Escalada 2084. VI Shit Happens.

Escalada 2084 VI Shit Happens.

No capítulo anterior: Uma visita ao “Museu do Livro” avivou uma memória entorpecida, trazendo alguma luz sobre o significado de “Rosebud”. O duro e alienante dia a dia na fábrica de tofu não faz esmorecer a vontade de escalar dos nossos cidadãos-atletas, e no final do turno dirigiram-se ao “Muralha” para mais uma sessão de treino.

 

A multidão era enorme à porta do Muralha. Numa das paredes estava um poster gigante com uma foto de MG a escalar em solo integral à vista a via Corazón de Ensueño no Vale de Getu na China. Em baixo estavam depositados ramos de flores, rosas soltas e muitas, muitas Edelweisses transgénicas lilases. Alguém havia dito que era a flor preferida de MG e o boato rapidamente assumira proporções de avalanche floral. Muitas velas acesas, pequenos textos e cartas, desenhos de crianças e fotos diversas, no meio disto tudo jazia, bizarramente, um sutiã.

Os escaladores e não escaladores aproximavam-se, depositavam uma vela acesa e ficavam uns minutos em silêncio a olhar o cartaz. De seguida, afastavam-se para dar lugar aos muitos que ali se juntavam. No cartaz era possível ler, numa imitação de caligrafia manual: “Para os camaradas da República Popular Portuguesa, com muita, muita grip, M. Giant”. Pertencia à colecção particular do dono-do-muro, um filho da puta como havia poucos.

Um pouco à margem da confusão, encontrei o pessoal.

O Guilherme estava inconsolável: “Olha para aquilo, o tipo escalou à vista em solo integral uma via daquelas, e vem morrer a Vale de Mao. É incompreensível!”

Shit happens”, soltou Jaime.

“Estamos muito ingleses…É para impressionar alguma miúda que possa estar a ouvir?”, escarneceu Carlos.

“Não, a merda acontece mesmo. Nunca ouviste falar na Lei de Murphy?

Nisto aproxima-se Tomás, vindo de dentro do muro, onde era trabalhador-equipador.

“Como é…”, alguém disse. “ ‘Tá-se, foi a resposta.

“Vai dar para escalar?”

“Não sei ainda, o dono-do-muro, quer fazer um discurso e depois logo se vê.”

“ ‘Tamos fodidos!”

Quando a multidão já era significativa, finalmente apareceu o dono do Muralha. Vestia uma túnica árabe de linho branco que lhe dava pelos tornozelos e estava descalço. Rapara o cabelo recentemente só deixando uma longa trança, que lhe pendia de lado na cabeça como um cabo eléctrico solto. No peito aparecia uma Edelweiss lilás espetada, naquilo que parecia ser já um símbolo oficial de consternação pela morte de MG.

“Amigos, obrigado por terem vindo a esta singela homenagem que esta casa quis fazer à memória de MG. Giant não era só um escalador, era um símbolo, um paladino da humildade e um campeão da bondade. Lembro-me, como se fosse hoje, quando aqui esteve, a alegria de criança com que escalava, a forma como se integrou como se fosse apenas mais um de nós. O seu aperto de mão forte e o seu olhar franco ficarão para sempre ma minha memória…”

Enquanto o discurso continuava, afastamo-nos um pouco mais para podermos conversar. O Guilherme já enrolava um.

“Parece que interditaram Vale de Mao por tempo indeterminado”, disse Tomás.

“Sim, já está aqui.” Murmurou Jaime que estava absorto no dispositivo.

“Merda! Logo agora que tinha os movimentos da Divina Clemência todos trabalhadinhos e ia começar a dar pegues para encadear!”, exclamou Guilherme parando de enrolar.

“Encadear de chapa em chapa, queres tu dizer…”, observou Jaime com um leve esgar de escárnio e sem se dignar a levantar os olhos do dispositivo.

“Tem de se começar por algum lado…”, continuou Guilherme procurando o isqueiro, “para mim o que importa é estar a escalar numa via de 500 pontos”, e acendeu o charro amuado.

 “Bom…estive a ver aqui as nossas opções”, disse Jaime levantando os olhos do aparelho, “e  que tal se formos fazer bloco para a Pedra da Foice?”.

“Ui! Nem pensar, é granito, não tenho pele”, uivou Carlos enquanto se contraía todo quase involuntariamente.

“Podíamos ir…é bom variar um bocado, podemos trabalhar um pouco de força pura”, disse Tomás.

“Mas eu não estou inscrito no ranking de Bloco, não vou lá fazer nada”, respondeu-lhe Guilherme.

“A alternativa é ir para as vias desportivas perto do Centro de Actividades Paranormais de Valongo”, disse Jaime pegando no charro que já rodava.

“Pedra da Foice!”, disseram quase todos a uma só voz.

O discurso do dono-do-muro continuava, “…ainda me lembro dos seus olhos brilhantes quando lhe oferecemos um conjunto de presas novas para montar uma via aqui no muro. Via que ainda hoje é uma referência de dureza e beleza para todos os frequentadores do Muralha. Amigos, não tenho mais palavras e os meus olhos estão secos de tanto chorar a partida do nosso farol, por isso convido-vos a entrar para fazerem, em jeito de homenagem, aquilo que MG mais gostava: escalar.”

“Até que enfim!”

“Estava a ver que nunca mais se calava.”

O Muralha era um belo antro. Era um muro à moda antiga, se exceptuarmos a ausência de magnésio, que já não se usava para aí há vinte anos, quando as Simpatectomias se tornaram operações baratas e se disseminaram devido a uma nova técnica de cirurgia não invasiva. Cinco minutos em ambulatório e dizíamos adeus ao suor nas mãos. Durante uns anos ainda se viram nas falésias o gesto ridículo de ir com as mãos às costas e soprar nos dedos em seguida. Tinha ficado como um reflexo de um amputado. Mas até isso o tempo levou.

Era uma selva. Em hora de ponta, era difícil arranjar um lugar para escalar. Valia tudo. Quedas fora dos colchões, patadas nos queixos, pés torcidos, olhos negros e luxações eram o prato do dia. Uma hora e meia de sangue suor e lágrimas à qual era preciso sobreviver para voltar no dia seguinte.

Era já tarde e escuro quando saímos.

“Não vos mete nojo treinar naquelas presas?”, disse Guilherme, “milhares de mãos passam por elas, são um ninho de bactérias e fungos.”

“Não sejas hipocondríaco. Além do mais o Tomás disse que fumigam tudo depois do muro ser fechado, é de tal forma forte o produto que usam que se alguém lá fica esquecido no meio dos colchões já não acorda no dia seguinte.”

“Isso sim…seria treinar à morte…”, disse Jaime abocanhando um cachorro sintético que tinha trazido na mochila.

Ao chegarmos à estação havia um anúncio novo nos outdoors electrónicos. Em letras garrafais lia-se: “L. Giant Canta Amália”. Em baixo LG aparecia toda de negro com um grande vestido de cauda à frente de umas cortinas vermelhas de veludo, com o símbolo da Comissão, de olhos fechados e a apertar uma mão na outra numa pose de grande sofrimento e consternação, ladeada por uma dupla de guitarristas de cada lado.

“Quem é a Amália?”, perguntou Guilherme.

“É a prima do Eusébio”, explodiu Jaime, quase vomitando o cachorro.

“As antigas lontras do Oceanário?”

“Sim, se tu quiseres…pode ser isso…”

“Onde é o concerto?”, interrompi eu.

“Parece que é no velhinho Estádio do Dragão…”

 

Na próxima semana será publicada a sétima parte. Erros Meus . Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução

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