Jogadores NB. A Força Tranquila. Uma Entrevista com José Abreu. Parte 2.

 

Três países diferentes, experiências muito diferentes e completas no mundo da escalada… para além do pequeno paraíso que perspectivavas mais é que te deu olhar para isto “de fora”? Por onde começavas a mudar as coisas, se pudesses, ou deixavas tudo como está, isto é, um pequeno canto pouco massificado mas com pequenos paraísos para os “conhecedores esclarecidos”.

Não mudava nada ou muito pouco, temos a nossa identidade e as coisas vão-se fazendo à medida que vão aparecendo as pessoas.

Muito bem, e por falar em pequenos paraísos, é notória a tua predilecção por Corno de Bico, o que é que aquilo tem de especial para ti?

Corno de Bico impressiona sobretudo pela relação qualidade/blocos duros, dá-se duas voltas e encontra-se um oitavo de qualidade. Acima de tudo foi sem duvida uma revolução, surgiu numa época em que os projectos escasseavam ao Júlio, e ele teve a intuição para descobrir esse paraíso.

Sim, o timing com que ele descobriu Corno de Bico foi incrível, intuição é algo que não se vê muito associado ao Júlio, mas o seu  “faro” para encontrar bloco duros é lendário. Essa intuição ganha-se ou achas que é inata da pessoa, até que pontos os factores inatos são importantes ou és da opinião que o escalador se pode fazer a ele próprio?

Nesse caso em particular aliado à intuição natural ele via blocos que mais ninguém via, derivado ao seu nível. As aptidões com que nascemos são importantes mas tudo se pode trabalhar, podes não ser o melhor do mundo mas consegues fazer as tuas coisas com alguma dedicação, por outro lado uma pessoa que nasce com todas as aptidões não quer dizer que as rentabilize ao máximo.

A figura do Júlio é incontornável quando se fala de Bloco, qual foi a sua influência para ti?

Ensinou-me o que é o bloco a “sério”, paciência, perseverança e metodologia para trabalhar um verdadeiro projecto, alem do verdadeiro espírito de sacrifício no treino, para além de carregar aos ombros durante muitos anos com a evolução pois fez as primeiras ascensões nacionais de V10 a V14, quando nem imaginávamos o que era um “double-digit”.

É verdade. De rajada, 3 blocos de Corno de Bico que vão ficar para a posteridade?

Tobogã, Dragão azul e o Enigma a Máquina.

Estiveste há pouco tempo em Fontainebleau. Quais as diferenças que denotas desde a última viagem e até que ponto é que a tua experiência e maturidade no bloco mudou?

A primeira vez que lá estive foi à 8 anos, se não estou em erro, nessa altura não tinha qualquer noção do que era o bloco e de como trabalhar um bloco, atirava-me a tudo como se estivesse no muro e tivesse resistência infinita. Desta vez conseguia analisar os blocos antes de os ensaiar, repousava como deve ser e tinha bastante mais paciência.

 Pois… é a maturidade a chegar…

Também…

De um ponto de vista individual, o que é que descobriste de diferente que te permitiu evoluir ou seguir outro caminho na tua trajectória de escalador, especialmente em França onde as coisas estão bem mais avançadas por exemplo ao nível do treino de escalada?

Treinar com escaladores que fazem habitualmente o circuito Mundial e que têm um nível bastantes superior ao meu, permitiu-me ver os objectivos mais atingíveis, em termos de métodos não varia assim tanto, é muito trabalho e muitas horas de treino por detrás. No que noto diferença é no facto de ter um bom muro de corda que é uma experiência nova e interessante.

Já sabemos que muros de corda gigantes não existem por aqui, de bloco vai existindo qualquer coisa, o que falta mais para escaladores nacionais começarem a dar cartas nas comp’s internacionais, é tudo uma questão de nível?

Sobretudo nível e um pouco de experiência.

 Elabora o que é nível para ti?

No caso das competições de bloco, nível de forca física, em termos técnicos não existe assim tanta diferença.

Isso da força física espanta um pouco, dá-me um exemplo prático?

Capacidade para aguentar uma presa pequena acima do ombro, nas compressões ter força corporal para aguentar com o corpo estático. Em competição fica sempre a duvida se utilizas o método correcto, mas no muro onde costumo treinar realizou-se há pouco tempo uma prova do circuito Francês de Bloco, deixaram alguns blocos da eliminatória em formato contest e nos blocos duros as presas ficavam simplesmente longe demais…

Já te vi com um livrinho da Desnivel, salvo erro o planificação do treino do David Maciá,  bem amarrotado e gasto…e sei que gostas de treinar duro e planificado…até que ponto a planificação é fundamental, para competição e também para rocha?

Sim, sim é mesmo esse o livro. Os resultados do treino planificado são inequívocos para melhorar as tuas performances, para competição se queres levar a coisa de uma forma minimamente séria, é mesmo essencial. Para escalar em rocha, e se tens somente o fim-de-semana, tens de por numa balança, de um lado passares um bom bocado com os amigos a fazer uns blocos ou estar concentrado e agarrado a um cronómetro depois de um dia de trabalho.

Pode haver sempre um equilíbrio, não?

Sim, pode-se fazer um período planificado que coincida com períodos que não se pode escalar tanto em rocha e depois treinar somente para manutenção mais relaxado.

Muito bem Sr. treinador, e qual poderá ser o caminho para um escalador jovem português que aspire a participar de forma competitiva nos circuitos internacionais? Sem ser emigrar.

Primeiro, obviamente motivação para tal, depois estar na disposição de passar bastantes horas a treinar, e por fim meios monetário para poder fazer pelo menos as provas Europeias.

Não és estranho ao trabalho pesado, sempre equipaste, escovaste blocos, muitas vezes de moto serra e marreta às costas, e na Maia tens muito trabalho pesado na montagem do Muro. Esse carregar com as coisas às costas, muitas vezes sozinho, é devido a estares na linha da frente e sentires que se não puxares a carruagem mais ninguém puxa ou também é importante dar aos outros, especialmente num desporto egoísta como a escalada?

Apesar de ser um desporto individual, não considero que seja um desporto egoísta. Não podes estar a espera que as coisas se façam sozinhas, as vezes é preciso ter espírito de iniciativa, se podes deixar algo que possa ser aproveitado, como o equipamento de vias por exemplo, mais gratificante se torna.

Quando te voltamos a ver por aqui?

De visita para a competição da Maia.

Então…Até já…

Uma entrevista por Sérgio Martins. Fotos: Parte 1: Oldemiro Lima.  Parte 2: La Bombe Humaine assis, Bois Rond, Fontainebleau, Foto: Romana Braga.

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2 Responses to Jogadores NB. A Força Tranquila. Uma Entrevista com José Abreu. Parte 2.

  1. Pedro Rodrigues diz:

    Zé “Avec”, desta feita não há nevão que te detenha. Cá te esperamos.

  2. Sotnas diz:

    Muito bom Grande Zé! …És uma Inspiração 😉

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