O Vídeo Escândalo dos Talhados

Março 4, 2013

O Vídeo Escândalo do dos Talhados

Um adolescente, ou jovem adulto já, oriundo da República Checa inicia uma rampage furiosa por Espanha, escalando coisas que desafiam a imaginação dos mais audazes, coisas que são numeradas numa escala genérica e conhecida, mas que na realidade ninguém se consegue relacionar com elas. Num obscuro cantão da Suíça um rapaz escala 11 blocos acima de V11 no dia, vindo queixar-se a seguir que lhe falta força nos dedos, embora se confesse satisfeito com a força de braços. Num rancho Texano uma lenda viva da escalada serve panquecas, ao pequeno-almoço, a vários comensais, candidatos eles próprios a lendas vivas da escalada. No país do hexágono e dos croissants um nonogradista veio dizer que sim, que escala 9a, mas que fisicamente é como um bebé. Aqui ao lado em Espanha o Team Petzl aparece feliz e contente em Santa Linya a escalar vias de grosso calibre, a comer Pizas e a escalar postes, pelo meio – vejam o minuto  00:15 do vídeo – Espanha come Portugal. Será uma visão de, ou do futuro?

Assim ia o mundo, quando alguém abriu, literalmente, a caixa de Pandora em Nova York, causando um terramoto virtual. Só existe um assunto capaz de puxar os cordelinhos do escalador eticamente emancipado, ou não: os talhados.

Eis a história em duas ou três pernadas:

Uns tipos, anónimos até ao momento, fartos de talhados na sua zona local, segundo dizem no vídeo, resolveram fazer uma “espera videográfica “, do género batida ao javali, ficando à espera do potencial prevaricador. Aparentemente conseguiram os seus intentos e filmaram um tipo, com umas luvas ridículas, a talhar – ou a fazer uma limpeza agressiva? –  forte e feio um bloco. A seguir, na linha narrativa do vídeo, foram ao local, filmaram os estragos e desenterraram, ou descobriram, as ferramentas do crime, mas infelizmente não as luvas, expondo-as alinhadas como se fosse uma apreensão de droga da PJ.

Não seria a primeira vez que um bloco era alterado na área, incluindo um “projecto de sonho com 15 anos” alterado. Se a suspeita existia e apontava numa certa direcção, não se percebe porque não o desancaram no local e na hora. Seria por o talhador ser famoso? Bom, isso pode ser de facto intimidante para os mais incautos. Ou seria por causa das luvas?

A seguir quiseram divulgar as imagens, de forma anónima evidentemente. Se colocassem no you tube , sem mais, provavelmente ficaria esquecido no meio dos Harlem Shackes, o que seria um problema, grande, por isso resolveram contactar um órgão de informação isento e avesso a polémicas. Mandaram então para a DPM.

O “flagra” caiu como ginjas na revista, embora reze a história que a sua publicação foi muito pensada pelos editores. Resolveram embrulhar o vídeo, volto a insistir anónimo, num artigo pedagógico sobre o acto de talhar. Assim, bem embrulhado, foi deixado cair no caldeirão da net, sempre alimentado, como se sabe, por um fogo infernal permanente de fazer corar o próprio Dante.

O embrulho pedagógico rapidamente ardeu. Em minutos, dizem, o escalador foi identificado e crucificado na praça pública e o local identificado e abençoados como um santuário. Um “patrocinador” envolvido, numa questão de horas e pelo Mighty FB fez o acto de contrição e renegou o seu antes magnifico atleta distanciando-se  dele como se tivesse lepra.

O que se seguiu foi como um bombardeamento de napalm numa ceara alentejana, uma torrente de comentários e artigos de toda a espécie espalharam-se pela rede, num exemplo clássico do que aparentemente se chama internet rage. É curioso verificar os sites onde são feitos os maiores insultos.

Há quem denomine a nossa época como a “Idade da Raiva”, uma coisa criada pela internet e que se vê a olho nu em páginas de comentários avulsos. Basta ir a um site de um Jornal de grande circulação desportivo, por exemplo. Um processo psicológico chamado de “desindividuação” parece estar na origem do comportamento raivoso, o indivíduo protegido pelo anonimato e inserido num grupo é capaz de perpetrar actos que sozinho e de cara descoberta nunca sonharia praticar, o exemplo clássico é o Ku Klux Klan ou um linchamento. Nada como colocar um pouco de gravitas num assunto de escalada.

