Recordações da Época Passada – Um Dia em Hueco –

Baú!Aú!Grrrrrr! O rafeiro sai disparado atrás da bola de golfe, que trás diligentemente, passado pouco tempo. Taq! Sai outra bola, e o jogo começa de novo.

Hueco Tanks, Texas, EUA. O green é uma plataforma feita de restos de madeira e um bocado de relva artificial, o resto é providenciado pela imaginação. Fora isto, nada se passa e o Rock Ranch está tranquilo em mais uma gloriosa manhã texana. Os ovos já estão na frigideira prontos a mexer. O pequeno almoço de lei são huevos rancheros e black coffee. Já se vêem os clientes habituais na slack line e o resto é deserto. Literalmente.

Harrrrrghh! Mudança de cenário. Entrada do Parque. Estamos na fila por uma vaga na Northmountain – um dos sectores de Hueco e o único de livre acesso e esperamos há um par de horas. Podemos ver já os primeiros blocos, mas não podemos tocar-lhes. Jogamos à bola, conversamos, mas a impaciência vai tomando conta de nós e os mais irascíveis começam já a saltar e a soltar urros de fúria, especialmente os nossos amigos espanhóis, que como locomotivas a vapor vão acumulando pressão e estão prestes a estourar e a escalar qualquer coisa que apareça pela frente. “Foooooderrrrrrr!” 

Zingh! “ we are leaving now S.A.D.” zongh! “Ok, roger! Out”. O nosso guia acaba de comunicar via rádio a posição do nosso grupo e preparamo-nos para seguir para outros blocos. S.A.D. significa Sex After Death e é o nome de um bloco bem conhecido, só que, pela rádio não podem dizer, digamos, palavrões, e tem de usar as siglas. É sempre hilariante, quando a hipocrisia latente na sociedade americana vem à tona. Os guias e os rangers devem maldizer todos os dias o John Shermam e os seu nomes escabrosos. O humor nunca se dá bem em ambientes autoritários, quanto mais humor politicamente incorrecto. Seguimos. Mudamos de planos. Decidimos entrar num tour pela Eastmountain em vez de esperar por vagas para a North. Um tour são as famosas visitas guiadas, que podem durar de duas horas ao dia inteiro, dependendo do grau de fama de cada um ou amizade com os guias, mas oficialmente são duas horas. 

“Vengaaaaaaaa!!” mais um ensaio, mais uma tentativa num típico problema enfiado num corridor. Aparentemente e visto de fora ninguém dá nada por Hueco, só que as três montanhas têm múltiplas entradas, corredores, falhas e passagens que multiplicam infinitamente as possibilidades para linhas novas. Uma espécie de labirinto de pedra com inúmeros Minotauros sempre à solta. A rocha é excelente e à prova de bala, as linhas são perfeitas. O clima é frio e seco no Inverno, o mau tempo são as ocasionais tempestades de areia, que não interferindo grande coisa na escalada, apenas são incomodativas para quem dorme numa tenda e acorda literalmente a mastigar o pó do deserto. Um paraíso do Bloco. Ainda não perdido, mas severamente condicionado. 

“Some more colesterol, please!” a americana olha para mim, primeiro atónita, depois ri-se às bandeiras despregadas, “ ha…you want more casserole?”. “yah…sim… that´s isso…” Jantar de Acção de Graças. Os donos do rancho, resolveram abrir a casa e fazer por um preço irrisório um grande jantar, diga-se banquete, para todos os escaladores presentes. Nós comparecemos, claro, um jantarinho na acolhedora casa de madeira é uma mudança de cenário bem vinda para fugir à chungaria poeirenta do quintal diga-se camping onde estamos instalados. 

Trásssss! Uma nuvem de faúlhas levanta-se da fogueira gigante. Acabam de atirar mais uma carrada de restos de paletes, cortesia de uma fábrica vizinha. Quando a fogueira não está monstruosa o suficiente alguém voluntaria-se para ir buscar com um carrinho de mão uma carga. Carrega, e ao aproximar-se da fogueira começa a correr e atira o carro contra uma pedra colocada convenientemente, este pára violentamente e a carga desliza com estrondo para dentro da fornalha provocando um efeito pirotécnico…

One! Dos! Three! Quatro!… mais um jogo demente, desta vez trata-se de contar quantas voltas sobre si próprio consegue dar um tipo, enquanto abraça uma trave de madeira. Dois voluntários são destacados para “darem spot” e impedir que com a “oura” o jogador se precipite na fogueira. Começa a rodar e a multidão vai contando em coro  “ um, dois, três…” até que este já não aguenta mais, larga o tronco e cai no chão ou sai disparado para direcção incerta. E, a noite vai seguindo até que a multidão vai dispersando, e o ruído ainda há pouco intenso vai dando lugar a um murmúrio das conversas dos resistentes, e por fim, o silêncio do deserto instala-se só entrecortado pelos uivos ocasionais dos coyotes. Um dia em Hueco. SM

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One Response to Recordações da Época Passada – Um Dia em Hueco –

  1. crash pad dummy diz:

    …Minotauros no seu labirinto, bela imagem.

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