À conversa com Sérgio Martins

A 29 de Dezembro de 2011 entrevistei o Sérgio para o número 3 da revista Vertigem. Infelizmente, depois de inúmeras tentativas, esse projecto ficaria por encadear e essa entrevista apenas guardada na minha memória como uma conversa bem passada entre copos de vinho alentejano “Chaminé” e um Porto vintage. Passados cinco anos, aqui fica essa entrevista, sem retoques, tal qual uma fotografia intemporal onde tentei capturar a personalidade do Sérgio. Uma personalidade onde sobressaía aquela qualidade tão rara de inconscientemente nos fazer sentir muito melhor do que somos. Assim como quando cruzamos um campo, e julgamos nossa a beleza das flores que vemos.

Filipe Costa e Silva

 

 

À conversa com um escalador que percorreu montanhas e falésias para finalmente se vir sentar à sombra do bloco e aí encontrar a essência da arte do movimento. Grande impulsionador e equipador das escolas da Nossa Srª da Estrela, das Buracas e dos Poios, o Sérgio Martins desde 1988 que vive intensamente a escalada, atravessando as suas diversas facetas e marcando indelevelmente a evolução e a comunidade de escalada do Norte.

 

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Sérgio Martins, munido das suas ferramentas favoritas de exploração, dá asas à criatividade em busca de novas linhas pela Serra da Estrela. Foto: Oldemiro Lima

 

Filipe CS: Há tempos vi um filme caseiro do Jorge Brás (aka Flash; “No Core”) de uma tarde solitária de bloco no meio das árvores em Sintra com a imagem em acelerado. Fica a impressão de uma actividade completamente inútil de um aranhiço louco agarrado a uma pedra, que pára de vez em quando para olhar e esfregar as mãos, enquanto as copas abanam e as nuvens passam no céu a correr… É mesmo assim, inútil e louco o que fazemos?

Sérgio Martins: …Se calhar é, não é?… Está-me a vir à memória uma situação de quando eu comecei a escalar: nós treinávamos num muro de blocos de granito que era ali na ponte da Arrábida, de uns 10 metros de altura por uns 15 de largura e às vezes enquanto estávamos a descansar, ficávamos ali sentados de costas para a estrada a olhar para o muro e uma vez os pais de um amigo nosso que passaram, viram-me ali sozinho, completamente em silêncio e acharam muito estranho. É uma situação muito bizarra, vista assim de fora! No fundo é o que essa câmara faz ao retratar assim nuns minutos uma tarde inteira de bloco. Especialmente um tipo sozinho, em silêncio, é uma coisa muito bizarra. Já me encontrei nessa situação várias vezes e pergunto-me o que é que estou ali a fazer!

Nesse filme, a técnica de timelapse, condensa o tempo e dá uma ideia distorcida da realidade e que pode exacerbar o ridículo, mas um tipo ali sozinho dá uma ideia de loucura um pouco maior. O ângulo de observador exterior dá-nos uma perspectiva que nos permite conjecturar sobre a utilidade da escalada, algo que usualmente nos está vedado como actores que somos centrados sobre nós mesmos. É como se fosse uma visão de cima, de pássaro ou de Deus, a ver o que é que ele está ali a fazer, uma coisa completamente sem sentido. Dizer que é socialmente inútil, é um chavão, já foi dito há 50 ou 60 anos…

FCS: Sim, é verdade, disse-o o Terray no seu grande livro! Mas tu, em que enquadramento vieste parar a esta actividade inútil e louca? Por um acaso ou por uma vocação desde sempre?

S.M.: Não, não tenho vocação nenhuma para isto, sou o contrário de um escalador com vocação. Especialmente quando comecei a escalar, em 1988, estava longe de ser do tipo desportivo, era talvez o mais inapto de todo o grupo! Comecei nos escuteiros, não a escalar mas a fazer uma espécie de montanhismo que acabou por levar à escalada através de um curso feito no Clube de Campismo do Porto. Depois, mal acabou o curso e entrei no clube, deixei os escuteiros e passámos a fazer montanhismo ou escalada. Nos escuteiros, pode-se dizer ainda que aprendi a gostar de estar ao ar livre, de actividades outdoor feitas na natureza. Depois, quando tirei o curso, quando aprendi a escalar, apesar de me dizer que era talvez o tipo mais inapto para a escalada, houve uma coisa que me prendeu imediatamente que foi a dificuldade e o sentido da superação, da resolução de uma via ou de um problema e isso caiu como uma luva na minha personalidade. Foi isso, mais do que o desporto em si que me prendeu.

