O Caso Red Bolt e a Ética na Escalada

Aviso: este artigo é  longo e contem elementos que podem ferir as susceptibilidades de leitores que encarem a escalda de forma leve.
foto: http://www.wikipedia.org

A  grande controvérsia do ano, junta uma jovem estrela da escalada , uma temível e poderosa corporação  e uma das montanhas mais extremas, difíceis e controversas do planeta.

David Lama.

Tem apenas  20 anos, mas o percurso é já o de um veterano na escalada. Começou por brilhar nas competições e parece agora dedicar-se ao terreno de aventura. E, para começar em grande, partiu em Novembro de 2009 para a Patagónia para tentar fazer em livre nada mais nada menos que a Via do Compressor no Cerro Torre. Três meses depois, regressaram  a casa sem completar a ascensão, corridos pelo famoso mau tempo patagónico, deixando para trás 700 metros de corda fixa e 60 novos bolt’s adicionados à via.

Cerro Torre.

É uma agulha que pela sua forma não apresenta nenhuma fraqueza, isto é, no seu estado original não apresenta nenhuma via de fácil acesso, por isso sempre foi considerado uma espécie de  símbolo/ideal estético do alpinismo de dificuldade.

Em 1959 os alpinistas italianos Cesare Maestri e Toni Egger abordam a montanha  pela Face Este, em direcção ao “colo da esperança”, local – pelo lado Sul –  onde já havia estado o grande Bonnatti, numa tentativa prévia no ano anterior, declarando então a escalada até ao cogumelo de gelo como impossível – convêm notar que Walter Bonatti é considerado sem grande contestação o melhor alpinista da sua geração e talvez um dos melhores de sempre e, seria na altura, um grande rival para Maestri – . Egger viria a morrer, tragicamente,  na descida levando com ele a única máquina fotográfica da equipa e,  Maestri encontrado, gelado  a deambular no glaciar, reclamou a primeira ascensão da montanha, via o esporão NE. Inconsistências no seu relato associado ao futurismo da ascensão em estilo alpino de uma parede desta magnitude em pleno “mau tempo patagónico”, levarão muitos a contesta-lo, e de tal forma, que Maestri voltou  à montanha 11 anos depois  no intuito de  “calar” os seus críticos. Escalou então o esporão sudeste abrindo uma via directa, “spitada”  com mais de 400 protecções, usando para o efeito um compressor a gás de mais de 100 quilos – que deixaria depois  na montanha – , parando a 35 metros do cume, por forma a evitar o famoso cogumelo de gelo, proclamando que este não fazia parte da montanha. A polémica rapidamente estalou e, esta via ficaria para a posteridade como um ícone das vias “directíssimas” dando origem ao famoso ensaio de Reinhold Messner intitulado ” O Assassínio do Impossível“, onde este formula uma tese de total repúdio por estas  tácticas de traçar vias a fio de prumo e onde reafirma ” É tempo de pagarmos as nossas dívidas e procurar outra vez os limites do possível, porque temos de ter esses limites, se vamos usar a coragem como virtude para nos aproximarmos deles.”

Em 1974 uma equipa italiana de Lecco composta por Daniele Chiappa, Mario Conti, Casimiro Ferrari e Pino Negrseria escalaria  a face Oeste, que ficaria por repetir por muitos anos e em 2005 uma equipa liderada por Rolando Garibotti escalou o que seria a via original de 1959 encontrando somente traços da passagem de Maestri no primeiro terço da via, facto já referenciado na primeira ascensão de Jim Donini à torre Egger em 1976. A conclusão geral é que a primeira ascensão verdadeira do Cerro Torre foi em 1974 via a face Oeste, uma escalada em gelo de nível mundial, e que a ascensão de Maestri de 1959 é o maior logro da história do alpinismo, logro que viria a ser acentuado pela total aberração da via do compressor. Esta via viria a tornar-se, no entanto, a via mais popular na montanha permitindo múltiplas ascensões e levando Jim Donini a chama-la ironicamente ” a via ferrata mais dura do mundo”. Num mundo perfeito, o Cerro Torre seria provavelmente  a montanha mais difícil do planeta, uma distinção, que a juntar ao facto de ser uma das mais bonitas formaria  o ícone perfeito do alpinismo.

