Don’t Blink e Valle de Las Rocas

Fevereiro 7, 2014

O início de Fevereiro trouxe-nos, talvez para nos aconchegar à lareira nestas intermináveis noites chuvosas, dois vídeos “fora do formato”, digamos que em doses “documentais”, que configuram aquilo que aqui habitualmente chamamos de pequenas pedradas no charco da “Cena” da escalada. E curiosamente fazem-no de formas totalmente antagónicas. “Don’t blink” apresenta-nos um formato de entrevista a um escalador de renome, que corre zonas mundialmente famosas e que se passeia em blocos reconhecidos, de nível elevado. “Valle de Las Rocas”, por outro lado, mostra-nos 3 perfeitos anónimos, numa zona quase desconhecida, num país relativamente remoto e fá-lo sem qualquer pretensão de se apoiar no factor Grau, para conseguir vender a sua história. Mas ambos têm algo em comum. Conseguem cativar-nos mais do que os “20 minutinhos à Facebook”.1) E isto, quanto a mim, porque têm algo de interessante para contar e porque o sabem fazer bem, ainda que recorrendo a técnicas diferentes.

[vimeo http://vimeo.com/85700384 w=700&h=393]

 Valle de las Rocas  é assumidamente um vídeo amador, caseiro, feito por alguém que domina o AfterEffects e o 3D Tracking e que tenta implementar alguns detalhes técnicos, como aqueles que se vê na introdução. Mas assumidamente não perde muito tempo com isso e rapidamente nos apercebemos que a quantidade de imagens e a qualidade das linhas abertas suplanta a necessidade de mais recursos técnicos. Confesso que nos primeiros 3 minutos duvidei que fosse aguentar até ao fim, mas à medida que a história foi avançando fui compreendendo que estava perante um documentário de uma experiência, contada de uma forma que me fez ter vontade de a ter vivido, muito pelo facto de me identificar com momentos vividos, com o ambiente de amizade e com os traços de personalidade ali apresentados (o que me fez sorrir diversas vezes). Por outro lado, não sendo escaladores de renome, os 3 personagens são muito fortes, as linhas e o enquadramento cénico são brutais e há uma forte componente de um dos “pilares do bloco”, a Exploração. Acresce que gosto e admiro um filme em que não se sente falta da referência ao grau (isso quer dizer muito). Fazendo uma analogia com a gastronomia, sabe bem de vez em quando comer comida caseira bem confeccionada. Não é preciso comer sempre gourmet para se ser feliz.

[vimeo http://vimeo.com/85474584 w=700&h=393]

Em Don’t blink, uma longa entrevista a Chris WebbParsons, temos algo de diferente. Muitos toques de profissionalismo, principalmente na forma como a narrativa é tão bem construída. E que qualidade nas imagens da entrevista, no som, nos planos, na luz… Simples e eficaz. Mas nada fácil de realizar por um mero amador. Inevitavelmente, este documentário estaria condenado ao sucesso, por várias razões. Em primeiro lugar, o facto de o personagem ter muito por onde se explorar, saber falar e estar completamente à vontade no seu papel de entrevistado. Meio caminho andado para o sucesso. Depois, o facto de se centrar num escalador muito forte, com uma forma de escalar muito estética (poderosa e precisa), o que dá sempre imagens espectaculares, independentemente dos meios técnicos disponíveis. Depois, por estarmos na presença de um personagem carismático, que é conhecido, mas não é “pop”, que tem ar de rebelde pelas suas tatuagens, piercings, corte de cabelo e que gosta de andar nu, mas que ao mesmo tempo se revela como muito consciente e responsável (pois para levar este estilo de vida parece ter de “vergar a mola”, ao contrário de muitas estrelinhas do nosso firmamento), que tem um sotaque britânico que foge do habitual americano e que é visto por alguns como uma ovelha negra. Por fim, porque tem muitos detalhes de bom gosto, sem grandes tretas. Um design gráfico e sonoro excelente e coerente, uma entrada que revela criatividade e empenho, detalhes de humor politicamente incorreto (que nos arrancam sorrisos) e uma entrevista bem extraída, bem conduzida e bem editada. Um pequeníssimo senão, quase que preciosismo invejoso… demasiados dropoff.

A não perder… desde que haja tempo para tal.

