Ópera Vertical

Patrick Edlinger. Quem? Perguntam os nascidos nos anos 80 ou 90. Ha! Dizem os outros. Mito vivo, principalmente em França, é a imagem colada ao nascimento da escalada desportiva no início dos anos 80 e o protagonista dos filmes Ópera Vertical, La Vie Au Bout des Doigs e muitos outros.

Vem isto a propósito de quê? Bom, sendo este um site assente na imagem videográfica, é normal que exploremos as suas origens. E, estes dois filmes estão na origem, quer da escalada desportiva, quer dos filmes de escalada. Recentemente foram editados em DVD, uma peça fundamental para os colecionadores do género, e também estão disponíveis no Youtube embora em péssima qualidade.

Realizados por Jean-Paul Jansen em 1982 são talvez os filmes de escalada, pelo menos na Europa, mais influentes de sempre. Revelando ao Mundo uma nova disciplina que se viria a impor, para o melhor e para o pior, nos anos subsequentes: A escalada desportiva.

Olhemos mais especificamente o Ópera Vertical. A abertura viria a tornar-se clássica, o escalador e os seus atributos físicos: a elasticidade e a força, com exercícios – a famosa Bachar ladder e a slackline – e estilo importados directamente do Camp4 para o Verdon. Depois, passamos para falésia mais propriamente para a via L’Ange en Décomposition, onde Patrick vai explicando em off o que é a escalada desportiva, fala de cordas e quedas e sem mais, manda um mega “balde”, consta que estourou o tornozelo, mas impávido, responde quando Jean-Paul Janssen, atrás da câmara pergunta: “Ça va Patrick? Tu t’es pas fait mal au moins? “…Moi?! Non, non! Impeccable!…” . Esta conversa entre o camaraman e o actor/escalador destina-se a instruir o espectador explicando o que acaba de acontecer. Esta espécie de diálogo é uma marca do cinema documental de cariz jornalístico, que é a origem do próprio realizador, um camaraman muito experiente que esteve na Guerra do Vietnam, onde por exemplo, participou numa famosa entrevista a um piloto americano detido numa prisão Vietcong que era nada mais nada menos que John Mccain o futuro candidato republicano às eleições presidenciais americanas de 2008.

Temos assim uma equipa de realização, literalmente suspensa, incluída no próprio filme, tornando-se parte do espectáculo. Essa postura foi posteriormente abandonada no cinema/vídeo de escalada, à medida que este se foi aproximando de um conceito mais clássico.

Estes filmes são claramente destinados ao grande público, daí a necessidade de estar sempre a explicar em voz off como as presas são pequenas e os equilíbrios são precários. Esta explicação dá o contexto. O perigo e a vertigem de uma falésia de 200 metros fazem o resto. E, para maximizar as emoções temos, perto do final, o truque perfeito. Edlinger é descido para as profundezas do abismo. Faz subir o baudrier, os pés de gato e começa a famosíssima sequencia: o solo integral descalço da via Débiloff . Quando emerge do vazio e o filme acaba a escalada nunca mais será a mesma.

O “Ópera Vertical” tem uma penetração nos meios fora da escalada, sem precedentes e sem comparação com o que se passa actualmente. Se não acreditam, reparem nesta história edificante: Ouve uns tempos, até me custa contar isto, em que a televisão falhava. Sim. Falhava. Imaginem: Está a família tranquilamente a ver o telejornal, e de repente a emissão vai abaixo, deixa de haver sinal do estúdio, então, têm de meter um separador. E o que era que metiam? Pois é. O “Ópera Vertical”. De repente em todos os lares de Portugal aparecia um gajo loiro a escalar descalço e em solo integral, no – viria a aprender muitos anos depois – Verdon. Eram imagens hipnotizantes e muito para alem da compreensão.

Hoje essas falhas técnicas já não acontecem e a escalada foi para sempre banida do prime-time para nunca mais voltar. Mas o mito ficou.

