Escalada 2084. XI Aristides.

Escalada 2084. XI Aristides. 

No capítulo anterior: A chave do enigma “Rosebud” parece estar com as Brigadas Marxistas Verdadeiras. Uma proposta/ultimato é oferecida a Sebastião no pombal secreto da União Columbófila Ocidente Vermelho.

“Que trazes aí?”

Estávamos presos dentro do Verme, num dos túneis, aparentemente uma avaria no sistema magnético central parara toda a circulação de comboios. A gaiola com o pombo acompanhava-me para todo o lado agora. Não me atrevia a deixá-la em lado nenhum. Um medo visceral apoderara-se de mim. Uma coisa era o chip e o controlo aparente ou imaginado, outra coisa era conhecer a sede da polícia secreta e estar cara a cara com eles. Transformar dúvidas em certezas nunca foi o melhor paliativo para um animal neurótico.

Ter uma vida controlada era uma questão que quase não se colocava quando se levava com um chip à nascença e não se conhecia outro mundo senão este. Na infância era-nos estendida uma mão invisível. Há falta de melhor, agarrávamo-la com força. Servia-nos de guia, tomava conta de nós, levando-nos ao colo e à tona no rio de solidão espessa a que chamávamos vida. Quando a idade, doença ou desvio fazia de nós uma areia na engrenagem, era simples, simplesmente a mesma mão empurrávamos para baixo, afogando-nos na lama para sempre. De criadores a criaturas dispensáveis. Existe sempre alguém que concebe um céu que é o inferno dos outros.

Ao sair da zona de conforto, em que a actividade cerebral não era muito diferente da de um Zombie, colocara-me numa posição insustentável entre dois muros, um institucional e, agora, outro terrorista. Como num torno, sentia esses muros a moverem-se e a prepararem-se para me esmagar.

Levantei discretamente o pano que cobria a gaiola: “ É um pombo.”

“Foda-se, para que queres isso?”

“Vou montar um pombal.”

Deixara-os sem palavras, olhavam para mim confusos e receosos ao mesmo tempo como se estivessem na presença de um louco perigoso: “’Tás a falar a sério?”

“Completamente, comprei este pombo, é um campeão?”, e levantei a gaiola para mostrar o bicho, mas este, infelizmente, mostrava um ar pouco competitivo.

“Não me parece que vás longe com esse…que hobby mais fatela.”

“Não é um hobby é um desporto…e dá para ganhar muito dinheirinho nas apostas.”

“Claro,vais ficar milionário, tu que vens de uma conhecida linhagem de criadores de pombos”, escarneceu Jaime.

“Está-te na massa do sangue”, continuou Carlos.

A risota era geral, o que acabava por servir os meus propósitos, lancei mais uma acha para a fogueira: “Também serve de animal de estimação…chamei-o Aristides.”

O Jaime virou-se para o pombo: “Aristides, o teu dono não bate bem da bola.”

“Podes sempre por uma trela no pombo e levá-lo a passear, ou a fazer xixi”, disse Carlos.

“Com uma trela andamos nós todos!”, rematei, fingindo-me exasperado.

“Uma trela?”, e Guilherme levou a mão ao pescoço como que a procurar algo.

“Ele refere-se ao chip, palerma”, rosnou Jaime.

“Eu sei estúpido…a ironia grossa nunca foi o teu forte…por outro lado, talvez se referisse à erosão da liberdade na sociedade pós-revolucionária, acompanhada de uma desumanização crescente que nos tornou marionetes do sistema.”

Olharam todos para ele atónitos.

“Obrigado por me interpretares de forma tão graciosa”, disse a sorrir.

“Não tens de quê. E digo mais. Isso na escalada pós-moderna é traduzidopela perda gradual da subjectividade, do carácter aleatório, da fé simples no outro e pela subserviência ao sistema pontual.”

O espanto era geral. Jaime estava boquiaberto. Tomás enrolava um charro nervoso. Carlos dava grandes passadas, inquieto, pois nunca punha em causa o sistema, que para ele era perfeito, aliás o mundo para ele começara com o nascimento de Marx e a própria escalada não era mais que uma extensão do materialismo Marxista.

“Não me olhem assim, também posso por tudo em causa se para aí estiver virado”, disse Guilherme pegando no charro que Tomás lhe passou, “só que é muito stressante.”

Carlos estava mais raivoso do que nunca: “Se o sistema de pontos e de rankings é assim tão perverso e odioso, porque é que a esmagadora maioria dos escaladores aderiu a ele?” E de dedo em riste acrescentou: “E com gosto?”

Eza é a grande guestão!”, disse Guilherme pelo nariz.

“Para a qual não há guesposta”, rematou Tomás no mesmo tom.

A questão ficou a pairar no ar, o ambiente claustrofóbico do comboio preso no túnel estava a passar a sua factura e a conversa estava a extremar-se.

Disparei quase num monólogo: “A deserção gradual do espírito crítico conjugado com o abandono dos valores tradicionais da escalada criaram, aos poucos, um vácuo, que foi naturalmente ocupado por rankings e sistemas de graduação e pontuação. Estes favorecem e potenciam a criação de uma estrutura competitiva, que aos pouco foi isolando os indivíduos no seu próprio ego.”

“Vai-te foder…”, disse Carlos.

“Tens toda a razão”, apoiou Guilherme.

“Isso não explica a adesão em massa dos escaladores”, disparou Carlos.

Continuei: “Este sistema é abraçado com fervor, mesmo pelos que são inicialmente contra, porque não existe força para nadar para fora da corrente. O escalador isolado e sem valores agarra-se à única coisa que parece fazer sentido: a lógica pesada dos números. Essa é uma lógica infinita e constitui a única estrutura que habita o vazio, o deserto dos valores. A barca da lógica recolhe o náufrago e leva-o cada vez para mais longe do espírito e como bilhete de entrada apenas exigiu lealdade, devoção, zero de autonomia e zero de emoções complexas, apenas reacções emocionais básicas e imediatas do género das usadas no antigo Facebook, sem necessidade de explicação ou argumentarão, aliás o vácuo não se explica.”

“Olhem vai andar!”, disse Guilherme. “ Segurem-se!”

Um solavanco e o verme disparou a toda a velocidade, pondo um ponto final às dissertações, como se o movimento do comboio fosse o próprio movimento da História.

Chegámos com atraso ao Muralha, onde a confusão já estava instalada. Uma amálgama de “agarrados” lutava por um espaço na parede. “Macacos” saltavam de presa em presa, com os pés no ar. “Técnicos” esmiuçavam bizarros movimentos, numa tentativa de camuflar a falta de força macaca. “Treiners” exercitavam-se cronometrando-se ao segundo. “Preguiçosos” jaziam languidamente em cima dos colchões como se estivessem num lupanar. “Indecisos” davam voltas ao muro, tocando em todas as presas, sem se decidirem por nenhuma via ou bloco, eram os chamados “vagabundos dos colchões”. “Desportivos” faziam de hamsters na parede, entupindo o trânsito vertical a toda a hora.

O dono-do-muro assistia a tudo, com um sorriso beatífico, no seu promontório envidraçado a que gostava de chamar sala de meditação.

Mal me viu a entrar com a gaiola desceu furioso: “Que é que trazes aí?”

“É um pombo…é o Aristides…”, e levantei a gaiola para que visse melhor.

Pareceu desconcertado por momentos, depois rapidamente retomou a compostura: “Leva já isso lá para fora, não são permitidos animais aqui!”

“ A sério?…pensei que era exactamente ao contrário…”

“Muito engraçado…leva já esse, esse…rato dos céus…esse monte de doenças daqui para fora!”

“É um pombo correio, idiota! São vacinados.”

“Até podia estar embalsamado, já lá fora!”, berrou vermelho de raiva, meneando a cabeça ao mesmo tempo e fazendo a trança que lhe pendia de lado parecer um chicote.

Não sabia o que fazer, não me podia separar do bicho. Saí para a rua e sentei-me no passeio encostado a uma parede. Tinha de tomar uma decisão, não podia adiar mais. Iria custar-me deixar este mundo e, por incrível que parecesse, também as pessoas que por reflexo ainda chamava de amigos. Pressentia que existia ainda algo, talvez escondido no tutano dos nossos ossos, um resto de humanidade que nenhuma ideologia ou sistema conseguira sugar, algo que em tempos se dizia fazer rodar o mundo.

Rasguei uma folha de papel do meu caderno e escrevi: “sim”. Dobrei-a e metia na cápsula presa à pata do pombo.

Fiquei ali sentado mais de uma hora com o pombo nas mãos, afagando-o, adiando a decisão eternamente. Depois, de repente, levantei-me e soltei-o, ficando a vê-lo a desaparecer no céu nocturno.

Quando o pessoal saiu, encontrou-me sentado encostado ao muro a fumar, com a gaiola vazia ao meu lado.

“O Aristides?”

“Soltei-o…para animais enjaulados bastamos nós…”

Na próxima semana será publicada a décima segunda parte: Outubro Vermelho. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

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