Pedro Rodrigues 

1)Apenas um aparte relativo a esta categoria, para dizer que é muito difícil ver, hoje em dia, um webvideo de 10 minutos que realmente nos cative. Passou-nos aqui comentar o excelente segundo episódio da série Time inthe Pines, chamado CrownJewel , onde, a meu ver, se explora de uma forma excepcional o uso da tecnologia actual, mas onde, num passo mais além, se consegue o mais difícil: 1. sumarizar uma história em poucos minutos; 2. mostrar uma linha perfeita (sem sabermos o grau), numa localização cinematográfica, dura o quanto baste para nos relacionarmos com ela, como escaladores mundanos que somos, e podermos imaginar-nos a encadeá-la (ou pelo menos prová-la); 3. conseguir extrair uma entrevista e história bem contada; 4. Enquadrar tudo numa série, com um contexto lógico e coerente, que vai para além da promoção do ego e fama dos escaladores envolvidos.


A Representação Fílmica da Escalada

Setembro 27, 2013

filme NB 1

Não se deixem enganar pelo pesado título, na realidade estamos a falar de pornografia. Em trinta e tal anos de existência a representação fílmica do nosso desporto preferido pouco evoluiu para além da pornografia, não que a escalada esteja directa e literalmente ligada à representação fílmica do sexo, deus nos livre, mas a ponte, não a ponta, é feita pela ausência de argumento ou estória nos dois géneros de filmes. Uma coisa que nunca afligiu muito os realizadores e espectadores destas duas artes especializadas na representação, explícita e sugestiva, de actos que geralmente estariam confinados à privacidade da alcova e das montanhas. Nunca afligiu até agora, porque ao que parece assistimos hoje ao alvorecer de uma nova espécie, os “contadores de histórias”.

Vem isto a propósito de um pedido feito aqui à casa, no contexto de um artigo sobre um subgénero dentro de um subgénero: os vídeos de treino de escalada. Pedido esse a propósito ainda de alguns artigos surgidos recentemente pela net sobre o estado a que chegaram os vídeos de escalada, com algumas carpideiras a pedirem para o tempo voltar para trás, para os bons velhos tempos dos filmes grandes de uma hora ou mais, onde aparentemente existiam grandes histórias e narrativas comoventes com verdadeiras personagens/escaladores. Ao contrário dos dias de hoje com os abjectos vídeos de 5 minutos, carregados a cada minuto que passa no Vimeo ou Youtube, tendo como protagonistas escaladores profissionais, personagens de plástico e sem espinha dorsal que quando começam a falar é impossível de ouvir por mais de um minuto seguido e, pasme-se, com uma agenda comercial por trás, ou ainda pior, amadores a mostrarem os seus aborrecidos e, blasfémia máxima, fáceis vias e blocos.

Em primeiro lugar é preciso definir, ou procurar tentar definir, o que é um vídeo ou filme de escalada e pensar se pode ser inserido e criticado como um normal conjunto de “imagens em movimento”, que é qualquer filme ou vídeo, a separação, hoje em dia, é cada vês mais ténue, na sua essência. Nenhum vídeo de escalada, que eu conheça, aguenta uma crítica séria, mesmo leve, de cinema, por isso estar a discutir, ou chorar, que falta “história” ou argumento aos vídeos de escalada é uma falácia.

O filme ou vídeo de escalada tem de ser inserido numa subcategoria à parte, tal como os já referidos filmes pornográficos por exemplo, dos quais ninguém se queixa da falta de argumento e, já agora, não é por acaso que à generalidade dos vídeos de escalada se chama “climbporn”.

Esclarecido este ponto, podemos questionarmo-nos porque é que os vídeos de escalada não têm narrativa ou se a têm é muito ténue, do género: escalador conhece ou sonha com via; escalador tenta via; a via faz-se difícil e o escalador falha repetidamente; escalador entra num período de treino, na via ou no plástico, mais ou menos alargado; escalador tem êxito e consegue via. Muito raramente e em jeito de anti-clímax, o escalador não consegue a via e vai para casa de mãos a abanar, aí o final tem de ser onírico, ou gráfico com um arrepiante beijo de despedida na rocha, por exemplo. Temos ainda recorrentemente o que se poderá chamar de género roadtrip, que é um género conhecido e apreciado na narrativa cinematográfica, só que na escalada as inesperadas aventuras que geralmente são o sal da estrada, são substituídas por uma sucessão de vias e zonas, entremeadas por pacóvios passeios pseudo-turísticos.