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Sérgio Martins em Riglos, Espanha, no longínquo ano de 1999. Foto: Ricardo Alves.

FCS: E hoje em dia que objectivos tens como escalador? Ainda é o desafio e a superação o que te move nisto?

S.M.: É sempre o desafio. Algo que eu queira fazer, que descubra ou que crie e que me ponha um problema, tem que ser difícil e dentro dos meus limites. Há outra coisa também que me prendeu imediatamente desde o início, que é a concentração, aquele facto de que quando estou a escalar, não pensar em mais nada, absolutamente concentrado. É uma sensação que tive logo no início e que se mantém até hoje e é uma das principais razões pelas quais eu escalo, é, digamos, entrares numa esfera ou numa zona onde consegues estar abstraído de tudo o que te rodeia e isso permite-te de certa forma relaxar.

FCS: Essa abstracção é uma fuga à realidade, é uma alienação?

S.M.: É uma alienação temporal, não é permanente. Mas é uma ideia curiosa, esse mergulho no “eu” interior, especialmente nos últimos anos dá-me muito em que pensar, é uma coisa que te dá imensa força, mas por outro lado te afasta cada vez mais dos outros e são aspectos muito complicados de gerir. A escalada, por exemplo a mim, ajudou-me imenso em termos de auto-confiança, porque eu comecei a escalar com 16 anos e não se pode dizer que fosse o adolescente mais popular da escola, antes pelo contrário! E a escalada ajudou-me a entrar num caminho muito forte, que é um caminho feito de constantes falhanços e superações, um caminho que por vezes te leva a limites psicológicos verdadeiramente duros, especialmente em grandes paredes e que te permitem conhecer um pouco melhor a ti mesmo. Saber que reages bem em situações verdadeiramente extremas é uma coisa que te dá muita auto-confiança, mesmo noutros aspectos em geral da vida. Tudo isso te constrói de uma maneira muito diferente, mais forte interiormente e nesse sentido a escalada é muito positiva e não é nada inútil como começámos por dizer na entrevista!

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Sérgio Martins, em modo de registo metódico de ideias, numa atitude que lhe era muito familiar. Foto: Oldemiro Lima.

FCS: Claro! Isso do “inútil” era só uma provocação! Entretanto, tu na escalada fizeste um percurso “inverso” do percurso clássico, isto é, passaste do alpinismo para a desportiva e depois para o bloco. Não é um paradoxo passar do grande para o pequeno, do alto para o baixo?

S.M.: Sim, também me pergunto a mim próprio! Mas foi um percurso um bocado sem pensar, à medida que fui descobrindo as coisas e me fui deixando levar, até chegar aqui e descobrir tardiamente aquilo que eu mais gostava ou aquilo que mais me interessava. Se tivesse descoberto o bloco primeiro e se o bloco fosse o que é hoje, provavelmente poderia só ter feito bloco, mas as circunstâncias eram outras, de qualquer forma foi um percurso natural.

A partir de certa altura descobrimos que não podiamos fazer alpinismo, queríamos ser muito bons e queríamos fazer coisas difíceis, estavamos a fazer coisas cada vez mais arriscadas e não tínhamos onde treinar, não tínhamos como praticar, os Alpes ou os Pirinéus eram muito longe e às vezes chegavas lá e não tinhas condições – é uma história demasiado conhecida! – e isso fez crescer a nossa frustração em relação ao alpinismo. Depois, também comecei a fazer vias grandes e às vezes o facto de “perderes” ou de já não escalares com certas pessoas também te leva a afastar de certo tipo de actividades, especialmente nas vias grandes. Sempre tive grandes companheiros de cordada e certas coisas só fizeram e fazem sentido com essas pessoas, porque tem que haver quase uma simbiose para se fazerem certas vias, pelo menos para mim, de outra forma não faz sentido. Aos poucos fui-me afastando desse género de actividades e caí no bloco que é a actividade que me serve melhor, onde eu me posso expressar melhor. E, paralelamente, em termos de tempo e deslocações é a menos exigente, logo é perfeita para esta fase da minha vida onde o tempo é escasso.

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Sérgio Martins a forçar um dos passos da linha Pinheiro-bravo, na sua tão querida Área 32, Serra da Estrela. Foto: Pedro Rodrigues

FCS: Nesse teu percurso, o que é que te marcou mais em cada faceta e que fio condutor é que encontras entre esses desafios “grandes” e “pequenos”?

