Maia 2010, o Rescaldo.

Um dos melhores escaladores em competição. Foto: Sérgio Duarte

Decorreu no último fim-de-semana aquilo a que se convencionou chamar segunda prova do Circuito de Boulder/ Fpme. Por ser um equipadores assisti à prova por dentro e por fora, e que extraordinária prova.

No Sábado tivemos os concorrentes séniores e juniores masculinos e femininos. Depois de um contest divertido e descontraído do qual saíram vencedores a Kimie Kon e o José Abreu, passamos às finais, primeiro as senhoras, onde a Kimie dominou devido a uma excelente actuação no bloco nº3, um tecto físico seguido de um diedro trickie mostrando estar à vontade nas duas situações. Depois, os juniores masculinos, nos mesmos problemas, mostraram muito power mas pouca técnica numa luta renhida, e passamos à final masculina.

Os concorrentes entram pela porta dos gladiadores e rapidamente se deparam com quatro feras difíceis de dominar. O resultado era mais do que incerto nessa altura. Começam a sair para o problema nº1, um tecto em aresta seguido de um diedro e um passo esticado para acabar. Os quatro primeiros não conseguem bonificar, colocando-lhes grandes dificuldades o movimento intermédio para chegar à presa de bonificação. Então, sai André Neres, começa bem, mas hesita no primeiro movimento do tecto, fica parado durante uns segundos, em presas realmente más, reformula a sequência liga o turbo e só pára no tope, está encadeado o primeiro bloco. A seguir entra José Abreu, escalador cem por cento CEM, cruza o tecto com grande à-vontade, hesita no diedro, calca um pé com convicção, e segue sem problemas para o tope. A partir deste momento a competição será jogada entre estes dois.

Problema número dois. Uma prancha a 45º, técnica e física exigindo power de dedos também. Um movimento de uma lateral para uma réglete em compressão, exige colocar uma ponteira extrema para conseguir blocar para um sistema de régletes, que levam a um passo de ombro que blocado a fundo permite atingir o final do problema. O primeiro passo “mata” os primeiros concorrentes, até que chega André Neres e “flacha” o problema numa escalada incrível de solidez. Um grande momento. Sai o Zé, começa sem problemas e cai a tentar agarrar uma mini pinça que parece uma formiga nas suas mãos gigantes. Concentra-se, cerra os dentes e na segunda tentativa saca o problema.

Problema número três. Um tecto poderoso seguido de uma saída com blocagem completa numa réglete ínfima para as presas do tope. Uma sequência intricada debaixo do tecto parece deter todos os concorrentes inclusive o André que esgota quase o seu tempo a tentar resolver o problema. Inconformado, dá mais um pegue, a corneta soa parecendo anunciar o seu falhanço, mas sacando forças sabe-se lá de onde resolve a sequência e voa na horizontal para a presa de bonificação, chega à réglete, bloca uma vez e nada, vem abaixo, tenta outra vez e cai esgotado. A seguir entra o Zé que ficaria na dura sequência do tecto, nessa altura a competição parece estar nas mãos do André.

Problema número quatro. Uma travessia mista de técnica e de força à base de áplates permite atingir uma meia bola de onde era preciso voar na diagonal para a presa final. A sequência de áplates dá a estocada final nos primeiros concorrentes até que chega a vez do André, numa escalada sólida, mas com os dentes bem cerrados para conter os movimentos, chega à bola, ali não hesita e dispara num voo extraordinário, agarra a presa e as pernas “swingam” violentamente para a direita quase tocando no tecto, a mão escapa e mergulha de cabeça a mais de quatro metros de altura, gelando a sala. Nota-se imediatamente que a situação é grave, activam-se os primeiros socorros e em cinco minutos o escalador é imobilizado por uma equipa de bombeiros e levado da competição numa saída dramática debaixo de uma salva de palmas. Mais tarde soube-se que os exames não revelaram nada de grave e esperamos que não passe de um grande susto e uma dor de pescoço durante uns dias. O show não para e a competição avança para o seu zénite, com o próximo concorrente. O Zé Abreu cruza o problema até à bola, olha para a presa final. Lança. Agarra. “Swinga”, chega a tocar na presa com a mão mas cai de seguida. Instala-se alguma confusão. Fez tope? Não fez? O director da competição o Filipe Cardinal, manda continuar. O escalador da casa não parece cansado e no segundo “pegue” executa o problema ganhando a competição.

No Domingo entraram em acção os escaladores sub16. Confesso que nunca os tinha visto em actuação, diziam-me: “Os putos são fortes!”, “Olha que são máquinas”. Mas não estava preparado para o que veria. Ver miúdos de nove ou dez anos a escalar de modo natural, com intuição, técnica e garra é uma coisa extraordinária e que pensava não existir em Portugal. Estão de parabéns os “prof’s” e os pais que os aturam, ensinam e trazem para as competições. Richard Cilley disse-me uma vez numa das suas sentenças pseudo-proféticas, nasalando as vogais num típico sotaque americano: “Climbing is dying”. Na altura a frase fez-me impressão, quem sabe não terá razão? Ou será a escalada como ele a concebe que está a morrer? Mas ao ver este miúdos percebe-se que a escalada é um jogo natural, que se calhar todos praticamos e esquecemos quando chegamos a adultos. Falta apenas que dêem o salto do plástico para a rocha e se transformem em máquinas destruidoras de vias e problemas, abrindo novos caminhos para que a escalada não morra.

A organização esteve excelente. E, passada a caravana, fica um muro muito bom para treinar, que era uma coisa que fazia muita falta, por estas bandas. SM

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One Response to Maia 2010, o Rescaldo.

  1. Eu ando a falar disso há algum tempo!
    E mais uma vez, os equipadores foram surpreendidos pelos pequenos!!!
    Dias 11 e 12 há Encontro Nacional Escolar de Escalada em Tondela, onde se vai puder assistir à escalada jovem ao mais alto nível!

    Tive muita pena de não ter ido à vossa competição, que parece estar de parabéns pela organização!

    As melhoras para o André, até porque ficamos com o Circuito de bloco empatado nos Séniores Masculinos.

    Apertem forte!

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