Existe uma razão simples para isso, os filmes, de ficção e mesmo os documentários, antes de serem realizados são escritos e escrever um bom argumento dá trabalho e é difícil, e mesmo que se obtenha um bom argumento, uma boa e competente realização dá ainda mais trabalho e custa muito, muito dinheiro, num processo moroso e que exige meios e equipas muitas vezes fora do alcance de orçamentos limitados ou mesmo inexistentes. Tudo isto para que o resultado final possa ser considerado uma tentativa de filme.

Assim, em minha opinião, os filmes de escalada não evoluírem desde o seu inicio, nem regrediram como agora se diz, é mais ou menos mais do mesmo, não estou a falar na qualidade técnica das imagens que se conseguem obter, nesse campo a evolução foi avassaladora, ou do acesso a meios de produção portáteis anteriormente reservados a profissionais. Mas a qualidade técnica faz o artesão e não o artista, dominar uma técnica é um princípio e não um fim, num processo criativo.

Como é então que isto começou e onde para na actualidade.

Dizem os especialistas que a representação fílmica da escalada livre, e de certa forma, a escalada moderna começou com este filme, La vie aux bout dês doigts, do qual já aqui falamos a propósito do seu sucedâneo, o Ópera Vertical.

Os meios de produção são profissionais, a equipa de realização vem do mundo dos documentários. O filme recebe uma nomeação sem precedentes para os Cesar’s, prémios máximos do cinema francês, e claro teve uma divulgação massiva influenciando gerações inteiras de escaladores e, pelo meio, mudou a face da escalada.

Muita tinta corre e correu acerca deste filme. Eis, assim de relance, alguns aspectos principais. O impacto foi avassalador, sem comparação possível com a actualidade, recordemos que a escalada em rocha moderna acabava de nascer e emancipar-se do alpinismo, ou seja era uma coisa nunca vista. Os princípios que são vendidos neste vídeo são os princípios subjacentes à origem da escalada moderna e que hoje, apesar de ainda enraizados, não passam de resquícios: a escalada como “forma de vida” e não desporto, o nomadismo, a sacralização da natureza e da rocha como meio privilegiado de prática, o perigo omnipresente representado pela escalada em solo integral, apresentado como expoente máximo. Fundamentalmente, o escalador, aparece como ser anti-social, isto é, uma espécie de marginal que renega o materialismo burguês, eis, senhores e senhoras, a personagem de Patrick Edlinger.

[vimeo https://vimeo.com/52407123 w=700&h=393]

Trinta anos depois, temos isto. O escalador é agora profissional, bem integrado na sociedade, viaja pelo mundo inteiro suportado por uma indústria que embora incipiente permite o sustento a meia dúzia de trepadores mais dotados, que agora subiram à categoria de “atletas”. A escalada em solo integral é domínio de um ou dois “malucos” que dela vivem e, embora venerada, é renegada pela maioria e deixada nas mãos de meia dúzia de especialistas que de tempos a tempos abrilhantam o circo com novos “números” devidamente bem filmados para gáudio e frisson de uma plateia havida de emoções fortes que, obviamente, a asséptica prática moderna da escalada não proporciona. O escalador é agora então um atleta profissional que como na generalidade dos outros desportos tem um agente para lhe gerir a carreira e no caso dos competidores um treinador para lhe gerir os treinos.

O caso específico deste vídeo ilustra talvez o caso mais pós-moderno, aquilo a que poderemos chamar o “One Man Show”. Devido à evolução tecnológica, dslr’s com capacidade de captura de vídeo e software de edição pro acessíveis e relativamente fáceis de dominar, o atleta filma-se, muitas vezes tendo apenas por companhia um tripé, edita, produz e distribui para o mundo inteiro as suas performances e viagens. Eis senhores e senhoras a personagem de Paul Robinson, neste caso em turismo escalador por terras lusas.

O que aconteceu pelo meio, para chegarmos a este ponto? A evolução não foi instantânea como é óbvio.