Qual a influência do “mito Edlinger” e dos seu filmes na escalada portuguesa? Dizem por aí que a Catalunha está cheia de clones do Sharma, os colares, o corte de cabelo etc. Por cá só me lembro de um clone do Edlinger: O “Edlinger da Guarda” de seu nome Murzanga. E de facto era parecido, alto, delgado, uma cabeleira a preceito e com feitos “escalatórios” mitificados, disseram-me uma vez, por exemplo, que o Murzanga fez a placa dos Fantasmas em solo integral e sem por as mãos na rocha!

Bom, fait-divers à parte, toda a gente queria escalar como o Edlinger, e se nem todos podíamos ser altos, delgados e gadelhudos, podíamos tentar usar ao máximo o sua famosa pose: a grenouille ou posição de rã, movimento mítico dos anos 80 que com o advento da escalada em extraprumo foi remetido a curiosidade histórica. E, ainda bem pois usar aquela posição, movimento sim, movimento não, revela-se tudo menos prático.

Um mito, ou quando os feitos de um escalador transcendem a realidade nas nossas imaginações. Porque precisamos ou criamos estas personagens, meios homens, meios deuses? Se a viagem de Ulisses pode simbolizar a inquietude masculina. Estes mitos da escalada simbolizam a inquietude do escalador comum, órfão do modo de vida, da força, da técnica e dos feitos destas estrelas de pedra.

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5 Responses to Ópera Vertical

  1. Lembro-me dessas benditas interrupções na emissão! Estava ainda longe de escalar, mas aquelas imagens diziam-me algo! Devia ter uns 10 anos!

    Tenho tb ideia que o luso Fernando Ferreira (?) é protagonista de um desses filmes, certo?

    Tb reuni um avultado número de vídeos de escalada nos últimos anos, mas… são pirateados!!! Portanto não mereço o título de colecionador!

    Perdoem-me os autores!

  2. Paulo Roxo diz:

    Nessas interruções, ainda passavam mais dois filmes, que me lembre.
    Um, dum tipo a mergulhar nas águas gélidas do Polo Norte e a nadar até saltar para um bote, quase em estado de hipotermia. Outro, do lendário Patrick Berhault, num filme chamado (se não estou em erro) “Metamorfose”, que emerge das águas do mediterrâneo para as falésias das Calanques, a escalar um dos primeiros “deep Water” solos.
    Relativamente ao Edlinger, também me recordo das frases: “Tu escalas? Epá, e fazes como aquele gajo que aparece na televisão, descalço e sem corda?”

    Paulo Roxo

  3. Pedro Rodrigues diz:

    Pá eu infelizmente lembor-me só das interrupções e da mira… Ainda no outro dia me tinhas falado dessas “épicas” interrupções com direito a “ópera vertical”, mas eu na altura mal via um gajo loiro com calças de licra cor-de-rosa… mudava de canal (para o dois que era o que havia).

    Mas a avaliar pela descrição do Paulo Roxo das diversas películas, parece que as saudosas interrupções de emissão da RTP mais se assemelham aos conteúdos do National Geographic Adventure… 😉

    Abraço.

    PS – Para que conste, ainda não comprei o colarzinho, nem mudei de penteado.

  4. A partir de hoje, passam o Abertura de Caça e a Trilogia do Aço! Eu sou muito novo para me lembrar disso eheh.

    Abraço

  5. crash pad dummy diz:

    … não será justamente o facto de ter protagonizado os filmes pioneiros de escalada que o terão tornado conhecido para o grande público e terão colocado no pedestal da fama no seio da comunidade escaladora? Lendo o poste, parece-me que tudo foi pensado nesse sentido. Exploração da imagem do escalador, com o seu ar de Apolo e de lenço na testa a lembrar os índios norte-americanos, nas vastas planícies do Oeste… e haverá maior símbolo de liberdade do que desafiar a morte de pés nus naquele solo? Por fim, o simples facto da voz-off assistir os leigos na compreensão das imagens é o maior indício de que o destino daquelas imagens não poderia ser outro que grandioso, isto é, passar nos interlúdios da RTP.

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