esteve, a alegria de criança com que escalava, a forma como se integrou como se fosse apenas mais um de nós. O seu aperto de mão forte e o seu olhar franco ficarão para sempre ma minha memória…”

Enquanto o discurso continuava, afastamo-nos um pouco mais para podermos conversar. O Guilherme já enrolava um.

“Parece que interditaram Vale de Mao por tempo indeterminado”, disse Tomás.

“Sim, já está aqui.” Murmurou Jaime que estava absorto no dispositivo.

“Merda! Logo agora que tinha os movimentos da Divina Clemência todos trabalhadinhos e ia começar a dar pegues para encadear!”, exclamou Guilherme parando de enrolar.

“Encadear de chapa em chapa, queres tu dizer…”, observou Jaime com um leve esgar de escárnio e sem se dignar a levantar os olhos do dispositivo.

“Tem de se começar por algum lado…”, continuou Guilherme procurando o isqueiro, “para mim o que importa é estar a escalar numa via de 500 pontos”, e acendeu o charro amuado.

 “Bom…estive a ver aqui as nossas opções”, disse Jaime levantando os olhos do aparelho, “e  que tal se formos fazer bloco para a Pedra da Foice?”.

“Ui! Nem pensar, é granito, não tenho pele”, uivou Carlos enquanto se contraía todo quase involuntariamente.

“Podíamos ir…é bom variar um bocado, podemos trabalhar um pouco de força pura”, disse Tomás.

“Mas eu não estou inscrito no ranking de Bloco, não vou lá fazer nada”, respondeu-lhe Guilherme.

“A alternativa é ir para as vias desportivas perto do Centro de Actividades Paranormais de Valongo”, disse Jaime pegando no charro que já rodava.

“Pedra da Foice!”, disseram quase todos a uma só voz.

O discurso do dono-do-muro continuava, “…ainda me lembro dos seus olhos brilhantes quando lhe oferecemos um conjunto de presas novas para montar uma via aqui no muro. Via que ainda hoje é uma referência de dureza e beleza para todos os frequentadores do Muralha. Amigos, não tenho mais palavras e os meus olhos estão secos de tanto chorar a partida do nosso farol, por isso convido-vos a entrar para fazerem, em jeito de homenagem, aquilo que MG mais gostava: escalar.”

“Até que enfim!”

“Estava a ver que nunca mais se calava.”

O Muralha era um belo antro. Era um muro à moda antiga, se exceptuarmos a ausência de magnésio, que já não se usava para aí há vinte anos, quando as Simpatectomias se tornaram operações baratas e se disseminaram devido a uma nova técnica de cirurgia não invasiva. Cinco minutos em ambulatório e dizíamos adeus ao suor nas mãos. Durante uns anos ainda se viram nas falésias o gesto ridículo de ir com as mãos às costas e soprar nos dedos em seguida. Tinha ficado como um reflexo de um amputado. Mas até isso o tempo levou.

Era uma selva. Em hora de ponta, era difícil arranjar um lugar para escalar. Valia tudo. Quedas fora dos colchões, patadas nos queixos, pés torcidos, olhos negros e luxações eram o prato do dia. Uma hora e meia de sangue suor e lágrimas à qual era preciso sobreviver para voltar no dia seguinte.

Era já tarde e escuro quando saímos.

“Não vos mete nojo treinar naquelas presas?”, disse Guilherme, “milhares de mãos passam por elas, são um ninho de bactérias e fungos.”

“Não sejas hipocondríaco. Além do mais o Tomás disse que fumigam tudo depois do muro ser fechado, é de tal forma forte o produto que usam que se alguém lá fica esquecido no meio dos colchões já não acorda no dia seguinte.”

“Isso sim…seria treinar à morte…”, disse Jaime abocanhando um cachorro sintético que tinha trazido na mochila.

Ao chegarmos à estação havia um anúncio novo nos outdoors electrónicos. Em letras garrafais lia-se: “L. Giant Canta Amália”. Em baixo LG aparecia toda de negro com um grande vestido de cauda à frente de umas cortinas vermelhas de veludo, com o símbolo da Comissão, de olhos fechados e a apertar uma mão na outra numa pose de grande sofrimento e consternação, ladeada por uma dupla de guitarristas de cada lado.

