Escalada 2084. V O Império do Eu.

Escalada 2084. V O Império do Eu.

No capítulo anterior: a morte de MG, estrela número um da escalada mundial, interrompeu abruptamente o dia de escalada em Vale de Mao. A falésia foi interdita pela polícia secreta e “Rosebud”, a misteriosa “última palavra” de M. Giant, adensa o mistério que parece envolver as circunstâncias pouco “naturais” do acidente.

O edifício era cinzento e atarracado, com apenas trinta e quatro andares. Por cima do pórtico principal de acesso tinha escrito, em letras garrafais, as palavras:

TOFU BROTHERS

E, mais abaixo o famoso slogan:

Alimentamos Todo Mundo

Sempre que lia aquele slogan soava-me a brasileiro, era ridículo. A mania dos criativos publicitários brasileiros devia ser intemporal. Eram sete da manhã e os trabalhadores já se aglomeravam para passarem no pórtico. Formávamos um grupo bizarro, já todos estávamos com os fatos brancos de trabalho e todos éramos carecas, mulheres incluídas, o que para além de bizarro conferia ao grupo um ar tétrico. Rapar o cabelo era obrigatório. Uma questão de higiéne. Mais de cinco mil pessoas trabalhavam por turnos naquela que era a maior fábrica de produção de tofu da URPE1. Os complexos estratificados verticais de cinquenta andares produziam grão de soja, no meio ficava a fábrica do aglutinante Cloreto de Cálcio, um sítio fétido e fumegante, que limitava barbaramente a esperança de vida de quem ali trabalhava, mas como pagavam a dobrar era muito concorrido, com listas enormes de espera por um lugar, poder-se-ia dizer quer era uma espécie de suicídio bem pago. No centro ficava o edifício principal administrativo e ao lado o hangar gigantesco com as linhas de embalagem onde eu trabalhava.

Esperava-me um turno de dez horas, nove dias seguidos, o décimo dia seria de descanso, o dia em que, como cidadãos-atletas, podíamos aproveitar para escalar. Para os outros era opcional parar. A maioria não o fazia e só folgava no fim do ano, na paragem geral, as chamadas festas da revolução, que duravam cinco dias, conseguindo assim amealhar mais uns cobres. O conceito de fim-de-semana havia desaparecido em 2040. A propósito disso existia até um famoso livro: “Cem Anos de Boa Vida. A história do fim-de-semana na Europa”, que mais não era que um virulento manifesto anticlerical encomendado pela própria Comissão. O novo calendário, o CRE2, foi a machadada final em dois mil anos de tradição judaico-cristã e, de certa forma, o símbolo do fim de uma civilização e o início de uma nova era. Os Franceses já o haviam tentado no séc. XVIII, mas não durara mais do que treze anos. Talvez nos tenha faltado um Napoleão que impusesse um travão. Em vez de Napoleões, saíram-nos na rifa cinzentos arautos da produtividade com as mãos sujas de números, que aos poucos impuserem as suas verdades, até a um ponto em que essas verdades confluíram numa única de carácter dogmático.

Deus tinha desaparecido para sempre, ninguém sabia onde se tinha metido. Por uns tempos a velha cartilha Marxista parecia funcionar como substituto, mas o capitalismo desenfreado associado ao sistema dito “a duas mãos”, importado da China, lentamente provocaram a erosão de qualquer cartilha ideológica que garantisse a coesão social. No fim restava o dinheiro e o indivíduo sozinho. O Império do Eu. Sem religião ou doutrina e com a marijuana legalizada e distribuída pelo próprio estado, o ópio havia-se transformado, numa bizarra distorção do aforismo Marxista, literalmente na religião do povo.

“Sebastião!”, uma voz nas minhas costas faz-me acordar para a realidade. Era Carlos que trabalhava comigo na linha de embalagem. “Ei…”, respondi.

“Não consegui, pregar olho”, bocejou.

“Nem eu, a imagem do gajo estatelado no chão não me sai da cabeça.”

Carlos continuou a abrir a boca como um hipopótamo e dando mais um passo na compacta procissão em direcção ao pórtico, acrescentou: “Logo vão organizar uma vigília no Muralha.”

“Merda! Não faltava mais nada! já nem treinar em paz vamos conseguir.”

“O pessoal está consternado, sabes como é, o MG era muito grande na escalada”, disse enquanto passava atrás de mim pelo pórtico de acesso à fábrica.

No interior do hangar gigantesco já se ouviam os primeiros acordes das Variações Goldeberg de Bach. Pesquisas recentes associavam a música de Bach a um aumento de produtividade nas linhas de montagem, tal como em tempos se punham as grávidas a ouvir Mozart para os filhos saírem inteligentes.

A meio da manhã parávamos para um break, mas não era para café. Saíamos todos para o grande pátio, entre os edifícios principais, para dez minutos de ginástica espiritual, o que era um eufemismo para rezar o mantra da Comissão. O sistema sonoro era ligado e uma voz começava ritmada: “ É preciso dizer Mao”, e mil carecas respondiam, “Em vez de dizer Deus”, “É preciso dizer Todo”, e nós, “Em vez de dizer Um”, por aí fora. Assim, era rezado o mantra que era suposto deixar-nos em transe e renovar a nossa energia para o trabalho. Todas as manhãs tentava fintar aquilo para não enlouquecer, a voz dizia “É preciso…”, e eu pensava “…dizer rosa”. Os meus companheiros diziam “ Em vez de dizer Deus”, e eu “Em vez de dizer ideia”, e continuava para mim mesmo “ É preciso dizer azul em vez de dizer Pantera/É preciso dizer febre em vez de dizer inocência…” Eles tinham Mao, eu tinha Cesariny, eles a ginástica, eu o Exercício Espiritual.

Mais umas horas na linha de embalagens, passadas a custo, e depois chegou a meia-hora do almoço. A cantina parecia feita apenas de dois materiais: azulejos brancos e aço inox. Tudo banhado por uma luz florescente branca e ofuscante. Tanto podia ser uma cantina, como um antigo matadouro. O barulho era ensurdecedor. Sentei-me a um canto perto da janela e não tardaram a aparecer os suspeitos do costume.

“Merda! Tofu outra vez!”, queixou-se Guilherme, juntando-se à mesa.

“Ao menos sabemos de onde vem e como é feito”, disse Carlos, soltando uma sonora gargalhada, enquanto pousava o seu tabuleiro na nossa mesa.

“Não aguento mais Tofu Com Natas, podiam ter feito À Gomes Sá ou Com Broa.”Continuou Guilherme a lamúria.

“Com broa no forninho, como fazia a tua mãezinha, não é?”, interrompeu Jaime, abocanhando um naco com tal sofreguidão que as natas lhe ficaram a escorrer pelo queixo abaixo.

“Não fales da minha mãe, cabrão!”

“Porquê? Se nunca a conheceste. Toda a gente sabe que és filho de um óvulo incógnito!”, e desatou a rir ainda com a boca cheia de tofu.

“Filho da puta!”, Guilherme atirou-se sobre ele de um salto, passando por cima da mesa. Num segundo rebolavam pelo chão e no segundo a seguir o tofu começou a voar por todo o lado. A batalha de tofu rapidamente deu lugar a pancadaria geral. O verdadeiro exercício para libertar tensão tinha começado. Durante cinco minutos nada aconteceu, era sempre assim, deixavam rolar um bocado. Depois soou o alarme e a polícia da fábrica entrou a distribuir porrada com os bastões eléctricos. Meia dúzia de bastonadas eram o suficiente para acalmar os ânimos e ordeiramente voltava tudo aos seus lugares, a chafurdar no tofu, prontos, como nunca, para o turno da tarde.

Saí uma hora antes de o turno acabar. Como cidadãos-atletas temos direito a uma hora de redução no horário normal de trabalho para treinar. Mesmo assim, nove horas na linha de embalagem não deixavam muita energia de reserva. O Carlos saiu comigo e encontrámos o Guilherme e o Jaime no pórtico da fábrica, já a enrolarem um. Aparentemente estavam já reconciliados, mas nunca se sabia quando desatariam à pancada outra vez.

Dirigimo-nos para o subsolo e apanhamos o verme, como era conhecido na gíria o Comboio Tubular Articulado de Deslocação Rápida, que de comboio tinha pouco, pois não se deslocava sobre carris. Mais uma invenção chinesa.

 “Vou só passar na Biblioteca e já lá vou ter com vocês ao Muralha.”

“Biblioteca?”, disse Guilherme, “Queres dizer o Museu do Livro, não?”

“Sim, é isso.”

“Não te atrases, já sabes que é importante dar entrada no pórtico do treino sempre a horinhas”, disse Carlos, agarrando-se bem para não cair numa curva mais apertada.

“Ok, Ok… com certeza senhor. Não me atrasarei.” Entretanto o verme parava na estação do Museu, “ Bom…é aqui. Vou sair, até já.”

Aquela palavra, “Rosebud”, não me saía da cabeça e era isso que na realidade me tirava o sono. Não me era estranha, mas não me conseguia recordar de onde a conhecia. Começava a acreditar nos estudos que diziam que a memória humana havia diminuído. Desde a hegemonia do Google no início do século e a disseminação massiva de aparelhos móveis de acesso à net, colocando a informação imediatamente acessível em qualquer lugar e a qualquer hora, que se estabelecera uma gigantesca memória virtual de acesso mais rápido e preciso que a nossa própria cabeça. Estudos indicaram uma diminuição na capacidade de memorização do cérebro devido à falta de uso. Ninguém quis saber.

Tudo era digital, os livros em papel deixaram de existir. Tudo era virtual e de acesso instantâneo, uma Biblioteca de Alexandria em cada dispositivo. Depois veio a Revolução em 2040, o Google foi nacionalizado na URPE, os acessos severamente restringidos, conteúdos apagados, a informação limitada ao que a Comissão considerava essencial. Propaganda foi sendo misturada com informação, numa sopa de enganos a que gradualmente passaram a chamar História. Os motores de busca tornaram-se uma sombra do que foram, mas era tarde de mais para a nossa memória. Éramos indivíduos sem passado e sem futuro, escravos do presente.

O Museu do Livro ficava num gigantesco edíficio-armazém bafiento, com cerca de vinte andares, e dizia-se que tinha um exemplar de todos os livros jamais impressos e só ali se podia consultar o acervo digital na sua totalidade. Pelo menos era o que se dizia, porque na realidade a informação era disponibilizada em níveis estratificados, conforme as credenciais de cada chip. Não sabia bem o que procurar, por isso percorri um pouco ao acaso algumas salas, até que dei com uma exposição sobre livros e posters de Cinema da primeira metade do Séc. XX. Muitos posters e livros, principalmente de cinema realista soviético. Deixei-me envolver um pouco e dei por mim a olhar fixamente um cartaz daquele que era anunciado como um brilhante filme sobre os malefícios do capitalismo, o Citizen Kane. Um livro sobre o filme atraiu a minha atenção, na capa estava um trenó e nele estava escrita a palavra “Rosebud”… “É isso!”, exclamo estupidamente em voz alta. Olhei em volta, mas ninguém parecia ter prestado atenção, já sabia de onde me recordava daquela palavra.

Rosebud era o trenó do Citizen Kane? Estava cada vez mais confuso.

Ainda num estado de perplexidade, apanhei o verme para O Muralha. Da parte de fora do muro de escalada, perto do pórtico de acesso, já se via um grande aglomerado de gente.

A vigília tinha começado…

1 URPE, União das Republicas Populares da Eurásia, um estado gigante que incluía todos os antigos países da antiga CE, excepto a Inglaterra e ainda os antigos países do Bloco Soviético; um mar vermelho de Lisboa a Vladivostok.

2 CRE, Calendário Revolucionário da Eurásia. Calendário de base solar, centrado no número dez, criado em 2040. O ano civil começava no Equinócio de Outono, mês em que se festejavam as festas da Revolução e durava doze meses de trinta dias exactos, com três semanas de dez dias.

 

Na próxima semana será publicada a sexta parte: Shit Happens. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. IV Rosebud.

Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução

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8 Responses to Escalada 2084. V O Império do Eu.

  1. Pedro Rodrigues diz:

    O costume… bom. Boa ilustração.

  2. nuno diz:

    Parabéns pelo remake, muito bom texto e ilustrações.
    Seguir 2084 deve ser parecido com ter lido o 1984 nos anos 50.
    Em alguns casos até é melhor que o original, o rescrever da história é muito mais verosímil em 2084 que na versão original. Passar a vida a imprimir novas revistas e livros e queimar todas as antigas não era muito credível mas na era digital já parece possível!

  3. VBaptista diz:

    No que diz respeito ás ilustrações obrigado! Tenho mt a agradecer ao Sérgio Martins pela troca de ideias e pelo convite para ser o ilustrador do seu fantastico Drama futurista. Parabéns Sérgio por nos proporcionares momentos como este, que nos fazem sair da realidade? e viajar pelo futuro da escalada e da humanidade. Esperamos ansiosos pelos novos capitulos.

  4. Chibo diz:

    Excelente! Leitura viciante e cativadora. Contudo, qualquer semelhança com uma futura realidade é assustador! Algumas das ideias provavelmente irão ser verdades (a diminuição da memória em virtude da disponibilização imediata já o é!).
    Parabéns

  5. nortebouldering diz:

    Obrigado, principalmente por lerem.
    Baptista, eu é que agradeço a colaboração.
    Nuno, interessante a ideia de remak, não foi essa a intenção original, embora o título seja uma referencia directa ao livro e, por exemplo, o começo deste capitulo seja o começo do Admirável Mundo Novo, outro marco neste género. São mais homenagens e inspiração, que também fui buscar ao Metropolis de Fritz Lang, um dos melhores filmes alguma vez feitos sobre distopias.
    E, a propósito de memória, Chibo, já não me lembrava do verdadeiro nome de George Orwell, que o Pedro subtilmente lembrou, e ao pegar no livro a propósito do comentário do Nuno lá estava essa referencia ao pseudónimo, um livro que a seu tempo me marcou e onde aprendi a valorizar o conceito de liberdade, que muitas vezes damos como garantida, mesmo no mundo actual, mas que lentamente todos os dias sofre uma erosão subtil e consentida.

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