O Impensável Também Acontece.

Morreu uma pequena estrela da escalada. Aparentemente num acidente estúpido, como são todos os acidentes de escalada. Tito Traversa tinha 12 anos. O fogo da consternação arde rápido e célere na pradaria da net, a estupidez também. Já se pedem novas medidas de segurança para as expresses de forma a tornar impossível a montagem que se diz estar na origem do acidente.

Hoje o 8a.nu confirma, vamos fazer de conta desta vez que o 8a.nu tem alguma credibilidade jornalística, que foi uma montagem (8 cintas) como a da foto que esteve na origem do acidente.

As inovações na escalada, que muitas vezes são implementadas em nome de uma maior segurança, na realidade são implementadas em nome do nosso comodismo, daí o seu uso se disseminar rapidamente. O gri-gri será o exemplo maior, mas podemos ir por aí fora passando claro está pelos strings. Comodismo para o expert e facilidade de manuseamento para o iniciado eis a receita do sucesso para um produto.

A escalada é uma coisa perigosa. A mascara que lhe querem colar não é. Uma mascara que abre a escada às multidões, ou massas se quiserem, e que vende a escalada diluída num produto 100% seguro, um desporto como outro qualquer. Com a multidão chegam naturamente as crianças-prodígio, cada vez mais, que se comportam e escalam como pequenos adultos, só que como muito bem é dito aqui, não o são, por muito desenvolvida emancipada e tecnológica que seja a nossa sociedade, ainda precisamos de tempo, algum, para amadurecer. As crianças precisam, ainda, dos seus pais por perto, precisam do seu instinto para as proteger, os anjos da guarda existem nesta Terra e têm nome, chamam-se pais, e mesmo assim os acidentes acontecem. Esta consideração é generalista e não especula sobre as circunstâncias próprias deste horrível acidente, que obviamente desconheço.

Vamos mudar um pouco de cenário. Vamos para o Bouldering onde aparentemente nada de fatal pode acontecer. As cosias eram assim até ao advento, em Bishop, de um novo conceito no bloco: o super highball ou seja blocos que vão até aos 15 metros ou mais e envolvem na realidade escalada em solo integral.

Eticamente estes blocos são quase sempre inspeccionados, limpos e trabalhados em top-rope pelos primeiros ascensionistas, uma coisa que aparece pouco nos vídeos e, elevando um pouco mais a barreira ética, o passo seguinte é fazer uma ascensão “ground-up”, numa espiral de perigo enfatizada pela intoxicação mediática. Depois do “ground-up”, chegam as repetições “apenas”com uma ou duas crashs, com os respectivos vídeos a enfatizaram esse aspecto, no que se poderia chamar de “negligencia cool”. Recentemente um escalador francês usou um termo que me parece acertado para este fenómeno: mercantilização do perigo.

Sempre se escalou em solo integral, no entanto nunca existiu uma mediatização tão imediata e abrangente como agora, colocando-se o problema de como estas ascensões influenciam as novas gerações.

Chegamos assim ao caso de Enzo Odo, a estrela em ascensão da escalada francesa era ainda menor (15 anos), quando em Bishop escalou o Ambrósia, apesar de fortemente desaconselhado pelos restantes escaladores, adultos, do grupo. Enzo podia ser já um dos melhores do mundo, mas estava sem os seus pais em Bishop e colocou verdadeiramente problemas aos seus companheiros ao colocar-se, e colocá-los, naquela situação. Este desabafo surgiu num artigo sobre a viagem escrito por um dos seus companheiros, um forte escalador francês que não gostou muito de ter de assistir ao feito, e chamou-me a atenção pela reflexão, quer acerca da problemática dos escaladores preteen e teen’s quer sobre própria mercantilização do perigo, um tema raramente abordado nos média e que agora nos chega com estrondo, pelas piores razões, muito infelizmente. SM

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2 Responses to O Impensável Também Acontece.

  1. MC diz:

    Relativamente aos acidentes na escalada desportiva, tenho em mente sempre duas frases que ouvi de duas pessoas do nosso círculo, e que retratam um pouco filosoficamente a situação. Uma é do Sesa, em que refere que: “para haver um acidente grave na escalada desportiva é necessário estar-se a cometer dois erros ao meus tempo”, a outra é do Luís Pinheiro, em que refere que: “se podemos ter sorte e ganhar o euromilhões, também podemos ter azar e morrer a escalar”. Embora não sejam um exemplo de escaladores que pautem muito pela prudência (imagem que possivelmente de forma “injusta” fomos ajudando a construir, através dos episódios caricatos que nos foram proporcionando ao longo destes anos) não deixam de ter a sua razão.
    É sempre bom fazermos estas reflexões sobre os acidentes, para nos deixar um pouco alerta, pois é precisamente quando relaxamos demasiado que o “Ceifador Sinistro” nos tenta passar uma rasteira. Pois ao que parece este acidente não foi mais do que isso, bem difierente daquele que tenta o “ground up” ou o solo. Qualquer dia isso será tão banal, que para poderem vender, terão que por a “mulher do cotonete” no meio das vias para aquilo passar ainda mais emoção, ou uma luta de gladiadores nos patamares maiores das vias, onde os escaladores terão ao dispor um rol de armas nas bordas do patamar par poderem utilizar (já estou a imaginar: 2 friends, 1 Alien ou n.º 6; uma corrente de expressos ou um anoréctico;…a luta termina quando conseguirem colocar o seu autoseguro na reunião que não é a das chapas da coca-cola, no entanto só vencem realmente se não tiverem apanhado o arnês que não tem o anel Tood Skinner)
    Abraço

    Ps: confesso que fiquei impressionado o ano passado com aquela situação em que o mosquetão cortou a corda. Nunca mais escalei no Salto 😉

  2. sesa diz:

    Foram vários acidentes num curto espaço de tempo. O Jesús Ibarzo em Riglos, o pequeno Tito e o Neiro, que teve melhor sorte e escapou com vida. Vale a reflexão proposta pelo Sérgio Martins, concordo que por vezes a escalada é vendida como 100% segura. Em todos os casos não se tratava de nenhum novato ou inexperiente.
    A Infeliz ocorrência destes casos servem de alerta e aprendizagem. A escalada é de facto perigosa e exige aprendizagem continua, até pela própria evolução do equipamentos de segurança. E a segurança não depende apenas do próprio. Mas de todos os meios envolvidos sejam eles humanos, materiais, ambiente, meteorologia, etc. Daí a necessidade da hetero-inspecção, da verificação dos materiais antes ou após cada utilização, da avaliação do contexto (estado da rocha, meteorologia, equipamento da via, etc).

    Pessoalmente é na escalada desportiva, considerada a “mais” segura, que vejo acontecer as maiores anagácias. Talvez pelo número de praticantes, e não tanto pela facilidade de acesso, porque são os “pros” que mais prevaricam.
    Um aspecto importante, que alerta e muito bem o SM, é a necessidade de refletir sobre possíveis influências nefastas. Quer pela moda dos “Solotários”. Quer pelo que é considerado “in” pela comunidade, como por exemplo o uso de capacete na escalada desportiva considerado “selenita”, ou usar uma fita cosida com mosquetão de rosca para auto-segurança na passagem da corda no top, em vez da “prática” express.

    Abrindo uma excepção “escutista” (já que falamos de ensarilhas):
    sempre alerta!

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