“Quem é a Amália?”, perguntou Guilherme.

“É a prima do Eusébio”, explodiu Jaime, quase vomitando o cachorro.

“As antigas lontras do Oceanário?”

“Sim, se tu quiseres…pode ser isso…”

“Onde é o concerto?”, interrompi eu.

“Parece que é no velhinho Estádio do Dragão…”

 

Na próxima semana será publicada a sétima parte. Erros Meus . Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. V O Império do Eu.

Janeiro 11, 2013

Escalada 2084. V O Império do Eu.

No capítulo anterior: a morte de MG, estrela número um da escalada mundial, interrompeu abruptamente o dia de escalada em Vale de Mao. A falésia foi interdita pela polícia secreta e “Rosebud”, a misteriosa “última palavra” de M. Giant, adensa o mistério que parece envolver as circunstâncias pouco “naturais” do acidente.

O edifício era cinzento e atarracado, com apenas trinta e quatro andares. Por cima do pórtico principal de acesso tinha escrito, em letras garrafais, as palavras:

TOFU BROTHERS

E, mais abaixo o famoso slogan:

Alimentamos Todo Mundo

Sempre que lia aquele slogan soava-me a brasileiro, era ridículo. A mania dos criativos publicitários brasileiros devia ser intemporal. Eram sete da manhã e os trabalhadores já se aglomeravam para passarem no pórtico. Formávamos um grupo bizarro, já todos estávamos com os fatos brancos de trabalho e todos éramos carecas, mulheres incluídas, o que para além de bizarro conferia ao grupo um ar tétrico. Rapar o cabelo era obrigatório. Uma questão de higiéne. Mais de cinco mil pessoas trabalhavam por turnos naquela que era a maior fábrica de produção de tofu da URPE1. Os complexos estratificados verticais de cinquenta andares produziam grão de soja, no meio ficava a fábrica do aglutinante Cloreto de Cálcio, um sítio fétido e fumegante, que limitava barbaramente a esperança de vida de quem ali trabalhava, mas como pagavam a dobrar era muito concorrido, com listas enormes de espera por um lugar, poder-se-ia dizer quer era uma espécie de suicídio bem pago. No centro ficava o edifício principal administrativo e ao lado o hangar gigantesco com as linhas de embalagem onde eu trabalhava.

Esperava-me um turno de dez horas, nove dias seguidos, o décimo dia seria de descanso, o dia em que, como cidadãos-atletas, podíamos aproveitar para escalar. Para os outros era opcional parar. A maioria não o fazia e só folgava no fim do ano, na paragem geral, as chamadas festas da revolução, que duravam cinco dias, conseguindo assim amealhar mais uns cobres. O conceito de fim-de-semana havia desaparecido em 2040. A propósito disso existia até um famoso livro: “Cem Anos de Boa Vida. A história do fim-de-semana na Europa”, que mais não era que um virulento manifesto anticlerical encomendado pela própria Comissão. O novo calendário, o CRE2, foi a machadada final em dois mil anos de tradição judaico-cristã e, de certa forma, o símbolo do fim de uma civilização e o início de uma nova era. Os Franceses já o haviam tentado no séc. XVIII, mas não durara mais do que treze anos. Talvez nos tenha faltado um Napoleão que impusesse um travão. Em vez de Napoleões, saíram-nos na rifa cinzentos arautos da produtividade com as mãos sujas de números, que aos poucos impuserem as suas verdades, até a um ponto em que essas verdades confluíram numa única de carácter dogmático.

Deus tinha desaparecido para sempre, ninguém sabia onde se tinha metido. Por uns tempos a velha cartilha Marxista parecia funcionar como substituto, mas o capitalismo desenfreado associado ao sistema dito “a duas mãos”, importado da China, lentamente provocaram a erosão de qualquer cartilha ideológica que garantisse a coesão social. No fim restava o dinheiro e o indivíduo sozinho. O Império do Eu. Sem religião ou doutrina e com a marijuana legalizada e distribuída pelo próprio estado, o ópio havia-se transformado, numa bizarra distorção do aforismo Marxista, literalmente na religião do povo.

“Sebastião!”, uma voz nas minhas costas faz-me acordar para a realidade. Era Carlos que trabalhava comigo na linha de embalagem. “Ei…”, respondi.

