Escalada e Olimpismo

Agora que assentou a poeira olímpica de Londres 2012 e que acabou o Campeonato do Mundo da Escalada, uma competição gigantesca, com uma assistência in situ de 16 000 espectadores pagantes, que muitos viram como a antecâmara do sonho olímpico, e antes de alegremente reduzir este assunto a um click em forma de like na página do FB que faz lobbying para a escalada olímpica em 2020, convêm esmiuçar, mas só um pouco, o que são os Jogos Olímpicos da era moderna e quais as possíveis implicações para a escalada em juntar-se ao curling e demais desportos que constituem o Olimpo das modalidades desportivas.

Este é um tema muito abrangente que abarca muitos temas “quentes” na escalada actual, todos relacionados com o crescimento, massificação e profissionalização. Adequadamente, e numa linda metáfora, poder-se-ia dizer que todos estes temas convergem para o Monte Olimpo. O Olimpismo na escalada parece exercer um fascínio irresistível especialmente desde que começaram as competições, sempre se ouviu dizer, para o ano é que é ou, neste caso, daqui a quatro anos é que é, e quem o dizia nem sequer eram sócios do Sporting. Parece que agora é que é, mais uma vez. Soube-se que a escalada está numa short-list para 2020 acompanhada de desportos edificantes como o baseball, karate, roller sports, softball, squash, wakeboarding e wushu, e aparentemente dentro de um ano, será tomada a decisão final de qual será o escolhido, eu voto pelo Wushu, não espera, o softball também parece interessante, por outro lado o meu filho mais velho está agora a aprender a andar de patins em linha, e parece ter jeito, por isso não posso descartar a possibilidade de ele vir a ser campeão olímpico em 2020, sim, patins em linha parece ser a decisão acertada.

Jogos Olímpicos como Feira dos Horrores. Existe um texto, pequeníssimo, uma crónica mais precisamente, de Vasco Pulido Valente chamada A Feira dos Horrores que recomendo vivamente como instrução sobre o tema do Olimpismo. Frases como: “O desporto olímpico é um sacrifício humano aos valores mais sórdidos e perversos do mundo contemporâneo. “ constituem um texto duro e sem ilusões e por isso talvez incomodativo que é rematado da seguinte forma: “É uma demonstração ritual de que a barbárie existe.” Nem mais. Para nós escaladores tem ainda uma passagem que pode muito bem servir de epitáfio aos que reduzem a escalada a uma perseguição numérica:  ” as ginastas e as nadadoras, os corredores e os halterofilistas não pensaram em coisa alguma, excepto nos dez pontos  ou dez segundos, ou dez quilos, em que a vida para eles se converteu. Nada de mais brutal e mutilante. (…) Que horror se, de facto, tudo acabou por ser aquele vácuo. ”

Definido assim o tema de base, o que nos arrasta para este suposto inferno, quando a escalada prospera tranquilamente nas verdes pastagens das montanhas e das arribas marinhas.

A infantilização. Esta é uma tendência que tem vindo a acentuar-se nos últimos anos, tendo chegado agora a uma espécie de momento de viragem com as performances de Ashima Shiraishi. Numa espécie de salto para o futuro podemos imaginar a escalada dominada por pequenas raparigas pré-púberes de 30 kg, um pouco á imagem da ginástica desportiva, treinadas e seleccionadas desde que aprendem a andar. Este exemplo pelo absurdo não está assim tão longe e nem sequer é original.

Até agora estes pequenos prodígios têm-se centrado em repetições de problemas ou vias, quando começarem a estabelecer os standards, isto é fazer coisas que mais ninguém consiga repetir, a escalada terá mudado para sempre.

Embora seja um ponto onde nada se pode fazer, não se pode simplesmente proibir as criancinhas de escalar ou proibir quem as amestra de as transformar em pequenos monstros roubando-lhes, de passagem, a infância. Eu pessoalmente prefiro um desporto adulto onde as pessoas que o praticam e lideram são emocionalmente desenvolvidas e capazes de tomar decisões por si próprias sem o apoio de treinadores/tutores,  sustentado num conceito de liberdade pessoal que pode ser levada ao limite de um solo integral por exemplo.

Este será um ponto que o Olimpismo irá certamente acentuar, enfatizar e ampliar, para o bem e para o mal.

Doping. Não será preciso acrescentar nada ao binómio Jogos Olímpicos/doping ou doping/desporto profissional. O doping na escalada é um assunto pouco discutido, uma espécie de jogo de sombras que está presente quase desde o inicio das competições, de vês em quando acusações sibilinas de escaladores franceses vinham à tona sobre o alegado uso de esteroides por atletas de Leste onde supostamente o seu uso seria mais fácil, barato e não controlado. Mas não se passava disso.

Especulações à parte, que não fiquem dúvidas que o uso de esteroides ou outras drogas tem um impacto muito grande nas performances físicas de um indivíduo, permitindo recuperações mais curtas, maior carga de trabalho, etc, etc, logo na escalada não será diferente.

Atenção, que isto não é uma generalização de que todos os atletas profissionais e olímpicos se dopam, mas supor o contrário ou simplesmente acreditar que estão possuídos do espírito da tocha olímpica é simplesmente demasiado ingénuo.

É legitimo pressupor que o Olimpismo aproximará a escalada do doping.