Existem nesta história dois pontos fundamentais, o direito à imagem e os talhados propriamente ditos. Comecemos pelo direito à imagem.

Não sendo um jurista, parece-me que os tipos não tinham o direito de filmar terceiros sem a sua autorização e ainda por cima divulgar de forma anónima a coberto de um órgão de grande circulação. É um acto cobarde puro e simples, assim como foi cobarde a não confrontação directa com o potencial prevaricador. Isto não é o Watergate, nem estes tipos que filmaram são o “garganta funda”, nem a DPM é o Washinton Post, se calhar se fossem, ou tentassem agir como tal, a história teria de ser verificada, as fontes cruzadas e investigadas e o resultado seria um pouco diferente, digo eu. Portanto se querem brincar ao jornalismo, que brinquem como deve ser.

Voltando ao assunto principal, e o assunto principal são os talhados. Este é um tema muito delicado, pois para o bem e para o mal, acompanham toda a história da escalada e contrariamente ao que se pensava, estão aí para ficar. Geralmente é envolvido em grandes doses de hipocrisia com muitas virgens ofendidas a revelarem pele de lobo debaixo das vestes. Não é um assunto, como tudo o que é complexo, que se possa abordar a preto e branco e que se possa dizer que se é contra e a favor simplesmente, existem muitas nuances e implicações éticas, tais como:

Até que ponto os talhados fizeram evoluir a escalada?

Até que ponto as celebradas grandes vias em livre do El Capitan, por exemplo, só são possíveis devido a talhados?

Até que ponto se pode ser contra os talhados e depois escalar em vias talhadas?

Porque é que em vias de desportiva é “aceitável” e no bloco não?

Quais as razões de talhar? Umas serão aceitáveis outras não? Onde será a fronteira?

O evento trouxe a discussão dos talhados de volta à espuma mediática. Um artigo de Bil Ramsey na Rock and Ice foi muito citado e discutido. Bil é professor de filosofia e, no artigo citado, pega nos argumentos usuais contra os talhados e tenta rebate-los um a um analiticamente, partindo do principio que não podemos renegar  a própria história da escalada da qual os talhados fazem parte, para o bem e para o mal. Aborda assim o que para ele a maioria dos escaladores considera um anátema: “uma defesa limitada dos talhados”. Um ponto de vista polémico, corajoso e bem defendido, a discussão pode ser seguida aqui com respostas do próprio Bil ou aqui também.

Por fim um artigo publicado no excelente The stonemind parece dar uma resposta simples e zen, ao gosto do autor, a este assunto. Nele é advogado que devemos encarar um pedaço de rocha que vamos escalar com uma vénia ao estilo do Karaté, uma vénia mental subentenda-se. Se respeitarmos o nosso adversário, respeitamo-nos a nós próprios. Um pequeno grande artigo que vale bem a pena ler. Aqui fica um excerto com a devida vénia:

“Or at least, we can learn something if we approach the matter with an empty cup. When we come to a climb without respect or an interest in learning, we see nothing but a goal to be achieved. In such a state, we might wish to skip to the end by any means, as a child who moves his piece to the final square of a board game and mistakes himself the winner. We might want to announce our accomplishment or log it on a scorecard, but what we have really learned cannot be verbalized or assigned a numerical value.”

Às vezes o caminho correcto pode mesmo ser simples e estar à nossa frente, as razões porque não o percorremos podem ser um pouco mais complicadas. SM

Ilustração: Victor Baptista


Escalada e Olimpismo

Setembro 27, 2012

Agora que assentou a poeira olímpica de Londres 2012 e que acabou o Campeonato do Mundo da Escalada, uma competição gigantesca, com uma assistência in situ de 16 000 espectadores pagantes, que muitos viram como a antecâmara do sonho olímpico, e antes de alegremente reduzir este assunto a um click em forma de like na página do FB que faz lobbying para a escalada olímpica em 2020, convêm esmiuçar, mas só um pouco, o que são os Jogos Olímpicos da era moderna e quais as possíveis implicações para a escalada em juntar-se ao curling e demais desportos que constituem o Olimpo das modalidades desportivas.