Novembro de 2009.

É este o terreno delicado que David Lama quer pisar, partindo para a montanha como um herdeiro eticamente esclarecido dos antigos mas imperfeitos heróis, como atestam as declarações feitas  numa entrevista antes de partir: ” Back in the days of old school mountaineering only conquering the peak was important – not so much how this goal was reached”. Acontece que Lama é patrocinado pela Red Bull e esta apostou forte na expedição, sendo montada uma expedição, quase autónoma, exclusivamente para filmar a ascensão apoiada em exclusivo por três  guias profissionais. Quando as equipas abandonaram o local, ao fim de três meses, deixaram para trás 700 metros de corda fixa e mais 60 novos spit’s na via, que o mau tempo e o perigo de avalanches impediram alegadamente de recuperar. Mais tarde a Red Bull contrataria guias locais para recuperar o material alegando que as fixações ficariam para uma posterior tentativa no próximo Verão austral.

A controvérsia.

Quando os factos vêm a lume rapidamente incendeiam a comunidade global da escalada, especialmente a de origem anglo-saxónica historicamente mais adversa às protecções fixas. Forçado a responder, Lama declara no seu site, no fim de Julho, que compreende a decisão dos guias, e nesse sentido a apoia, de instalar as protecções fixas como  forma de garantir a absoluta segurança da equipa de filmagem. E, reafirma a sua vontade de voltar à montanha para tentar a escalada em livre com uma equipa mais leve de produção, de forma a não serem necessários mais bolt’s , mesmo que isso signifique baixar a qualidade do projecto ou mesmo abandonar a sua produção.

Entretanto a própria Red Bull tornou-se um alvo em si na comunidade escaladora, ensaiando-se mesmo um ridículo boicote à bebida.

As implicações éticas.

No meio disto tudo foram atropeladas algumas das mais importante regras éticas da escalada.

O caso Maestri dessacraliza, de forma peremptória, a palavra do escalador como único testemunho necessário para confirmar uma ascensão, e foram necessários 50 anos para tal. Podendo permanecer como uma excepção à regra ou, simplesmente, acabar com a própria regra, que para muitos já não existe, ou não faz sentido, como vem afirmando Alex Huber tomando como paradigma  o caso Chilam Balam. Ou querendo outro exemplo do alpinismo: o caso Tomo Cesen no Lhotse.

Em minha opinião deverão permanecer como desvios à regra, talvez a mais importante de todas. Escalar sem necessidade de provar nada a ninguém afirma o carácter livre da própria escalada, que será a parte mais importante do património ético que herdamos dos nossos antecessores. Eu acredito na palavra do escalador, ou no sentido “x-files do termo”: Eu  quero acreditar.

Segunda regra não escrita: Tentar sempre melhorar o estilo da ascensão anterior, que leva à terceira regra: não adicionar protecções fixas a vias já existentes. Lama demarca-se desta polémica dizendo que a responsabilidade foi dos guias e da equipa de filmagem. Mas uma vez que se assume como um pro que tem de ser continuamente filmado e fotografado de forma a vender a sua imagem e a dos produtos que ostenta, não se pode demarcar das acções éticas da equipa de cobertura mediática, pois a sua acção tem impacto como um todo na montanha.

Existe a promessa que as protecções serão retiradas e os furos remendados, mesmo supondo que isso seja exequível, as cicatrizes ficarão para sempre e não serão só cicatrizes físicas.

Danos colaterais

A reacção desmesurada contra a Red Bull, mostra um certo atrito contra as grandes marcas ou corporações fora do contexto da montanha, como se a escalada fosse comida orgânica e as corporações fast food, o idealismo hippie colado ao munda da escalada e montanha tem destas coisas.

Muitos questionam-se se é aconselhável levar equipas pesadas de cobertura mediática para a montanha. Porque estamos perante uma cobertura mediática para o grande público, com meios pesados a sério e não uma equipa de dois ou três escaladores como é usual nas pequenas produtoras de vídeos de escalada. As grandes montanhas são ambientes extremos e sensíveis, levar equipas profissionais mas amadoras na escalada, pode dar muito mau resultado e já foi provado ser possível fazer trabalhos de qualidade com poucos meios inclusive no próprio Cerro Torre. 