S.M.: Um fio condutor?… Para mim tudo é escalada. O alpinismo, embora eu tenha feito alguma coisa – o Monte Branco, alguns corredores nos Pirinéus e coisas de certa forma até arriscadas – nunca explorei a sério o que é o alpinismo pois deixei de fazer gelo e neve em 1992. Marcou-me imenso mas não posso dizer que tenha tido a importância que as outras facetas tiveram na escalada. Mas uma pessoa não pode fazer tudo e tem que escolher aquilo que pode fazer dadas as circunstâncias. De qualquer forma, para mim o fio condutor na escalada é o movimento em si sobre a rocha, com mais ou com menos perigo. Eu não vou dizer que estou no bloco para fugir ao perigo, porque já fiz coisas arriscadas e às vezes pode-me apetecer arriscar, mas não é essa a razão, a razão é escalar sempre, é o movimento em si. Hoje em dia também não procuro o perigo puro, nem é coisa que para mim faça muito sentido porque há outras responsabilidades e outros aspectos da vida que também te levam a pensar. Posso dizer que ficaram grandes projectos na minha cabeça por fazer, grandes sonhos, por exemplo, queria ir às torres do Trango e nunca fui, nunca se proporcionou, teria de ter havido uma evolução com determinadas pessoas que fossem nesse sentido. Neste momento, montar uma expedição a um sítio tremendamente arriscado já não faz muito sentido por mais que eu gostasse de escalar lá.

FCS: Falar de perigo na escalada faz-me sempre recordar o “ditado” que uma vez me disseste: “quem anda a escalar ao hospital vai parar”. O risco faz parte do jogo?

S.M.: Esse ditado ouvi-o pela primeira vez do guarda do camping de Montserrat e na altura todos nos rimos bastante disso, mas é certinho, é das coisas mais certas que eu alguma vez ouvi e poucos são os que estão nisto há muitos anos e que não vão parar ao hospital uma ou duas vezes e se for ao hospital já é uma sorte! A escalada é arriscada e até o próprio bloco pode ser bastante arriscado, na escalada desportiva embora tudo pareça seguro, a repetição das manobras mil vezes faz com que seja mais fácil haver um falhanço. A escalada clássica de auto-protecção acaba por ser onde estás mais concentrado em termos de fugir aos perigos e se calhar acaba por ser mais segura… Digo eu!

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Na via de escalada clássica Neverland, na Serra da Freita. Foto: Oldemiro Lima

FCS: Tiveste um sério acidente de escalada no Chorro e tiveste que ser evacuado de helicóptero. Marcou-te a ponto de haver um “antes” e um “depois”, mudou a tua forma de encarar a escalada?

S.M.: Completamente. Absolutamente. Não que tenha ficado com medo de escalar, nesse mesmo ano fomos para o Naranjo, mas mudou no sentido em que me apercebi principalmente do perigo da escalada desportiva, que era uma coisa de que não tinha nenhuma noção, e dei-me conta que um acidente podia acontecer em qualquer altura. A partir desse momento passei a encarar a escalada desportiva de outra forma e passei a estar mais atento a todos os pormenores e com isso talvez uma pessoa ganhe mais longevidade! E nesse aspecto os acidentes são positivos se aprendermos alguma coisa com eles.

FCS: Sei que não estás de acordo com isto que vou dizer mas há uma ideia geral de que o bloco é uma fast food de massas e o hymalaismo uma haute cuisine da aristocracia romântica… Que me dizes disto, tu que sabes manusear os condimentos nos tachos tão bem como o magnésio nas mãos?

S.M.: Isso é o que dizem, eu acho que não! Eu tenho exactamente a ideia ao contrário, o bloco é a essência, como um ingrediente raro e o alpinismo… A ideia que me vem à cabeça é a de 500 pessoas no Everest a fazerem do seu campo base uma casa-de-banho colectiva! Portanto há várias maneiras de olhar a realidade… Por outro lado também se pode dizer que um dia em Albarracin com 500 pessoas não seja uma coisa bonita de se ver e seja basttante fast food! Mas a nível da essência do movimento em si ninguém pode contestar que o bloco é onde estão os movimentos mais complexos ou, usando as metáforas alimentares, o bloco é onde existem os ingredientes mais raros e mais difíceis de alcançar. O alpinismo, no outro extremo, também tem o elemento do perigo, mas daí a chamar-lhe uma refeição gourmet! Existem várias maneiras de olhar a realidade e é muito fácil, estando em cantos opostos, de lhe inverter o sentido. Mas o alpinismo e o hymalaismo, se pensares bem, é uma coisa muito bruta, é pior que um hambúrguer! A minha experiência vai até ao Monte Branco, que é muito pouco, mas acima dos 4000 ou a chegar aos 5000 aquilo é, em termos de movimento corporal, um pé à frente do outro, é um-mais-um, um-mais-um, um-mais-um e não há nada mais bruto do que isso, é uma coisa quase robótica. Com o ar a ficar cada vez mais rarefeito, tu deixas de conseguir pensar naquilo que estás a fazer e torna-se uma coisa muito instintiva, o que está muito longe de uma refeição gourmet que é completamente para desfrute dos sentidos em toda a sua pujança!

