A grande viagem

Há um mês, escrevi o seguinte texto, que me saiu da alma. Por problemas de acesso ao NB, com muita pena minha, não foi possível colocá-lo no local próprio: este. Por outro lado, não fazia sentido não o lançar no momento certo, quando as palavras gritavam mais alto, por terem sido escritas à flor da pele. Recupero-as agora, registo-as no sítio que gostarias e lanço a mim próprio o desafio de, a cada 6ª-feira do próximo mês, recuperar ou fazer sair algo  novo sobre ti. Por minhas palavras, por tuas e de outros Amigos. Agora que partiste na tua grande viagem, gostava de citar Amós Oz, “Nós vivemos até ao dia em que morre a última pessoa que se lembra de nós“. Como tal, estás e estarás connosco todos os dias. Até já.

PR

3 de Janeiro de 2017

Ao meu Amigo Sérgio Martins.

Vazio. É a palavra que traduz o que me vai na alma e na cabeça. Preciso de tempo para processar tudo. Na verdade, preciso de falar contigo para conseguir racionalizar isto. Assim, acho que só consigo escrever estas linhas neste tom, de uma conversa entre nós, porque só assim encontro algum conforto em fazê-lo. Bem sei que não quererias esta exposição, mas deixa-me ao menos desta vez cometer a inconfidência de partilhar com outros uma conversa nossa. Porque… o mereces. Sim, serias possivelmente a pessoa a quem ligaria, mais cedo ou mais tarde, para me ajudar a racionalizar o que se passou hoje. E isso diz tudo sobre o que eras. SMART era o teu acrónimo, o que pode parecer pretensioso para alguns, mas não o é. Revela a tua habilidade mental para jogar com as palavras e encontrar no todo as subtilezas que mais ninguém vê. E como eras hábil a apreciar as subtilezas da vida. 

Deixa-me que te diga, agora que deixámos de lado esse pudor, que a tua perda é enorme… à tua escala. Há pessoas carismáticas (e era-lo sem dúvida), mas de entre essas há aquelas que como tu se destacam por terem a habilidade de moldar personalidades. Esse foi o meu caso, não tenho vergonha de admiti-lo. O mais fácil seria falar da forma como moldaste a minha maneira de escalar, mas isso seria um lugar comum, verdadeiramente sem interesse neste momento. Aquilo que menos me apetece é falar de blocos, vias, linhas ou graus (safa, que aversão temos à discussão do grau). Aquilo que me apetece falar contigo agora é da forma como me tocaste mais fundo, como me fizeste compreender o que está para além do mero acto de escalar e que nos fez tirar um enorme prazer desses inúmeros momentos que partilhámos. E isso tem que ver com a forma de estar na vida e de abraçar uma ideia. Ver o que está para além do óbvio. Explorar, descobrir, traçar estratégias, aprimorar processos, imaginar, criar, combinar conteúdos, ser original e sobretudo… pensar. Parar para pensar. Como o fazias bem. Paravas, pensavas, pesquisavas e formavas uma opinião fundamentada (certa ou errada, mas sempre sólida). É isso que me deixas, o ensinamento de como ser metódico. Mais do que linhas, sectores, zonas, falésias, paredes, deixas-me um saber estar, em grupo, um sentido de equipa genuíno. Numa actividade iminentemente individual ensinaste-me que ela vai muito para além disso, ensinaste-me a ser verdadeiramente amigo, a vibrar com as conquistas dos outros como se fossem nossas, a vibrar com pequenas conquistas (como escalar uma linha) como se fossem uma odisseia do Shackleton. Ensinaste-me assim o valor do empenho e da perseverança. Bolas, até me ensinaste, entre outras inúmeras coisas, quem era o caralho do Shackleton… tudo porque tinhas um intelecto e uma cultura acima da média. E isso meu caro, sempre te conferiu uma aura. Mais do que os “V Impérios”, o teu intelecto sempre te conferiu a tua aura. Para alguns intimidante, para outros inebriante. 

Mas antagonicamente, esta capacidade mental permitia-te fazer algo que nos dava um imenso prazer. O acto de regredir na idade. Sim, como é boa a amizade que nos faz voltar à adolescência. Como é bom estupidificar e voltar a ter 15 anos quando se quer. Isso requer cumplicidade. Quero continuar a discutir contigo quem era melhor guarda-redes: Baía ou Ricardo. Quero que me gozes por ser doente pelo Porto. Quero gozar-te pelo teu passado efémero nas claques do Boavista. Quero os serões em tua casa a ver filmes de escalada. Quero os teus jantares gourmet no pátio de tua casa. Quero gozar com as tuas pescarias (que cada vez eram mais exímias). Quero fazer pouco das tuas calças de escalada nos anos 80. Quero ir ter a tua casa às 6:30 da manhã. Quero que me contes as aventuras que viveste, que me fales de viagens. Quero contar-te as minhas. Quero que venhas editar fotos e vídeos a minha casa. Quero fazer-te rir no trabalho com um vídeo de palhaçada. Quero falar contigo ao telefone até ficarmos sem bateria, como geralmente acontecia. Quero falar de ser Pai contigo. Quero carregar escadas e limpar blocos contigo. Quero comer bolo-rei na Farrapa contigo. Quero ir queimar os dedos sem pele num copo de galão contigo. Quero desbravar mato contigo. Quero ouvir-te a queixar de andar de jipe comigo. Quero escrever contigo. Quero ter conversas escatológicas e brejeiras contigo. Quero ter conversas pseudo-intelectuais contigo. Quero ter ideias contigo. Quero inventar nomes de blocos contigo. Quero falar do Filipe, do Júlio, do Zé, do Cunha, do Magno, do Cardinal, do Nunito, do Sotnas, do Alfredo, do Bigodes, do Batista, do Pantufa, do Pintor, do Sérgito, do Miro… mas, hoje… merda… apenas conseguimos falar de ti. Eras um pólo aglutinador. 

E já que falamos de antagonismos, faz agora dois anos que me proporcionaste um. Não me esqueço, quando no funeral do meu Pai me abraçaste e te correram lágrimas pelo rosto. Logo tu, que racionalizas tudo. “Não estejas assim emocionado…” disse-te, “Como poderia não estar…”, respondeste. São as mesmas lágrimas que hoje verti, as de amizade.

De uma coisa estou certo, estejas onde estiveres, teremos sempre os teus braços nas nossas costas a darem-nos segurança. Uma coisa te asseguro, os teus filhos Sebastião, Matias e Vicente terão sempre os nossos a segurá-los.

Até breve Sérgio. Vamos falando entretanto, como de costume.

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One Response to A grande viagem

  1. Ricardo Belchior diz:

    Um Abraço 😦

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