Grandes marcas, meios audiovisuais pesados, grande público. Tudo isto são sinais de um crescimento inevitável e de certa forma incontrolável. Muitos desportos já passaram por aqui como o surf, por exemplo. Um meio maior e com mais dinheiro, não significa só mais escaladores pro’s, significa a afirmação de toda uma industria com ramificações imensas que pode tocar e beneficiar um numero muito alargado de pessoas  que escolham o munda da montanha ou escalada como forma e meio de vida.

No meio disto tudo, teme-se que a própria essência da escalada se perca. O que me parece exagerado. A essência da escalada mantêm-se compreendendo, aceitando e perpetuando as poucas regras éticas que a regem. Se isto acontecer, as grande marcas não serão um  bicho-papão e a expansão para um público mais alargado não será negativa em si.

O Cerro Torre já mereceria descanso, e ser apenas uma montanha extremamente difícil e feroz que só os mais audazes ou corajosos – no sentido de Messner- se atreveriam a enfrentar, mas isso seria ,como já disse, num mundo perfeito, neste mundo onde vivemos e temos de aceitar, remendar os danos colaterais da natureza humana é o que nos resta. Surgindo como única alternativa aprender com os erros, pois estes vão sempre existir e, como vimos, repetir-se. SM

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8 Responses to O Caso Red Bolt e a Ética na Escalada

  1. Flip diz:

    Boa revisão deste triste caso. O David enterrou-se bem na lama e mostrou o que vale a sua ética… Quando o que se faz depende se estão a olhar para nós a coisa deixa de me interessar.
    Abc

    • nortebouldering diz:

      “O David enterrou-se na Lama”, impossível sintetizar mais.
      A mediatização é um mal, ou um bem, necessário para quem tem ou aspira a uma carreira profissional. Será Lama um Fausto, vendendo a alma à industria mediática em troca dos prazeres da fama. Ou uma inocente vítima das circunstancias, embrulhado numa teia indesejada. O Cerro Torre como ícone também é um vórtice que engole os seus detractores. E Lama para já parece ter apenas garantido um lugar no panteão dos vilões.

  2. Paulo Roxo diz:

    Infelizmente já presenciei bastantes casos de “dependencia da fama”.

    Não só nas grandes montanhas, com mentiras declaradas sobre supostos cumes de forma a trazer algum “resultado” para justificar aos patrocinadores, como também na escalada. Inclusivamente fui testemunho directo de um “encadeamento” realizado por um famoso escalador espanhol que, numa determinada via, se agarrou literalmente a tudo quanto era expresse e que depois veio a divulgar a sua escalada como um grande encadeamento, tendo o seu “feito”, sido divulgado pela revista Desnivel. Sei disso, porque fui eu quem o assegurou nessa via. Nada disse porque estas coisas valem o que valem e não me apeteceu estragar uma amizade por um caso destes.

    Vivia em Benasque nessa altura. Por ali passavam a grande maioria dos “famosillos” Espanhóis e, de vez em quando lá saia à luz outra escalada realizada por algum patrocinado, cuja verdadeira historia não correspondia com o reportado. “E eu vi com os meus olhos um muito famoso escalador Basco a agarrar-se ás expresses de uma desportiva extrema e depois publicar que tinha encadeado a via”. Dizia-me uma escaladora Basca, uma certa vez.

    Nos Himalaias a historia repete-se, todos os anos nas vias normais das montanhas com 8000 metros. Existe SEMPRE alguém que mente ou omite sobre as suas realizações.

    A conclusão a que cheguei (já há algum tempo) é que, os ambientes extremos, sejam esses a dureza das montanhas, sejam as pressões dos media e patrocinadores, acentuam o que tens de melhor e o que tens de pior no teu carácter. Ou seja, se na tua natureza normal (dia a dia) és um tipo honesto e que se preocupa mais com a FORMA como atinges os objectivos do que com o objectivo em si, a tendência é dizer a verdade tal qual como aconteceu. Se normalmente és uma pessoa egoista então a tendência será mentir, porque o que de facto vai contar será alcançar o objectivo, a qualquer preço. Isto é norma mais ou menos comum no mundo da montanha, como no mundo da escalada.