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Em grande estilo, a disfrutar do peculiar método para encadear a clássica linha Stem Gem, em Joshua Tree, USA, em 2003. Foto: Ricardo Alves.

FCS: Falando agora de outras montanhas, como foi a experiência da revista “Montanha”? O que é que guardas de bom e de mau?

S.M.: Foi uma experiência absolutamente extraordinária, um sonho feito realidade! Foi uma coisa que sempre quis fazer, estar presente numa revista. Não comecei o projecto na origem, quem o começou foi o Nuno “Larau”, depois aos poucos fui entrando na revista até me tornar o editor e compormos uma equipa. Só sairam seis números mas, especialmente com o número 5 e com os meios que tinhamos na altura, que eram escassos e amadores, acho que conseguimos produzir o melhor que era possível. Isso deixou-me muito satisfeito e ainda hoje acho que não há meios em Portugal para se fazer melhor, o que é uma coisa má, por outro lado foi um projecto que ficou encerrado para mim, porque para ir mais além era preciso dar o passo para o profissionalismo, uma coisa que se revelou impossível pelas condicionantes externas do mercado.

FCS: A internet “matou” o espaço para este tipo de revistas?

S.M.: Não, as revistas continuam a existir, o problema português é outro, é não haver mercado que sustentasse aquela publicação, depois, também o não cumprimento dos contratos estabelecidos acabou por a matar. Não se podia fazer mais e esse foi o aspecto mais negativo da revista “Montanha”, foi o mercado acabar por a matar quando tínhamos uma tiragem de 6000 exemplares com 2000 exemplares vendidos. Porque uma revista impressa em papel a cores é extremamente cara, tem que haver um mercado, têm que haver marcas, que a paguem todos os meses ou de dois em dois ou o que quer que seja.

FCS: Entretanto apareceu o site Norte Bouldering (NB) a que te dedicas. Quais são as tuas motivações e ambições com o NB?

S.M.: Quando criámos o site ele era para se chamar “CAUS” com “u” de “Urso” e queríamos que reflectisse a escalada em Corno de Bico, em Arouca, na Pedra do Urso e em Santo Tirso, que era onde nós escalávamos mais e onde abríamos, depois surgiu o nome NorteBouldering que era mais abrangente e achámos mais engraçado. Eu não sabia o que é que era o site, para onde é que ele ia ou em que é que ele se ia transformar, as coisas foram acontecendo. Inicialmente, era um projecto multimédia, tinha ideia de tentar produzir conteúdos especialmente na área do vídeo que depois fossem sponsorizados ao ponto de serem quase profissionais, mas também isso esbarrou no mercado e não foi possível ir um pouco mais além. Neste momento temos conteúdos que se podem dizer que são amadores mas divertimo-nos a fazê-los e acho que as pessoas apreciam no geral. Também não fazia ideia que ia escrever tanto, mas aos poucos a escrita foi-se desenvolvendo à medida que criei vários temas, alguns mesmo autobiográficos e hoje posso dizer que é o melhor aspecto do site para mim, a oportunidade e a necessidade de escrever. O NB é ainda uma espécie de saco onde vão cabendo muitas coisas e muitas tendências e tomara eu que houvesse mais colaboradores com ideias interessantes, mas é o que é para já!

FCS: O NB tem revelado um pouco do panorama do bloco no Norte, que características destacas das várias escolas de bloco?