Os anos 90 do século passado trouxeram-nos uma série filmes chamada Master’s of Stone, onde a escalada passou a ser “fun”, ou seja, como dizem alguns, o escalador veste a pele de palhaço num verdadeiro circo montado para entreter, podemos sempre trocar palhaço por performer e circo por show para não ferir susceptibilidades, dos palhaços obviamente. São cinco ou seis segmentos e quem os viu e conhece sabe do que estou a falar.

A meio caminho da mudança de paradigma entre a França e os Estados Unidos, fica como sempre a Inglaterra, um caso singular na filmografia da escalada. Os ingleses souberam reflectir nos seus filmes a singularidade da sua prática e produziram verdadeiros marcos, como o Stone Monkey, em minha opinião um dos melhores filmes de escalada alguma vez feitos, e claro o famoso Hard Grit, entre muitos outros.

No final dos anos 90 nasce, e não é por acaso que nasce nos filmes, o maior icon da escalada actual, Chris Sharma. Embora seja personagem presente nos últimos Master’s of Stone é, no entanto, um filme paradigmático que o leva para o estrelato, o Rampage, primeiro de inúmeros filmes centrados na sua pessoa e que tem como prato forte o Bloco, ou seja cavalga a onda do momento, a explosão da prática do Bloco na transição do séc. XX para o XXI, ou se quiserem a emancipação definitiva do bloco em relação à escalada desportiva.

Se os Master´s of Stone, são a mudança do paradigma do “sério” para o “engraçado”, para não dizer fun, com a explosão de um sem numero de actividades paralelas à escalada, cada uma delas mais mirabolante que outra. Com o advento do “fenómeno Sharma”, desde o Bouldering até à sacralização com a via Realization, assistimos ao regresso de uma grande personagem e a mais uma grande mudança na escalada. O movimento controlado e coreografado de Edlinger dá agora lugar ao movimento descontrolado, muito básico e raw mas tremendamente eficiente. A emoção, interior e controlada, do seráfico e impassível loiro, dá agora lugar a uma exteriorização expressionista com gritos selvagens a cada movimento, algo que Adam Ondra irá levar a outra dimensão. Onde um é zen, ascético e solitário, quase à imagem de um samurai, o outro faz-se acompanhar de uma efusiva entourage que o ajuda a exteriorizar as suas sensações de forma livre e sem controlo numa espécie de comunhão/celebração quase tribal, ou seja toda uma dinâmica de grupo bastante selvagem, que não é mais que a imagem de marca do próprio bloco. Em Rampage o carácter nómada e precário, logo “marginal”, ainda está presente, não por muito tempo pois no Dosage Sharma já surge a degustar um copo de rouge sentado confortavelmente à sombra da falésia de Ceuse. Muitos podem dizer que Sharma também é zen, praticamente foi criado num ashram, pratica meditação e toca flauta, mas já não é uma forma de vida é um complemento, e a sua escalada não reflecte isso, um dia de bloco selvagem está bem longe de uma aula de yoga. Mas o próprio contraste ajuda a dar alguma densidade à personagem que nos é servida nos diversos filmes em que é protagonista.

Do Rampage aos dias de hoje é o advento da internet que vai marcar o ritmo dos acontecimentos. A net vai permitir a divulgação imediata e em alguns casos viral dos vídeos, mas por outro lado impõe a sua tirania encolhendo as durações, de forma a que fiquem mais adequadas à utilização voraz dos internautas. A curta-metragem impôs-se como o formato dos nossos dias.

Esta é uma espécie de panorâmica, linguagem cinematográfica aqui, muito rápida da história do filme de escalada, um fast forward se quiserem, cujo intuito serve um pouco para ilustrar os pontos e ideia descritos no inicio do texto. Os escaladores filmam-se cada vez mais, produzem cada vez mais, tudo muito positivo pois é mais um meio através do qual as pessoas podem expressar a sua criatividade, se fazem filmes a sério, não, nunca o fizeram desde o inicio, e o começo foi muito bom. SM

Post Scriptum

Pedimos desculpas ao Rui Rosado pela resposta tardia ao seu comentário, mas o tema era tão interessante que, como sempre, levou a questões mais abrangentes que exigiram um pouco mais de pesquisa e visualizações de filmes perdidos na memória. Transformando-se aos poucos numa coisa mais ambiciosa que exigiu também um pouco mais de tempo para ser escrito e depois ser condensado num pequeno artigo pois o assunto é tema de tese e tem muitas pontas por onde se lhe pegar. Agradecemos, como sempre, o interesse e o pedido.

