Escalada 2084. XXIV Libéria.

Maio 31, 2013

Escalada 2084 XXIV Libéria.

No capítulo anterior: Um multi-evento musical caótico no Estádio do Bessa Séc. XXII. Um fado premonitório de Amália, interpretado pela primeira vez por LG. Um destino traçado num beijo infinito.

 

O cargueiro, um trampship, cortava as águas do Atlântico com vigor, com destino à costa ocidental africana. Entardecia. A nortada omnipresente fazia os pássaros dançarem por cima de nós. Uma dança feliz, esquecida dos vivos e dos mortos. O vento era o seu destino. Nunca voavam contra ele.

Debruçado sobre a balaustrada, contemplava as ondas que se formavam contra o casco, imerso num mar profundo de negros pensamentos. Levantei a cabeça e ao longe via-se a falésia da ponta de Sagres, um último sinal de Portugal, prestes a desvanecer-se.

“Em tempo escalou-se muito ali”, disse casualmente virando-me para o lado.

“Escalou-se? …”

“Sim, era um local de referência até o proibirem por ser um monumento nacional.”

“Claro…a escola dos navegantes de Sagres…uma bela história para entreter…” Riu-se o meu circunspecto interlocutor, que estava com dificuldades em manter a sua longa barba direita devido ao vento.

“Li, conta-me outra vez a história da Libéria…”, pedi desviando o olhar de Sagres e virando-me para Sul em direcção ao futuro.

“É um caso exemplar da natureza humana…um caso exemplar…”, fez uma pausa, parecia estar a ponderar cuidadosamente as palavras, ou talvez tivesse apenas esquecido onde tinha o tabaco, “No século XIX, com o advento do fim da escravatura nos Estados Unidos da América, muitos acreditavam ser impossível integrar na “sociedade das pessoas livres” os escravos libertos, acreditavam, então, serem mentalmente e fisicamente inferiores. Procuram uma solução para essas pessoas, que passou por criar uma sociedade com a missão de comprar uma parcela de terra em África. “ Voltou-se para trás, para se proteger do vento, enquanto acendia um cigarro.

“Foi assim que nasceu a colónia estabelecida por Afro-Americanos no que hoje é a Libéria…escravos negros libertados…”, disse eu protegendo-me do vento também para acender um cigarro.

“Negros…mas um pouco mais claros…como faziam questão de frisar”, escarneceu Li, num esgar a caminho do sorriso, que lhe fazia sobressair os dentes de ouro.”Os novos colonos, quando foram atirados para África, já estavam “aculturados” aos hábitos e religião ocidentais e, naturalmente, criaram no novo território uma réplica da sociedade em que estavam habituados a viver, falavam inglês, construíram escolas e igrejas protestantes. Embora fossem uma minoria, rapidamente se estabeleceram como uma elite privilegiada, recriando assim o sistema de segregação racial em que viviam anteriormente, só que… colocando-se, desta vez, a eles próprios no topo…”

“Que história demente, dá vontade de me atirar imediatamente pela borda fora, não há mesmo esperança…”

“Não é tudo…”, riu-se mais uma vez Li, “…Há quem diga que a esperança acabou no dia em fomos expulsos do paraíso…”, atirou o cigarro borda fora e continuou: “Bom…esses homens ainda tinham uma réstia de boas intenções e acreditavam que era possível civilizar os nativos…só que para sua grande surpresa estes não queriam ser civilizados…”

“De boas intenções está o inferno cheio…”

“Já falámos sobre isso…” e puxou de mais um cigarro, “Esta triste história acaba com o governo da Libéria a ser acusado de vender parte da sua população para a escravatura.”

“É triste, de facto, e exemplar…”, o mar batia agora com mais força no casco, como se as palavras pesadas lhe revoltassem o estômago. “Foi por isso que estabeleceram lá o território livre de que falas?”

“Foi um conjunto de coincidências, há uma vintena de anos um conjunto de anarquistas pacifistas procuraram um novo território, para um novo começo, longe de tudo e de todos, longe das garras capitalistas e marxistas, viraram-se para África, e a Libéria possuía extensas parcelas desabitadas, a população foi sendo dizimada por anos e anos de guerras civis, e estavam desejosos de receber novas pessoas…a troco de um rendimento, já se sabe. Os anarquistas acharam que a história desse triste país seria uma herança exemplar, uma memória física e viva sempre presente para que não se repetissem os mesmo erros nunca mais. Nasceram assim os Territórios Livres da Libéria, um território anarquista, sem moeda e sem governo, uma nova e secreta esperança para a humanidade…”

“Já tinha ouvido falar desse sítio, mas pensei que fosse um mito, uma espécie de ElDorado…”

“Sim…mas o ouro que lá existe chama-se liberdade…”, virou-se para mim, afagando a longa barba e os olhos cintilaram quando disse: “Não é fácil dar com esse território, primeiro tens de o encontrar dentro de ti…”

Um longo silêncio abateu-se entre nós, só quebrado pelo barulho das ondas, o barco avançava para sul, o tempo também. O meu tempo. Da minha própria história. Pela primeira vez sentia que lhe agarrava as rédeas. “Porque me ajudaste?”

“Não ajudei. Tu próprio lançaste os dados. Eu fechei os olhos e apenas abri uma porta, esta porta para sul. Como já falamos uma vez, pelo facto de se mostrar um caminho, não quer dizer que alguém o queira percorrer…tu colocaste-te no caminho certo e eu apenas fiz com que a imagem do destino ficasse um pouco mais nítida.”

“Isso é bonito, mas não responde à minha pergunta…”

Suspirou profundamente, era primeira vez que o via fazer tal coisa. “Estou cansado Sebastião, muito cansado, não queria partir deste mundo, sem uma réstia de esperança, contribuí demasiado para a sua destruição e o verdadeiro Marxismos das Brigadas é mais do mesmo, a história a repetir-se em ciclos, vezes sem conta, um ciclo de morte.”

Continuou: “Eu não preciso de um novo começo, mas preciso de dar origem a um. Enfim, preciso de um fim, escrito por mim, que seja um começo novo para outra pessoa. Uma redenção final que me faça sorrir, nem que seja por um segundo, neste inferno que ajudei a criar. Sou um homem perdido…há muito…mas para ti talvez haja alguma esperança…”

Um gemido atrás de nós interrompeu a conversa.

“Acordou”, disse virando-me para trás.

“Sim, já era tempo”, disse Li, “Vou para baixo descansar”, e eclipsou-se por uma porta ao fundo.

Aproximei-me da chaise long de deck, onde um vulto estava deitado embrulhado em mantas. Sentei-me à cabeceira. O rosto contorcia-se em esgares e gemidos, até que abriu os olhos. Uns profundos e brilhantes olhos negros.

“Sebastião?”

Afaguei-lhe a testa afastando-lhe os longos cabelos da cara, “Sim…”

“Onde…estou…”, pronunciou a custo.

“É uma longa história…”

FIM

 

 

Não posso deixar de agradecer especialmente a duas pessoas que acompanharam e trabalharam nesta longa saga desde o inicio. Ao Pedro Rodrigues pela paciência, incentivo e revisão dos textos e ao Vítor Baptista por ter abraçado esta ideia com entusiasmo, emprestando, com as suas ilustrações, uma visão diferente, particular e surpreendente a esta história.

Escalada 2084. XXIII Morrer Devagar.

Escalada 2084. XXII Jogo de Cinzas.

Escalada 2084. XXI Bessa séc. XXII.

Escalada 2084. XX Memento Mori.

Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI ShitHappens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III LePlaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. XXIII Morrer Devagar.

Maio 24, 2013

Escalada 2084 XXIII Morrer Devagar.