S.M.: Santo-Tirso foi onde tudo começou para nós, é uma zona com características quase urbanas, uma rocha peculiar especialmente com os famosos “limonetes”, abundam os lowballs com começos sentados manhosos, mas há também inúmeras pérolas de alta qualidade e dificuldade. Já Arouca tem o melhor granito mas é escasso, existem alguns blocos muito bons num ambiente serrano, mas muito alterado e para mim o melhor é ser perto de casa. A Pedra do Urso na realidade é no centro de Portugal, mas nós abrimos ali mais de 700 ou 800 problemas e em certos períodos fui completamente local dessa área, a rocha não é a melhor por ser um pouco granulosa, mas existem milhares de blocos e o ambiente é agreste e bastante selvagem, especialmente nos sectores longe da estrada. Por fim, Corno de Bico que foi descoberto pelo Júlio, é como um presente, uma dádiva, é um sítio absolutamente fabuloso ao nível natural, e ao nível do bloco ainda estamos a descobrir tudo o que tem para oferecer, o único senão é a rocha ser algo frágil e muito agressiva, dizem… Os blocos que existem acabam por ser um reflexo de todas as pessoas que os foram abrindo, há placas muito duras, há tectos, blocos extremamente físicos abertos pelo Júlio, há blocos muito altos, há uma panóplia imensa. Há, isso sim, características éticas comuns que são não haver talhados e raramente haver problemas eliminatórios. Sempre nos regemos por princípios éticos que nós consideramos serem os mais estritos e isso acabou por dar um conjunto homogéneo de linhas que têm essa ética em comum. Existe ainda um grau homogéneo ou tentamos que exista, em todas estas áreas, fruto de se usar a mesma escala e serem praticamente as mesmas pessoas que abrem blocos difíceis em todas elas.

Quarta-Feira Fotos. Flauta Canadiana

Flauta Canadiana, Corno de Bico. Foto: Pedro Rodrigues.

FCS: Nessas escolas de bloco a Norte introduziste o grau americano dos “V” quando a escala francesa já era usada correntemente. Achas que isso trouxe uma divisão ao mundo do bloco em Portugal? É que visto em termos europeus parece ser uma “aldeia gaulesa” contra o império romano.

S.M.: Em Inglaterra também se usa a escala dos “V”, não é só aqui na aldeia gaulesa! Em Inglaterra também se usa e por falar nisso, sou grande fã do espírito irredutível dos ingleses e do seu conceito de liberdade que eu acho que é único na Europa e a quem muito devemos como europeus, foram muitas vezes a nossa salvação. A minha influência sempre foi muito mais anglo-saxónica do que francófona, em todos os aspectos da vida e não só na escalada. Mas não foi por causa disso que usei ou implementei a escala dos “V”, nem foi no sentido de criar uma divisão porque quando começámos a usá-la em Santo Tirso, em 2000, praticamente não se escalava bloco em Portugal. Uma das razões porque usei essa escala é que a primeira vez que tomei realidade com o que é que é o bloco moderno foi em Yosemite, numa viagem que fizemos em 2000 e a minha influência é completamente americana. Eu não fui a Fontainebleau primeiro, primeiro fiz bloco nos Estados Unidos, mas por um mero acaso, não foi uma questão de procura. Sempre achei que a escala dos “V” fazia mais sentido porque para mim o bloco é completamente autónomo da escalada desportiva e não fazia sentido usar a mesma escala em termos de forma ainda que tenha valores diferentes. Depois, também achei que usar a métrica de Fontainebleau não era adequado porque os blocos lá são muito próprios e especialmente nos graus mais baixos é muito subjectiva, é muito difícil separar os graus, enquanto que na escala dos “V” era uma coisa muito simples. Tudo isso me levou a usar a escala dos “V”. Mas a razão principal é porque eu acho que o bloco é uma coisa completamentamente à parte e que merece um sistema de graduação completamente à parte e se nós podemos escolher, podemos fazê-lo de acordo com a nossa consciência e com o nosso raciocínio e não de acordo com a manada, por isso até a ideia da aldeia gaulesa é excelente.

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Em Hueco Tanks, em 2003, numa das suas viagens aos EUA, que marcaram a sua identidade como escalador de bloco e onde bebeu muito da cultura ligada a esta vertente da escalada. Foto: Ricardo Alves

FCS: Historicamente e culturalmente há uma certa divisão entre Porto e Lisboa. Achas que essa clivagem histórica e cultural existe também, naturalmente e por arrasto, entre a comunidade de escaladores a Norte e a Sul?

