Recordações da Época Passada. A Lua de Zaratustra.

 

Recordações da Época Passada. A Lua de Zaratustra.

Negras conjecturas adensam-se na noite. Como nuvens, tudo vão escurecendo. Uma luz, no entanto, resiste na noite, desafiante e inamovível. Magnetizado pelo apelo incandescente, durmo devagar, levado por sonhos que sonhos não são. Li uma vez que a Lua cegava os mendigos que dormiam ao relento na Índia. Um exagero, talvez. Nunca estive na Índia, mas gosto de acreditar, como quem acredita num sonho. Um sorriso rasga a noite branca. Salvo por um instante, a memória leva-me a outra Lua, a outra vida, à Lua de Zaratustra.  

Pirenéus. Vale de Ordesa. Cimo do Espolón Galinero. Dois vultos esperavam na escuridão da noite. Um deles, sentado, dobrou os joelhos e enfiou a cabeça entre as pernas sucumbindo num transe de exaustão: “Acorda-me quando a Lua aparecer”, disse antes de desligar e entrar num familiar modo de stand by. Olho com inveja o sono aparente, na minha cabeça ele dormia como um bebé, enquanto eu, sem conseguir pregar olho, deambulava às voltas como numa sala de espera. Sem luz não nos atrevíamos a enfrentar as terríveis clavijas que flanqueiam a cascata e permitem o acesso à base das paredes e ao mini-refúgio onde temos o material de bivaque. Só nos restava esperar.

Há coisas que nos perseguem. Coisas que às vezes sonhos são. Um homem e uma mulher abraçam-se no abismo. Abismo que haveria de os tragar ainda jovens. Aquele efémero instante, com mais céu do que terra, transformou-os, para mim, em estátuas de memória. Estarão sempre ali, suspensos sobre a via que acabaram de escalar, de tal forma que estranhei não os ver quando eu próprio pisei aquele lugar pela primeira vez.

Al Filo de lo Impossible. Uma serie de televisão espanhola que naturalmente, ou há falta de melhor, quem diz melhor diz talvez reality shows concursos avulsos e futebol, passava na televisão portuguesa. Tratava, e ainda trata, de aventura, abordando muitos desportos outdoor. Mas para o caso o que nos interessa é o episódio de 1986 onde aparece a via Asi Hablaba Zaratusra. A cena que acabo de descrever, no parágrafo anterior, era o final do episódio que retratava a escalada do famoso pilar. A cordada protagonista eram Miriam García Pascual e Félix García de Pablos. Ambos teriam fins trágicos, alguns anos depois, os dois vítimas de avalanches, Miriam no Meru e Félix no Aconcagua. Miriam teve ainda tempo de nos deixar um aclamado livro de seu nome Bajame Una Estrella. Certamente continuam vivos nas memórias de quem os conheceu e amou, para mim é como se vivessem cristalizados em imagens de vídeo. Eternamente jovens, eternamente abraçados sobre o abismo, eternamente suspensos naquele momento com mais céu do que terra.

Assim conheci Zaratustra, primeiro a via e só depois o livro, como qualquer escalador que preza de forma séria as suas prioridades culturais. E, este, foi dançando connosco, enquanto nos formávamos como escaladores, num caminho, ou dança, que inexoravelmente um dia nos levou à base do famoso Pilar.

Coube-me a mim abrir as hostilidades. Já não me lembro bem porquê. Decidir quem começa uma via gigante é sempre um momento delicado numa cordada alternada. Os calculistas fazem contas de cabeça para ficar com os largos mais fáceis, ou difíceis conforme os casos. Os impulsivos simplesmente não querem saber e, freneticamente, apenas pensam em despachar-se.

Escalar em alternado é um carrossel emocional. A sensação do conforto da reunião atinge o zénite quando passamos o leme ou “batata quente” ao próximo. Só que como tudo que é bom, não dura, e lá somos obrigados a abandonar o conforto do ninho, escalar de segundo, chegar à próxima reunião, sem poder lá estacionar, infelizmente, mais do que cinco minutos, sempre perante o sorriso condescende do nosso companheiro, que parece estar sempre a dizer: “despacha-te, pega no material e faz-te à vida, se não saímos daqui de noite”. Este é o “ânimo leve”, quando as coisas correm bem, quando as coisas começam a mudar e os tomates a apertarem. Algo mais interior e visceral, literalmente, vem ao de cima, fazendo com que a palavra cordada deixe de ser uma mera metáfora simbólica da união entre dois escaladores. E aí sim, quando existe uma verdadeira ligação para além da corda, nasce uma equipa onde sem recriminações os dois começam a trabalhar em conjunto para um objectivo que muitas vezes se resume simplesmente em “sair dali para fora”…

