Escalada 2084. XVIII Ossos do Ofício.

Escalada 2084 XVIII Ossos do Ofício.

No capítulo anterior:  A possibilidade de uma terrível missão faz gelar o ambiente entre Sebastião e Carlos. O longo período de mau tempo acaba finalmente e um auspicioso dia de escalada perspectiva-se quebrando um longo jejum e trazendo alguma trégua entre os dois.

Desertámos do pub em bando, prontos para escalar tudo e mais alguma coisa. O sangue fervia e a adrenalina farejava-se no ar, devido ao extenso aquecimento feito à base de histórias épicas. Prometiam-se movimentos extremos sobre protecções inexistentes, quedas de pôr os cabelos em pé, possibilidades de quedas mortíferas e outras de ir para casa já numa cadeira de rodas. Ossos partidos, cabeças rachadas e membros deslocados eram referidos como meros danos colaterais. Ossos de um ofício perdido, o ofício perdido da escalada de aventura.

As histórias eram ostentadas com orgulho, como medalhas penduradas nos trapos da vida. Não percebia muito bem do que falavam essas histórias, nem como podiam estar relacionadas com a escalada que eu conhecia. As cicatrizes que conhecia à maioria dos escaladores eram no ego e não na pele.

Éramos um bando admirável. Era forçoso admiti-lo. Muitos não tinham mochilas e levavam o parco material em sacos de supermercado. As roupas eram um catálogo de modas passadas, onde cada escalador daria um manequim único e singular. Ao contrário da uniformização ou ditadura das marcas especializadas, tudo aqui era permitido e bem-vindo. Viam-se casacos tweed de alfaiate a fazer conjunto com calças de licra. Uma gabardine escondia uns shorts com estampado havaiano e uns chinelos de meter o dedo. Outro apresentava-se de gorro russo, uma t’shirt cabeada e umas calças turcas. Uma camisa branca impecável sob um impermeável de plástico vermelho podia fazer conjunto com umas calças boca-de-sino e uns sapatos de golfe.

A trupe de circo ou de escalada, conforme as perspectivas e humor de cada um, rapidamente se disseminou pelos mais bizarros meios de transporte. A nossa carroça levou uns quantos. Bicicletas com reboques, uma caleche com dois cavalos baios, um pequeno comboio de mulas e, por fim, um trenó com rodas, puxado por um conjunto difuso de raças caninas, compunham o resto da caravana.

A viagem foi, apesar de tudo, rápida, pois as estradas eram impecáveis. Sem o desgaste do tráfego automóvel, só precisavam de ser limpas para durarem quase para sempre.

“Que pontinhos brancos são aqueles nas colinas de erva?”

“Ovelhas.”

“Para que as querem?”

“Bom, penso que fazem roupa do pelo e bebem o leite, ou fazem uma espécie de tofu com ele.”

“Selvagens!”

“Sim, umas verdadeiras bestas.”

“Porque é que localizaram a base aqui, nesta ilha de selvagens?”

“É um clássico…é a democracia mais perto, e uma democracia liberal. Aqui ninguém faz perguntas, desde que exista um envelope legal aparente, podemos estar ali entretidos no nosso quintal, que ninguém nos chateia.”

“Curioso, podemos até estar a conspirar contra o próprio governo no seu próprio território…impensável.”

“São as vantagens da chamada liberdade, é um pouco perverso, reconheço.”

“Sim, perverso é, sem dúvida…é como parasitar um sistema…”

“Agora chamas-nos parasitas…”

“Não de maneira nenhuma…os parasitas foram afinados durante milhões de anos pela natureza e nunca matam o seu hospedeiro, são eficientes e inteligentes…”

“Lá estás tu. Já te aconselharam a levar isto a sério, sem brincadeiras e sarcasmos, podem existir consequências imprevisíveis para ti, nem toda a gente está disposta a aturar-te como eu.”

“Ahé?! E tu porque me aturas, já agora?

“Vejo algum potencial em ti…e além do mais ninguém escala por aqui, na base quero dizer, tirando nos treinos claro, mas escalar verdadeiramente, ninguém escala…nem querem saber disso para nada apesar de estarmos no coração do Peak District, o bicho que os devora é outro…E de resto…quem me iria dar segurança…é preciso ter alguém de confiança para fazer este género de vias.”

“Claro”, resmunguei, “é de se saudar, que em ti, a amizade seja um valor que se sobrepõe a tudo o resto.”

“Vou fingir que não reparei em mais essa farpa e digo-te o seguinte, de uma vez por todas: a amizade é para maricas…m-a-r-i-c-a-s…percebes…e além do mais impede de ver as coisas com clareza, intrometendo-se e colocando dificuldades emocionais a cada passo da vida. Não te esqueças que somos soldados, máquinas bem oleadas para executar missões, sem fazer perguntas.”

“E…a missão de hoje é…escalar.”

“Precisamente, precisamente, vês como chegas lá, basta entrar no espírito da coisa, escalada e amizade, são de resto coisas bastante incompatíveis.”

“Muito me contas…bom de certa forma é aplicar o materialismo às relações humanas, não deixa de fazer sentido, vai-se aprendendo umas coisas por aqui…Outra coisa que se pode observar por estas bandas é que a liberdade não passa de uma ideia utópica, mesmo aqui numa democracia pretensamente liberal, o que existe é uma ditadura das massas regulada pelo marketing político. A liberdade verdadeira, de facto, só parece possível com o fim da propriedade privada e com um novo começo.”

 “Ah…finalmente alguma coisa dita com juízo… começam a ver-se alguns progressos, estou a gostar…olha chegámos.”

“Não era bem isso que…”, fui interrompido pelo desembarque da horda e pelo bruáá que se gerou com o assalto às falésias, fazendo fugir as ovelhas esbaforidas.

Alguns corriam, literalmente desenfreados, outros caminhavam recolhidos como monges,  nós íamos um pouco atrás, a ver como paravam as coisas. Nisto desapareceram quase todos. Fiquei atarantado, até que os vi a rapelar das mais diversas posições nas paredes próximas. Passado pouco tempo estavam todos a escalar em top-rope.

“Que merda é esta, Carlos?”, estava para lá de espantado, depois das conversas que ouvira estava à espera de ver escaladas de arrepiar e não top-ropes.

“É assim, por aqui, nunca ouviste falar de headpointing?

“Se ouvi não me lembro, então estes maricas escalam em top?”

Carlos riu-se: “Escalam em top para trabalhar os movimentos, quando têm a coisa bem alinhada experimentam a abrir com os entaladores, e aí sim arriscam bastante, de vez em quando acontece um flash ou à vista groundup, mas é raro, são como uma excepção à regra.”

“Mais vale escalar em solo integral, não?”

“Não é bem, a maior parte das vezes as protecções funcionam bem…é uma arte pois é preciso muita habilidade para colocar essas protecções e criatividade também, mas já vamos ver isso.”

“Ok, vamos lá então, montar o nosso toperoupezinho…tens algum objectivo por aqui?”

“Sempre que estou por cá, dou um pegue a uma via que se chama Gaia…”

“Gaia…a Deusa da Terra…”, e comecei a desempacotar o material.

“É isso que quer dizer Gaia? O gajo que a abriu devia ter a mania, devia ser neo-hippie… cheguei a pensar que poderia ser uma homenagem a Gaia.”

“O quê! Gaia, Vila Nova de Gaia?”

 “Iá…porque não, estando lá as caves do Vinho do Porto e tal…”

“Não me parece…”, disse, enquanto nos aproximávamos de um grupo que já tinha umas cordas montadas numas vias, com a intenção de pedir para dar umas voltas para aquecer. “Quantos pontos vale essa via?”

“Não existem pontos por aqui, existe um sistema de graduação complicadíssimo, essa por exemplo está cotada E8 6c, onde o E supostamente representa a exposição, ou risco, e o resto a dificuldade técnica do passo mais duro, mas é muito mais complicado do que isso, só escalando muitas vias é que vais percebendo, mas esta via é muito, muito fodida, tem um crux psicológico na parte de cima, que falhando leva a uma queda em pêndulo contra uma aresta…”

Crux psicológico, queda quebra-ossos, Deusa da Terra…tudo muito estranho…parece que a via tem vida, ou uma personalidade…interessante.”

“Achas? Eu só quero fazer porque é muito difícil e famosa, logo mostro-te uns vídeos dela, há um especialmente engraçado de um francês a partir as canelas.”

“Não te incomoda correr esses riscos e não pontuar?”

“Nem que quisesse. Estas vias não são homologadas. Não se trata de pontuar, trata-se de ser reconhecido onde quer que estejas, de sobressair, de ter sucesso, tudo se resume a isso, não?

“Isso é uma pergunta de retórica?”

“Vai-te foder!”

Fomos escalando, a rocha era magnífica e a escalada técnica e interessante, mas não conseguia perceber como se protegia indo à frente. Estava tudo cheio de magnésio o que era mais uma coisa desconhecida para mim. Os ingleses pela nossa conversa perceberam que estávamos a falar da Gaia.

Yah hit’s a fucking briliant route”, disse um desgrenhado que estava sentado a esgravatar qualquer coisa dentro de um saco plástico: “Imaginem uma via com 98 anos ainda ser tão famosa overseas, o Johnny fucking Dawes era mesmo um visionário.”

A fuckiiiing master”, disse outro, mostrando, ao falar, uma cremalheira com dois dentes partidos na frente, o que o fazia produzir um curioso assobio, que lhe temperava o discurso de forma extremamente divertida: “É pena que a via esteja agora mais liiiissiiinha que o rabo de um bebé.”

O desgrenhado finalmente encontrou o que queria no saco, levantou-se e virou-se para nós: “98 anos de abuso, devia ser o nome dessa via…”, e deu uma cuspidela para o chão, levando de seguida mais um bocado de tabaco de mascar à boca.

“Bom, daqui a bocado vou lá por a minha cordinha para um ensaio nessa beleza, relembrar os passos e tal…”, disse Carlos a esfregar as mãos.

Os ingleses fitaram-no, perplexos, fazendo-se momentaneamente um silêncio desconfortável. O do tabaco mandou mais uma cuspidela e perguntou: “Há quanto tempo não provas a via?”

“A última vez foi…deixa cá ver…sim foi há dois anos, sim foi isso.”

“Ele aiiinda não sabe, Greg “, disse o das janelas.

“O que é que ainda não sei”, disse Carlos.

“Está proibido fazer top-rope nessa via, só à frente e sem magnésio, mas isso para vocês não parece ser um problema.”

Carlos engoliu em seco, empalideceu e disse baixinho como que para ele próprio: “Só à frente?”

 

Na próxima semana será publicado a décima nona parte. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XVII Ben&Jerry.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução

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