S.M.: A nível cultural e sociológico a diferença é evidente em todos os sentidos, basta uma ser a capital e outra a segunda capital, digamos, que há logo uma rivalidade e um sentimento de… Eu não ia dizer de inferioridade, mas um sentimento da cidade ou região que não é capital de estar a ser roubado! (risos) Na escalada também sempre existiu uma diferença cultural, quando eu comecei, a escalada aqui no Norte tinha muito mais influência espanhola e no Sul muito mais influência francesa. As próprias designações, por exemplo, os lisboetas dizerem “bidoigt”, “relais” e coisas no género, no Norte nunca se disse isso! Aqui, devido à proximidade da galiza, especialmente de Vigo que sempre teve grandes alpinistas e uma comunidade forte de escaladores, a influência era naturalmente galega. Agora se existe uma clivagem, não sei. Houve uma altura que estávamos sempre aí em Lisboa e acho que nunca houve esse sentimento. Mas hoje em dia está tudo mais complicado para se fazerem grandes distâncias, à medida que o poder económico vai diminuindo as pessoas vão tendo cada vez menos disponibilidade para fazer viagens quase inconsequentes, conheço pessoas que houve um tempo que foram escalar uma tarde à Fenda indo do Porto, isso hoje é uma coisa quase impensável! Agora a questão da rivalidade é outra questão que se deve separar da questão cultural, das maneiras de escalar serem diferentes ou das maneiras de entender a escalada. Eu nunca a senti pessoalmente, sempre me movi mais pela amizade do que pela rivalidade, mas parece-me que há muito menos rivalidade entre os escaladores aqui no Norte do que há no Sul, onde tenho a percepção de que isso é o que move muita gente na escalada, é querer demarcar o território, é querer ser o melhor, querer ser o rei da falésia ou o rei do rockódromo e eu aqui não sinto muito isso entre as pessoas, acho que não é uma motivação que esteja muito presente. Também é um facto que há muito menos escaladores aqui e daí poder haver menos rivalidade, porque a rivalidade é uma coisa humana e não apenas dos escaladores!

FCS: Durante o Verão arrumas completamente o crash-pad. O mito de Sintra ter temperaturas frias de Verão não te convence a cá vir blocar?

S.M.: Isso é uma mentira. (risos) A noção de frio varia vários graus entre o Porto e Lisboa! Não, eu só não baixo mais porque não posso, por razões de ordem familiar e de tempo. Mas já muitas vezes fui a Sintra e fiz bloco em Sintra muito antes do “boom” do bloco em Sintra, o Francisco levou-me a conhecer a Peninha há muitos, muitos anos e lembro-me de blocos como o “Abelha Maia” e aquele que se entrava nele a correr, o “Carl Lewis”.

FCS: Portanto, quando as temperaturas sobem dedicas-te à desportiva?

S.M.: Sim, ultimamente faço cerca de três ou quatro meses de escalada desportiva por ano. Nos últimos tempos só aqui na Srª do Salto que é muito perto.

FCS: Mas é apenas um meio para o bloco ou ainda se justifica por si próprio?

S.M.: Não, não! É completamente escalada desportiva super-fanática! Adoro fazer escalada desportiva e especialmente na Srª do Salto, sem sequer pensar em bloco, só pela escalada mesmo e é curioso que passo de coisas geralmente com muito poucos movimentos para coisas monstruosas com mais de cem movimentos completamente de continuidade pura… É o que eu te digo, como dissémos no início, para mim é tudo escalada, é tudo movimentos sobre rocha.

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Sérgio em ritmo relaxado, percorrendo a beirada da Idade da Araponga, na Sra. do Salto, Recarei. Foto: Oldemiro Lima.

FCS: E agora um pequeno espaço também para a resina! Tu estiveste ligado às primeiras competições de boulder em Portugal, nomeadamente como equipador do Espinho Boulder Contest nas suas primeiras edições. Mais recentemente voltaste ao equipamento de competições com as provas no Muro da Maia. Como é que analisas o panorama das competições e a sua evolução?

S.M.: A minha opinião nesse aspecto é muito subjectiva, mas acho que não houve nestes dez anos em que há competições de bloco ou de dificuldade evolução praticamente nenhuma, antes pelo contrário!… Há dez ou quinze anos houve competições com muito mais dinheiro e com muito melhor estrutura do que as que são montadas hoje em dia. As competições continuam a ser uma coisa pequena e com zero ou nenhuma cobertura mediática, com organizações pequenas também. Continuam a existir e isso é positivo de alguma forma e naquelas em que eu participo ou ajudei a montar, como em Espinho, o factor mais positivo para mim foi assistir ao trabalho absolutamente incrível e absolutamente altruísta que um grupo de pessoas se propõe a fazer para pôr essas provas de pé. Chega a ser comovente, assistir à energia tremenda e ao trabalho que é preciso fazer para pôr certas provas de pé e para que tudo corra bem e tudo esteja impecável no dia da competição, o que tem sido por exemplo o caso da Maia ultimamente! Isso é extremamente positivo, o facto negativo é a falta de apoios, a falta de mercado para isto aparecer, para se tornar uma coisa mais mediática, para se conseguir montar uma competição com transmissão em live stream, com outra produção para fazer uma coisa mais espectacular e que chame mais gente e que chame mais dinheiro. No fundo também é o reflexo do país que temos e da situação em que estamos.