Ilustração: Vitor Baptista


Just Can’t Stop Climbing

Setembro 17, 2013
[vimeo https://vimeo.com/74518717 w=700&h=393]

Treze anos. O puto que produziu este vídeo tem treze anos, e a brincar conseguiu captar um dos aspectos da essência da escalada ao qual, todos os que fomos contaminados pelo vírus vertical em tenra idade, estamos emocionalmente ligados. Pode um vídeo, sem uma grama de rocha, ter mais escalada que o Reel Rock Tour ? Pode.

A pura alegria de trepar qualquer coisa, de fazer da nossa casa e do nosso quintal uma montanha infinita. E de o partilhar com os outros, hoje o mundo pelo Vimeo, ontem o nosso vizinho e amigo que começou a escalar connosco.

A escalada muitas vezes, demasiadas vezes, torna-se em algo muito diferente disto. Transforma-se num labirinto de frustrações, em que a opinião, e aprovação, de terceiros, potenciada pelo brilhante tempo em que vivemos, o tempo da “social media”, se transforma em si num objectivo, produzindo uma vida e uma escalada irreal. Uma sopa fria de números, ego e ódio.

Mas este puto tem treze anos e não sabe nada disso, nem quer saber, não pode saber. A esquina do quarto é um problema de bloco que pode demorar semanas a resolver, o armário tem régletes mais duras que as da Dura Dura, a gaveta só abre se puxada em arqueado, a porta tem monodedos secretos, a invertida da soleira da janela é feita da mais perfeita das rochas.

Não existem obsessões, nem psicologias baratas que explicam o inexplicável, o inexplicável de trepar sem razão aparente só porque é desafiante e está ali, o inexplicável de sonhar acordado transformando a realidade de todos os dias noutra coisa qualquer.

Se existir uma infância na escalada terá de ser feita de sal e de sonho, de lágrimas de birras infinitas embrulhadas em posters arrancados a revistas alheias, do medo do escuro das tempestades assassinas dos Alpes do nosso armário onde candeeiros  lançam relâmpagos e os nossos pais vozes de trovão.

Um mundo protegido e secreto onde somos gigantes, gigantes do tamanho daquilo com que  sonhamos, um mundo que não volta.

Mas a escalada fica, como um esqueleto ossificado pelo cálcio dos sonhos. SM


Participate In Our Existence

Junho 21, 2013

 Um pouco em antecipação ao “disco pedido” do Rui Rosado, fica aqui “isto” feito pelo Jeremy Collins. Sem mostrar nada de escalada poderá ter mais a ver com a escalada que qualquer outro filme, enfim cabe a cada um ver ou olhar, e deixar-se levar pelo poder das palavras. E, é bem verdade, “a million people with nothing to say, still equals nothing at the end of the day…” Por vezes basta uma simples frase, potenciada por um grafismo poderoso, para nos fazer parar e sorrir e sentirmo-nos menos isolados.

Quem achar que a abstracção poética é apenas areia atirada aos olhos cansados de encadeamentos alheios, eis mais abstracção poética, mas com montanhas como pano de fundo, para não ferir susceptibilidades. Nas palavras dos autores: ” um poema escrito para explorar o escape da cidade e encontrar não apenas a natureza mas a si próprio”. Há quem jure a pés juntos que as montanhas não servem para outra coisa.

“More than meditation,

or medication,

These are More than Mountains.”

 


Johnny Dawes interview.

Junho 3, 2013
[vimeo https://vimeo.com/67282008 w=700&h=393]

Talo Martin  entrevista Johnny Dawes, a propósito da sua recente passagem por Madrid. São só 5 minutos, mas como a pessoa, ou personagem se quiserem, é enorme, valem bem a pena. Johnny Dawes é um dos mais extraordinários escaladores que jamais existiram. É um dos expoentes máximos da arte do movimento sobre rocha, uma característica que levou até limites impensáveis. É detentor também de uma inteligência e humor raros, que o posicionam sempre como uma espécie de ovelha negra no rebanho, e hoje mais do que nunca. Tudo bem patente nestes 5 minutos, é pena que a tradução não esteja bem ao nível das suas afirmações e subtilezas, mas é apenas um pormenor, assim como algumas tiradas estarem descontextualizadas ou sem sequência, talvez este seja um extracto de uma entrevista maior. De assinalar que no 8a.nu, a entrevista, aparece com um subtítulo extraordinário, Johnny Dawes interview: Ondra will do 10a, eis como se reduz a pó uma coisa que até tem o seu interesse.