 O primeiro largo não apresentava muita história, embora as dificuldades parecessem desajustadas, como de resto acontece sempre nas vias grandes. O Rui passou para a frente e a coisa começou a piar fino, parecia intranquilo, indeciso, soltando palavrões avulsos à medida que ia subindo. Quando cheguei à reunião notei-o lívido e incaracteristicamente nervoso. “Viste o frigorífico?”. Encolhi os ombros. Como sempre acontece, de segundo, muita coisa passa ao lado. “Pá! Agarrei-me a um bloco maior que um frigorifico e aquela merda mexeu”, continuou visivelmente nervoso. “Foda-se”, exclamei. “Acho melhor descermos, isto não está a ter piada nenhuma, a via está toda podre”. “Espera, deixa ver o que isto dá, e olha o tecto está já ali, e com duas expresses abandonadas prontas para nós as irmos catar”. Arrastado pela minha negligente vontade de quem tinha passado pelo largo terrorífico na “mama” da corda por cima, e com mau humor, lá aceitou ir para cima. Retrospectivamente quando olhamos para outro croquis da via, que entretanto encontramos, reparamos que a sorte tinha sido madrasta para o meu companheiro de cordada oferecendo-lhe os dois largos mais descompostos da via, alterando assim, para sempre, a sua experiencia da escalada.

A via era temível e insegura, muitos pitões podres e muitos buris. Uma reunião em particular ficou-me na memória. Situada numa plataforma perfeita, a plomo sobre o abismo, poucos sítios têm tanto plomo como aquele pilar, só um buril ferrugento a abrilhantava como única protecção. Em vão tentei proteger com outra coisa qualquer, não era nosso hábito andar com martelos e pitões, o nosso estilo era orgulhosamente “clean and light”, mas se tivesse um tinha espetado um pitão como um prego. À falta de melhor lá protegi o esquálido buril, infelizmente na altura já sabia bem o que era um buril, e berrei eufemísticamente ”reunião”, entregando-me nas mãos da deusa da fortuna, ou nas mãos do pedaço de metal ferrugento de 7 mm espetado, na melhor das hipóteses 20 mm na rocha, rezando para que ninguém caísse. Numa negação infantil do perigo entrei num modo de hiper-concentração para tentar, fintando o pânico, sair daquela ratoeira da melhor forma.

Depois fez-se noite. Fazia-se sempre “de noite”, por mais cedo que começasse-mos, acabávamos sempre “de noite”. Sentíamos sempre inveja das cordadas perfeitas, que realizavam os tempos perfeitos, dos perfeitos topos-guias. Chegavam sempre a tempo ao refúgio e ao conforto, uns modelos de perfeição. Uns príncipes da escalada, todos eles! Nós não. Lentos como lesmas, acabávamos sempre a arrastarmo-nos na noite escura ou na lama dos bivaques improvisados. Mas se rápidos não éramos, duros de roer seriamos, resistíamos tentando escalar em livre ao máximo. Fazíamos o melhor que sabíamos tentando salvar a pele no fim do dia. Era esta a definição de escalada de aventura para nós. Uma definição que nunca nos saía de graça…

Foi assim, à luz do frontal, que chegamos à mítica plataforma sobranceira sobre o abismo. Fugíamos a sete pés ao negro abismo e suspiramos de alívio quando aquilo tudo acabou e nos esgueirávamos pelo estreito trilho sobre as paredes que levava à parte superior da cascata. Entretanto, para apimentar um pouco mais as coisas, o nosso único frontal “deu o berro”. Sim, houve um tempo em que os frontais não eram de led’s e eram uns cabrões devoradores de umas pilhas gigantescas caras e pesadas, e claro, como a perfeição não faz parte de nenhuma aventura, não havia pilhas sobresselentes. Perante a perspectiva de enfrentar as clavijas às escuras resolvemos esperar pelo luar.

Eventualmente a Lua lá apareceu para nos salvar. A Lua de Zaratustra. SM

Ilustração: Vitor Batista.

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6 Responses to Recordações da Época Passada. A Lua de Zaratustra.

  1. topas diz:

    Matias escreve um Livro!!
    Adoro as R.E.P.!
    abraço

  2. Pedro Rodrigues diz:

    Top.

  3. sesa diz:

    relato épico! emocionante e sentido. abraço.

  4. Sergio Duarte diz:

    Fiquei com as mãos suadas…
    Que belo relato!

  5. nortebouldering diz:

    Obrigado a todos.

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