 

No capítulo anterior: Sebastião agoniza no Red October. Por fim chega o pombo com o objectivo do atentado. Ao ler a mensagem o chão desaparece sob os seus pés. Não haveria recuo, os dados estavam lançados…

 

Cheguei mais uma vez atrasado, mas mais do que a tempo para o que vinha ali fazer. O multi-evento já havia começado. O cartaz era extensíssimo, desde a música neo-pimba ao fado, passando por uma orquestra clássica com mais de 200 elementos, que interpretaria obras populares de Prokófiev. A orquestra, que na realidade era um super-computador musical, na boca dos melómanos era uma experiência melhor que o original, uma experiência “exacta” e sem as abjectas falhas humanas, diziam. Era um espectáculo bizarro, mas muito do agrado de um público sempre ávido de novas tecnologias de “deixar a boca aberta”, um monólito gigante erguia-se no palco, límpido e aparentemente sólido e inerte, um maestro, convenientemente desgrenhado, entrava e, ao primeiro sinal da sua extravagante mímica, o monólito começava a brilhar e a piscar, com múltiplas luzinhas a acenderem-se ao som dos acordes musicais.

A seguir foi servido um cantor romântico, para gáudio do público feminino de meia-idade. Com letras recicladas um milhão de vezes o, bem penteado, sujeito fazia o seu papel amolecendo empedernidos corações com um bálsamo que falava de amores perdidos, ilusões reencontradas e ocasos a dois em praias de areia branquíssima.

Um grande enxame de pequenas crianças canoras serviu de interlúdio a um dos pratos principais da noite, a banda de punck-new-age, Caos Iluminado, que para desespero de inúmeros fãs, vestidos a preceito, só tocaria uma única música, o seu mega êxito, Enlightened Rats. Também aqui não havia instrumentos em palco, apenas os elementos da banda em desenfreadas coreografias, uma espécie de ópera ultra-moderna, em que os músicos também eram actores. O seu líder, uma espécie de cruzamento auspicioso de Sid Vicious com um monge budista, estava especialmente enérgico nessa noite interpretando os diversos papéis que a música sugeria. Uma música que ia, com uma facilidade espantosa, de cantos de baleias a riffs de guitarras estridentes, levando-o da posição de lótus a enérgicos golpes de Karaté, em questão de segundos.

Algures no meio desta algazarra actuaria LG. Tinha prometido assistir ao concerto, muito antes da fatídica notícia e estava combinado que passaria nos camarins a seguir à actuação. Pelas mensagens trocadas ela já sabia da minha presença no estádio. Aproveitando-me da enorme confusão na zona dos camarins, disse-lhe que não podia correr o risco de ser reconhecido, ela estava a par da minha condição de fugitivo, e por isso seria impossível lá passar. Insistiu. Pedi-lhe, então, para ir ter comigo sozinha à zona debaixo da bancada, uma hora a seguir à sua actuação. De imediato respondeu que sim, que iria, embora não soubesse ainda como despistaria a segurança…

Mais ou menos à hora da actuação de LG fui para o relvado. O bisneto do Quim Barreiros, conhecido como Kim Três, estava em palco a acabar a interpretação do seu último êxito, Cama Truta, aparentemente levara um certo livro de presente a uma vizinha que o convidara a comer trutaUm intervalo e chegaria LG, para a grande apoteose da noite. Finalmente.

Entraram os guitarristas e pouco depois apareceu em palco uma esfíngica figura de preto, como sempre. O tema que cantaria nessa noite era desconhecido. Caiu um estranho silêncio, interrompendo, por segundos, a respiração próprio estádio. O som metálico das guitarras quebrou o encantamento, arrancando, para surpresa de muitos, os primeiros acordes de Meu amor, meu amor, mais um fado de Amália, que era uma estreia absoluta no repertório de LG. As palavras caem-me do céu como a chuva límpida da nuvem negra de que falara Li, “…nós parámos o tempo não sabemos morrer/e nascemos nascemos/do nosso entristecer….” Era uma canção ou uma premonição, estava siderado, “…este mar não tem cura este céu não tem ar/nós parámos o vento não sabemos nadar/e morremos morremos/devagar devagar.” As lágrimas corriam-me em abundância pela cara abaixo, era eu próprio um triste espectáculo, o empedernido assassino em lágrimas perante a sua vítima… Mas a catarse era colectiva e as minhas lágrimas eram apenas um grão de sal no mar que brotava do público, cada um chorava a sua tragédia, lavando com as lágrimas o manto da vontade de viver. Mas para mim o céu não tinha ar de facto. Sentia-me prestes a sufocar.

Uma sombra aproximava-se. Uma figura esguia, envolta numa capa com um grande capuz de monge, aproximou-se de mim. Estava encostado a um pilar, numa das zonas mais sombrias por baixo da bancada. Era ela, não havia a mínima dúvida, o coração disparou a cem à hora. Aproximou-se, de cabeça baixa para não ser reconhecida, estendeu-me as duas mãos e ouviu-se um sussurrado: “finalmente…”, levantou a cabeça e os olhos faiscantes encandearam-me momentaneamente, “estás diferente…mais humano com essa barba e cabelo”, olhou-me com mais atenção, “mas és tu sem dúvida…finalmente posso juntar um rosto e uma presença às tuas palavras…palavras que me têm salvo a vida…”

Não conseguia dizer nada. “L…”, articulei a custo, “finalmente…” Recuperei o sangue frio e disse-lhe: “vamos para ali para o parque de estacionamento, para estarmos mais à vontade.” Abri a porta discretamente e passámos para o outro lado, para um deserto e soturno parque de estacionamento. Levei-a pela mão, em direcção à carrinha, estrategicamente estacionada num local discreto e escuro.

“Com que então salvei-te a vida….não estou a ver como…”

Olhou-me a direito e os olhos brilharam intensamente: “ falar contigo, as tuas cartas e mensagens, são a única coisa real na minha vida, os únicos momentos em que não tenho de fingir, ser uma sósia de Amália ou uma viúva chorosa, ou outra coisa qualquer que me colam continuamente na cara.”

“Também tu… foste a única luz, na escuridão em que vivi nestes últimos meses”, disse num fio de voz quase inaudível.

Baixei-lhe o capuz e, vítimas de um magnetismo incontrolável, os nossos rostos aproximaram-se para se fundiram num beijo infinito. O abraço prolongou-se desmesuradamente no tempo. Tempo que parara. Parara para alguém morrer. Devagar.

Sem hesitar apliquei-lhe a injecção, que dissimuladamente estava na minha mão. O corpo de LG desfaleceu nos meus braços.

 

 

Na próxima semana será publicada a vigésima quarta, e última,  parte: Libéria. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XXII Jogo de Cinzas.

Escalada 2084. XXI Bessa séc. XXII.

Escalada 2084. XX Memento Mori.

Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

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Escalada 2084. XXII Jogo de Cinzas.

Maio 17, 2013

Escalada 2084 XXII Jogo de Cinzas.

 

 

No capítulo anterior: Um Jogo de futebol no ultramoderno estádio do Bessa séc. XXII serve a Sebastião e a Li para reconhecerem o terreno do futuro atentado. Os pormenores são revistos à exaustão, mas o alvo permanece indefinido…

A semana eternizava-se. O lento passar das horas, na cave do RedOctober, acentuava as minhas dúvidas e incrementava um desespero crescente que aos poucos tomava conta de mim. Grãos de dúvidas e de incerteza iam cobrindo o meu caminho como uma areia espessa, apagando-me o passado, negando-me um futuro e mantendo-me prisioneiro num presente opressivo.

De noite não conseguia dormir. Acordava frequentemente com suores frios. O mesmo pesadelo atormentava-me de forma recorrente: o Chefe dava-me um punhal para as mãos e dizia a sorrir,”Agora prova do que és capaz”, eu olhava para aquilo sem perceber e ele dizia, “Mata-te, mata-te!”, e começava a rir sinistramente enquanto a sua cara se transformava na caveira de diamantes. Acordava banhado em suor, sentava-me e acendia um cigarro. No andar de cima, a acção continuava. Os velhos jogavam majong de dia e de noite. Mas o barulho das peças no soalho já não me embalava o sono. O jogo nunca parava. A vida também não. Era o momento de decidir ser peça ou jogador.

Como nas últimas noites levantava-me, saía da cave, passava pelos velhos e ia para o quintal das traseiras fumar cigarros, tentando perscrutar na noite uma solução. Queria avisar LG para cancelar o seu concerto, mas uma mensagem desse género poderia comprometer toda a operação. Mas não, não haveria perigo, não podia ser ela o alvo, dizia para mim mesmo repetidamente tentando tranquilizar-me.

Revíamos a operação vezes sem conta. A carinha, um veículo insuspeito, ficaria estacionada no parque por baixo da bancada do estádio. O alvo, esse, seria atraído à zona perto da porta de grades através de uma mensagem irresistível.

“Que fazes a seguir?”

“Entro em acção, imobilizo-o e aplico-lhe uma injecção na base do pescoço.”

“Exactamente….tal e qual como fazia o antigo Dexter na série de televisão”, riu Li, mostrando uma profusa cremalheira amarelecida pelo tabaco, na qual pontificavam dois dentes de ouro.

Dexter? Não conheço.”

“Era uma série de televisão do início do século…uma boa série sobre um serial killer bem intencionado…imagina…, no fundo para ele, tal como para nós, os fins justificavam os meios.” O sorriso esmorecera e o rosto de Li voltara a adquirir um ar sombrio.

“De boas intenções está o inferno cheio…”, disse de mau humor.

“Tens razão…tens muita razão…é verdade que o Inferno não tem portões…enquanto a estrada para o Céu é bem conhecida e ninguém a quer percorrer…”

“Estou sem paciência para os teus enigmas…voltemos à terra…aplico-lhe a injecção e o tipo adormece ali na hora…”

“Sim…adormece para sempre…”

“Para sempre? Não vai ser um rapto?”

“Vai, vai….mas…sem resgate…”, disse sinistramente Li.

Sairíamos do estádio rapidamente e algures a meio da caminho trocaríamos de viatura, abandonando a primeira com um pequeno presente para os agentes da DRAS.

“Uma bomba?”

“Claro, algum fogo-de-artifício ajuda sempre à festa!”

Já na nova viatura chegaríamos ao Red, faríamos um vídeo-mensagem e a seguir livrar-nos-íamos do corpo.

“Como nos vamos livrar do corpo?”

“Não te preocupes, o Gong trata disso, já te referi que possui multi-talentos?”

Engoli em seco aterrado, “Já, já.”

“Mas…por essa altura já estaremos em Leixões para embarcar para Inglaterra. Agora vamos preparar tudo, que o pombo chegará em breve.”

Finalmente chegara a véspera do concerto. Tudo estava preparado. A viatura já estava no parque de estacionamento do estádio, convenientemente lá deixada pelo nosso infiltrado. Estávamos todos nas traseiras do Red, um daqueles esguios quintais típicos da baixa do Porto, à espera do pombo. Um velho relógio de ponteiros na cozinha martelava os segundos, pancada atrás de pancada. Uma mosca pousou na varanda de ferro, parecia estar a vê-la ao microscópio, esfregava as patas, fazendo aquilo que as moscas fazem normalmente na sua vida de moscas, indiferentes às ansiedades e ao tempo humano. Olhava-a com infinita atenção tentando abstrair-me da tensão da espera, mas o insecto continuava indiferente e não mostrava o mínimo sinal de compaixão para com os meus problemas.

 A cinza dos cigarros não parava de cair, como uma neve suja ia cobrindo a laje de granito da varanda, por fim um som, um grunhido mais propriamente, fez-me estremecer como quem acorda de um sonho. O primeiro a ver o pombo foi o Gong.

“Aí está ele”, disse Li apagando o enésimo cigarro no chão.

O pombo aproximou-se graciosamente da varanda de ferro. Pousou, fazendo fugir a minha amiga mosca. Parecia o Aristides, mas não conseguia ter a certeza, para mim, tal como os chineses, os pombos eram todos iguais. Li apanhou-o com delicadeza, e retirou-lhe a mensagem da pata.

Abriu o papel e leu. Nem a mais leve expressão o traiu. Passou-me o bilhete. Apenas duas letras, o suficiente para sentir o chão a abrir-se aos meus pés: LG.

Estava feito, tudo preparado, o alvo definido. Não havia recuo, no entanto não consegui respirar, o papel escapou-me das mãos, ficara paralisado, via o  papel a cair no chão com uma lentidão desmesurada. Uma mão apanhou-o, pegou-lhe fogo e acendeu um cigarro com ele. Era como se nunca tivesse existido, no entanto a sentença estava traçada.

“Agora percebo tudo, finalmente!”, explodi de raiva.

“Tudo tem um significado, todos temos um propósito na vida, o teu é executar esta missão, a escolha do alvo pode parecer-te cruel, mas não te esqueças que estás à prova ainda e esta é definitivamente uma prova difícil à altura dos melhores entre os melhores.”

 “Vai-te foder! À altura das melhores marionetas, queres tu dizer!”

“Como quiseres…não te martirizes muito com isso…somos todas marionetes nas mãos do destino…”

Estava desesperado, comecei a esmurrar a parede cego de raiva. Até que fui imobilizado por um aperto poderoso. A um sinal de Li, Gong imobilizara-me.

“Calma, calma…ainda vais precisar dessas mãos…”

Gong largou-me e caí no chão como um boneco de trapos. Encostei-me à parede, recolhi os joelhos e cobri a cara com as mãos sangrentas.

“Não desesperes, levanta-te…” o circunspecto e frio chinês, falava-me num tom que nunca lhe tinha ouvido, estendeu-me a mão, “nunca te esqueças que das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.”

Aquelas palavras tiveram um estranho efeito sobre mim, levantei-me e fui para a cave, sem uma palavra, mais tarde, já de noite, voltei para o alpendre, passei ali a noite em claro. A luz da madrugada, fez-me abandonar o estado de torpor e sair, havia muito a fazer até à hora do concerto.

 

Na próxima semana será publicado a vigésima terceira parte. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XXI Bessa séc. XXII.

Escalada 2084. XX Memento Mori.

Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. XXI Bessa séc. XXII.

Maio 10, 2013

Escalada 2084 XXI Bessa séc. XXII.

No capítulo anterior: Passam-se seis meses. Carlos partiu as duas pernas na queda da Gaia e está longe de andar direito ainda. Chega finalmente a hora da temida primeira missão para Sebastião. Carlos, devido à sua nova condição, fica em “terra”.

“Gooooooolooooo!”, a bancada estremeceu toda, como se estivéssemos no epicentro de um pequeno sismo de magnitude local. De repente, os que estavam acima de nós precipitaram-se para baixo e fomos arrastados, com grande espalhafato, em direcção à vedação, caindo todos uns por cima dos outros. Visto de fora era uma bizarra cena de pânico com os intervenientes contagiados por uma felicidade louca. Recompostos e levantados, escalámos a bancada de volta aos nossos lugares. Bombos gigantes começaram a ribombar e os adeptos abraçados, alguns em lágrimas, começaram a cantar, movendo-se lateralmente numa corrida louca, ora para um lado, ora para outro, “Boaaaaaaviiiiista!” Nós, entrelaçados na turba humana, também corríamos, também gritávamos, deixando-nos contagiar pelo sentimento eufórico.  Havia algo de tremendamente humano naquele extravasamento emocional colectivo, algo primitivo ou primordial que continuava a funcionar como um escape a um mundo cada vez mais tecnológico e desumano.

Quando as coisas acalmaram um pouco, gritei para Li: “Que é que estamos aqui a fazer?”

Li, embora abraçado a um Boavisteiro, estava circunspecto e sereno como sempre. “Estamos a ver futebol. ”

“No meio da claque?”

“Gosto da emoção, porque o jogo em si já não tem piada nenhuma, desde que deixou de haver árbitro em campo.”

Um grito, mesmo atrás de nós, cortou-nos a conversa. “Filho da puta de computador, isso não é fora de jogo nem aqui, nem na China”, à falta de árbitro os protestos eram dirigidos para uma entidade abstracta geralmente referida como o “fdp do computador”. Primeiro fora o chip na bola, depois um chip em cada jogador e finalmente um em cada chuteira. Um sistema de análise de dados e imagens 3D, referenciava o jogo em tempo real, parando-o, com um apito electrónico no sistema de som do estádio, sempre que era cometida uma infracção. A análise da infracção surgia então esmiuçada ao milímetro no ecrã gigante e uma voz artificial e pré-gravada, como a dos GPS antigos, surgia para referenciar a falta. Sem uma presença humana a quem dirigir os habituais protestos, no início assistiram-se a cenas caricatas, com os jogadores a correrem em todas as direcções, outros a olharem para o céu, como se uma entidade divina tivesse marcado a falta. Depois habituaram-se e arranjaram novas formas de teatro, suscitavam a piedade e inocência com gestos estudados para o público, como os gladiadores da Roma antiga, faziam birras ou até pequenas mímicas que se transformavam em imagens de marca. Em caso de faltas mais graves, penalties por exemplo, e sem o carrasco em campo, muitas vezes pegavam-se em pancadaria geral, algo que se tornou de tal maneira frequente que passou a fazer parte do espectáculo, quase como no hóquei em gelo. Quando eclodia a pancadaria, entrava em campo uma equipa de intervenção especial criada pela FFE1 chamada EEA, Equipa Especial de Apaziguadores, eram de tal forma eficazes que às vezes mal punham um pé dentro das quatro linhas o tumulto parava de imediato e o jogo prosseguia , para grande decepção do público.

“Sim, isto parece um video game, não fosse a batatada e era entediante como o caraças.”

O intervalo chegou e fomos para outra zona do estádio. “Observa tudo com atenção, pois pode vir a ser muito útil. A ideia é aproveitar o jogo, para reconhecer o terreno sem dar nas vistas, não há nada como o reconhecimento no terreno real, não gosto de plantas e esquemas.”

“Então vai ser aqui a missão, no Estádio do Bessa séc. XXII?”

Com um olhar severo mandou calar-me: “Falamos nisso mais logo…no Red October.”

Chegara a Portugal há cerca de uma semana. A viagem decorrera sem problemas e devido ao chip pirata desembarcara em Leixões sem constrangimentos de maior, a minha condição de hirsuto barbudo ajudava também ao disfarce, mas mesmo assim estava confinado à cave do Red OctoberTattoo, um dos esconderijos das BMV em Portugal. Era com agrado que saíra da  toca bafienta para ir ao futebol.

“Repara, este é um Estádio ultramoderno reconstruído para o próximo século e aqui em baixo ainda existem grades com portas tradicionais…são estes pormenores que fazem a diferença no terreno…” Estávamos debaixo de uma das bancadas laterais, do lado oposto da tribuna de honra, onde uma espécie de parede de grades metálicas separava a zona do público de um parque de estacionamento. “Temos de conseguir uma chave para esta porta de grades, e deixar aqui uma viatura pronta para a fuga, uma vez na viatura saímos nas calmas pelas traseiras do estádio.” Voltámos para cima, para a segunda parte. “No fim do jogo vamos encontrar-nos lá fora, junto à estátua da Pantera, com um camarada nosso que trabalha aqui no clube.”

A vitória sorriu à equipa da casa. Foi assim num ambiente de grande alegria que saímos do estádio e nos dirigimos para a estátua da Pantera. Junto à estátua, existia outra,  uma figura humana em tamanho real, representava uma figura austera, com ar de estadista, com os dois braços ligeiramente levantados e com os dedos indicadores espetados a apontar para o ar. Muitos adeptos passavam e davam um beijo à estátua, um deixou um cachecol, outros flores axadrezadas, uma inovação das mais recentes na clonagem de flores.

O movimento era intenso e a multidão imensa. O Boavista, clube quase bicentenário da cidade do Porto, era um carrossel demoníaco para os seus adeptos. Numa década podiam ser campeões, na outra a seguir podiam cair na terceira divisão vítimas de escândalos de corrupção, como na seguinte podia ser comprado por uma holding de magnatas africanos do sector energético e transformar-se num colosso do futebol europeu, com várias Ligas dos Campeões no seu palmarés. A revolução tratara bem o Boavista, passara pela nacionalização sem problemas e hoje a cavalgava o “capitalismos selvagem de estilo Chinês” com grande à-vontade, capitalizando-se em abundância em África e mantendo-se, para grande alegria dos seus adeptos, no topo do futebol da Eurásia.

Um homem de cartola e laço axadrezado passou e ajoelhou-se em frente à estátua humana para uma pequena reza, depois levantou-se, fez uma festa na pantera e seguiu o seu caminho. Um tipo com cara de poucos amigos e ar desconfiado apareceu e fez-nos um sinal discreto para o seguirmos.

Quando nos afastámos um pouco, disse, nervoso, sem se virar para trás: “Caralho! mais valia estar um a cavalo da pantera e outro a tirar fotografias, não sabem ser mais discretos?”, e continuou a andar apressado, “vamos ali para a frente do liceu onde não está ninguém”, disse sempre a caminhar e sem se voltar para trás.

Quando estacámos em frente ao liceu, Li voltou-se para o homem: “No meio dos outros o teu nome será multidão, no meio do arrozal chamar-te-ão pelo nome com que nasceste.”

“Poupa-me aos teus ditados, chinoca. Quem é o cabeludo?”, rosnou o homem dando uma fungadela.

“Não te interessa…tens a chave?”

“Sim está aqui”, e entregou-nos a chave.

Li pegou na chave, verificou-a e disse rispidamente: “Agora desaparece, nunca nos viste por aqui, percebes?”

“Claro. Por acaso pareço-te um caralho de um amador?…”, susteve por uns segundos uma atitude de desafio, depois, perante um impávido Li, fungou e seguiu o seu caminho a resmungar.

“É curioso que ainda usem chaves…”

“É bem mais seguro que os chips…”, riu-se Li.

À noite, estávamos entretidos nas traseiras do Red October, onde existia uma cozinha improvisada. O gigante tatuador surdo era um excelente cozinheiro, um homem multifacetado, hábil com a agulha de tatuar, o bisturi ou a colher da sopa.

“Excelente esta canja de seitan, a folha de menta dá-lhe um travo diferente e delicioso.”

“Tens de agradecer ao Gong, é uma sorte tê-lo connosco”, disse Li.

Levantámos as tigelas na direcção do gigante e ele grunhiu num sorriso satisfeito.

“Já podemos falar sobre o que fomos fazer ao Estádio do Bessa séc. XXII.”

“Sim, já é tempo de discutir a missão ao pormenor.”

“Porque sou sempre o último a saber?”

“São as regras, já as conheces.”

“OK, o que vamos fazer no estádio então?”

“Um atentado.”

Começava a ficar com suores frios, apesar de tudo e do treino, não estava preparado para um atentado suicida ou algo do género: “Suicida?”

“Não. Não é o nosso estilo, já o devias saber a esta altura, será um rapto e assassinato selectivo de uma alta individualidade do regime.”

“Vai ser num jogo de futebol?”

“Não, num concerto…de…fado…”

Era verdade…a LG actuaria no estádio do Bessa na próxima semana, num multi-evento de música.

“Já sabes quem será o alvo, já está identificado?”

“Não, só se saberá na véspera, chegará pelo pombo…”

 

1 Federação de Futebol da Eurásia, organismo que substituiu a FIFA após a sua extinção e queda em desgraça por escândalos de corrupção sucessivos.

 

Na próxima semana será publicado a vigésima segunda parte. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XX Memento Mori.

Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução


Escalada 2084. XX Memento Mori.

Abril 25, 2013

Escalada 2084. XX Memento Mori

No capítulo anterior: A iniciação ao headpointing não corre muito bem a Sebastião. Carlos, por seu lado, acabou o dia pendurado na ponta da corda a girar como um pião…

 

Uma ritmada chiadeira marcava os meus passos no soturno corredor. Empurrava uma velha cadeira de rodas em direcção ao escritório do chefe, sentado nela estava um macambúzio Carlos. Não trocara ainda uma palavra com ele, desde que o fora buscar à enfermaria. Parei em frente à temida porta. Uma vez terminada a chiadeira das rodas, o silêncio instalou-se, pesado, gerando um pequeno impasse.

“Porque esperas para bater?”, disse Carlos de acentuado mau humor.

“Huuu…estava à espera que batesses tu.”

“E como queres que caralho me chegue à frente, com as duas pernas engessadas!”

“OK, OK.” Cautelosamente bati. Ouviu-se um seco: “Entre.”

Entrámos. Eu a empurrar a cadeira de rodas. Carlos lívido e sem se atrever a olhar em frente. O chefe estava entretido a escrever qualquer coisa numa pose, que parecia estudada, muito profissional, tendo ao lado, pousado e a fumegar, o famigerado charuto. Não levantou imediatamente a cabeça, para não nos dar demasiada importância e quando, finalmente, o fez, fitou-nos intensamente com o seu único olho, adquirindo este, por segundos, um brilho metálico, que me enervou a memória e me fez encolher a mão involuntariamente.

“Que magnífico par…”, disse em jeito de saudação. Nós, como que tomados de um súbito torpor, ficámos mudos.

Pegou no charuto e soltou uma baforada: “Um aleijado das pernas…e o outro da cabeça…um magnífico duo de facto.” Reclinou-se um pouco mais para trás, colocando os pés em cima da secretária. “Que é que vou fazer de vocês…” Fitou o tecto e pareceu meditar, uns minutos que pareceram horas para nós.

Voltou a olhar-nos e, para meu espanto, sorriu quase com ternura. Levantou-se, compondo o casaco e o colete, e disse jovialmente: “Então que escalada era essa que foi responsável por este desastre.”

“Gaia, a via chama-se Gaia, senhor…”, disse Carlos num fio de voz quase inaudível.

“E que tal, é muito difícil?”

“É senhor, bastante, uma das mais difíceis.”

“E perigosa…pelo que vejo.”, estava agora nas nossas costas e, com grandes passadas, começava a descrever círculos sobre nós.

“Sim, caindo da parte de cima é muito perigosa.”

“Um crux psicológico, como se diz”, atrevi-me a dizer numa tentativa de ajudar Carlos.

“Ah…também tens algo a dizer…foste tu que o convenceste a ir a esse… crux?

“Ninguém me convenceu de nada”, cortou secamente Carlos, arrependendo-se imediatamente a seguir, o que o fez mudar de tom e lamuriar-se um pouco mais: “é tudo culpa minha, senhor.”

“Quais são os benefícios de escalar uma coisa…assim perigosa?”, continuou o chefe, num tom amigável, um tom que só era contrariado pelos círculos que, como um tubarão, ia descrevendo sobre nós.

“Nenhuns, senhor, nenhuns…é apenas um jogo.”

“Um jogo…um jogo…eu gosto que os meus homens se mantenham em forma, é um desastre quando se transformam em ociosos inúteis, mas o perigo verdadeiro gostaria que ficasse reservado para as missões, sabem…é uma mania que eu tenho…”

“Tem toda a razão, senhor, foi um erro de cálculo, não voltará a acontecer.”

“E que tal estão essas pernas?”

“Em bastante mal estado, estão as duas partidas, tenho gesso e esta armação externa com uns quantos parafusos… aí para uns seis meses…”

“Hum…sim deve ser extremamente doloroso, eu pela minha parte nunca parti nada…imaginem…mas conheço bem a dor…damo-nos bem. Conheço-a, respeito-a e aprendi a fazer dela uma amiga, especialmente desde o dia em que me esfaquearam e perdi o olho…” Subtilmente retirou um punhal de dentro do casaco e levou-o à luz para o contemplar melhor. “Fiquei com ele como recordação, tem uma lâmina afiadíssima, o seu dono, infelizmente, já não está entre nós…” Num gesto rápido, mas calmo, levou a ponta do punhal até bem próximo do olho esquerdo de Carlos, este, sem tempo para reagir, ficou paralisado sem se atrever a mexer um pelo. “Já imaginaste, Carlos, o que será uma facada num olho…”

Voltou a guardar o punhal e delicadamente afastou-me para o lado, começando ele próprio a empurrar Carlos pela sala, como se estivesse a mostrar-lhe a casa: “Muito doloroso…muito doloroso…”, ia dizendo.

“Mas esta cadeira chia horrivelmente…”, disse estacando subitamente, “vamos já remediar isto.” Dirigiu-se a uma prateleira e pegou num pequeno spray que estava ao lado de uma arma. “Este lubrificante para armas deve servir.” Pousou um joelho no chão e oleou os rolamentos da cadeira criteriosamente. Levantou-se, empurrou a cadeira para a frente, depois para trás, uma e outra vez, até que pareceu satisfeito. “Ah…muito melhor agora.”

Continuou a volta à sala, empurrando a cadeira. “A dor tem sido uma constante na minha vida, e não só a dor física…”, e quando parecia preparar-se para contar a história da sua vida, com uma poderosa torção virou a cadeira e atirou Carlos ao chão. Este caiu de lado como um boneco e começou imediatamente aos berros contorcendo-se. No segundo a seguir, o chefe imobilizou-o com uma mão e um joelho. Com a mão livre apertou-lhe um dos parafusos da armação da perna, começando a berrar tresloucado, sobrepondo-se aos gritos do próprio Carlos.

“Filhos da puta! Aqui ninguém se põe em perigo sem eu mandar”, e apertou com mais força o parafuso.

Era como se uma tempestade furiosa se abatesse subitamente sobre nós, deixando-nos paralisados de terror, o homem parecia explodir de raiva e berrava como um trovão: “Entendes! Eu decido se arriscam ou não, se vivem ou se morrem, eu, entendem?!? Não vocês, em estúpidos jogos!”. Carlos, imobilizado, já não conseguia gritar e parecia prestes a desmaiar quando o chefe, finalmente, o largou.

Levantou-se, compôs o colete e o casaco, e voltou a acender o charuto, enquanto, no chão, Carlos gemia e se contorcia em choque: “Ajuda-o a levantar-se e tira-me este inútil da minha frente…” Tirou mais uma baforada do charuto e com uma calma de aço, como se não se tivesse passado absolutamente nada disse: “Leva-o de volta para a enfermaria e quando voltarem a aparecer por aqui que seja sem essa estúpida cadeira.”

*

“Táque, táque, táque”, o som de um andarilho quebrava o silêncio do soturno corredor. Passaram seis meses, Carlos já não tinha gesso, mas estava longe de andar. A escalada fora dos treinos fora completamente proibida. Foram seis meses de treino intensivo e doutrinação. Estava agora capaz de manejar vários tipos de armas com destreza, aguentar severos interrogatórios, montar e desmontar explosivos e preparar venenos poderosos. Conhecia os vários princípios Marxistas de trás para a frente, dando por mim, por vezes, estranhamente convencido que eram a única solução para o mundo. Preso naquele mundo fechado, todos os dias a ouvir a mesma coisa, abraçara aquela realidade, descobrindo na utopia um farol sobre um mundo de trevas e começando a acreditar que os meios justificavam os fins para se atingir essa luz.

Seis meses depois, lá estávamos nós de novo, no impasse à porta do chefe, no jogo psicológico do empurra a ver quem é que batia à porta. Carlos estava magro como um cão e com dois palitos a fazer de pernas, eu era agora dono de uma boa cabeleira e uma séria barba, não demasiado grande, quando às vezes usava uma boina diziam-me que ficava igualzinho ao Che.

Entrámos apreensivos, os resultados de uma reunião com o chefe eram imprevisíveis, especialmente se alguma coisa irritasse o homem.

Desta vez, encontrámo-lo de pé, impecavelmente vestido de smoking e, não fosse a pala, dir-se-ia que era um lorde inglês acabado de se vestir para o jantar. Recebeu-nos com um sorriso cordial e fez-nos sinal para nos aproximarmos. Segurava uma antiga nota com uma pinça e examinava-a com uma lupa. Era uma antiga nota de 500 Euros.

“Magnífico exemplar de papel-moeda, senhor, é uma pena que já não se use”, disse Carlos solícito.

O Chefe baixou a lupa e olhou para ele sorridente, depois adquiriu um tom sério quando disse: “O dinheiro deixou de nos sujar as mãos ,mas no entanto continua a sujar-nos a alma… tudo começou com isto…o Euro e a sua crise…tudo começou com a utopia do Euro…”

Pousou delicadamente a nota numa vitrina, onde estava exposta em conjunto com outros objectos.

“Não o sabia entusiasta da numismática, senhor”, disse eu, tentando fazer conversa de salão.

“Nada disso, nada disso, colecciono apenas objectos antigos e simbólicos, quando os contemplo e estudo, ajudam-me a focar no essencial da nossa luta, apenas isso…esta caveira por exemplo…” E retirou da vitrina uma caveira humana em tamanho real cravejada de brilhantes. “O que vos parece?”

“Eis um símbolo perfeito do capitalismo e da ganância”, disse Carlos.

“A mim parece-me uma imitação perfeita da caveira de Damien Hirst, como é que se chamava aquilo…”

For the Love of God…”

“Exactamente… a vitória sobre a decadência…a vitória sobre a morte…”, os brilhantes ofuscavam-me. “É uma imitação notável.”

“O que te faz pensar que é uma imitação…”, e voltou a colocar a caveira na vitrina, “pareço uma pessoa que gosta de imitações…”, e fitou-me atentamente com o único olho.

“Bom, o original vale milhões, é umas das obras de arte mais caras de sempre, depreendo por isso que será uma imitação, não?”

“Ora aí está, ora aí está… não seria perfeito estar aqui uma das obras máximas do capitalismo, aqui tristemente perdida, sem valor nenhum, despojada da sua essência, o seu valor, não seria esse o símbolo perfeito para a nossa luta?…”

“De facto…”

“Mas como, muito bem disse Carlos prefiro vê-la como um símbolo de ganância e não de vitória, um rio de sangue poderia brotar eternamente deste objecto…É por isso que prefiro esta”, e retirou outra caveira, ao natural por assim dizer, e passou-ma para as mãos. “Sentes o peso da mortalidade?” Ficou parado a observar-me enquanto puxava do charuto. “Dir-se-ia que pareces Hamlet.”

“Será de Yorick esta caveira, Senhor?”

“Não, não se chamava Yorick…”, e o olho brilhou intensamente.

“Mas não vos chamei aqui para discutir arte memento mori”, disse pegando novamente caveira que eu lhe devolvi. “Se bem que queria que tivessem bem consciência da vossa mortalidade e que…ela está por assim dizer nas minhas mãos”, ia afagando a caveira sinistramente enfatizando assim de modo bastante convincente as suas palavras. “ Bom, mas penso que esse ponto está claramente esclarecido, vamos tratar de negócios.” E colocou a caveira na vitrina, fechando-a à chave.

“Um barco da Tofu-Brothers parte esta noite de Riga, dentro de três noites poderá ser interceptado”, olhámos um para o outro, desta vez a surpresa era para os dois pelos menos, depois dirigindo-se para mim: “És esperado nesse barco, por isso podes começar a fazer os preparativos para partir, desta vez sairás de Grimsby que é mais perto daqui, o processo será o mesmo, sais num barco de pesca e interceptam o porta-contentores durante a noite.”

“E eu?”, Carlos estava estupefacto.

“Não há lugar para aleijados nesta missão.”

“Mas preparei-a durante meses, merecia estar lá pelo menos.”

“Não andasse a brincar às escaladas, agora ficas na doca, de resto está tudo preparado lá…”

“Lá onde?”, perguntei.

“Em Portugal.”

“Mas ele não está pronto”, disse Carlos.

“Não são essas as informações que me chegam, de resto o Li andará sempre por perto.”

“Preparado para quê exactamente? Que missão vai ser esta?”, disse eu.

“A seu tempo o saberás, a seu tempo…só conhecerás o objecto da missão pouco antes da execução, é sempre assim com os novos recrutas, de resto o importante não é saber o objectivo, o importante é saber se vais hesitar quando chegar o momento da execução.”

“Não vou falhar. Ao contrário dos inimigos do Marxismo verdadeiro, acredito que a verdade está na acção, só a acção interessa, por isso é-me indiferente o objectivo desde que sirva a nossa causa.”

“Ah…a praxis…e se praxis te colocar pela frente alguém que admiras, ou um amigo até…”

“Não tenho amigos, apenas causas.”

 

Na próxima semana será publicado a vigésima primeira parte. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

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Escalada 2084. XIX Sangue Suor e Lágrimas.

Abril 19, 2013

Escalada 2084 XIX Sangue Suor e Lágrimas

No capítulo anterior: Do pub para a falésia, tudo é novo para Sebastião, uma rocha nova, protecções naturais…top-rope…O bando instala-se e as coisas começam a aquecer quando Carlos descobre que a via Gaia, o seu objectivo, está interdita à escalada em top…

 

Uma palmada seca, bem assente nas costas de Carlos pela minha mão, ecoava ainda quando disse: “Anima-te pá! Parece que viste um fantasma!”

 “Não conheces a via…”, disse Carlos, assumindo uma lividez quase cadavérica.

“Ninguém te obriga a lá ir.”

“Vai ter de ser, vou ter de tentar mesmo assim…”, murmurou para si próprio cerrando os punhos e fechando os olhos, numa espécie de reza de auto-motivação, depois virou-se para mim: “Há dois anos que não me sai da cabeça, na altura encadeei em top, mas não tive coragem para ir à frente, agora sei que estou bastante mais forte, nunca me iria perdoar se não tentasse…pelo menos tentar…”

Brilliant!”, interrompeu o desgrenhado mascador de tabaco, apercebendo-se da teimosia de Carlos. “Nunca mais ninguém fez aquilo, desde a proibição”, e brindou-nos com mais uma cuspidela.

“Quem fez, fez, quem não fez, fiiiizesse, é o que eu costumo dizer”, rematou o desdentado, brindando-nos, para não ficar atrás do seu amigo, com um bonito sorriso.

Traçado o plano principal passámos ao real business. Carlos deu-me uma aula básica sobre entaladores e as especificidades de colocá-los na gritstone. Eram aparelhos rudimentares, de aspecto bastante inseguro e acima de tudo sem sensor de peso. Não percebia como se podia comprovar uma ascensão com estas ancoragens. Não podia. Voltava a ser à moda antiga, na base da confiança e dos testemunhos directos.

Finalmente chegou a minha vez de experimentar headpointar. Uma placa de 20 metros atravessada por duas fissuras diagonais no primeiro terço. Instalámos o top e trabalhei aquilo um bom bocado. Os movimentos eram delicados e inseguros, mas bastante exequíveis, em duas ou três tentativas consegui encadear. Confiante, e aproveitando a corda por cima, meti as protecções naturais, sem prestar muita atenção e sem testar demasiado. Um dispositivo articulado mecânico com umas peças curvas que abriam e fechavam, ao qual davam o nome de amigo, serviu para as fissuras. Num buraco esquisito, e seguindo as instruções de Carlos, meti um piton em V à mão, ficando o bicho apenas entalado e a fazer alavanca. Na parte superior, a parede era lisinha, uns áplates e uma pequena réglete dentada, a melhor presa, era o que existia. Carlos dissera-me que tinha duas opções ou colocava uma unha com fita adesiva na presa dentada como protecção psicológica para ir para cima, ou não colocava nada e usava a presa para escalar, arriscando uma queda perigosa mas não mortal. Resolvi colocar a unha.

Na base olhei para a via enquanto me preparava para escalar. Dois amigos nos primeiros 10 metros, um piton e para finalizar uma unha. Visto assim, não era muito. Comecei a engolir em seco e a ter dúvidas.

“Achas que chega?…”

“Desde que não caias…”, disse Carlos rebuscando qualquer coisa na mochila. Tirou um capacete e entregou-mo.

“Nunca escalei de capacete, volta a guardar isso.”

“Acho que és capaz de precisar…leva, além do mais se não chegarmos inteiros à quinta, o que não partirmos aqui, partem-nos lá, não acham muita piada a andar-mos aqui a arriscar o coiro, felizmente nem sonham que fazemos este género de escalada, pensam que só escalamos em top.”

“Humm… OK”, a ideia do chefe furioso e descontrolado foi apelativa o suficiente para me estrear na escalada com casco. Coloquei-o na cabeça, limpei os gatos e preparei-me para subir. Estava com uma sensação estranha, sentia as mãos a suarem, sabia que não era fisicamente possível, mas que sentia, sentia.

Comecei. Os primeiros metros decorreram tranquilos, passei os friends, pareciam seguros, mas não “à bomba” como garantira o Carlos. Com os pés na fissura, estava na altura de embarcar na placa. Não me decidia a abandonar aquela posição de conforto, o slot com o piton estava a quilómetros de distância. Um passo aqui, uma posição de equilíbrio ali, um ligeiro resvalanço e estava ao nível do piton. Protegi e respirei fundo, faltam 7 ou 8 metros, os mais complicados. Cheguei ao nível da unha já à rasca e com os braços inchados. A famigerada mistura de ácido láctico e adrenalina começou a tomar conta do meu discernimento, tentei concentrar-me e agarrar-me à sequência de passos que tinha trabalhado. Uma blocagem de esquerda num áplate foi levada ao limite, pois não me atrevia a mexer os pés, um erro fatal em placa. Só que a presa de recepção estava ocupada pela unha, fiquei ali uns segundos sem alternativas e comecei a entrar em pânico, lentamente, mas definitivamente em pânico. A queda tornou-se eminente e, antes que passasse a uma certeza, agarrei a cinta da unha passei a corda no mosquetão, mais rápido que a minha própria sombra. Fiquei ali, completamente imobilizado, arquejando, e tentando não mover nem um pelo para precária unha não saltar.

Pussssyyy!”, ouço gritar de baixo, no meio de gargalhadas, fiquei vermelho como um tomate mas só consegui balbuciar: “Rápido… rápido, uma corda…uma corda.”

 Um dos ingleses foi à volta e para minha vergonha lá escalei o resto da via agarrado á corda salvadora. Quando desci estava lívido e exausto como se tivesse escalado 20 vias, respirava com dificuldade.

“Então, é um solo, heim?…”, disse Carlos triunfante.

“Pá, passei-me não me consegui controlar, é realmente um jogo de cabeça.”, disse enquanto me sentava e tirava o capacete.

Um dos ingleses olhava a cena admirado: “Era a primeira vez que escalavas a abrir aqui?”

“Iá…”, respondi enquanto a respiração normalizava.

Virando-se para Carlos: “A primeira vez….e metes o gajo na Slab From Hell?”

Carlos riu-se. “Ele é rijo…”

O inglês afastou-se a abanar a cabeça. Passado um pouco foi a vez de Carlos escalar. Limpou a via com mestria e confiança. Quando baixou disse: “Estou pronto para tentar a Gaia”.

A notícia rapidamente correra a falésia inteira. Quando nos aproximamos da via a plateia já estava bem composta com todos os nossos amigos recentes e outros que aparecerem para a festa.

A conversa, animada, gerava um ruído de fundo, uma espécie de estática. Carlos tossiu ruidosamente e a conversa baixou um pouco de tom, passando a uma surdina, aqui e ali ouviam-se frases soltas: “Dois anos sem repetições e tinha de vir um estrangeiro tentar.”

“De onde é?”

“De Portugal.”

”Onde fica isso?”

”Burro! é uma das províncias da Eurásia, aquela onde produzem o Vinho do Porto.”

Carlos soltou mais uma tosse seca, como um maestro que bate com a batuta, acompanhada de um olhar severo para a plateia. O silêncio instalou-se pesado, pressagiando a acção iminente. Acendraram-se alguns cigarros e charros e Carlos voltou a enfrentar a plateia com um olhar gelado: “Do you mind? O fumo desconcentra-me.”

Os cigarros, respeitosamente, esmagam-se no chão marcando o início da escalada. Eu posicionei-me um pouco de lado, olhando para trás para ver se a costa estava desimpedida, pois tinha instruções claras para correr para baixo em caso de queda.

A primeira secção não lhe causou muitos problemas, colocou as únicas protecções possíveis na base e no lip de um pequeno tecto, testou-as, pareceu satisfeito e continuou. Um pé em aderência alto, um buraco seco para a mão esquerda e um passo rápido de decisão de mão direita para uma fissura dentro do diedro permitiu-lhe atingir a natural posição de layback para assim poder enfrentar o diedro seco. O primeiro crux, o mais duro, estava feito, as coisas pareciam estar bem encaminhadas e permiti-me relaxar um pouco, iam ser favas contadas, pensei. A audiência, no entanto, parecia cada vez mais tensa. Achei estranho e, pelo sim pelo não, resolvi concentrar-me. Um pouco mais de escalada técnica levou-o ao fim do diedro, a uma zona em que este se transformava numa espécie de meio tubo aplatado. Neste ponto, a escalada de Carlos, precisa e confiante até ali, começou a descambar. Um ligeiro tremor de pernas numa aderência mais forçada, posições cada vez mais contorcidas, mostravam alguma indecisão e cansaço. De pernas abertas em máxima extensão, esticou-se ao máximo para apanhar, com a mão direita, o que parecia um grande áplate horizontal. Pousou a mão com delicadeza, pois realmente não se podia falar em agarrar, tentou, delicadamente com uma bandeira de perna esquerda, fazer a transferência do seu peso para a direita, apenas suspenso do áplate. A meio do precário movimento a mão direita saltou fora e Carlos foi cuspido da parede.

Tive a clara sensação de uma desaceleração temporal, pois tudo me pareceu acontecer em câmara lenta, atirei-me para trás e a grande queda pendular pareceu-me eterna. O som seco dos ossos a baterem na aresta e o grito que se seguiu aceleram-me os sentidos fazendo, desta vez, redobrar a velocidade dos acontecimentos. A queda terminara. Carlos girava, como um pião, na ponta da corda…

 

Na próxima semana será publicada a vigésima parte: Memento Mori. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

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Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

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Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Abril 12, 2013

Escalada 2084 XVIII Ossos do Ofício.

No capítulo anterior:  A possibilidade de uma terrível missão faz gelar o ambiente entre Sebastião e Carlos. O longo período de mau tempo acaba finalmente e um auspicioso dia de escalada perspectiva-se quebrando um longo jejum e trazendo alguma trégua entre os dois.

Desertámos do pub em bando, prontos para escalar tudo e mais alguma coisa. O sangue fervia e a adrenalina farejava-se no ar, devido ao extenso aquecimento feito à base de histórias épicas. Prometiam-se movimentos extremos sobre protecções inexistentes, quedas de pôr os cabelos em pé, possibilidades de quedas mortíferas e outras de ir para casa já numa cadeira de rodas. Ossos partidos, cabeças rachadas e membros deslocados eram referidos como meros danos colaterais. Ossos de um ofício perdido, o ofício perdido da escalada de aventura.

As histórias eram ostentadas com orgulho, como medalhas penduradas nos trapos da vida. Não percebia muito bem do que falavam essas histórias, nem como podiam estar relacionadas com a escalada que eu conhecia. As cicatrizes que conhecia à maioria dos escaladores eram no ego e não na pele.

Éramos um bando admirável. Era forçoso admiti-lo. Muitos não tinham mochilas e levavam o parco material em sacos de supermercado. As roupas eram um catálogo de modas passadas, onde cada escalador daria um manequim único e singular. Ao contrário da uniformização ou ditadura das marcas especializadas, tudo aqui era permitido e bem-vindo. Viam-se casacos tweed de alfaiate a fazer conjunto com calças de licra. Uma gabardine escondia uns shorts com estampado havaiano e uns chinelos de meter o dedo. Outro apresentava-se de gorro russo, uma t’shirt cabeada e umas calças turcas. Uma camisa branca impecável sob um impermeável de plástico vermelho podia fazer conjunto com umas calças boca-de-sino e uns sapatos de golfe.

A trupe de circo ou de escalada, conforme as perspectivas e humor de cada um, rapidamente se disseminou pelos mais bizarros meios de transporte. A nossa carroça levou uns quantos. Bicicletas com reboques, uma caleche com dois cavalos baios, um pequeno comboio de mulas e, por fim, um trenó com rodas, puxado por um conjunto difuso de raças caninas, compunham o resto da caravana.

A viagem foi, apesar de tudo, rápida, pois as estradas eram impecáveis. Sem o desgaste do tráfego automóvel, só precisavam de ser limpas para durarem quase para sempre.

“Que pontinhos brancos são aqueles nas colinas de erva?”

“Ovelhas.”

“Para que as querem?”

“Bom, penso que fazem roupa do pelo e bebem o leite, ou fazem uma espécie de tofu com ele.”

“Selvagens!”

“Sim, umas verdadeiras bestas.”

“Porque é que localizaram a base aqui, nesta ilha de selvagens?”

“É um clássico…é a democracia mais perto, e uma democracia liberal. Aqui ninguém faz perguntas, desde que exista um envelope legal aparente, podemos estar ali entretidos no nosso quintal, que ninguém nos chateia.”

“Curioso, podemos até estar a conspirar contra o próprio governo no seu próprio território…impensável.”

“São as vantagens da chamada liberdade, é um pouco perverso, reconheço.”

“Sim, perverso é, sem dúvida…é como parasitar um sistema…”

“Agora chamas-nos parasitas…”

“Não de maneira nenhuma…os parasitas foram afinados durante milhões de anos pela natureza e nunca matam o seu hospedeiro, são eficientes e inteligentes…”

“Lá estás tu. Já te aconselharam a levar isto a sério, sem brincadeiras e sarcasmos, podem existir consequências imprevisíveis para ti, nem toda a gente está disposta a aturar-te como eu.”

“Ahé?! E tu porque me aturas, já agora?

“Vejo algum potencial em ti…e além do mais ninguém escala por aqui, na base quero dizer, tirando nos treinos claro, mas escalar verdadeiramente, ninguém escala…nem querem saber disso para nada apesar de estarmos no coração do Peak District, o bicho que os devora é outro…E de resto…quem me iria dar segurança…é preciso ter alguém de confiança para fazer este género de vias.”

“Claro”, resmunguei, “é de se saudar, que em ti, a amizade seja um valor que se sobrepõe a tudo o resto.”

“Vou fingir que não reparei em mais essa farpa e digo-te o seguinte, de uma vez por todas: a amizade é para maricas…m-a-r-i-c-a-s…percebes…e além do mais impede de ver as coisas com clareza, intrometendo-se e colocando dificuldades emocionais a cada passo da vida. Não te esqueças que somos soldados, máquinas bem oleadas para executar missões, sem fazer perguntas.”

“E…a missão de hoje é…escalar.”

“Precisamente, precisamente, vês como chegas lá, basta entrar no espírito da coisa, escalada e amizade, são de resto coisas bastante incompatíveis.”

“Muito me contas…bom de certa forma é aplicar o materialismo às relações humanas, não deixa de fazer sentido, vai-se aprendendo umas coisas por aqui…Outra coisa que se pode observar por estas bandas é que a liberdade não passa de uma ideia utópica, mesmo aqui numa democracia pretensamente liberal, o que existe é uma ditadura das massas regulada pelo marketing político. A liberdade verdadeira, de facto, só parece possível com o fim da propriedade privada e com um novo começo.”

 “Ah…finalmente alguma coisa dita com juízo… começam a ver-se alguns progressos, estou a gostar…olha chegámos.”

“Não era bem isso que…”, fui interrompido pelo desembarque da horda e pelo bruáá que se gerou com o assalto às falésias, fazendo fugir as ovelhas esbaforidas.

Alguns corriam, literalmente desenfreados, outros caminhavam recolhidos como monges,  nós íamos um pouco atrás, a ver como paravam as coisas. Nisto desapareceram quase todos. Fiquei atarantado, até que os vi a rapelar das mais diversas posições nas paredes próximas. Passado pouco tempo estavam todos a escalar em top-rope.

“Que merda é esta, Carlos?”, estava para lá de espantado, depois das conversas que ouvira estava à espera de ver escaladas de arrepiar e não top-ropes.

“É assim, por aqui, nunca ouviste falar de headpointing?

“Se ouvi não me lembro, então estes maricas escalam em top?”

Carlos riu-se: “Escalam em top para trabalhar os movimentos, quando têm a coisa bem alinhada experimentam a abrir com os entaladores, e aí sim arriscam bastante, de vez em quando acontece um flash ou à vista groundup, mas é raro, são como uma excepção à regra.”

“Mais vale escalar em solo integral, não?”

“Não é bem, a maior parte das vezes as protecções funcionam bem…é uma arte pois é preciso muita habilidade para colocar essas protecções e criatividade também, mas já vamos ver isso.”

“Ok, vamos lá então, montar o nosso toperoupezinho…tens algum objectivo por aqui?”

“Sempre que estou por cá, dou um pegue a uma via que se chama Gaia…”

“Gaia…a Deusa da Terra…”, e comecei a desempacotar o material.

“É isso que quer dizer Gaia? O gajo que a abriu devia ter a mania, devia ser neo-hippie… cheguei a pensar que poderia ser uma homenagem a Gaia.”

“O quê! Gaia, Vila Nova de Gaia?”

 “Iá…porque não, estando lá as caves do Vinho do Porto e tal…”

“Não me parece…”, disse, enquanto nos aproximávamos de um grupo que já tinha umas cordas montadas numas vias, com a intenção de pedir para dar umas voltas para aquecer. “Quantos pontos vale essa via?”

“Não existem pontos por aqui, existe um sistema de graduação complicadíssimo, essa por exemplo está cotada E8 6c, onde o E supostamente representa a exposição, ou risco, e o resto a dificuldade técnica do passo mais duro, mas é muito mais complicado do que isso, só escalando muitas vias é que vais percebendo, mas esta via é muito, muito fodida, tem um crux psicológico na parte de cima, que falhando leva a uma queda em pêndulo contra uma aresta…”

Crux psicológico, queda quebra-ossos, Deusa da Terra…tudo muito estranho…parece que a via tem vida, ou uma personalidade…interessante.”

“Achas? Eu só quero fazer porque é muito difícil e famosa, logo mostro-te uns vídeos dela, há um especialmente engraçado de um francês a partir as canelas.”

“Não te incomoda correr esses riscos e não pontuar?”

“Nem que quisesse. Estas vias não são homologadas. Não se trata de pontuar, trata-se de ser reconhecido onde quer que estejas, de sobressair, de ter sucesso, tudo se resume a isso, não?

“Isso é uma pergunta de retórica?”

“Vai-te foder!”

Fomos escalando, a rocha era magnífica e a escalada técnica e interessante, mas não conseguia perceber como se protegia indo à frente. Estava tudo cheio de magnésio o que era mais uma coisa desconhecida para mim. Os ingleses pela nossa conversa perceberam que estávamos a falar da Gaia.

Yah hit’s a fucking briliant route”, disse um desgrenhado que estava sentado a esgravatar qualquer coisa dentro de um saco plástico: “Imaginem uma via com 98 anos ainda ser tão famosa overseas, o Johnny fucking Dawes era mesmo um visionário.”

A fuckiiiing master”, disse outro, mostrando, ao falar, uma cremalheira com dois dentes partidos na frente, o que o fazia produzir um curioso assobio, que lhe temperava o discurso de forma extremamente divertida: “É pena que a via esteja agora mais liiiissiiinha que o rabo de um bebé.”

O desgrenhado finalmente encontrou o que queria no saco, levantou-se e virou-se para nós: “98 anos de abuso, devia ser o nome dessa via…”, e deu uma cuspidela para o chão, levando de seguida mais um bocado de tabaco de mascar à boca.

“Bom, daqui a bocado vou lá por a minha cordinha para um ensaio nessa beleza, relembrar os passos e tal…”, disse Carlos a esfregar as mãos.

Os ingleses fitaram-no, perplexos, fazendo-se momentaneamente um silêncio desconfortável. O do tabaco mandou mais uma cuspidela e perguntou: “Há quanto tempo não provas a via?”

“A última vez foi…deixa cá ver…sim foi há dois anos, sim foi isso.”

“Ele aiiinda não sabe, Greg “, disse o das janelas.

“O que é que ainda não sei”, disse Carlos.

“Está proibido fazer top-rope nessa via, só à frente e sem magnésio, mas isso para vocês não parece ser um problema.”

Carlos engoliu em seco, empalideceu e disse baixinho como que para ele próprio: “Só à frente?”

 

Na próxima semana será publicado a décima nona parte. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução