A Peneda

Durante muito tempo ir à Peneda, era sinónimo de ir escalar na fraga da Meadinha. Foi esse o nome que aprendemos, foi esse o nome que ficou.

De longe a melhor parede portuguesa, de longe a parede menos portuguesa. Como é que isto aconteceu? Porque é que isto aconteceu?

Existem várias razões.

Primeiro. Geografia. Os difíceis acessos, sempre foi muito mais fácil aceder desde a Galiza ou seja  pelo Norte do que pelo Sul. Durante muito tempo os acessos pelo Mezio eram feitos por um estradão de 25 Km, e os transportes públicos eram inexistentes ou inexequíveis.

Segundo. História. Escala-se há 40 anos na Peneda, e é preciso compreender o contexto da escalada em Portugal nessas quatro décadas. Nos anos setenta a escalada em Portugal era uma coisa difusa e centrada em algumas individualidades localizadas maioritariamente em Lisboa, ler a entrevista de Paulo Alves aqui para se compreender o contexto. Em Vigo, pelo contrario, uma forte geração de escaladores/alpinistas, liderada pelo malogrado por Santi Surarez, formava-se e encontrava na Peneda um terreno de jogo ideal. Entre meados dos anos setenta e meados dos oitenta foi a época de ouro da abertura das vias mais evidentes e clássicas, passando-se do artificial gradualmente para a escalada livre. Quando em 87 os irmãos Pedro e Francisco Pacheco chegam à Peneda só encontram espaço para aberturas de corte clássico  no extremo direito da parede, abrindo nessa altura 3 vias, que ficaram por ali meias esquecidas e com fama de muito sujas para se tentar uma escalada livre. Entretanto as gerações de escaladores renovaram-se ou revezaram-se e continua-se a abrir e a preservar os itinerários mais populares, no inicio dos anos noventa pontifica por ali  José Carlos Iglesias, escalador de rara sensibilidade, muito forte em fissuras e que imprimiu à zona um espírito de escalada livre “clean” que se traduzia simplificadamente por ” fissuras limpas e placas equipadas” e faziam da Peneda “o último reduto dos discípulos de Meyers”, (mais um reflexo da enorme influencia do livro de 1979 de Meyers “Yosemite Climber” na escalada espanhola). Por esta altura os nossos caminhos cruzaram-se na Peneda, e claro nós também quisemos ser “discípulos de Meyers” e a Peneda seria o trampolim de aprendizagem para outros voos. Os “highlights” da escalada livre eram a via do S, o tecto da Via Meadinha ou a placa Potencia 5.5. Os anos que se seguiram foram de algum abandono e no inicio de 2000 surge de novo um surto de actividade encabeçado por Jesús Martínez Novas que viria a culminar em 2008 com o total reequipamento e limpeza de todas as vias, ano em que voltaria a ser aberta uma via por escaladores portugueses, a Edelweiss de Paulo Roxo e Daniela Teixeira. Hoje existem na Peneda mais de 50 vias, sendo apenas 4 de abertura “tuga”.

Terceiro. Natureza da escalada. Escalada de autoprotecção e placas técnicas em cristais com protecções não muito próximas, pelo menos nas vias originais, formam um cocktail não muito popular.

Quarto. Off-widths. São raras as vias completas em que não se tem de enfrentar uma destas bestas. Para o escalador não iniciado é de longe um das técnicas mais difíceis de dominar e “gostar”.

Explicadas sumariamente as razões de a Meadinha também ser conhecida por parede dos espanhóis. Em que ponto se encontra a Peneda nos dias de hoje? Em 2008 realizaram um encontro para comemorar o fim dos trabalhos de limpeza e reequipamento um trabalho incrível e massivo de vários anos. E, apresentaram também o novo site  com todos os croquis com um detalhe impressionante. Neste interessante sítio podemos ainda encontrar documentação histórica digitalizada com velhos croquis e artigos de revistas de varias épocas. Este ano aparece também um blog .

Mas, na apresentação faltava algo. O site é impressionante e repleto de informação, a parede está limpa e equipada, existem placas em baixo com os croquis das vias. A Peneda apresenta-se ao mundo de uma forma nunca vista. E, continua a faltar algo: A escalada livre. Mais concretamente a história da escalada livre. As vias foram-se forçando em livre com o passar dos anos, mas não sabemos por quem e em que circunstancias foram feitas. Temos assim dois planos ou dimensões, uma, a das aberturas sempre com algum artificial imperando um espírito de “sair por cima”, que está muito bem documentado nos croquis. Depois, temos a dimensão da escalada livre onde apenas aparecem alguns graus. A escalada em livre numa parede destas merece e sobretudo custa muito mais do que uma simples quantificação numérica. Sem querer fazer comparações que pecariam pelo absurdo, basta olhar para a dimensão do “El Captain vias artificiais” e a dimensão “El Captain vias em livre”. Uma análise detalhada dos croquis revela uns graus velados escudados por pontos de interrogação, 7c+? 8b? 8c?, depois uma olhada para os largos mais duros encadeados revela 7b+ como a via mais dura. Muitas questões se colocam, Está tudo por fazer? O grau será ajustado? Será pura especulação?

O que motivou esta, longa de mais, dissertação, mas a Peneda é mesmo assim provoca excessos por natureza, é o encontro que se vai realizar este fim-de-semana onde, imagine-se, uma das actividades propostas é a libertação de quatro lagos de algumas das vais mais emblemáticas. Um despertar para a escalada livre, ou a sequência lógica dos “trabalhos” iniciados no inicio da década.

Bom, o que interessa é que existem páginas em branco na história da escalada livre na Peneda. As mais belas páginas na mais bela das paredes para quem quiser e poder escreve-las. SM

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6 Responses to A Peneda

  1. Paulo Roxo diz:

    Só tenho pena, que na “mais bela parede de escalada de Portugal”, se tenha chegado ao outro extremo que nunca deveria ter acontecido ali:
    – Equiparem fissuras perfeitas e acrescentarem uma série de parabolts onde não existiam (Primeiro largo da Autopista, Via Z, Via S, etc).
    – Picarem os nomes completos das vias na base das mesmas.

    Penso sinceramente que todo o trabalho e dedicação que tiveram na parede da Meadinha (que, de resto admiro e louvo), está manchado por esta grande “involução”.

    Parabéns pelo texto e por mais uma recuperação histórica.

    Paulo Roxo

    • nortebouldering diz:

      Concordo. Não vou à Peneda desde o encontro de 2008, altura em que penso não estarem “burilados” os nomes das vias, para mim uma completa aberração, pois sou contra qualquer espécie de marcações na rocha incluindo setas pintadas nos blocos.
      Se alguma vez fui “local” na Peneda foi no inicio dos anos 90 altura em que ajudamos a limpar e reequipar alguns largos com o referido José Carlos Iglésias, e escalávamos lá com alguma frequência. Assim, não sendo “local”, não me acho numa posição ética de criticar o “trabalho” feito, que parece pecar por excesso de zelo.
      A título de curiosidade, já anteriormente tinham sido feitas tentativas de equipar ou sobre- equipar fissuras, na via escaleras al cielo por exemplo. Os spits na altura não duraram muito, pois “os discípulos de Meyers” não permitiam tais veleidades. Mas entretanto os “discípulos” voaram do local. E, hoje a Peneda é uma coisa muito diferente, uma espécie de escola de escalada, mas continua a ser a Peneda.
      Claro que eu preferiria ter a parede limpa e só com as protecções originais reequipadas, mas não tendo contribuído em nada para o trabalho e sem ser frequentador assíduo, nada poderia fazer a não ser desejar o melhor e esperar que o bom senso imperasse.
      Uma delicada questão se coloca: O que seria melhor, ter a parede “abandonada” e cheia de entulho ou como está actualmente?SM

  2. Paulo Roxo diz:

    Peço desculpas pela insistência de tema mas, penso que o facto de não sermos assíduos não nos impede de emitir uma opinião sobre os assuntos. Até penso que se essa opinião for construtiva mesmo que critica, deve ser emitida para bem da evolução saudável das coisas.
    Vivemos num país mediocre onde as pessoas ainda têm receio de dizer o que lhes vai na alma. E, na escalada em particular, deveriamos discutir muito mais as coisas e emitir muito mais opiniões.
    Dito isto, queria apenas sublinhar mais uma vez que louvo o trabalho de recuperação das vias da Meadinha. E dou os meus parabéns aos seus autores.
    Mas, sinceramente (e falando no geral) creio que equipar fissuras e picar nomes não contribuem nada para a evolução da escalada, menos ainda em locais tão carismáticos como a Peneda.
    Trata-se apenas da minha opinião e desejo que esta seja entendida como uma critica construtiva e evidentemente discutível.
    Quanto à tua questão, e sem querer parecer presunçoso, se o preço da “limpeza” fôr equipamentos indiscriminados, então prefiro claramente a versão antiga da Meadinha. Mas, mais uma vez, falo por mim.
    Claro que as coisas têm a importância que lhes queremos dar. No fundo, cada um faz o que bem entender.

    Parabéns pelo blog e pelas recuperações históricas.

    Paulo Roxo

    • nortebouldering diz:

      Obrigado pelo feedback, e pela insistência.
      Claro que as opiniões devem ser emitidas. Claro que este estado de “escola de escalada” domada ou domesticada não agrada. Mas nada se pode fazer sem acção, e sem acção as vozes contraditórias serão apenas mais um eco na montanha. Pois basta uma pessoa como uma energia tremenda, focalizada e absolutamente convencida de que está certa para mudar tudo, principalmente num sítio “abandonado”, é como uma casa sem moradores que se ocupa, o ocupante faz do espaço a sua casa, quando o abandona pode ficar como estava ou ser uma coisa completamente diferente.
      Mas é uma questão muito complexa, dizer se está melhor ou pior.
      O que é uma parede ou uma montanha sem o homem, sem o seu ocupante ou invasor. Ao escalarmos damos uma espécie de contexto humano à parede ou à montanha, esta passa a fazer parte de nós, da nossa história e se fazemos algo de novo ou inédito passa a fazer parte da história humana da própria montanha. Modificamos, moldamos à nossa imagem, muitas vezes deuses outras demónios.
      Provavelmente será melhor esta espécie de ocupação mesmo que o preço a pagar sejam umas quantas aberrações, globalmente o saldo parece ser positivo.SM

  3. Emanuel diz:

    Olá pessoal, permitam-me somente fazer uma pequena correcção no que respeita ao numero de vias abertas nesta emblemática parede…
    Para os mais atentos e se a matemática não me falha, são 7 as vias documentadas, abertas por “tugas”:
    “Outsiders, Duelo ao Sol, Limpa Chaminés, Cálice do Porto, Via Norte, Edelweiss e Puerta Sur de los Dioses”

    Abraço
    Emanuel

    • nortebouldering diz:

      Referia-me a vias abertas de baixo acima, isto é completas. Sem querer tirar o mérito aos outros largos entretanto abertos. Mas fica a correcção, obrigado.

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