The Bombe: a máquina de Turing

Júlio Braga em Enigma, a máquina, num dos seus últimos pegues, sob vigilância atenta.

Feito!  Enigma, a máquina está “decifrado”.

Àqueles que não escalam, das duas, uma: se se interessarem pela WWII, sabem que este é um feito que tem décadas e que conduziu ao Dia D, nada de novo portanto; se não se interessarem por criptanálise, isto nada lhes dirá (o que serve, à partida, para desdramatizar o texto romanceado que se segue).

Àqueles que acompanham o panorama da escalada nacional, mas são puros escaladores de falésia, algo lhes soará. Mas julgo que apenas aqueles que compreendem a essência do Bloco, poderão verdadeiramente apreciar o que o Júlio conseguiu, há umas semanas atrás. Não pelos números envolvidos (nem sei quais serão – nem me interessa – pois acho que, nestes anos todos, se perdeu a noção do grau), mas por tudo o que este processo representou para ele e, por arrasto, para todos os que o acompanharam de perto. De facto, o problema é muito duro, mas esta é “apenas” uma inerência do processo.

Vale mesmo a pena recordar o que SM escreveu em 2009, aquando do início deste longo périplo. Em jeito de fio-condutor, recupero agora alguns excertos:

(..) Prisioneiro de uma busca incessante. Muitas vezes é essa busca que o define, outras, é o objecto da própria busca. Então, em raras ocasiões, aparece uma via que funciona como o espelho perfeito do escalador.  

Este bloco, o Enigma, acaba por ser esse Bloco para o Júlio Braga: complexo, extremamente poderoso e exposto. Exigindo, desde o início, uma determinação e resiliência fora do comum: descobrir os movimentos, experimentar, falhar, treinar especificamente, tudo isto ao longo de meses. (…)

Quando SM escreveu isto, estava longe de imaginar que os meses, se tornariam anos. E que os anos se tornariam num monstruoso teste a todas estas qualidades, com particular ênfase na determinação e resiliência. Essas terão sido as chaves para o sucesso, a capacidade de ser derrotado sistematicamente e voltar a tentar com vontade redobrada. A capacidade de buscar sistematicamente a melhor conjugação possível de factores físicos, psicológicos, meteorológicos, entre outros mais.

Um bloco que ganhou uma aura própria. Seria este o problema que vergaria o Júlio? Esta era a questão que a todos se colocava. Tantas vezes falhado, que a razão nos dizia que sim. Mas ao mesmo tempo, tantas vezes tão próximo, que nos fazia intuir que não. Quem conhece a personalidade sui generis e a obstinação da pessoa em causa, não podia deixar de contrariar a razão e, a cada fim-de-semana propício que surgia, esperançosamente acreditar que era dessa vez.  O Júlio vai ao Enigma para encadear este fim-de-semana. Já corre no bloco. Deve sair no Domingo. Frases que se ouviram, vezes sem conta. Tentativas goradas e vaticínios errados. Alguns já não acreditavam. Outros sabiam que, cada vez mais, era uma questão de pormenor.

Importa enquadrar então o que é o Enigma, a máquina, recorrendo mais uma vez à excelente descrição do SM, para a parte inicial do bloco:

(…) Um muro de 30º. Um arranque sentado a duas mãos numa réglete diagonal, leva a outra réglete que se apanha com a ponta dos dedos em extensão e aí, devido ao posicionamento das presas, o corpo começa a torcer. É necessário dominar essa torção ao mesmo tempo que a mão passa de extensão para arqueio. Este é o famoso movimento. (…)

O arranque… o famigerado arranque. O passo que por si só é um quase um problema, bem duro. O passo em que o vimos tantas vezes cair. O passo que o Júlio ousou dominar, para ser literalmente cuspido da linha, por uma presa partida, em jeito de “escusas de cá vir, que isto não é para ti”. O passo que muito provavelmente levou o Júlio a suspender, por uns anos, a escalada, para amenizar as dores que sentia nos dedos. Algo que nos levou a todos a pensar que tinha chegado ao fim da escalada para ele. Era o lógico. Acima dos 40, já tinha atingido um nível elevado, o Enigma estava a tornar-se um problema obsessivo, que o levava a subir todas as semanas (muitas vezes sozinho), a seguir um plano de treino específico e duro, a não disfrutar de outras linhas, nem a sair para outros locais. Que diabo, era o lógico. O Júlio deixou de escalar, dizia-se. Provavelmente o “reactor nuclear”, que se diz ter dentro de si, ter-se-ia extinguido. E bem ao seu jeito, desapareceu por entre a neblina de Corno de Bico, criando um mito sebastiânico. Para muitos era um afastamento definitivo, ainda para mais quando se soube que começara a dar cartas nas competições de Moto 4. Sentença passada. Com muita pena para todos, certamente já não regressaria. Dizia-se que o Bloco por estas bandas já não seria tão divertido, pois era ele quem elevava a fasquia e, de certa forma, nos fazia querer ser mais fortes. E na verdade, durante uns tempos não foi tão divertido. O Último dos Motoqueiros será, provavelmente, a linha que melhor alude a esse tempo de ressaca mental.

