Escalada 2084. III Le Plaisir.

Escalada 2084. III Le Plaisir

 

Pardon, podem vocês emprestar-me o dispositif, la batterie do meu est mort”. Mal tinha chegado, MG ignorou a multidão de aduladores e dirigiu-se directamente para o nosso grupo, talvez por estarmos todos com os dispositivos na mão.

“Qu’é q’o caralho quer?”, disse Jaime.

“Chiu!, o gajo percebe português”, disse Guilherme, já todo sorrisinhos. “Com certeza Senhor Giant, aqui tem o meu”, e estendeu-lhe o aparelho quase fazendo uma reverência.

Cet appareil não prestar, não é chinês”, disse MG, enquanto se formava um estranho esgar na sua cara que o desfigurava.

Guilherme empalideceu e balbuciou horrorizado: “Mas…”

Non, non, não posso usar isto”, e afastou-se com enfado à procura de algum esbirro solícito que tivesse um aparelho à mão.

“Olha-me este caralho!”, disse Jaime furioso.

Guilherme estava inconsolável e afastou-se para que não lhe víssemos as lágrimas. Queríamos começar a escalar, mas a presença de MG era asfixiante, decidimos então seguir a manada para o ver a escalar um pouco.

MG trazia um segurador privado e profissional, não havia no mundo mais de uma dezena deles. Para a escalada desportiva eram escolhidos baixos e pesados como se fossem cepos, para o bloco já se queriam altos e entroncados. Dizia-se que davam corda como ninguém, com uma suavidade de veludo. Também tratavam dos pés de gato e de carregar todo o material, uma exclusividade que só estava ao alcance de alguns.

Começou a aquecer e, talvez por ser uma via de aquecimento e portanto sem pontos, escalava de forma displicente, “flirtando” com as câmaras dos héli-drones. Nisto um esganiçado grito lancinante corta o silêncio sepulcral que tinha caído sobre a falésia: “Putainnnnn!

Ça glisse, putain….”, MG estava pendurado na ponta da corda e praguejava  em francês, como estava na moda. Tinha escorregado e olhava furioso para os pés de gato novos a estrear. Num acesso de fúria tira um pé de gato e atira-o à cabeça do segurador que, impávido, não se mexeu aguardando instruções, ” Putainnn, descend moi, je veus une autre paire de chaussons.

“Estou cansado deste circo, vou bazar para outro sector. Que escarro!”, e Jaime afastou-se juntando às palavras o acto.

“Espera, vou contigo”, disse o Tomás, dando um salto para se desviar da cuspidela.

Nós continuámos a assistir, queríamos ver mais, pois a seguir viria a primeira tentativa à vista para mil pontos.

Já mais calmo MG, começou a mostrar porque era o líder do ranking, escalava suave e ritmado cruzando os cruxs de forma decidida e repousando nos puxadores, quando os havia, executando um pranayama perfeito. Neste estado chegou ao que parecia ser a secção chave:  sete monodedos de primeira falange seguidos numa parede lisa. Pareceu hesitar com qual mão começar, depois atacou decidido, gritando a cada blocagem. Sete gritos depois, estava já na secção que parecia fácil e por fim chegou à reunião, cujo sensor de peso mal foi carregado activou e homologou o encadeamento através do chip. O funcionamento era simples e eficaz, cada ponto–ancoragem, ao longo da via, tinha um sensor de peso ligado à reunião e o encadeamento só era válido se o único sensor activado fosse a própria reunião. Clipada a reunião, MG brada ao vento o seu grito de triunfo característico que tantas vezes tinha-mos visto em imagens, mas nunca ao vivo:”Mille points à vue quel plaisirrrr!

A multidão aplaudia ainda enquanto nos afastávamos em direcção ao sector onde já estavam o Jaime e o Tomás.

“Então que tal”, disse o Tomás, enquanto apertava os pés de gato.

