HighBalling ou Free Soloing?

O tema quente do momento. Para quem ainda não deu pela “história”, aqui fica a síntese: Um escalador de Boston, Max Zolotukhin, parte um pé, ao cair numa tentativa de escalar em solo uma via de 8c em Rumney, NH, USA. Nada de mais, diriam vocês. A diferença é o numero à frente do nome da via e ter sido filmado e divulgado, provocando uma grande polémica, ver:  aqui e aqui. Também é possível ler o relato na primeira pessoa. Uma narrativa  muito interessante, honesta, cheia de contradições e de uma ingenuidade desconcertante, enfim o reflexo humano de quem quer voar como os deuses.

ZSB

Highballing ou freesoloing? Super-Bidedo V9cs, Pedra do Urso. Escalador: José Abreu; Foto: Oldemiro Lima.

Isto coloca-nos novas e interessantes questões, não tanto sobre a essência da escalada em solitário sem corda, uma pratica tão antiga como a própria escalada. Mas sobre a chamada “comercialização destas performances“. Com a crescente mediatização da prática da escalada um dos caminhos para despertar emoções fortes e apimentar os vídeos é filmar actos cada vez mais arriscados, ver o recente Progression por exemplo. Com alguns “comentadores” a afirmarem que não faltará muito para alguém dar uma queda mortal… com a câmara a gravar.

Vou deixar aqui a minha opinião quer pessoal quer editorial neste aspecto da escalada: Todos sabemos ou deveríamos saber a seriedade que implica escalar em solo onde as consequências de um falhanço são no mínimo extremas, por isso, em meu entender, deve ser uma actividade puramente do foro pessoal e intimo,  a praticar de preferência sem assistência. Uma experiencia pessoal que concretizada com êxito de certeza proporcionará sensações únicas ao seu praticante. Sem êxito, pode proporcionar a derradeira das experiencias: a morte. Mas tratando-se de uma questão de liberdade pessoal, muito importante, não podemos se não respeitar a escolha de quem percorre esse caminho.

Filmar, o “evento” também é uma questão pessoal. Divulgar já levanta questões éticas muito sérias. Deve ou não ser mostrado, deve ou não fazer parte de vídeos comerciais. Editorialmente, a minha resposta, é não. Nem tudo deve ser mostrado, nem tudo deve ser filmado, tem de haver espaço para o indizível, para o invisível, para a intimidade. Mas vivemos a época da internet onde esta questão parece ser simplesmente anacrónica.

Quanto ao Bouldering que é o tema, digamos, forte deste site, a questão é: o que separa a fronteira do Highball do free solo. Esta pergunta não é fácil, e depende muito da experiencia pessoal do escalador. Mas existe uma fronteira, onde por mais “crahs gigantes” que se acumulem na base do bloco, mesmo assim não queremos nem podemos cair. E temos assim um híbrido: highball até certo ponto e free solo depois, ver o Progression mais uma vez. Muitas perguntas se colocam: é bom filmar estas coisas? É cool arrastar os  amigos para assistir ou ajudar? Quando a única coisa que podem fazer é colocarem-se a eles próprios em risco. Este pode ser um terreno minado, pois as crashs e os potenciais seguradores podem dar uma ilusão completamente errada da situação, aos próprios intervenientes, como parece ser o caso da situação que deu origem a toda esta polémica.

No final, o escalador arrumou a questão na gaveta das duras lições. Um final feliz?

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9 Responses to HighBalling ou Free Soloing?

  1. FCS diz:

    Pois, sem dúvida que há uma contradição entre o espírito do solo e o “show-off” de o fazer para o mundo à volta. Como aquela triste figura do Huber no 8b+ a solo e a dizer que tinha sido “filmado por acaso por um ciclista que ia a passar”…

    Mas não critico o mediatismo se for assumido. “Faço isto para as câmaras”, “porque nunca ninguém o fez”. Tudo bem. Cada um é que sabe das suas próprias motivações.

    Quanto à pressão da “comunidade que escala sentada no sofá” que exige tudo em directo e cada vez com mais possibilidade de sangue, não há dúvida que um dia destes teremos mortes filmadas. “It’s all part of the game…of the new game”.

    Bom post com pano para mangas.
    abc

  2. crash pad dummy diz:

    Penso que o texto escrito pelo protagonista expõe claramente o tema. O solo integral ou highballing não é, de facto, solo. Quando se assume esse compromisso, estamos obrigados a introduzir as variáveis exteriores a nós, o impacto dos nossos actos nos outros, próximos ou não. Medir as consequências, sem egoísmo.

    Quanto ao espectáculo, bom, falo por mim, não é por ver um artista a fazer highballs que o vou imitar. Ainda assim, penso que a responsabilidade é de quem filma, não de quem é filmado. Agora, se fizermos o paralelo com muitas outras actividades desportivas, vemos que esta é a tendência generalizada. Tome-se o exemplo do esqui extremo ou do BTT extremo onde são frequentes os acidentes, com consequências, filmados. Será o mercado a ir de encontro às necessidades dos consumidores? Estarão os escaladores, em prol desse mercado, a sobrepor-se às suas crenças ou a serem manipulados?

    Este post tem mesmo pano para mangas.

  3. ricardofb diz:

    Tive uma acesa discussão sobre este assunto no outro dia com o Cuca…
    (Eu não o convenci da minha posição nem ele me convenceu com a sua mas acabou por ser interessante, até porque deu para perceber o quão polémico o tema é)

    Na minha opinião
    O solo é a expressão máxima da qualidade de um escalador.
    E é quase sempre uma experiência muito intensa e importante para a pessoa que o faz.
    (Um pouco egoista também – a família)
    Sendo o ser humano um ser social, acho perfeitamente normal que quem o faz sinta a necessidade de o partilhar com os outros (as coisas importantes devem ser partilhadas).

