Escalada 2084. II A Sombra de M. Giant.

Escalada 2084. II A Sombra de M Giant.

Mal chegámos, não tardámos a descobrir a causa da corrida histérica. Grande alvoroço na falésia, parecia o fim do mundo Maia de 2012. M. Giant, o famosíssimo escalador Sino-Luso-Francês era esperado a todo o momento ali em Vale de Mao, sempre me suou esquisito este nome, três vezes campeão Olímpico de absolutos, líder incontestado do ranking mundial nos últimos cinco anos, casado com a super-diva  L. Giant, figura sempre presente na propaganda da Comissão, e por fim o último dos últimos luxos: possuía viatura própria.

“Será que a L. vem também?”, perguntou, já em alvoroço, Guilherme.

“Quem é essa”, disse Tomás enquanto abria a mochila.

“Vai-te foder,’ tás a inventar.”

“Não sei quem é a sério”, continuou enquanto começava já a retirar o material.

“Já se sabe que não é fino seguir net-novelas”, disse Guilherme assumindo uma posição muito hirta e séria, como se fosse um mordomo.

“Ela não aparece em net-novelas, burro, é fadista”, interrompeu secamente Carlos.

“Não percebo como pode ser tão famosa, sendo fadista”, disse Tomás.

“Desde que cantou num estádio de Pequim e pôs trezentos mil chineses a chorar sem perceberem patavina do que dizia, que ficou famosa.”

“Chamar fado ao que ela faz é um atentado, é uma puta de uma algaraviada melosa e esganiçada, mas as pessoas choram por tudo e por nada”, interveio abruptamente Jaime.

“Dizem que é da poluição”, disse Carlos, “em Pequim não se vê o Sol há 20 anos.”

“Se calhar foi por causa disso a choradeira, e não uma catarse colectiva provocada pela voz maviosa que cantava os tormentos históricos da República Popular Portuguesa, como nos vendeu a propaganda da Comissão.” Acrescentei sorrateiramente.

“Não ouvia tamanha heresia desde que o Saramago ganhou o caralho do prémio Nobel no início do século e diziam que era por os tradutores usarem pontuação…”, disse Jaime enquanto se abanava como uma folha de papel, algo que fazia sempre que ria com gosto.

“O Nobel já não existe, não te esqueças, agora é o Prémio Marx”, corrigiu Carlos.

“O Saramago teria ganho vários desses e….anos seguidos”, continuou Jaime sem conseguir controlar as gargalhadas.

“A auto-estima nunca foi a nossa melhor característica como povo”, rematou Carlos e afastou-se enfadado.

“Bom, o M. Giant é meio Tuga”, disse Guilherme, que parecia saber tudo sobre M. Giant.

“É uma história curiosa essa da tripla nacionalidade”, disse eu.

“Um óvulo chinês, comprado por uma mulher portuguesa, que usou um dador de esperma francês”, disse com satisfação Guilherme enquanto enrolava  e acendia mais um charro, “o melhor do melhor, não admira que seja um campeão”.

Guilherme passou-me o charro e declinei, não conseguia fumar aquela erva industrial que a Comissão distribuía. Tudo tinha começado no Colorado no ano 2012 e depois foi como um rastilho que se espalhou pelo mundo, marijuana legalizada, para fins recreativos diziam. Durante uns anos foi uma festa, até que proibiram a produção caseira e a Philip Morris começou a comercializar industrialmente em cigarros já feitos, depois a Comissão nacionalizou as plantações e passou a distribuir aos seus amados cidadãos a famigerada A64 híbrida, que tinha atingido neste ano níveis de consumo equivalentes ao tabaco e era, segundo os mais paranóicos, mais uma forma de a Comissão controlar as pessoas.

Decidimos começar a escalar, afinal era isso que nos tinha trazido ali. Cada um sacou do seu dispositivo, e ficou imerso no ecrã, in the zone como se dizia. Vimos quem estava na falésia, a respectiva situação no ranking. A comissão fornecia toda a espécie de tabelas que eram actualizadas ao segundo, os escaladores apareciam nas respectivas categorias de peso, que eram as principais, mas era possível fazer todas a espécie de tabelas, por idades, por grupos etários, tudo e mais alguma coisa.

“Onde é que nós estamos”, perguntou Guilherme expelindo uma baforada.

“Bem no meio da tabela”, resmungou Tomás, “bom, o Jaime está um pouco mais acima.”

Vimos as vias que estavam disponíveis, no momento, e as que estavam fechadas para manutenção, as que tinham mudado de graduação, as chamadas “variáveis” que iam sendo reconstruídas e eram usadas para escalar à vista exclusivamente.

“Olha, a Assalto Divino, já não existe, agora chama-se Divina Comédia e desceu 100 pontos”, disse Guilherme, enquanto percorria a lista das vias disponíveis para fazer à vista.

“Gostava de conhecer o filho da puta do engraçadinho que se lembra desses trocadilhos”, disse Jaime, que tendo já escolhido as suas vias para o dia se tinha sentado a fumar.

“Já ninguém inventa nomes, é um programa que os cria”, disse.

“Tens a certeza?”

“Sim, só isso explica nomes como máquina do tempo, máquina do vento, máquina a vapor, máquina de lavar, máquina de secar, máquina de soldar…”

“Iá…man…o sector máquina…é demais”, disse Guilherme, nasaladamente, enquanto expelia o fumo.

“Iá… a Comissão fez muito bem em banir as asneiras e o calão dos nome das vias, Vale de Mao não podia ter nomes que envergonhassem a memória do grande líder”, disse Carlos, que entretanto estava de volta.

“Ouvi dizer que em tempos houve nomes de vias como A Histérica e o Vibrador “, disse Tomás.

“Histéricas e vibradores ainda existem com fartura”, disse Jaime.

“Foram-se os nomes e ficaram os vibradores”, disse Guilherme, a rir.

“Não sei se será uma troca justa”, disse eu.

“É o que temos, pode-se dizer que vivemos tempos fodidos….”, disse Jaime sempre a rir.

Isto acabou por quebrar a tensão latente que sempre se formava quando nos preparávamos para escalar e o dia começava a querer correr bem. Nisto, estala a confusão, aproximaram-se três heli-drones e começaram a rondar a falésia como mosquitos gigantes.

“Já chegou a equipa de filmagens”. Os escaladores começaram a aglomerar-se junto ao acesso de entrada, a excitação estava ao rubro, os “locais” estavam em histeria, os equipadores-retocadores profissionais faziam um ultimo check às vias e aos sistemas.

“Aí esta ele…”

 

Na próxima semana será publicada a terceira parte: Le Plaisir. Obrigado.

Ilustração: Vitor Baptista

Escalada 2084. I Chipados.

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