“Foi limpinho”, disse o Guilherme, “como limpar o cu a meninos”

“Não sei se foi, o gajo já estava bem pump”, disse Carlos, enquanto começava a aquecer os dedos, o que nele significava estalá-los todos um a um.

“Não parecia”, voltou a insistir Guilherme.

“Estava, estava… isto não é como dantes”, disse eu.

“Quem me dera escalar nesses tempos no início do século, ter uma força astronómica e não produzir acido láctico”, disse Tomás, enquanto se preparava para subir a primeira via do dia.

O chamado Escândalo Ondra tinha explodido em 2020, quando descobriram que os principais atletas-escaladores usavam XT345E uma enzima que inibia a formação de acido láctico e que activada em conjunto com um derivado de testosterona pura, dotava o organismo de uma força explosiva, acabando com a “pump” ao mesmo tempo.

“Dizem que ainda produzem XT345E algures em Inglaterra…”, disse Tomás, mais interessado na conversa do que em começar a escalar.

“Esses Ingleses, filhos da mãe, hão-de pagar bem duro, não quiseram fazer parte da União das Repúblicas… sempre do contra, uns rebeldes indisciplinados…”, disse Carlos raivosamente.

“Bem não interessa, mal metêssemos isso o chip detectava logo e seríamos expulsos do ranking.

“Dizem que tirava a tesão…aquilo…”, disse Tomás, que entretanto se sentara e desistira definitivamente de escalar.

“Sim, ficavas a falar fininho”, disse Jaime.

“E para que querias a tesão quando podias escalar este mundo e o outro”, disse Guilherme com os olhos a brilhar.

“De qualquer maneira continua a não haver gajas a escalar, quando entrámos vi a lista do pessoal que já estava na falésia e não estava uma gaja sequer…”, disse Jaime

“Nem pretos”, disse Tomás.

Olharam todos para ele de forma estranha…

“É verdade, nunca se percebeu porque não há pretos a escalar.”

“Também não há índios, e ninguém se preocupa com isso, nunca se viram índios a escalar ou esquimós”, disse Jaime.

“O Ron Kauck era Índio”, disse Guilherme

“Não”, corrigi. “Tinha a mania que era Índio ou tinha uma costela de Índio.”

“Foi muito bonito o funeral Índio que lhe fizeram em Yosemite”.

“E ilegal”, disse Carlos.

“Na altura não eram ilegais os funerais étnicos. Palerma!”, voltei a corrigir.

“ Não sei porque te irritas tanto. A incineração é de longe o melhor sistema, higiénico, amigo do ambiente e não ocupa espaço, uma solução muito eficaz.”

“Sim. Sempre deram razão àqueles gajos que se vestiam de preto e estendiam a mão para fazer uma saudação…”

“Quem? Quem?”, perguntaram Tomás e Guilherme ao mesmo tempo.

“Não vale a pena…”

Jaime estava divertido e resolve instruir os putos: “Nazis, caralho!”

“Ah…nazis…pois…eles queimavam os seus mortos? Era isso?”, voltaram a insistir.

“Não vale mesmo a pena, vamos mas é escalar”, disse resignado, enquanto ao longe se começam a ouvir gritos, primeiro imperceptíveis, depois cada vez mais altos até que conseguimos perceber o que diziam, “Acidente! Houve um acidente!”.

“Foda-se! assim nunca mais escalamos”, disse Jaime.

 

Na próxima semana será publicada a quarta parte: Rosebud. Obrigado. SM

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. I Chipados.

NBFolhetim. Escalada 2084. Um Drama Futurista. Introdução

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2 Responses to Escalada 2084. III Le Plaisir.

  1. Rui Rosado diz:

    Em verdade o Ron Kauk até tem uma costela lusa, uma avó dele era açoriana (true storie).
    Equipa Nortebouldering bom 2013, com votos de continuação de bom trabalho neste vosso blog.

    • nortebouldering diz:

      Cá está, quase um caso de tripla nacionalidade como MG… Norte Americano, Luso e Indio por afinidade.
      Obrigado pela info e um Excelente 2013.

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