Just Can’t Stop Climbing

[vimeo https://vimeo.com/74518717 w=700&h=393]

Treze anos. O puto que produziu este vídeo tem treze anos, e a brincar conseguiu captar um dos aspectos da essência da escalada ao qual, todos os que fomos contaminados pelo vírus vertical em tenra idade, estamos emocionalmente ligados. Pode um vídeo, sem uma grama de rocha, ter mais escalada que o Reel Rock Tour ? Pode.

A pura alegria de trepar qualquer coisa, de fazer da nossa casa e do nosso quintal uma montanha infinita. E de o partilhar com os outros, hoje o mundo pelo Vimeo, ontem o nosso vizinho e amigo que começou a escalar connosco.

A escalada muitas vezes, demasiadas vezes, torna-se em algo muito diferente disto. Transforma-se num labirinto de frustrações, em que a opinião, e aprovação, de terceiros, potenciada pelo brilhante tempo em que vivemos, o tempo da “social media”, se transforma em si num objectivo, produzindo uma vida e uma escalada irreal. Uma sopa fria de números, ego e ódio.

Mas este puto tem treze anos e não sabe nada disso, nem quer saber, não pode saber. A esquina do quarto é um problema de bloco que pode demorar semanas a resolver, o armário tem régletes mais duras que as da Dura Dura, a gaveta só abre se puxada em arqueado, a porta tem monodedos secretos, a invertida da soleira da janela é feita da mais perfeita das rochas.

Não existem obsessões, nem psicologias baratas que explicam o inexplicável, o inexplicável de trepar sem razão aparente só porque é desafiante e está ali, o inexplicável de sonhar acordado transformando a realidade de todos os dias noutra coisa qualquer.

Se existir uma infância na escalada terá de ser feita de sal e de sonho, de lágrimas de birras infinitas embrulhadas em posters arrancados a revistas alheias, do medo do escuro das tempestades assassinas dos Alpes do nosso armário onde candeeiros  lançam relâmpagos e os nossos pais vozes de trovão.

Um mundo protegido e secreto onde somos gigantes, gigantes do tamanho daquilo com que  sonhamos, um mundo que não volta.

Mas a escalada fica, como um esqueleto ossificado pelo cálcio dos sonhos. SM

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10 Responses to Just Can’t Stop Climbing

  1. Nunito diz:

    Brutal, faz-me lembrar quando eu era Puto e as ombreiras das portas de casa estavam todas sujas de marcas dos meua dedos conspurcados de fazer elevações….

  2. Hi Norte bouldering I’m the kid who made the video, thanks for the write up !

    • nortebouldering diz:

      I am the one to be thankful. Your video reveals the true joy of climbing and brings good memories, you have great boulder problems in your house, both power and especially movement, congratulations.

      I do not know how you read the text, but if you used google traslactor , for example ,
      it can get pretty weird, hehe

      Cheers

    • Pedro Rodrigues diz:

      Congrats Carson. Cool little video that accidentally (or not) captures the true essence of climbing. My favourite problem is the one that starts on the door, uses the heel hook on the bed and has a drop off from the ceiling. Since you already seem to be a strong and technical climber, I just wish you keep having fun like that. And don’t stop dreaming awake… for sure there is a line out there for you to open, worth calling it Lucid Dream. 😉

    • Sotnas diz:

      Keep it up Carson… There´s a world of infinity boulders waiting for you 😉

  3. Pedro Rodrigues diz:

    Puro. Esta é a palavra que me vem à cabeça após ler a crítica e ver o vídeo. Um vídeo sem grau, que se centra em mostrar movimentos e que explora a criatividade. E como sempre os mais novos dão-nos lições, neste caso de como aliar a criatividade à simplicidade para produzir algo que julgo ser o objectivo artístico destes vídeos (os que o têm): produzir algo que nos relacione a todos emocionalmente e com o qual nos identificamos. Sendo assim, ironicamente requer alguma maturidade para captar esta essência e requer uma crítica que o valorize e resgate do universo de babugem que pulula a internet. O vídeo sem a crítica poderia passar por banal, o texto sem o vídeo poderia passar por lugar comum.

    Muitos de nós provavelmente se reconhecerão neste vídeo, por um detalhe ou outro. Alguns de nós, fruto do passar do tempo, sentirão nostalgia ao vê-lo. Todos nós buscamos viver a alegria ali expressa. Há uns anos atrás, andávamos nas lides de abrir sectores em Arouca, recebi a visita habitual de um dos meus melhores amigos que, pela altura de Dezembro, vem de Lisboa passar uns dias a minha casa. Não tendo ele nada que ver com escalada, mas sendo um dos melhores ornitólogos nacionais, facilmente o convenci a acompanhar-nos até à Freita, ao engodo de ver um casal de uma espécie rara que eu tinha avistado e fotografado dias antes, por entre a neve. Logicamente, após ter passado o dia connosco, quis saber a sua opinião sobre do ambiente do grupo que se juntara para blocar. O seu comentário, do alto dos seus profícuos 35 anos de então, ficou-me registado na memória: “Pá, vocês quando se juntam, apesar da disparidade de idades, parece que regridem todos, por contágio, para a pré-adolescência…”. Não andará muito longe da verdade. Não será isso que buscamos todos? Não serão essas as melhores sessões de escalada, as que nos alheamos do grau, focamos em descobrir, abrir linhas, descobrir as sequências, estar com os amigos? No fundo, não buscaremos todos a infância perdida?

  4. MC diz:

    “O melhor escalador é aquele que mais se diverte”.
    E a divertir-se, ainda assim foi capaz de fazer o cúmulo da força, dobrar uma esquina!

    PS: deixo apenas uma ligação, do tempo em que o abismo realizava “posts” normais, e com mais frequência. Por terras de “Além Tejo” onde mesmo escasseando rocha não era motivo para não ensarilhar, ou abismar passe o pleonasmo 🙂

    http://abismobranco.blogspot.pt/2007/04/escalada-urbana.html

  5. anonimo diz:

    Been there done that.
    Tendo começado a escalar aos 13 anos e sem acesso a rocodromos e companhia regular para escalar.
    É um retrato bem real dos meus primeiros anos a escalar, onde qualquer relevo era sinónimo de presa e motivo para soltar a imaginação e experimentar as várias possibilidades.
    Onde as aulas eram uma excelente altura para treinar as regueletes em arqueio, os sacos de compras os bidedos…
    17 anos depois e já quase completamente afastado da escalada ainda dou por mim a imaginar sequências em toda e qualquer superfície(não precisa ser vertical)…

    Considero que isso é a essência da escalada, o MOVIMENTO, não a montanha, a rocha ou o rocordomo, mas o gesto, o movimento, é a escalada dissecada no seu elemento mais simples que pode ser aplicado a qualquer meio sem qualquer constrangimento.
    Acredito que seja por estimular sentidos tão primários como o tacto e a propriocepção e a equilibriocepção.

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