O Pacto e o Impacto.

Albarracín fechou o tasco. A notícia é brutal. Fecharam cinco sectores e…proibiram o magnésio. Só os mais incautos pensarão que dá para continuar a escalar sem magnésio. A escalada sem magnésio não existe. É assim, pura e simplesmente. Desde que John Gill importou o pó da ginástica desportiva, há uns cinquenta anos atrás, que andamos a sujar as pedras ou a pinta-las conforme as sensibilidades.

Tive a sorte de conhecer Albarracín, mesmo, mesmo no início e o azar de ver a estrada para o fim. Não sou um santo, e as minhas acções também contribuírem para este desfecho, por mais passageiras que fossem e por mais que tente diminuir o meu impacto quando escalo ou frequento as zonas de escalada.

Albarracín será uma miragem se a lei for para a frente e, conhecendo o país vizinho, dificilmente um exemplo. Adiante, analisemos o nosso cantinho à beira mar plantado e o que podemos fazer para melhorar o estado das coisas.

Em Portugal dificilmente uma área poderá ser fechada pelas mesmas razões, porque pura e simplesmente não existem escaladores suficientes para massificar um local. Essa é a nossa sina. Não sei se será a nossa sorte, isso é outra discussão. O desenvolvimento lento ou muito lento, permite ir corrigindo erros e desviando trajectórias, mas se existisse uma massa de escaladores suficiente, o resultado seria igual ao dos nossos vizinhos.

Tomemos, a título de exemplo, Poios, um local geograficamente central, frequentado por escaladores de todo o país, não sei se será a falésia mais frequentada do país, mas é frequentada o suficiente para se começar a notar o impacto.

Não tive a sorte de conhecer poios sem vias de escalada, mas conheci com duas vias…o Galo na Testa e a inexplicável Manos e…era isso. E as coisas eram um bocadinho diferentes, mas só um pouco, não se pode dizer que o vale foi alterado pelos escaladores, mas pouco a pouco…

O caminho na pendente, hoje usado por toda a gente, não existia, nem o parque de estacionamento, que não foi culpa nossa já agora. A escalada não é a principal preocupação das Juntas de Freguesias e Municípios, temos, lá está, a sorte de escapar como ninjas às instituições, para eles somos umas espécies de fantasmas pendurados, que hora aparecem ora desaparecem, ora estão ora não estão, enquanto a caravana de turistas passa, por isso não recebemos nenhum apoio e por isso também somos riscados no plano legislativo quando é necessário mostrar algum zelo e serviço.

Com isto quero dizer que o caminho novo não seria assim tão necessário, o antigo que começava na aldeia e levava directamente à base da parede servia perfeitamente, mas as coisas são o que são, e hoje quando vou a Poios também uso este novo caminho, do outro já não sobrará o mínimo vestígio, outro dia perdi-me mesmo quando o tentei reencontrar. É simples, basta questionarmo-nos se era realmente necessário, e facilmente se encontra a resposta.

Um pequeno banco feito nos arbustos, quase não se nota e está camuflado, como é que estas coisas aparecem. E porquê que aos poucos queremos trazer o conforto do lar para o pé de via? Estas pequenas transformações humanas num local que é selvagem, ou natural se quiserem, vão moldando a paisagem em vez de sermos nós a moldarmo-nos a ela.

Casa de banho, eis o principal problema, basta dobrar o sector dos “quintos” para se perceber, não será tão perceptível e visível como os arredores do Parking em Albarrracín por exemplo, mas para lá caminha, porque o espaço não é imenso, nem há biombos naturais com fartura.

Este é assunto malcheiroso, literalmente, que não há outra maneira de ser abordado sem ser directamente. Em Espanha existe um livro, que é uma tradução, com um título bastante sugestivo, Cómo cagar en el monte, que já vai na sexta edição, não há que ter vergonha, a maioria das pessoas que frequentam as montanhas e falésias provêm de meios urbanos onde existem infraestruturas sanitárias, aprender a fazer as coisas no monte sem deixar rasto exige educação e leva o seu tempo. Penso que não será necessário escrever tratados sobre o assunto, este cartaz e vídeo do Acess Fund abordam a questão muito bem. Em Poios, por exemplo a solução será o saquinho…

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No Bloco o principal problema, para além do anterior, serão as Tick marks ou clecas, como dizem os espanhóis. Cada um faz as marcas que quer e precisa, nada contra, mas depois não custa nada apagá-las e já agora limpar o magnésio das presas para que as mesmas não se tornem numa pasta ou, pior, em porcelana. Diminui o impacto e é um serviço que o próximo escalador irá agradecer.

Vem isto a propósito do Pacto:

O pacto é uma iniciativa do Access Fund e visa criar um compromisso ético entre os escaladores no sentido de proteger as áreas de escalada. São dez comportamentos e atitudes a adotar fora de casa em ambientes naturais que para além da protecção ambiental irão garantir o acesso às zonas, que como se vê em Abarracín não é um dado adquiridopara sempre.

Eis uma tradução livre do mesmo:

Respeitar os outros utilizadores.

Tratar os dejectos humanos correctamente.

Aparcar e acampar apenas nas áreas designadas para o efeito.

Andar apenas nos caminhos estabelecidos.

Colocar material e crash pads em superfícies duráveis.

Limpar o magnésio e tick marks.

Manter um low profile, minimizando o tamanho do grupo e o barulho.

Levar embora todo o lixo, crash pads e material.

Respeitar encerramentos.

Ser proactivo e não um expectador passivo.

Estes 10 magníficos mandamentos parecem senso comum e um comportamento cívico normal, mas se pensarem bem e olharem bem à vossa volta, verão que não é bem assim. Em Portugal ainda não é tarde, pelas razões que referi, para se adoptarem comportamentos que melhorem as nossas áreas preferidas de jogo.

SM

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3 Responses to O Pacto e o Impacto.

  1. Muito pertinente e interessante, o tema e o texto. Com os videos e as ilustrações da Access Fund, o post ganha vigor.

  2. VBaptista diz:

    2 assuntos a fazer pensar se é desta que o magnésio “a cores” entra ou reentra no mercado e como “cagar bem”. Se cagar bem é mais difícil de nos educar-mos já o magnésio a cores deverá/deveria ser mais fácil.
    Limpar o magnésio poderá não ser tão fácil por preguiça mas também por ser bastante difícil ou impossível eliminar as marcas. Pano para mangas estes temas…

  3. Paulo Roxo diz:

    Excelente artigo e altamente pertinente e actual.
    De facto, com o “novo” risco que assombra as falésias costeiras deste país, com alguns pernes a partirem-se sob cargas ridículas (uns 5 kg para algumas!) e até o problema estar resolvido – um projecto para muito tempo – a malta vai procurar outras paragens mais… “seguras”. Isto a juntar ao numero crescente de escaladores que, de uma forma algo inorgânica vão surgindo por aqui e por ali, vai levar a uma consequente massificação de alguns locais, como os Poios ou a Fenda, para dar dois exemplos. E a consequência dessa massificação será o de sempre (aqui mesmo ao lado, em Espanha, temos vários exemplos excelentes… e tristes), vias polidas, excesso de magnésio, lixo, incluindo o muito problemático… cagalhãozito com o respectivo adereço na forma de papelito.
    Portanto, a tua chamada de atenção é muito bem vinda, actual, pertinente, importante… e aconselha-se!

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