Dai e a História dos Dois Mundos

[vimeo https://vimeo.com/43727285 w=700&h=393]

Se Dai Koyamada fosse um objecto seria o nosso escalador fetiche. Haviam de fazer dele um bonequinho coleccionável, tipo star-wars, para colocarmos em cenários imaginários de bloco nas posições mais bizarras e mesmo assim seria impossível imitar o original. Só que Dai é tudo menos um boneco, como prova o seu comportamento ético irrepreensível de fazer corar muitos incautos.

O que para muitos seria um mero detalhe, começar um bloco uma presa mais à frente, e uma cruz, soft convenhamos, certeira na caderneta online, para ele transformou-se num épico, obrigando-se a dar meia volta ao mundo, repetir o bloco e melhora-lo, no sentido em que fez mais do que o que estava feito. Melhorar o que existe e está feito é o caminho da ética. Os escaladores são naturalmente livres de escalarem como entenderem um problema estabelecido, agora não podem reclamar uma ascensão e muitos mais publicamente, seja com um vídeo ou anotação online, se não cumprirem os preceitos éticos mínimos. Por isso esta história é exemplar, e exemplar é o escalador que associa o mais alto nível com uma ética equiparada.

Esta ascensão provocou algum sururu virtual, pelo grau fim de tabela V16, pela bizarra entrada, etc. Não vale a pena escrever muito sobre essas discussões, mas quem quiser ver o pior da net, pode ver aqui, quem quiser aprender algo, e todos precisamos sempre de aprender, pode ver aqui.

O ambiente intimista da entrada, a alternância cromática, a serenidade faz com que se destaque da corrente normal de vídeos de bloco e pareça um óvni no ambiente mediático, um óvni pesado claro está, devido ao grau e ao bloco que é.

O que este vídeo em particular explora, e bem, é o inferno particular que significa o trabalho necessário para a realização de um bloco no limite das capacidades. Como Jonas e a Baleia, Dai é engolido pelo bloco em si e este mantém-no prisioneiro, não três dias mas dois anos, o aprisionamento e descida aos infernos do “trabalho”, as dúvidas, a ansiedade, os altos e baixos, só obtêm apaziguamento com o encadeamento, ou novo nascimento. Livre da obsessão o vazio instala-se para ser prontamente preenchido por novos projectos. Não será por acaso que outra grande linha deste escalador chama-se Wheel of Life. SM

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5 Responses to Dai e a História dos Dois Mundos

  1. SD diz:

    É no mínimo inspirador!
    Ontem ao ver este espantoso vídeo lembrei-me muitas vezes das vossas palavras publicadas num outro post sobre este fantástico escalador.
    Na realidade este vídeo absorve-nos por completo, pessoalmente não é fácil sentir isto por um vídeo de bloco.

  2. Ana Duarte diz:

    Fabuloso!

  3. MC diz:

    “Koyamada não vai em grupos” 😉

  4. Pedro Rodrigues diz:

    A palavra ética tem uma etimologia grega e significa aquilo que pertence ao caracter. Há na vida pessoas que se destacam, mais que pelos seus feitos, pelos seus princípios e pelo seu carácter. E esses são os que são verdadeiramente respeitados.

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