Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

Escalada 2084. XVI Cavalo de Ferro.

No capítulo anterior: Um encontro inesperado, uma revelação. Uma pista falsa. Uma marionete nas mãos das BMV…

A gigantesca locomotiva, uma seis eixos da classe Pacific, resfolegou, guinchou, parecia viva quando libertou uma nuvem de fumo e vapor que por momentos encheu toda a estação. Era impossível não ficar fascinado por uma máquina daquelas, era quase orgânica quando comparada com os nossos sofisticados e impessoais comboios de deslocação magnética. O design era deliciosamente retro, nada que se comparasse com o frio, plástico e impessoal desenho da eficiência chinesa.

O regresso à tecnologia do vapor levara os britânicos a aperfeiçoarem os modelos anteriores à II Guerra Mundial. Nos anos 30 do século passado, a corrida pelos recordes de velocidade tinha criado verdadeiros puro-sangue do vapor, com potências descomunais capazes de atingir velocidades próximas dos 200 Km/h. Fizeram-nas magníficas e imortais, um último estertor só permitido a coisas de primeira grandeza próximas à decadência. Foram essas que foram buscar e não os modelos revivalistas que foram sendo criados. Uma viagem no tempo arrancara-as do esquecimento. Um processo de quase clonagem industrial.

As carruagens, por seu lado, eram extraordinariamente actuais quando comparadas com a locomotiva. Eram um aproveitamento de comboios modernos anteriores à Revolução, como o TGV e similares. A composição que tínhamos ali pela frente era, assim, um estranho bicho híbrido, como se tivessem cortado a cabeça a um TGV e lhe atarraxassem à pressão uma locomotiva a vapor. Parecia funcional.

 “Temos bilhetes para a Quarta-A, para não levantar suspeitas!”, quase me gritou Carlos aos ouvidos, no meio da chinfrineira.

“Quarta- Classe A ?”, gritei eu também.

“Ah pois, estamos no séc. XIX Inglês, não há cá misturas”, continuou no mesmo tom e a rir.

“Sim, sim…mas Quarta-classe A?”

“Iá…Quarta-classe quer dizer sem bancos e A é de …animals…”

“Foda-se, acho que estás a levar o disfarce um pouco longe de mais não?”

“Sabes como é…neste género de trabalho está tudo nos detalhes…tudo nos detalhes.”

Subimos a bordo. Era tudo a monte, não havia cadeiras, apenas umas barras com uns puxadores no tecto para as pessoas se agarrarem, e umas barras ao nível da cintura abaixo da linha de janelas, onde muita gente já estava atracada, e ainda outro corrimão na zona central. Estaquei quando, o que me parecia ser um burro, barrava o nosso caminho amarrado a um dos ferros. Não me atrevi a continuar.  

“Passa, passa, não tenhas medo.” Riu-se Carlos, dando um passo em frente e uma palmada no lombo do animal, para o afastar, que logo relinchou copiosamente, como se o matassem.

O dono, quase no mesmo tom do animal, logo se fez ouvir: “Bloody fukers! Leave Jenkin salone!

“Calma, calma, patrãozinho, ninguém quer fazer mal ao teu companheiro”, respondeu Carlos,  empurrando-me para diante.

Arranjámos lugar, entre gaiolas com galinhas vivas e uma velhota impecavelmente vestida, que trazia um buldogue pela trela e uma sombrinha pela mão. Puxei de um cigarro e reparei que a velhota começou a olhar para mim expectante. Carlos, com um gesto rápido e discreto, arrancou-me o cigarro da boca.

“Não se pode fumar nos comboios, existem uma série de leis contra o tabaco ainda em vigor aqui. Dizem que interfere com a liberdade dos outros…anacronismos democráticos…”

“Pensei que fosse ao contrário e que a proibição de fumar é que interferisse com a liberdade pessoal de cada um…”

“É um bom dilema filosófico, é por causa dessas e de outras, que é necessário um governo forte que poupe os cidadãos desses suplícios que os ultrapassam e lhes proporcione leis simples e indiscutíveis para seguirem. E já agora, sabes o que os maços trazem escrito aqui?”

“Não, ainda não tive a oportunidade de ver nenhum por acaso.”

“Fumar mata…”

Riamos a bom rir, quando, com um solavanco enorme, o comboio iniciou a sua marcha.

A viagem até Sheffield decorreu sem incidentes de maior e nem demos pelo tempo a passar, entretidos que estávamos a observar o trânsito de excêntricos passageiros, animais e carga avulsa que continuamente fluía na nossa carruagem, a cada paragem.

Ao entardecer, fizemo-nos à estrada, novamente de carroça, e desta vez com o famoso clima britânico a dar-nos as boas vindas. Duas horas de chuva miudinha marcaram todo o nosso caminho.

“Merda!”, disse puxando a gola do casaco para cima e encolhendo-me. “Bem que podíamos abrigarmo-nos, não?”

“Somos esperados ainda hoje”, disse Carlos aparentemente indiferente à chuva, “vai-te habituando que isto, por aqui, é considerando o bom tempo.”

A certa altura do caminho, Carlos estende-me um capuz negro: “Desculpa, são protocolos de segurança.”

“Não me fodas! Quando é que paras com esta comédia? Achas mesmo necessária esta palhaçada?”

“É, enquanto não tivermos a certeza que estás mesmo connosco…”

Enfiei, relutantemente, o capuz e mergulhei na escuridão dos meus pensamentos, embalado pelo movimento da carroça.

Notei que se abria um portão, grande, e pelo cheiro notava-se que estávamos numa exploração agrícola. Quando me retiraram o capuz já estava dentro de uma sala. Demorei um certo tempo a habituar-me à luz. Uma grande lareira aquecia o ambiente, viam-se alguns homens em mesas dispersas, uns conversavam, outros limpavam armas, poucos pareceram notar a nossa chegada, ou assim o fizeram entender. Atiraram-nos toalhas para as mãos e whisky para as goelas. No que parecia ser a expressão máxima de hospitalidade por aquelas bandas. Pouco tempo tivemos para confraternizações, pois fomos imediatamente levados à presença do chefe das operações.

Um indivíduo soturno, gordo e completamente careca recebeu-nos. Fumava um charuto e vestia fato completo que, embora de corte inglês, ficava-lhe algo apertado. Não fosse a pala a tapar um dos olhos, dir-se-ia estarmos na presença de um banqueiro.

“Que é que me trazes Carlos?”, disse ignorando-me por completo.

“Este é o Sebastião…”

Olhou para mim fixamente e não pareceu satisfeito com o que viu: “Sim?”

“Bem. Este é o Sebastião…o nosso novo operacional, estava comigo em Vale de Mao, quando tratámos do outro…”

“Ah!…”, o olho mortiço adquiriu um brilho estranho. “Já lhe explicaste como as coisas se passam por aqui?”

“Mais ou menos…ainda agora chegámos.”

“Muito bem, que fique ao corrente quanto antes, quanto antes…”, e virando-se para mim: “Então? Disposto a lutar até à morte pelo advento do verdadeiro Marxismo?”

Não sabia o que dizer, precisava de tempo para organizar as minhas ideias e descobrir uma saída para a situação em que estava metido, por enquanto não via nada:”Sim, sim…”, disse vagamente.

“Não parece muito convencido Carlos, espero que não te enganes…para o teu próprio bem…” Pegou num livro que tinha em cima da secretária e ficou a olhar para ele pensativo, depois olhou para mim: “Conheces, pelo menos, os princípios básicos pelos quais batalhamos?”

“Sim, estou ao corrente…qualquer coisa sobre a luta de classes ser a origem do movimento da história…”

Fitou-me demoradamente, com o único olho de que dispunha, levantou-se, compôs o colete e o casaco e veio na nossa direcção. Em pé era bem maior, quase imponente. Reacendeu o charuto e tirou uma longa baforada: “Posso ver a tua mão?”

Pegou-me delicadamente na mão e pareceu estudá-la com atenção, virando-se para Carlos: “Eis a mão de um trabalhador ou será de escalador como tu Carlos? Olhemos com mais atenção aqui à luz da secretária.” Pousou-me a mão debaixo do candeeiro e parecia preparar-se para uma dissertação sobre as virtudes do trabalho manual, quando, de repente, senti um aperto no pulso, como uma garra, e uma dor lancinante invadiu-me.

Num movimento rápido e inesperado agarrara-me o pulso e espetara-me o charuto com toda a força nas costas da mão. Quase desmaiei de dor, instantaneamente fiquei com os olhos cheios de lágrimas e por momentos perdi a força nas pernas caindo de joelhos, só não aterrei directamente no chão porque a mão estava bem presa na secretária. O homem berrava transfigurado num demónio:

“E agora, filho-da-puta”, suava e carregava com mais força no charuto, insensível às minhas súplicas e berros, “ainda te apetece brincar com o Marxismo.” E continuou a berrar como que enlouquecido, “não percebes que matamos cabrões como tu, aqui. É aquilo que fazemos, matamos cães como tu, que gostam de brincar com coisas sérias e invocar coisas sagradas em vão.”

Largou-me a e caí no chão, agarrando a mão e contorcendo-me de dores.

“Ajuda-o a levantar-se Carlos e trata dele”, disse numa calma de aço e recompondo o fato.

“Trato dele como?”

“O que achas Carlos?”, disse reacendendo o charuto e voltando a sentar-se, “Trata-lhe da mão.”

Voltou a pegar no livro e sorrindo acrescentou: “Toma isto, lê como se fosse a Bíblia, de manha, à noite, sempre que tiveres um tempo livre, até que não te reste dúvidas que isto…que isto é que é a verdadeira Bíblia.” E entregou-me o pesado volume, que recolhi a custo.

Ao sair da sala, amparado por Carlos, olhei de relance para a capa. Era o famoso, ou infame, Capital.

Na próxima semana será publicado a décima sétima parte: Ben&Jerry. Obrigado. SM

Ilustração Vitor Baptista

Escalada 2084. XV Revelations.

Escalada 2084. XIV Álbion.

Escalada 2084. XIII Estranhas Entranhas.

Escalada 2084. XII Outubro Vermelho.

Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. X Aves Raras.

Escalada 2084. IX Eterno Repouso.

Escalada 2084. VIII Banho de Sangue.

Escalada 2084. VII Erros Meus.

Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução

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