“Não consegui, pregar olho”, bocejou.

“Nem eu, a imagem do gajo estatelado no chão não me sai da cabeça.”

Carlos continuou a abrir a boca como um hipopótamo e dando mais um passo na compacta procissão em direcção ao pórtico, acrescentou: “Logo vão organizar uma vigília no Muralha.”

“Merda! Não faltava mais nada! já nem treinar em paz vamos conseguir.”

“O pessoal está consternado, sabes como é, o MG era muito grande na escalada”, disse enquanto passava atrás de mim pelo pórtico de acesso à fábrica.

No interior do hangar gigantesco já se ouviam os primeiros acordes das Variações Goldeberg de Bach. Pesquisas recentes associavam a música de Bach a um aumento de produtividade nas linhas de montagem, tal como em tempos se punham as grávidas a ouvir Mozart para os filhos saírem inteligentes.

A meio da manhã parávamos para um break, mas não era para café. Saíamos todos para o grande pátio, entre os edifícios principais, para dez minutos de ginástica espiritual, o que era um eufemismo para rezar o mantra da Comissão. O sistema sonoro era ligado e uma voz começava ritmada: “ É preciso dizer Mao”, e mil carecas respondiam, “Em vez de dizer Deus”, “É preciso dizer Todo”, e nós, “Em vez de dizer Um”, por aí fora. Assim, era rezado o mantra que era suposto deixar-nos em transe e renovar a nossa energia para o trabalho. Todas as manhãs tentava fintar aquilo para não enlouquecer, a voz dizia “É preciso…”, e eu pensava “…dizer rosa”. Os meus companheiros diziam “ Em vez de dizer Deus”, e eu “Em vez de dizer ideia”, e continuava para mim mesmo “ É preciso dizer azul em vez de dizer Pantera/É preciso dizer febre em vez de dizer inocência…” Eles tinham Mao, eu tinha Cesariny, eles a ginástica, eu o Exercício Espiritual.

Mais umas horas na linha de embalagens, passadas a custo, e depois chegou a meia-hora do almoço. A cantina parecia feita apenas de dois materiais: azulejos brancos e aço inox. Tudo banhado por uma luz florescente branca e ofuscante. Tanto podia ser uma cantina, como um antigo matadouro. O barulho era ensurdecedor. Sentei-me a um canto perto da janela e não tardaram a aparecer os suspeitos do costume.

“Merda! Tofu outra vez!”, queixou-se Guilherme, juntando-se à mesa.

“Ao menos sabemos de onde vem e como é feito”, disse Carlos, soltando uma sonora gargalhada, enquanto pousava o seu tabuleiro na nossa mesa.

“Não aguento mais Tofu Com Natas, podiam ter feito À Gomes Sá ou Com Broa.”Continuou Guilherme a lamúria.

“Com broa no forninho, como fazia a tua mãezinha, não é?”, interrompeu Jaime, abocanhando um naco com tal sofreguidão que as natas lhe ficaram a escorrer pelo queixo abaixo.

“Não fales da minha mãe, cabrão!”

“Porquê? Se nunca a conheceste. Toda a gente sabe que és filho de um óvulo incógnito!”, e desatou a rir ainda com a boca cheia de tofu.

“Filho da puta!”, Guilherme atirou-se sobre ele de um salto, passando por cima da mesa. Num segundo rebolavam pelo chão e no segundo a seguir o tofu começou a voar por todo o lado. A batalha de tofu rapidamente deu lugar a pancadaria geral. O verdadeiro exercício para libertar tensão tinha começado. Durante cinco minutos nada aconteceu, era sempre assim, deixavam rolar um bocado. Depois soou o alarme e a polícia da fábrica entrou a distribuir porrada com os bastões eléctricos. Meia dúzia de bastonadas eram o suficiente para acalmar os ânimos e ordeiramente voltava tudo aos seus lugares, a chafurdar no tofu, prontos, como nunca, para o turno da tarde.

Saí uma hora antes de o turno acabar. Como cidadãos-atletas temos direito a uma hora de redução no horário normal de trabalho para treinar. Mesmo assim, nove horas na linha de embalagem não deixavam muita energia de reserva. O Carlos saiu comigo e encontrámos o Guilherme e o Jaime no pórtico da fábrica, já a enrolarem um. Aparentemente estavam já reconciliados, mas nunca se sabia quando desatariam à pancada outra vez.