FCS: Com este Muro da Maia há neste momento dois locais para a prática ou treino de escalada e Boulder indoor. Achas que isto pode preceder um “boom” na escalada do Porto? Ou já é um resultado desse crescimento?

S.M.: Se queres que te diga também fico admirado com a existência destes locais. É curioso que haja pessoas para ocupar esses espaços para treinarem. Se há um “boom” eu acho que não é muito sentido, não se sente digamos assim na rocha, poderá quanto muito sentir-se nas horas de ponta dos muros! (risos) Mas sim, é provável que ajude a que surjam mais pessoas, é uma questão de esperar.

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No Clube de Escalada da Maia, com Filipe Carvalho, a equipar um Maia Boulder Contest. Apenas uma das vertentes do seu contributo para o sucesso destas provas. Foto: Pedro Rodrigues.

FCS: Panorama das federações? É um assunto em que perdes tempo a pensar?

S.M.: Não muito! (risos) Participei na reunião que deu origem à FPME, onde aliás toda a gente tinha uma grande ilusão em sair finalmente das garras da Federação de Campismo. Infelizmente o projecto tarda em consolidar-se por razões económicas e por razões de afirmação no ministério que tutela as federações. É uma guerra surda entre as duas federações e infelizmente a que seria a nossa não consegue vencer, isso traz reflexos muito negativos à escalada em geral e por muito que as pessoas que estão à frente trabalhem parece que não se consegue mudar o panorama. Eu por mim apoiei naquilo que pude e acho que era fundamental haver uma federação dos escaladores e para os escaladores e de montanhistas para os montanhistas, que se preocupasse com os nossos problemas, em formar pessoas e apoiar equipas de competição, etc e etc, que era o que a federação de campismo só fazia de uma forma interesseira, digamos assim, para ter o estatuto desportivo, o que é uma coisa bizarra e aberrante, mas infelizmente não nos conseguimos livrar desse problema.

FCS: Das tuas inúmeras viagens, quais os locais que mais te marcaram e definiram a tua evolução como escalador?

S.M.: Olha, Lisboa! (risos) A sério! Uma das primeiras viagens de escalada que fiz foi de comboio até ao Farol da Guia e aquilo foi uma revelação, ver a maneira como as pessoas escalavam ali que era completamente diferente de como nós escalávamos. Na Guia escalava-se como se escalava em França e as manias e os materiais, tudo certinho, enquanto nós escalávamos assim de uma maneira quase um bocado parôla, em relação ao material e à própria maneira de escalar em si! Tal como a primeira vez que escalei em calcáreo na Redinha, também foi uma revelação gigante. A primeira viagem que fiz aos Estados Unidos, a Yosemite, foi completamente marcante. Curiosamente, não pelo bigwall, mas pelos blocos em Yosemite e depois em Bishop, onde absorvi por completo a cultura do bloco que se vivia naquela altura nos Estados Unidos e foi uma espécie de descoberta perceber que aquilo era e podia ser um fim em si próprio. A primeira viagem que fizemos a Espanha a Montserrat, aí não tanto pela escalada mas pelo ambiente que se respirava lá. Encontrar pela primeira vez um ambiente onde se respira escalada por todos os poros é uma coisa, quando se é muito novo, que nos deixa eléctricos. A nível de outras actividades há a Meadinha na Peneda, onde desenvolvi a escalada de parede e o Naranjo que é uma montanha incontornável para quem aqui em Portugal quer fazer escalada de grande parede. E de resto, também não viajei assim tanto, fui mais recorrente dos mesmos sítios. Mas em Portugal, lugares como a zona de escalada da Arrábida no Porto, a Redinha, as Buracas e Santo-Tirso, onde tudo começou ao nível do bloco, constituíram motores evolutivos e de mudança para mim, lugares que ajudei a transformar e de caminho me transformaram a mim também.

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Na Nova Zelândia, próximo de Queenstown, a provar o que para nós é um atípico bloco de xisto. No país que descreveu como sendo o mais lindo do mundo. Foto: Carla Dias.

FCS: Ao longo dos anos foste tendo a tua dose de lesões. Achas que com o tempo aprendeste a controlar esse flagelo do escalador, que às vezes é quase pior que o hospital?