Este é um tema muito abrangente que abarca muitos temas “quentes” na escalada actual, todos relacionados com o crescimento, massificação e profissionalização. Adequadamente, e numa linda metáfora, poder-se-ia dizer que todos estes temas convergem para o Monte Olimpo. O Olimpismo na escalada parece exercer um fascínio irresistível especialmente desde que começaram as competições, sempre se ouviu dizer, para o ano é que é ou, neste caso, daqui a quatro anos é que é, e quem o dizia nem sequer eram sócios do Sporting. Parece que agora é que é, mais uma vez. Soube-se que a escalada está numa short-list para 2020 acompanhada de desportos edificantes como o baseball, karate, roller sports, softball, squash, wakeboarding e wushu, e aparentemente dentro de um ano, será tomada a decisão final de qual será o escolhido, eu voto pelo Wushu, não espera, o softball também parece interessante, por outro lado o meu filho mais velho está agora a aprender a andar de patins em linha, e parece ter jeito, por isso não posso descartar a possibilidade de ele vir a ser campeão olímpico em 2020, sim, patins em linha parece ser a decisão acertada.

Jogos Olímpicos como Feira dos Horrores. Existe um texto, pequeníssimo, uma crónica mais precisamente, de Vasco Pulido Valente chamada A Feira dos Horrores que recomendo vivamente como instrução sobre o tema do Olimpismo. Frases como: “O desporto olímpico é um sacrifício humano aos valores mais sórdidos e perversos do mundo contemporâneo. “ constituem um texto duro e sem ilusões e por isso talvez incomodativo que é rematado da seguinte forma: “É uma demonstração ritual de que a barbárie existe.” Nem mais. Para nós escaladores tem ainda uma passagem que pode muito bem servir de epitáfio aos que reduzem a escalada a uma perseguição numérica:  ” as ginastas e as nadadoras, os corredores e os halterofilistas não pensaram em coisa alguma, excepto nos dez pontos  ou dez segundos, ou dez quilos, em que a vida para eles se converteu. Nada de mais brutal e mutilante. (…) Que horror se, de facto, tudo acabou por ser aquele vácuo. ”

Definido assim o tema de base, o que nos arrasta para este suposto inferno, quando a escalada prospera tranquilamente nas verdes pastagens das montanhas e das arribas marinhas.

A infantilização. Esta é uma tendência que tem vindo a acentuar-se nos últimos anos, tendo chegado agora a uma espécie de momento de viragem com as performances de Ashima Shiraishi. Numa espécie de salto para o futuro podemos imaginar a escalada dominada por pequenas raparigas pré-púberes de 30 kg, um pouco á imagem da ginástica desportiva, treinadas e seleccionadas desde que aprendem a andar. Este exemplo pelo absurdo não está assim tão longe e nem sequer é original.

Até agora estes pequenos prodígios têm-se centrado em repetições de problemas ou vias, quando começarem a estabelecer os standards, isto é fazer coisas que mais ninguém consiga repetir, a escalada terá mudado para sempre.

Embora seja um ponto onde nada se pode fazer, não se pode simplesmente proibir as criancinhas de escalar ou proibir quem as amestra de as transformar em pequenos monstros roubando-lhes, de passagem, a infância. Eu pessoalmente prefiro um desporto adulto onde as pessoas que o praticam e lideram são emocionalmente desenvolvidas e capazes de tomar decisões por si próprias sem o apoio de treinadores/tutores,  sustentado num conceito de liberdade pessoal que pode ser levada ao limite de um solo integral por exemplo.

Este será um ponto que o Olimpismo irá certamente acentuar, enfatizar e ampliar, para o bem e para o mal.

Doping. Não será preciso acrescentar nada ao binómio Jogos Olímpicos/doping ou doping/desporto profissional. O doping na escalada é um assunto pouco discutido, uma espécie de jogo de sombras que está presente quase desde o inicio das competições, de vês em quando acusações sibilinas de escaladores franceses vinham à tona sobre o alegado uso de esteroides por atletas de Leste onde supostamente o seu uso seria mais fácil, barato e não controlado. Mas não se passava disso.

Especulações à parte, que não fiquem dúvidas que o uso de esteroides ou outras drogas tem um impacto muito grande nas performances físicas de um indivíduo, permitindo recuperações mais curtas, maior carga de trabalho, etc, etc, logo na escalada não será diferente.

Atenção, que isto não é uma generalização de que todos os atletas profissionais e olímpicos se dopam, mas supor o contrário ou simplesmente acreditar que estão possuídos do espírito da tocha olímpica é simplesmente demasiado ingénuo.

É legitimo pressupor que o Olimpismo aproximará a escalada do doping.

Olimpismo e escalada de aventura. Sobre este tema John Long deu uma entrevista que considero quase definitiva sobre o assunto, por isso não vale a pena estar aqui a repetir os seus argumentos. Ele termina mais ou menos assim: “a escalada de aventura não é um desporto de espectadores…é um desporto apenas para participantes.” Curiosamente estamos a falar de um segmento da escalada que já foi medalhado no anos 20/30 do século passado.

Que modalidade? Aqui e para muita pena dos escaladores de corda, vários apontam a competição de bloco como a mais indicada, e aparentemente tem tudo a seu favor, mais rápida, mais perceptível, mais espectacular. Provavelmente será uma decisão política dentro da própria ISCF onde o peso de cada modalidade jogará um papel primordial. Ou estarão mesmo previstas as três modalidades, não faço ideia. Mas seria risível se ao fim de tanto tempo e discussão fosse a velocidade  a representar a escalagem, uma hipótese que aparentemente não está descartada, e esse sim seria mais um prego no caixão no entendimento que o grande público tem da actividade.

A herança cultural da escalada. O que vem a ser isto e qual o seu significado nos dias de hoje? E até que ponto interessa preservar os valores intrínsecos da escalada.

Sobre esta temática um certo Jean Pierre Banville publicou no site Kairn.com um artigo inflamadíssimo, quase exortando os grandes heróis românticos da escalada e alpinismo a levantarem-se ou erguerem-se da tumba e apagarem o facho Olímpico de um único sopro. É um bom texto, e uma enorme defesa de uma coisa que muita gente pensa não existir, ou nunca descobriu, nesta actividade: uma alma.

A escalada foi fundada em conceitos profundos de liberdade pessoal, onde a autodeterminação do indivíduo associado a um carácter fortemente emocional subjacente à presença de risco, a atirou sempre para as franjas da sociedade. Os “conquistadores do inútil” erguiam-se, e erguem-se, para as estrelas deixando para baixo a ralé  ou rebanho agarrado aos vis valores terrenos. Esta faculdade de fabricar Heróis e grandes epopeias que elevam para além da condição humana é talvez o maior capital deixado pelas anteriores gerações, que seria criminoso desbaratar.

Neste ponto o Olimpismo parece um caminho para longe de todos estes valores.

Mas afinal o que trarão os Jogos Olímpicos de bom? Mais dinheiro, mais patrocinadores, mais pessoas dispostas a puxar no plástico, logo mais ginásios e muros de escalada, mais emprego na área da escalada e não somente no segmento dos atletas profissionais. Uma melhor percepção do público do que é a escalada. Tudo, digamos assim, coisas “sujas  e vis” quando comparadas com os valores etéreos discutidos atrás. Mas um homem tem de viver, e a crise está aí à porta, a barriga manda a perna, etc., logo apresenta-se uma excelente conjuntura para meter os valores no saco e estender a mão ao “ouro” Olímpico.

Para quem gosta de escalar em rocha num meio natural, muitas vezes extraordinário, mesmo em Portugal, o Olimpismo não trará nada de novo, será um circo que chega de quatro em quatro anos e rapidamente passa sem se dar por isso, tão rapidamente, tão rapidamente,  que este texto está já a ficar fora de prazo. SM


O Estranho Caso de Mr. Simpson

Dezembro 23, 2010

O ano não poderia acabar da pior forma para a comunidade da escalada. Mais um caso, que rebenta com estrondo, de aparente mentira no mundo da escalada. Pedem-se provas, exige-se “uncut  footage” , datas, nomes dos seguradores, etc. Sumariamente exige-se o sangue de Rich Simpson na arena web-mediática.

Rich Simpson pode considerar-se um escalador de topo na cena mundial. Tem na sua algibeira vias como a Action Direct e A Muerte. É reconhecido como extremamente forte no covil da “School Room” em Sheffield, onde era e é considerado o sucessor natural de uma espécie de “dinastia do power”  iniciada por Ben Moon e Jerry Moffatt e continuada por Malcolm Smith, o que por si só, e mesmo que não escalasse nada em rocha,  lhe garante uma espécie de aura e um lugar na iconografia local.  A juntar a isto parece que correu a milha em menos de quatro minutos, a maratona em menos de 2:30 horas e reclama um  currículo no Boxe de 16 combates sem perder, tudo performances de topo nesses diversos desportos, fazendo dele uma espécie de super atleta, o que juntado ao facto de frequentar Cambridge  lhe confere um estatuto de quase super-homem.

Subitamente, começaram a aparecer rumores que estes feitos poderiam não ser verdade, sendo a façanha da milha o despoletar da história, aparentemente fazer a milha em menos de quatro minutos é  uma marca de elite no atletismo. No fórum do UKC  num tema que tem mais de 500 entradas, os comentários sucederam-se com um pendor cada vez mais negativo para R.Simpson,  levando o site a uma declaração editorial sem precedentes, dizendo que contestou RS com algumas perguntas e perante o seu silêncio decidiu retirar todas as noticias sobre os seus “feitos”, dois dos seus patrocinadores afinaram  pelo mesmo diapasão e fizeram as mesmas questões, perante o mesmo silêncio emitem, estranhamente, comunicados para o UKC a anunciar que quebram o contrato com o atleta. O comunicado acaba com esta sentença: “Our general policy is to have faith in reported climbs and climbers and to not seek ‘proof’ of ascents. However if world class performances have been claimed, especially from a fully sponsored and well known athlete who is publishing these achievements on his sponsor’s websites, we would expect some cooperation from that athlete if basic details are requested.”

Esta triste história, tem apenas um  facto comprovado, um órgão de informação com alguma credibilidade  fez umas perguntas que ficaram  sem resposta, o resto é pura especulação, quilos e quilos de especulação. Surgem no entanto questões laterais interessantes como esta: Até que ponto o cruzamento da escalada com o “comércio” está a mudar para sempre as regras do jogo?

Um argumento começa a ganhar peso, o escalador dito profissional é “obrigado” a apresentar provas dos seus feitos, pois já que recebe da industria tem de dar em troca provas dos seus “feitos”. Os media, por outro lado, começam a questionar a veracidade da informação que recebem, o que é somente uma aproximação ao jornalismo profissional cujo primeira regra é o cruzamento das fontes.

Tudo isto é muito bonito. É bom que existam pessoas capazes de se sustentarem na  própria industria da escalada, é bom que a informação seja melhor e mais credível. É, a forma possível de crescimento ou alargamento para o mundo. Só que na essência a escalada não é deste mundo. Assenta em valores cada vez mais anacrónicos e difíceis de sustentar, principalmente no vórtice web-mediático, que tudo quer sugar  incluindo a própria essência da escalada. 

A palavra do escalador é sagrada. Sempre foi assim e assim deveria ficar, mesmo que venham a ser descobertos grandes mentirosos todos os anos. É nesse dogma que assenta a nossa liberdade, é esse dogma que nos torna diferentes.

Provar é perder. Ser chamado publicamente a apresentar provas num fórum ou site  da internet é ridículo e a pessoa, sim trata-se de uma pessoa, tem todo o direito a não responder, sem com isso comprometer o que quer que seja da sua integridade.

Prefiro cem vezes um Rich Simpson mentiroso que um Rich Simpson ditoso a fornecer uma lista dos seus seguradores em cada via e a fornecer vídeos a um qualquer  fórum inquisitório. Um, dois, vários mentirosos não matam o espírito da escalada, são acidentes de percurso de qualquer actividade humana. A necessidade de apresentar provas pode mudar para sempre a fisionomia da escalada.

Este caso faz lembrar a polémica Barnabé vs Huber. Prefiro, outra vez cem vezes, o genial Barnabé a um  Huber que filma “acidentalmente” os seus solos integrais, e que quer fazer da sua palavra lei. Vale a pena terminar com um excerto de  Álvaro de Campos: …”Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?”… SM

Post-Scriptum. Um excelente Natal, mesmo com este bacalhau de difícil digestão.


Problema de Bloco. Uma definição.

Dezembro 16, 2010

Diz o mito que John Gill, o gajo que inventou isto, fazia problemas matemáticos para se entreter enquanto descansava entre as tentativas a blocos que estava a trabalhar, e que daí virá a designação: Problema de bloco.

Esta é uma bonita história mas não responde à questão: O que é  um problema de bloco?

A actividade mais simples do mundo da escalada, é simples somente à superfície, pois logo na sua definição essencial coloca questões cuja resposta é tudo menos óbvia. Porque os blocos não são sempre linhas evidentes num bloco perfeito, como por exemplo o Kalashnikov em Sintra, ou o Ovo na Pedra do Urso. Vou-me socorrer do site B3 de Jamie Emerson, uma das melhores referências para quem gosta de perder algum tempo com estas questões, e do livro de Héctor del Campo:  “Escalada en Bloque”, este  um mestre, também, quer a escalar quer a interiorizar a actividade, ambos são muito exigentes eticamente e excelentes exemplos a seguir.

Antes um aviso à navegação: já que peguei no livro do Héctor transcrevo aqui um paragrafo: …” Escalar, sejam pedras de dois metros ou montanhas de oito quilómetros, é antes de tudo uma experiencia pessoal, desde que estejas satisfeito com os meios utilizados para alcançar os fins, perfeito; As coisas complicam-se quando queres compartilhar essas experiencias com os outros: nem todos têm porque estar de acordo contigo e com os teus parâmetros éticos…” isto foi escrito em 2002 ainda o 8a.nu não era o que é hoje.

Um bloco é definido pelo arranque, a linha em si e a saída. Vamos então começar pelo arranque. isto é, as presas do começo.

Arranque. Jamie Emerson: “O primeiro ascensionista ganha o direito, por ser o primeiro, de determinar onde e como o problema deve começar”. Hector del Campo: ” A regra número um para todos os escaladores deveria ser a seguinte: o respeito pelo trabalho do abridor”.  Assim, o primeiro ascensionista dita a maneira de começar, isto é, as presas exactas. Se começarmos acima estamos a roubar, se começarmos abaixo estamos a acrescentar ao problema original. Qualquer começo que não seja o do primeiro ascensionista e o escalador estará a escalar outro bloco. Portanto o interessado em repetir um bloco deve informar-se, ou pelo menos esforçar-se nesse sentido, com exactidão de como começar o problema. Um exemplo: o Rosa Negra cs, na Pedra do Urso, foi originalmente escalado a começar sentado quase deitado na laje “sikada”, e graduado nessa perspectiva, no entanto existe a possibilidade de começar sentado vários movimentos mais à frente e sempre sentado, tornando difícil de perceber sem informação adicional onde começa o bloco.  Aceitar esta regra na sua verdadeira acepção é um bom sinal de maturidade para  um escalador de bloco.

A linha em si. Aqui a imitação do primeiro ascensionista deve parar e o escalador deve ser livre para interpretar a rocha e descobrir a sua própria sequência. Pode no entanto dar-se o caso de o problema ser eliminatório, o que acontece onde menos se espera. Um exemplo? O famoso The Force (V11) em Yosemite é um problema eliminatório aberto por Jerry Moffat, aparentemente eliminando uma presa comum ao bloco vizinho, o não menos famoso Thriller. Fazendo o bloco com as presas todas está  cotado de V9 e é  conhecido como “The Farce” e é de facto uma farsa quase comédia de enganos que dá que pensar. Podemos ser a favor ou contra os problemas eliminatórios  mas devemos sempre tentar perceber aquilo que nos propomos escalar, sendo este um exemplo flagrante da importância da informação prévia para  quem se propõe a repetir algo. 

A saída. O primeiro ascensionista também define a saída de um problema.

Questões variantes:

O chão. Jamie Emerson: ” parece óbvio que se existe uma regra no bouldering é que o chão está fora. Um dia passado na maioria das áreas de bloco pode talvez sugerir exactamente o contrario” , corrosivo no mínimo. Tal como definido no artigo dos começos sentados uma vez o rabo levantado, o chão está fora, ou no caso dos começos de pé : uma vez o ultimo pé levantado, e o chão está fora também. Portanto um toque com o pé na crash ou numa pedra ou num companheiro e a ascensão não deverá ser considerada.

O nº de crashs. Quantas crashs se devem usar no arranque? Em Font dizem: nenhuma, mas depois saltam para as presas em muitos blocos, pelo que as considerações éticas são quase locais. O bom senso dirá  uma crash, ou seguir mais uma vez o método do primeiro ascensionista. E no caso de não chegarmos às presas? Héctor del Campo responde: ” se na verdade não chegas às presas e queres provar o bloco na mesma , adiante, mas tem em conta que não escalaste exactamente o mesmo bloco”.

Altura e comprimento. Temos ainda a questão se linhas como o Ambrosia em Bishop ou o Wheel of Life nas Grampians, Austrália,  um alto de mais outro mais longo que muitas vias de desportiva, são de facto problemas de bloco. Aqui, como já foi anteriormente discutido, se existe uma verdadeira “no fall zone” deve ser considerado um solo integral como é o caso, já o “wheel” a discussão é mais se deve ter grau de bloco ou travessia ou mesmo de via, e hoje em dia parece que estabilizou como um bloco com cotação de via, o que parece apropriado para um monstro de mais de 60 movimentos.

Algumas destas questões são nebulosas, outras transparentes como a água, mas importantes para a evolução da actividade. Hoje em dia é possível assistir à destruição destas regras quase em directo graças a massiva mediatização videográfica, as vezes vemos mesmo autênticos tiros no pé. Um pequeno exemplo, sem ferir susceptibilidades e apenas o refiro  porque tenho um conhecimento exacto do bloco e este é neste momento um bloco de referência numa zona central da Península. O problema Atila em Hoya Moros, tem um começo sentado, bem  definido pelo seu primeiro ascensionista, Miguel Rosón,  no entanto nunca vi um vídeo onde os escaladores começassem sentados esse problema, que conta com inúmeras repetições. Muitos não só não repetem o problema como o decotam por cima. Fizeram um bom esforço e uma escalada válida e com mérito, mas, e não sou eu que o digo, escalaram outra coisa qualquer que não o Atila.

Estas regras são algumas das chamadas “regras não escritas” do bloco, no sentido em que não são dogmáticas, devendo a liberdade pessoal ser a base de toda a escalada. Mas como diz Héctor quando pretendemos perante uma “comunidade” reivindicar alguma coisa ou afirmar que fizemos isto ou aquilo, temos de aceitar as regras do jogo. Fazendo um esforço por respeitar as primeiras ascensões e se possível melhorar eticamente  ou desportivamente o que já está feito, pois assim estaremos a contribuir para uma evolução da escalada e talvez mais importante a utilizar a escalada como veículo para uma evolução pessoal. SM


A Guerra dos Nomes

Outubro 18, 2010

 

Qual a importância de um nome de uma via ou bloco?

Um bom nome, é como um título, tem de sintetizar uma via ou um momento ou uma história que tenha a ver como o dia em que foi feita, em que passou a existir. Nomear, bem, é uma arte de imaginação e quando os nomes são bons contribuem para a personalidade de uma via.

Neste contexto lembro-me sempre de um texto absolutamente brilhante, publicado originalmente na Revista Montanha e recentemente aqui, onde Filipe Costa e Silva nos dá cinquenta bons nomes de uma vez num jogo/texto sobre a arte de nomear que vale a pena reler.

No plano ético, tradicionalmente colidem duas maneiras diferentes de nomear: a europeia continental e a anglo-saxónica. Nas  vias de escalada desportiva, por exemplo, na Europa o equipador tradicionalmente dá o nome à via e quando esta  não é encadeada pelo mesmo geralmente o primeiro ascensionista mantém o nome. Nos países anglo-saxónicos o primeiro ascensionista tem o direito de nomear ou mudar o nome existente. Exemplos abundam sendo os mais famosas as trocas de Biografie por Realization por Chris Sharma ou a provocação de Ben Moon quando encadeou um projecto em Buoux a “Voie des Barouilles” e lhe chamou Angincourt, um dos primeiros 8c no mundo, numa alusão a uma batalha da Guerra dos Cem Anos que se traduziu numa massiva  vitória inglesa contra um exército francês mais numeroso.

No mundo do bloco o problema do equipador nomeador não se coloca, mas para os americanos um começo sentado novo ou mesmo uma sequencia que comece  numa presa mais baixa dá o direito à pessoa que a fez de mudar o nome ao bloco, ou nomear a nova sequência, uma situação que não recolhe consenso na Europa, tendo mais uma vez a polémica estalado pela mão de Paul Robinson, muito activo na guerra dos nomes, este escalou um novo V15 em Magic Woods aparentemente um velho projecto de Bernd Zangerl chamando-o Ill Trill levando o habitualmente circunspecto Zangerl a vir a terreiro dizer que o bloco já existia, tinha nome e tinha sido escalado em pé, pedindo mais respeito e calma antes de avançar com um novo nome num problema existente, Seguir a questão aqui ou melhor aqui.

Outra questão interessante foi levantada há tempos pelas luminárias do 8a.nu. tendo como origem o seu próprio país. Aparentemente um jornal fez um artigo sobre nomes nazis nas vias de escalada, sendo citado um politico que chegou ao ponto de dizer que fechará a área se os nomes não forem mudados, levando a  federação local a reagir dizendo que de futuro instaurará uma politica de nomes correctos. Quem se lembrará de colocar nomes nazis a vias de escalada? Pelos vistos e vendo mais à lupa é uma espécie de falésia temática sobre a II Guerra Mundial, ou tem uma série de vias com nomes alusivos à II Guerra Mundial. Eis um exemplo de falta de imaginação e de absoluto mau gosto, mas apenas isso,  pois no mundo da escalada sempre existiu liberdade de nomear e a censura sempre ficou, e deve ficar, de fora sejam os nomes ofensivos, escabrosos, pornográficos  ou escatológicos. O que fica sempre é uma questão de gosto indissociável, é preciso não esquecer, da pessoa que dá os nomes.

Muitas questões se colocam à volta disto, o que parece mais justo a maneira europeia ou anglo-saxónica de nomear? Onde começa e acaba a responsabilidade da pessoa que dá o nome? Porque voltando ao texto do Filipe a história de um escalador é também uma história de nomes. SM


O Verdadeiro C.S.

Fevereiro 3, 2010

 

Em plena Sala de Visitas, Assunção, Santo Tirso, o verdadeiro e único: Rala Canelas (V7 cs). Escalador: José Abreu; Fotos: Sérgio Martins.

Odiado pelos puros falésistas. Levado às ultimas consequências pelos mais inveterados adeptos do bloco. O começo sentado (C.S.) é um dos movimentos do bloco mais mal interpretados e…traficados.

A definição é simples: na posição sentada em frente ao bloco, posicionamos mãos, posicionamos pés, na rocha, e o ultimo ponto a abandonar o chão é o rabo ou nádegas ou cu, bem… como preferirem.

O que não se deve fazer: serem os calcanhares os últimos pontos a abandonar o chão, usar mais do que uma crashpad (a não ser que assim seja especificado), alguns dirão mesmo – em Fontainebleau por exemplo – que nem se deve usar crash, mas talvez seja melhor deixar essa questão na gaveta da ética local, o nosso cóccix agradecerá com certeza.

Portanto, quando por aqui aparece um “Vqualquercoisa C.S.”, quer dizer que o bloco foi feito nas circunstancias acima referidas e não começando com os pés no chão ou com 5 crashs ou …agachado de cócoras.

E, para quem ainda não deixou de ler e quer conhecer o sítio onde melhor pode por em prática os começos sentados, uma escola NorteBouldering: Santo Tirso.

Santo Tirso tem, que eu conheça, o maior numero, os mais duros, os mais mitrados, os mais excruciantes começos sentados de VB a V13, vejamos:
Começamos com o Salto da lama (V2), indescritível. A seguir o Investida Pélvica (V3), bizarro no mínimo. Seguimos para o Devorador de Lanches Mistos (V4), pouco duro, depois o Viagra (V6), inqualificável. Não podemos deixar de fazer o excruciante Rala Canelas (V7) e o Passeio Micológico também (V7). A seguir e numa espécie de Twilightzone dos começos sentados: o Dunfer com uma estratosférica cotação de V13, só de arranque.

Depois desta escola, ou com esta escola, estamos preparados para viajar pelo mundo fora, sem nunca estranhar nem falhar um verdadeiro C.S.