Dirigimo-nos para o subsolo e apanhamos o verme, como era conhecido na gíria o Comboio Tubular Articulado de Deslocação Rápida, que de comboio tinha pouco, pois não se deslocava sobre carris. Mais uma invenção chinesa.

 “Vou só passar na Biblioteca e já lá vou ter com vocês ao Muralha.”

“Biblioteca?”, disse Guilherme, “Queres dizer o Museu do Livro, não?”

“Sim, é isso.”

“Não te atrases, já sabes que é importante dar entrada no pórtico do treino sempre a horinhas”, disse Carlos, agarrando-se bem para não cair numa curva mais apertada.

“Ok, Ok… com certeza senhor. Não me atrasarei.” Entretanto o verme parava na estação do Museu, “ Bom…é aqui. Vou sair, até já.”

Aquela palavra, “Rosebud”, não me saía da cabeça e era isso que na realidade me tirava o sono. Não me era estranha, mas não me conseguia recordar de onde a conhecia. Começava a acreditar nos estudos que diziam que a memória humana havia diminuído. Desde a hegemonia do Google no início do século e a disseminação massiva de aparelhos móveis de acesso à net, colocando a informação imediatamente acessível em qualquer lugar e a qualquer hora, que se estabelecera uma gigantesca memória virtual de acesso mais rápido e preciso que a nossa própria cabeça. Estudos indicaram uma diminuição na capacidade de memorização do cérebro devido à falta de uso. Ninguém quis saber.

Tudo era digital, os livros em papel deixaram de existir. Tudo era virtual e de acesso instantâneo, uma Biblioteca de Alexandria em cada dispositivo. Depois veio a Revolução em 2040, o Google foi nacionalizado na URPE, os acessos severamente restringidos, conteúdos apagados, a informação limitada ao que a Comissão considerava essencial. Propaganda foi sendo misturada com informação, numa sopa de enganos a que gradualmente passaram a chamar História. Os motores de busca tornaram-se uma sombra do que foram, mas era tarde de mais para a nossa memória. Éramos indivíduos sem passado e sem futuro, escravos do presente.

O Museu do Livro ficava num gigantesco edíficio-armazém bafiento, com cerca de vinte andares, e dizia-se que tinha um exemplar de todos os livros jamais impressos e só ali se podia consultar o acervo digital na sua totalidade. Pelo menos era o que se dizia, porque na realidade a informação era disponibilizada em níveis estratificados, conforme as credenciais de cada chip. Não sabia bem o que procurar, por isso percorri um pouco ao acaso algumas salas, até que dei com uma exposição sobre livros e posters de Cinema da primeira metade do Séc. XX. Muitos posters e livros, principalmente de cinema realista soviético. Deixei-me envolver um pouco e dei por mim a olhar fixamente um cartaz daquele que era anunciado como um brilhante filme sobre os malefícios do capitalismo, o Citizen Kane. Um livro sobre o filme atraiu a minha atenção, na capa estava um trenó e nele estava escrita a palavra “Rosebud”… “É isso!”, exclamo estupidamente em voz alta. Olhei em volta, mas ninguém parecia ter prestado atenção, já sabia de onde me recordava daquela palavra.

Rosebud era o trenó do Citizen Kane? Estava cada vez mais confuso.

Ainda num estado de perplexidade, apanhei o verme para O Muralha. Da parte de fora do muro de escalada, perto do pórtico de acesso, já se via um grande aglomerado de gente.

A vigília tinha começado…

1 URPE, União das Republicas Populares da Eurásia, um estado gigante que incluía todos os antigos países da antiga CE, excepto a Inglaterra e ainda os antigos países do Bloco Soviético; um mar vermelho de Lisboa a Vladivostok.

2 CRE, Calendário Revolucionário da Eurásia. Calendário de base solar, centrado no número dez, criado em 2040. O ano civil começava no Equinócio de Outono, mês em que se festejavam as festas da Revolução e durava doze meses de trinta dias exactos, com três semanas de dez dias.

 

Na próxima semana será publicada a sexta parte: Shit Happens. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução