Ainda o Rosa Negra

Subitamente dei-me conta que tinham passado 11 anos desde a abertura deste, talvez o mais famoso, bloco da Pedra do Urso. Foi curioso ver escaladores a provarem-no pela primeira vez, e constatar que o poder magnético da linha estava lá, esbatido para os olhos cansados de uns, com um brilho ofuscante para outros, ao ponto de se produzirem frases do género: “Era bom poder leva-lo para o quintal lá de casa.”

Uma linha viva, que Américo “Meco” Santos descreve como um “Bloco de continuidade” num texto da revista Montanha nº 6 de Dezembro de 2002 em que se conta a génese desta linha e que vale a pena reproduzir agora que a Pedra do Urso é mais popular do que nunca.

“Depois de uma noite bem regada e bem esfumada pelo toucinho numa festa de aniversário que me deixou em estado de vigília na alugada Casas dos Poços, pertença da família do escritor Alçada Baptista, quando, repentinamente e sem ter pregado olho noite inteira, vejo os pés do Sérgito a descerem do seu beliche. Finalmente alguém tinha acordado após a folia e com reboliço informei-o que o Sol já estava à vista. Fiz questão de arrancar da cama os nossos outros dois colegas de quarto e obriguei-os a despacharem-se. Comemos e fomos escalar. Depois de uma breve passagem pelo sector da Pedra do Urso, estávamos diante da bela Rosa Negra, nós e outros como nós, que a repetiram no dia e em outros dias. Na altura ainda era projecto, cujo nome havia sido dado pelo Francisco Ataíde em honra de uma mancha florestal que recobre uma pequena parte da serra. Quando este teve a ousadia e a mestria de limpar todas as suas presas e de acudir a um inicio numa laje-puxador, que alcançamos deitados no solo, perfazemos, com a saída, uma linha com cerca de 9 movimentos. Tenho a certeza de já me ter pendurado neste bloco antes da sua limpeza total, mas era-me inconcebível sair e, por mais que quisesse, nunca imaginara que existissem presas desde a lasca até ao puxador que alcançamos após os primeiros 4 movimentos, continuamente duros sobre régletes pequenas, praticamente em tecto. Daí para diante é passar uma barriga extraprumada e bastante redonda sobre régletes e áplates, cotada em V4. Há algum tempo que vinha sendo assediada e, naquele dia, já o deveria ter sido. Mantinha o seu aspecto rude e imponente. Porém, nessa manhã de Setembro, o sol brilhava-me atrás dos óculos. Não sei, devia ser da bordoada de Grants que apanhara na noite anterior. Sem nunca ter resolvido a saída deste problema e, já quase sóbrio, visualizei os movimentos mais uma vez. Pus magnésio nas mãos, agarrei-me á lasca semi-solta onde o problema começa e fui-me “agrafando”, fria e suavemente, a cada presa até poder repousar: pôr novamente magnésio e repensar: “Não podes falhar!” Momentos mais tarde erguia-me de pé sobre a majestosa e estava minimamente satisfeito.

Parece-me que quase sonhei com este bloco! Minutos depois apareceu o resto da malta e o José Abreu, que depressa se encarregou de fazer a primeira repetição.”

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One Response to Ainda o Rosa Negra

  1. Pantufa diz:

    Só não sabe quem nunca lá passou.
    Na serra tudo é bom. não regressar é inconcebivel, para cada bloco existe uma história, mais mítica do que real porque é assim que se criam as lendas.

    Muito obrigado, á Serra, e a quem a ama.

    Até já

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