S.M.: Tudo o que eu aprendi foi às minhas custas, das minhas próprias lesões e de tentar superá-las. Aprendi que a prevenção é extremamente importante e que escalar só por escalar geralmente leva à lesão. Se não fizermos exercícios correctivos ou correcções dos movimentos mais recorrentes na escalada acabamos por cair no poço da lesão. Pelo menos, falo da minha própria experiência, como te disse, era inapto para a escalada! Conheço outras pessoas que são um bocado imunes à lesão, se calhar nasceram mais aptas e são naturalmente talhadas para escalar ou mais simiescas! Mas a prevenção e procurar ter um corpo mais equilibrado a nível atlético ajuda muito, porque a escalada não é um desporto perfeito e uma pessoa que só escala fica corcunda e isso não é nada bom para a saúde!

FCS: Escalador há 23 anos e pai de 3 crianças. A paternidade dificulta a vida de um escalador?

S.M.: Sim, claro. Não vou dizer que não dificulta! Porque era mentira. Mas quando se diz que se escala há 23 anos é preciso ver que não são 23 anos a escalar como a escalada existe actualmente. Eu comecei a escalar de sapatilhas durante um ano e sem baudrier. Não é começar e escalar 23 anos num rockodromo ou sempre a fazer bloco ou sempre a procurar a dificuldade, que é uma coisa que um puto que hoje comece pode dizer daqui a 23 anos! Não tem nada a ver com isso, fiz muito montanhismo e outras coisas, foram várias fases e muito diferentes umas das outras. Mas a paternidade, como tu sabes, para o escalador tem os seus espinhos e é uma coisa muito difícil de contrabalançar. A escalada tira tempo à família e isso é uma coisa que cria desequilíbrios que é necessário estar constantemente a compensar e não é nada fácil.

FCS: Para terminar e dada a conjuntura de crise geral, como é que vês a escalada daqui a outros 23 anos? O futuro é negro ou é cada vez mais sorridente?

S.M.: Para mim acho que é negro o futuro, parece-me que há um retrocesso. Às vezes penso que vamos voltar à maneira como se escalava nos anos 40, que os escaladores aqui no Porto só tinham um dia de folga por semana e nesse dia iam de trolley ou iam de eléctrico ou de autocarro a escalar em Valongo, que era o único sítio perto em que se escalava aqui no Porto. Mas isto é uma visão quase apocalíptica! Na realidade, com esta crise económica, a escalada como todas as actividades de lazer, tende a ocupar um lugar cada vez mais pequeno face às necessidades imediatas. Mas foram criadas estruturas, abriram-se centenas de vias e milhares de blocos em Portugal, que já constituem uma história e um legado para os futuros escaladores. Este caminho aberto tornará sempre mais fácil a evolução de muita gente. É preciso é que os poucos que cheguem ao fim desse caminho continuem a partir pedra, isto é, explorar, abrir, forçar os limites, contribuindo assim para o desenvolvimento da escalada em si.

Se conseguirmos superar a crise e vamos acreditar que sim, a escalada seguirá o seu caminho que actualmente parece passar pela tentativa de massificação e domesticação, por forma a atrair mais dinheiro. Se calhar daqui a 23 anos ninguém escalará sem capacete, não se poderá fumar nas falésias, onde haverá câmaras para registar os encadeamentos com transmissão live para sites do género 8a.nu. e serão as falésias certificadas as únicas onde obter pontos oficiais! Ah! E onde também será proibido escalar a abrir por ser muito perigoso.

Mas haverá também sempre bosques onde correm os garranos e onde ao virar da esquina estão sempre os nossos blocos e vias… Ou os nossos sonhos “loucos e inúteis”!

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Feliz, por entre blocos e amigos… Foto: Oldemiro Lima.

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3 Responses to À conversa com Sérgio Martins

  1. Francisco Duarte diz:

    Obrigado pela partilha.Será sempre um prazer ler ou ouvir as palavras do mestre!

  2. Baptista diz:

    saudades…

  3. Luis Manuel Santos diz:

    Saudades…um profundo respeito pela simplicidade do seu discurso e que muitos nós nos identificamos e fizemos o mesmo percurso, dizer também aos seus filhos e familia…que o Sérgio deixou o mundo melhor do o que o encontrou ..eu quando o voltar a ver onde quer que seja dizer lhe que continuei a escalar no gelo que é a minha paixão…por ele e por todos os nossos…até breve…montanheiro

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