    Os escaladores não somos diferentes nem superiores ao resto das pessoas. Simplesmente, é mais fácil despir a mascara inerente a todos nós, quando enfrentamos a adversidade. Seja numa montanha perigosa, seja numa escalada dificil.

    Paulo Roxo

    • nortebouldering diz:

      Bom ponto Roxo. A questão da mascara é premente e pode alargar-se às situações de guerra, por exemplo, onde esse factor é amplamente retratado. Felizmente nunca presenciei em flagrante uma fraude na escalada desportiva ou na montanha, bom no bloco acontecem com mais frequência mas são por questões de pormenor e muitas vezes por desconhecimento das próprias regras éticas. Será um começo sentado mal feito equivalente à mentira do Maestri?
      Se referes que nos Himalaias acontecem mentiras todos os anos e nas vias normais, só reforça a sensação que tinha que a maioria das vias normais são uma selva. Eu continuo a preferir acreditar, o sistema de ter de provar tudo parece-me muito pior.

  3. Pedro Rodrigues diz:

    O Lama é um puto de 20 anos que por muito que escale, não teve estofo nem capacidade para assumir a liderança do projecto. No fundo foi um menino, mal aconselhado.

    Eu percebo (e como o percebo…) que numa situação expedicionária as decisões que envolvem a ética são muito penosas. E até compreenderia que se tomassem decisões erradas com base nesse pressuposto. MAs uma coisa é uma decisão que se toma no local, onde tudo tem uma perspectiva diferente, outra é uma decisão de planeamento errada. O facto é que a colocação de spits foi certamente uma decisão tomada de antemão. Como é lógico, sendo ele um puto, deixou-se levar na maré e não teve a clarividência para antever o que vinha aí. Para mim nesta história há um misto de imaturidade com sacanice de terceiros, que agora deitam o puto às feras sozinho.

    Ainda assim deixo uma pergunta, se a produção sair para cá para fora, quantos de nós recusar-se-ão verdadeiramente a vê-la? E não vale dizer que é para poder ter uma opinião com conhecimento de causa.

    PS – E essa de achar que retirando o material fixo fica tudo na situação original… deixa muito a desejar.

    • nortebouldering diz:

      Essa questão do “consumo com consciência” é muito boa e hilariante é como o luxo de só consumir café proveniente de plantações onde os trabalhadores não são explorados.

      • crash pad dummy diz:

        Será que a “outra escalada” é sem impacto, ou o impacto desta já é aceitável? Humm… pois, tem menos, blá, blá…

        Traçar limites para aquilo que se pode ou não fazer leva sempre à mesma dúvida, quem é que define esses limites? O “pregador” diria que ninguém pode impor esses limites. Então porquê a polémica?

  4. Não é só no mundo da escalada que a Red Bull tem feito estragos. Desde que comecei a seguir este assunto, dei de caras com um forum de base jumpers que se queixavam que, com o intuito de gravar um salto em La Mousse, no Eiger, devastaram uma série de árvores para facilitar tanto o salto como a gravação. É claro que isto gerou polémica e alguma controvérsia no mundo do base jump. Deixo aqui os links e as fotos para quem quiser ver o “trabalho”.

    http://www.basejumper.com/cgi-bin/forum/gforum.cgi?do=post_attachment;postatt_id=85773;guest=8531350

    http://www.basejumper.com/cgi-bin/forum/gforum.cgi?do=post_attachment;postatt_id=85774;guest=8531350

    E o forum onde tudo isto: foi abordado http://www.basejumper.com/cgi-bin/forum/gforum.cgi?post=2914988

    Isto acaba por ser um pouco “abafado”. Esta demasiado dinheiro envolvido…E tanto nesta situação como a do David Lama os interesses comerciais vão estar sempre em primeiro lugar. É um dos pontos negativos da massificação de um desporto…

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