Olimpismo e escalada de aventura. Sobre este tema John Long deu uma entrevista que considero quase definitiva sobre o assunto, por isso não vale a pena estar aqui a repetir os seus argumentos. Ele termina mais ou menos assim: “a escalada de aventura não é um desporto de espectadores…é um desporto apenas para participantes.” Curiosamente estamos a falar de um segmento da escalada que já foi medalhado no anos 20/30 do século passado.

Que modalidade? Aqui e para muita pena dos escaladores de corda, vários apontam a competição de bloco como a mais indicada, e aparentemente tem tudo a seu favor, mais rápida, mais perceptível, mais espectacular. Provavelmente será uma decisão política dentro da própria ISCF onde o peso de cada modalidade jogará um papel primordial. Ou estarão mesmo previstas as três modalidades, não faço ideia. Mas seria risível se ao fim de tanto tempo e discussão fosse a velocidade  a representar a escalagem, uma hipótese que aparentemente não está descartada, e esse sim seria mais um prego no caixão no entendimento que o grande público tem da actividade.

A herança cultural da escalada. O que vem a ser isto e qual o seu significado nos dias de hoje? E até que ponto interessa preservar os valores intrínsecos da escalada.

Sobre esta temática um certo Jean Pierre Banville publicou no site Kairn.com um artigo inflamadíssimo, quase exortando os grandes heróis românticos da escalada e alpinismo a levantarem-se ou erguerem-se da tumba e apagarem o facho Olímpico de um único sopro. É um bom texto, e uma enorme defesa de uma coisa que muita gente pensa não existir, ou nunca descobriu, nesta actividade: uma alma.

A escalada foi fundada em conceitos profundos de liberdade pessoal, onde a autodeterminação do indivíduo associado a um carácter fortemente emocional subjacente à presença de risco, a atirou sempre para as franjas da sociedade. Os “conquistadores do inútil” erguiam-se, e erguem-se, para as estrelas deixando para baixo a ralé  ou rebanho agarrado aos vis valores terrenos. Esta faculdade de fabricar Heróis e grandes epopeias que elevam para além da condição humana é talvez o maior capital deixado pelas anteriores gerações, que seria criminoso desbaratar.

Neste ponto o Olimpismo parece um caminho para longe de todos estes valores.

Mas afinal o que trarão os Jogos Olímpicos de bom? Mais dinheiro, mais patrocinadores, mais pessoas dispostas a puxar no plástico, logo mais ginásios e muros de escalada, mais emprego na área da escalada e não somente no segmento dos atletas profissionais. Uma melhor percepção do público do que é a escalada. Tudo, digamos assim, coisas “sujas  e vis” quando comparadas com os valores etéreos discutidos atrás. Mas um homem tem de viver, e a crise está aí à porta, a barriga manda a perna, etc., logo apresenta-se uma excelente conjuntura para meter os valores no saco e estender a mão ao “ouro” Olímpico.

Para quem gosta de escalar em rocha num meio natural, muitas vezes extraordinário, mesmo em Portugal, o Olimpismo não trará nada de novo, será um circo que chega de quatro em quatro anos e rapidamente passa sem se dar por isso, tão rapidamente, tão rapidamente,  que este texto está já a ficar fora de prazo. SM

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7 Responses to Escalada e Olimpismo

  1. rui abreu diz:

    muito bom! obrigado

  2. FCS diz:

    A escalada nos JO?… Não me choca por aí além. Porque não é a escalada é a competição em paredes de plástico. Uma vez que essa caixa de Pandora foi aberta, acho natural e até positivo, “that’s entertainment”. Perder a alma, sacrificar valores?… Esse segmento sempre teve pouca e os valores sempre foram outros. Quanto ao VPV e à sua boa e cínica escrita de sofá, para quem provavelmente do esforço de um desporto apenas conhece o peso de um livro numa mão e a dificuldade de ao mesmo tempo segurar o copo de Whisky na outra, percebo o seu ponto de vista. Mas nos JO, como em tudo o resto, coexiste com a feira dos horrores alguma grandeza humana. O resultado geral pode ser de lama e ainda assim, lá pelo meio haver alma, poucachinha, mas por vezes edificante.
    abc

    • nortebouldering diz:

      Claro que sim, claro que sim, ele apenas usa a técnica de colocar todo o peso possível num argumento até o transformar numa bomba, factor que eu exacerbei ao citar frases soltas. E claro que o argumento numérico e qualificativo é especialmente duro quando aplicado à escalada. E muitas vezes na Feira dos Horrores estão os maiores exemplos de grandeza humana, o Homem Elefante por exemplo era uma presença assídua na Feira dos Horrores, o paraíso não é desta terra mas o inferno esse pode bem ser. Boa defesa dos JO’s.

  3. topas diz:

    O texto está Genial!!
    Os valores e os ideais do Olimpísmo Moderno estão completamente distorcidos das suas origens e a culpa é da valorização da vitória, custe o que custar, sem olhar aos meios para as atingir.
    Se por um lado ficava contente por ver a escalada reconhecida nos Jogos, por outro tenho algum receio, do que isso possa vir a gerar no futuro, especialmente a nível competitivo.
    Mas não será este o preço da evolução? Infelizmente tem sido.
    Poucos valorizam o como, quando e o porquê valorizando, única e exclusivamente, a performance!
    Arrisco-me a dizer que os grande atletas que vemos hoje ( Phellps, Bolt, etc) são, sem dúvida, exímios atletas potenciados pelo que de melhor se produz em laboratório (muito à frente dos laboratórios da Associação Mundial de Anti-Dopagem)…

  4. José Abreu diz:

    Babugempismo

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