    Como espectador
    Também gosto de ver e ouvir falar desses feitos! Inspiram-me! E não é por achar que é algo que nunca conseguirei fazer que desvalorizo o feito dizendo que o escalador antes inspecionou a via em rapel, ou que afinal quem o filmou foi contratado para o fazer, etc.

    Conselhos
    O grande problema de convocar os amigos para verem ou o fotógrafo para tirar umas fotos “à coisa” é que estão a criar um ambiente externo que vos vai pressionar a fazê-lo e isso pode não resultar muito saudável! Se momentos antes já não têm a certeza já não o devem fazer (experiência própria: as pernas começam a tremer e é mais dificil os pés ficarem nos sítios, o que complica um pouco :-))) )
    Se possivel também penso que não se deve fazer em frente a miúdos naquelas idades em que eles são mais influenciáveis.

    Enfim, o que é importante é que o pessoal viva a sua vida como quer e que seja consciente que algumas decisões que aumentam a intensidade dessa mesma vida têm como consequência a redução da sua esperança de vida 😉

    Abraços

    Ricardo Belchior

  4. nortebouldering diz:

    O vídeo foi retirado da net, precisamente hoje. Que timing. Estava a ter uma carreira galopante. Com visionamentos na casa dos milhares já. Por mim e pelas razões acima explicadas foi uma decisão acertada.

  5. Paulo Roxo diz:

    Se me permitem também a opinião.
    Também acho que todos têm o direito à escolha e, sou muito partidário da liberdade e de cada qual fazer aquilo que mais lhe apraz.

    Considero também que o solo integral consiste na forma mais pura de se escalar.
    Puro, a um nível ainda mais extremo, seria escalar em solo, à vista, sem magnésio e, sem pés de gato.
    Bem, o problema mais evidente, parece ser que esse nível máximo de ética levaria talvez a uma vida curta, com óbvias impossibilidades de desfrutar da escalada a longo prazo.

    Por isso optei por adoptar (cobardemente) uma série de elementos artificiais para poder prolongar o meu prazer de escalar, como as cordas, pés-de-gato e demais parafernália de aditivos (confesso que, por enquanto, falta-me o crash-pad).

    No entanto, penso que, em lugar de tentar impôr uma razão, devia-se aconselhar (sobretudo os mais novos) a seguir determinadas linhas de ética de respeito, relativamente a todas as actividades do leque. E isto devia valer não só ao nível de equipamentos, desequipamentos, grau, ou outros, mas também, ao nível da divulgação das próprias realizações.
    E aí creio que deveria entrar o bom senso: “Ok, vou filmar uma actividade perigosa. Houve um acidente grave. Deveria mostrar isto ao publico ou devo omitir estas imagens?”

    A consciência de cada um ditará as normas.

    Um exemplo:

    Alex Huber – filmado, fotografado e publicitado – Aparentemente arrogante e vaidoso.

    Patrick Beraulht (falecido nos Alpes) – filmado, fotografado e publicitado – Humilde, ético e honesto.

    Sim, este é de facto um tema bicudo de paradoxos.

    Os meus parabéns pela qualidade do blog.

    Paulo Roxo

  6. Macau diz:

    Tive a oportunidade de conhecer o Max na recente viagem que fiz a New England, um tipo super ‘’cool’’, discreto na maneira de ser e indiscreto na maneira de vestir!  Tivemos juntos em Rumney, onde vi e fotografei o Dave Wetmore a provar a Supernova e a cair por duas vezes no crux. Max nesse dia, tinha-se passeado na via para aquecer! É uma via curta super atlética em presa pequena, a fazer lembrar algumas sessões de vias na Guia. A base é um caos, pois a via ergue-se numa encosta íngreme, repleta de blocos dispersos pelo chão. Apenas um grande bloco junto ao início da via, confere uma plataforma horizontal com uns escassos m2 para uma queda mais controlada, embora o 1/3 superior da via já esteja fora desse limite de segurança.

    Sem dúvida, nunca me passaria pela cabeça olhar para essa via como um high-ball! Aquilo é um free solo, ponto… até a Fly, tem mais aspecto de boulder que esta!

    Soube dos planos do Max, para tentar ‘’bouldar’’ a via na véspera de vir embora. Fiquei em casa dele e falamos sobre isso! Não abriu muito o jogo, mas no fundo parecia decidido em faze-lo. Senti que havia ali uma dualidade de pensamentos, se por um lado este propósito era íntimo e pessoal, por outro já toda a gente o sabia e dava a sua opinião! Alguns amigos mais próximos estavam preocupados e diziam que não ia ser boa ideia, como se sentissem que qq coisa não estava certa…

    Regressei no Sábado e só passado uns dias é que soube do acidente, através do seu grande amigo, Bruno Malta que está em Portugal. Confesso que logo depois de regressar, andei na Net a procurar a notícia, mas como não encontrara nenhuma referência ao assunto, simplesmente pensei que ele tinha abandonado a ideia. Infelizmente não foi isso que aconteceu, mas felizmente foi só o calcanhar!

    A minha opinião pessoal sobre este assunto, é que por mais forte física e psicologicamente que se esteja, um solo deve ser algo privado, pessoal, envolvendo o mínimo de pessoas possível. Pois acredito, que toda a energia deve estar concêntrica e não haver dúvidas ou segundos pensamentos no ar! E um free solo não é uma coisa para se dar tentativas, é fazer ou não fazer de todo…

    Hasta,

    Macau

  7. Richard Cilley diz:

    He visto esta bloque durante mi estancia en el sanatorio. Que bonito.Sem crash no he atrevido a probarlo.

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