NB Series #3_A última fronteira

A via Le loup des steppes, localizada no Parque Natural de Montesinho (PNM), não será uma vias mais conhecidas de Portugal. Provavelmente, a maioria dos escaladores portugueses nunca terá sequer ouvido falar dela. No entanto, esta é a primeira proposta de 8a em Portugal, realizada numa altura em que a escalada desportiva nacional começava a dar os primeiros passos. Durante anos, esta via ficou no esquecimento. Uma via curta, num lugar remoto, mas que representa na perfeição o que era a escalada desportiva na Europa, no final dos anos 80.

Vamos então à História da via. Le loup des steppes foi encadeada em 1988 por Robert Cortijo, um forte escalador francês que fazia parte dos nomes mais sonantes da escalada mundial da época, numa altura em que era moda escalar com calças de licra justas fluorescentes, tipo ”maço de tabaco”,  e usar pés de gato do estilo “bota da tropa”. À data, a cotação máxima proposta, à escala mundial, era 8c. Robert Cortijo,  conjuntamente com Fernando Ferreira, um transmontano radicado em França, também ele escalador e um excelente fotógrafo de montanha, decidiram explorar as potencialidades para a escalada do PNM, numa viagem que realizaram por Espanha.

Quem já ouviu falar da via recorda-se sobretudo que esta tem presas talhadas. Convém, porém, colocar este aspecto no contexto da época. Nesta altura, quase  todas as vias duras das época eram vias curtas e explosivas, o que hoje apelidamos de vias “à bloco”.  No sul de França, na época o epicentro da escalada mundial, foram criadas escolas de escalada com tecnovias, onde as presas talhadas proliferavam sem  se colocarem quaisquer questões éticas. Esta foi uma tendência que se alastrou a outros países e que permitiu criar uma pirâmide de vias de dificuldade com diferentes estilos. Portugal escapou, de uma forma geral, à regra duma tendência que se inverteu até à repulsa das presas talhadas. Ganhámos na beleza das vias, pagámos com o atraso na evolução da dificuldade.

Passemos agora à história da repetição. Para um via com “História”, a sua localização em Portugal não poderia ser mais remota, pois encontra-se no  extremo nordeste do país (por curiosidade localiza-se a 500m da fronteira com Espanha e se estivesse do lado de Sanábria, seria apenas mais uma via sem grande coisa para contar). Num raio de uma centena de km em torno dela, não existe mais nada aberto para se escalar. Como tal,  encontrar alguém motivado para a provar é uma tarefa complexa. Ainda tentei desencaminhar amigos, mas sempre sem sucesso. Assim, o melhor que consegui foi, uma vez emigrado, utilizar as viagens de carro entre França e Portugal, fazendo um desvio para parar, espairecer e esticar as pernas e os braços (contando sempre com a enorme paciência da Romana).

Primeira tentativa, Verão de 2011, a única pessoa que eu conhecia que tinha estado na via era o Sérgio Martins, que lá tinha passado numa das suas idas ao Naranjo, 15 anos antes. A melhor indicação que consegui foi a de um caminho de terra batida, antes da aldeia de Montesinho e de um bloco de granito evidente. O único problema é que o caminho de 10km, que liga à aldeia de Montesinho à zona de estacionamento, tem dezenas de blocos “evidentes”, e como resultado:  um dia inteiro a vasculhar todos os blocos visíveis, sem sucesso. No dia seguinte, chegámos ao final do caminho, resignado a não encontrar a via, dirigi-me ao último bloco evidente, em forma de pinguim, a 10 minutos do estacionamento. Ao dar a volta ao bloco de granito consegui identificar um “longlife” envolto em musgo, quase impercetível. O tempo que restava foi para escovar a grossa camada de musgo e provar os movimentos: um início com duas presas pequenas, dinâmico até uma presa média, seguido de uma travessia com presas dolorosas até uma “barbatana” que permite restabelecer o fôlego. Daí segue-se um movimento aleatório para o “tridedo” talhado, para finalizar com um movimento largo para uma presa inexistente e subir em equilíbrio para o topo do bloco.

Segunda tentativa, Verão de 2012, sem o périplo para encontrar e escovar a linha, pensei que seria possível encadear a via no próprio dia, mas estava enganado. O primeiro movimento decepou-me a ponta dos dedos e na única vez que encaixei o passo, acabei por cair no movimento de cima.

Terceira tentativa, Verão de 2019, tínhamos dois dias para acabar com este assunto pendente. Os primeiros movimentos não defraudaram as expectativas, pois continuavam tão agressivos para a pele como me recordava. No primeiro dia, caí outra vez no movimento de cima, no segundo dia decidi perder tempo a estudar exclusivamente esse movimento aleatório, até encontrar as presas de pés correctas. Finalmente, no último ensaio do dia, consegui chegar ao topo do pinguim. Não foi a via mais dura, nem a mais espetacular que encadeei, mas foi o fim de um Mito. Fica a faltar o fechar de ciclo, que será abrir a variante pela esquerda e evitar o talhado. Quem sabe… numa próxima viagem?…

JA

 

3 Responses to NB Series #3_A última fronteira

  1. Miro diz:

    Depois de ouvir falar “No Lobo das Estepes” há muitos anos, fiquei agora com uma noção mais real.
    Fizeram ambos o papel de historiadores.
    Parabéns pelo texto, pelo vídeo e pela motivação do Zé para, realmente, quebrar o mito.

  2. nortebouldering diz:

    Eu não fiz muito… Nem sequer lá fui, apesar de ter havido muitas propostas.

    Mais que tudo, Parabéns ao Zé por conseguir dar sentido ao que muitos poderiam desvalorizar. É de facto preciso ter uma visão da escalada muito abrangente, um respeito enorme pela História associada e uma mente aberta em relação a ideias preconcebidas para poder encontrar motivação para ir provar a via. Todos sabemos que se há alguém que reune essas características, esse alguém é o Zé Abreu. Sem medo de nada, nem mesmo de abrir a Caixa de Pandora dos talhados.

    Por tudo isto é que ele mesmo já encontrou um lugar nessa mesma História e ainda a continua a escrever. Junto com outros nossos amigos (também eles referências para mim), ainda continua a desbravar a nossa Última Fronteira.

  3. mc diz:

    Não é fácil darmos um sentido lógico à escalada. Tal como no livro, por vezes andamos perdidos entre dois mundos. O lado humano e racional e o lado selvagem e de alienação.
    Mas é muito bom ver algum romantismo na escalada, dá-lhe algum sentido e inspiração. Não é a mera repetição de vias em falésias de fácil sorriso, de forma indiscriminada como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, em que se começa numa ponta do sector e só se termina na outra. Claro, isso é para quem pode, mas tu podes. Outros têm que se contentar em começar por uma borda e passar de forma rasteira para a outra borda, ou aqueles que preferem o caminho mais curto, apesar de se arrastarem… Mas adiante…
    A história tem as suas vicissitudes, coincidências e por vezes com tendência a repetir-se. O resto, não é história, resume-se apenas a mais ou menos um pegue…
    Obrigado pela partilha 😉

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