Facto é que, messianicamente, voltou… e segundo as más línguas, estava mais forte e motivado que nunca… para terminar o seu projecto. Outros (Planeta Zork e Furacão) ainda se meteram pelo meio, mas apesar de serem verdadeiramente ameaçadores, não tinham a escala e a aura do verdadeiro Enigma.

Mas voltando à descrição,

(…) Este é o famoso movimento. Mas ainda faltam mais 12 pelo menos. A mão esquerda passa para uma inexistência, para equilibrar e toca a blocar mais uma lâminas até umas boas régletes que marcam o meio do bloco e servem de drop off para a primeira versão em V13. O resto é um bloco por si só e está em trabalho ou decifração, ainda. Alto e exposto, apresenta um final digno do começo, isto é, não dá tréguas até ao puxador final. (…) ,

escreveu ainda SM, acerca da primeira metade do Bloco.

Depois deste passeio por lâminas afiadas (em que os movimentos dos pés deveriam ser contabilizados como passos, pela precisão e técnica que implicam) e de um passo de prova ao mais íntimo do nosso Core, temos a famosa saída. Um lançamento para uma lateral aparentemente boa, mas que o acumular dos movimentos anteriores e a periclitância da posição sobre minúsculas presas de mãos e pés, o tornam num passo aleatório e lancinante para os dedos. Este passo teve de ser seriamente trabalhado, fosse com ajuda para colocação nos passos, fosse vindo de baixo, fosse testando subidas de calcanhares, rotações ou trocas de pés. Não havia volta a dar. Era ligar o “reactor nuclear” e explodir literalmente. Bom, mas mesmo em modo de ensaio, a ida para cima já se torna exposta. E a partir de aqui já não dá para trabalhar o bloco em Modo Ermita. Há que ter pessoal a apoiar. E foi numa dessas sessões de apoio, que os passos da saída foram aparentemente decifrados. Juntou-se muita gente e crashpads, e cedo se percebeu que a saída era mais dura do que aparentava. A solução temporariamente encontrada foi sair pela beirada adjacente, o que chegou a ser ensaiado. Mas também aí os amigos têm um papel importante de nos elevar a fasquia. Lembro-me da frase do Magno na base do Bloco: F*#d@-se!!!… tanto tempo a dares nisto, para depois quereres sair pelo entulho?!? Gargalhada geral, mas o tónico necessário para constatar o óbvio: este problema merecia ser encadeado da forma certa.

Ou seja, o tal puxador final que o SM falava no texto inicial, estava longe de o ser. Haveria ainda mais uma sequência de 3 passos rijos, onde um pequeno azar, como um cristal partir, poderia comprometer um encadeamento quase certo. E esses passos ainda implicaram puxar dos galões: uma apneia, um julianço (jargão para um passo característico, onde se traciona uma réglete ao máximo, levando a um bloqueio total do cotovelo, com a mão ao nível ou abaixo do ombro) e um pé alto num cristal. Depois daí é uma saída em placa tombada… que segundo o Miro é o berço da técnica.

Decifrado o método, restava ganhar forma física e juntar tudo, num dia perfeito. Mas esta era a verdadeira batalha a travar. O teste à incrível capacidade de determinação e resiliência do Júlio é o que confere a verdadeira dificuldade ao Bloco. Não duvido que alguém no futuro lá vá e encadeie a linha com maior facilidade (bom, honestamente duvido um pouco…). Mas não é isso que aqui se celebra. É o concluir de um processo, o fechar de um capítulo que não se sabia se seria possível de fechar e, no fundo, um ciclo que termina com a motivação de dedicar a vitória pessoal a alguém especial (como já todos suspeitávamos, nestes tempos recentes, apesar de só ter sido tornado público depois do encadeamento).

Deixo-vos aqui uma breve ilustração visual deste intrincado relato textual. A maioria destes momentos foram registados com gravações de baixa qualidade, em diversos dispositivos, alguns actualmente obsoletos. A maioria das imagens estão tremidas, desfocadas ou estouradas, pois estas sessões ocorriam em “espaço sagrado”, onde se privilegiava verdadeiramente o ambiente de concentração, em detrimento do circo mediático.

No fundo, esta questão da baixa qualidade do vídeo é uma analogia para um velho cliché, que ilustra que não há processos perfeitos e que mesmo num período menos propício (como aparentemente era o caso do dia do encadeamento), o sucesso pode bater-nos à porta. Basta que nos ponhamos a jeito, tentando com empenho e acreditando sempre.

PR

2 Responses to The Bombe: a máquina de Turing

  1. mc diz:

    Uma força da natureza. Obrigado Pedro pela partilha e ao Júlio pela inspiração e motivação. Ps: Cuidado, essa aura radioactiva é contagiante!

  2. crash pad dummy diz:

    Excelente texto; grande feito do Júlio!

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