Granite Earth

Maio 28, 2013

 

[vimeo https://vimeo.com/66479330 w=700&h=393]

Mais um vídeo da produtora Louder Than Eleven sob a égide do seu famoso lema, free whether you like it or not, e ainda bem que assim é. No meio da sua prolífera e frenética produção de vídeos para a net destacam-se os impecáveis trabalhos feitos para as competições de bloco e pontualmente outros vídeos, seja pelos extravagantes gráficos, seja pela criatividade, como este.

Este Granite Earth é um sério concorrente ao seu melhor trabalho até ao momento superando talvez mesmo o Park Life. Partindo de um velho truque cómico que é imitar o estilo “patenteado” por Sir David Attenborough nos documentários de natureza e fazendo do escalador de bloco uma “espécie”, partimos para uma viagem sobre o granito que cobre a Terra, com um texto bem escrito, com apontamentos de humor, alfinetadas à competitividade entre os escaladores, não fosse essa umas das principais características da “espécie”, e terminado de forma brilhante ao referir que é esperado que a espécie continue a interagir com o granito a menos que se extinga numa estatística no grande livro-guia da vida.

Apesar do cliché do conceito, está bem filmado, editado e, fundamentalmente, bem escrito o que o torna num conteúdo aprazível e muito longe do habitual vídeo em que predomina a dicotomia inconsequente “escalador-bloco duro”. Os blocos e a escalada continuam lá, mas ao sorrirmos e ouvirmos estamos já a ver outra coisa, para lá da resposta emocional básica das mãos suadas.

Não podia terminar sem referir outra coisa agradável presente no vídeo, a apologia do granito, a rainha das rochas. SM


35

Abril 10, 2013

“We all have dreams, but they don’t mean much if we don’t act on them.”

De vez em quando acontece, muito raramente, mas acontece. Surgem estas coisas vindas do nada e que nos mergulham numa catarse existencial. Que nos fazem voltar atrás, rebobinar, como antes se dizia. Rebobinamos o vídeo, em busca das palavras perdidas, rebobinamos a nossa própria vida em busca dos sonhos perdidos.

As palavras fogem-me, rápidas, mergulhadas num turbilhão de música e imagens bem calibrado, estranhamente é nelas que reside o poder, são elas que temos de seguir.

Mais uma vez. Como? Sim. “Este, é por ficar encharcado numa tempestade, pelos desenhos animados ao Sábado de manhã e por cães de três patas que correm…Tento coleccionar momentos e quando olho para o filme, para o filme da minha vida, é fácil de falhar as coisas boas, a magia.” Sim, sim e sim.

Aproveitar cada segundo. Carpe Diem, como no filme, o outro, e este também já agora. O sonho move a escalada? É a escalada matéria dos sonhos? É fácil acreditar que sim depois de ver este objecto ultra-romântico. Uma apologia da fuga à realidade e à captura sensorial dos momentos fugazes que nos escapam da vida, como a areia nos escapa da palma de uma mão aberta. Um devaneio lírico num mundo de razão. Sim, é talvez isso o melhor da escalada, um elevador para longe da realidade.

De onde é que isto apareceu. Um pouco de investigação e chegamos à websérie the Season, de que falamos aqui a propósito da primeira temporada, entretanto fizeram mais uma que pelos vistos foi a última. Os produtores são os mesmos a: Duct Tape Then Beer, e as palavras são de Brendan Leonard.

Um amigo meu uma vez disse-me que olhar nos olhos o seu filho recém-nascido o marcou para sempre. É fácil de acreditar e abraçar esse momento. Aconteceu, não aconteceu. Para ele aconteceu e será, talvez, esse olhar que verá quando os seus próprios olhos se fecharem para sempre no piscar de olhos que é a vida. SM