Recordações da Época Passada

mãos vendadas

Um Fantasma na Freita

Agora? Vienen agora!?

Freita. Uma sexta-feira ao fim do dia. Sessão nocturna de bloco. A pergunta vem de um estranho vulto, que vemos ao longe, à medida que nos aproximamos de um dos sectores dos Viveiros da Granja.

Quem será? Perguntamo-nos imediatamente. A probabilidade de encontrar escaladores de bloco na Freita são reduzidíssimas, quanto mais a escovar e de noite.

O vulto está tão espantado como nós. Há duas semanas que vive – literalmente – na Freita, a escalar, não tendo visto ainda um único “blocador”, e quando finalmente aparecem, é de noite, mesmo para um tipo muito vivido no mundo da escalada, é demais.

E, acreditem que é vivido, 52 anos, e toda uma vida dedicada à escalada, principalmente às fissuras que o levaram a uma busca incessante por todos os Estados Unidos e a passar pelo menos os últimos 10 anos em Espanha, vivendo em zonas de bloco.

E, afinal somos velhos conhecidos, é Richard Cilley, uma personagem com quem me tenho cruzado esporadicamente ao longo dos últimos anos em Espanha. E cuja abordagem da escalada é no mínimo singular.

Um lento remar contra a maré: fazia bloco em Espanha quando ninguém sonhava com tal. Uma abordagem muito pessoal, com objectivos muito concretos, da escalada. Um total – aparentemente – desprezo pelo reconhecimento dos seus pares. Uma visão desassombrada e ácida do “mundinho” da escalada, própria de quem já viu tudo e não espera nada.

Portanto, a escalada reduzida à sua forma mais pura, Bloco, sem crashpad, apenas uns pés de gato rotos e algum magnésio, fornecido por escaladores que encontra ocasionalmente.

Diz-se sem força para bloquear, “ Já não tenho power, fui até ao fim da linha, acreditam que já não consigo fazer um tracção de braços?”. É difícil acreditar, ao vê-lo a escalar. Por outro lado é muito belo pensar numa escalada com total ausência de força, apenas a primazia da técnica a vir ao de cima, puro movimento sobre rocha.

Move-se de forma lenta, e ainda mais lenta quando escala, como se existisse noutra dimensão temporal, e de facto existe. Um tempo criado por ele próprio, sem constrangimentos sociais, vivendo apenas com o essencial. Uma existência reduzida ao mínimo, mínimo mesmo: “ Como é que cozinhas? Há, uso uma can, como se diz? Lata, sim é isso, e álcool, não preciso de mais nada”.

No entanto não está desfasado do nosso tempo, consulta a Internet, participa em fóruns, principalmente para pesquisar novas zonas para onde ir, mas “sempre em bibliotecas públicas”. E tem opiniões muito singulares e fortes reminiscências de uma ética cimentada há muitos anos: “existe esta fissura, um tecto, na Galiza, incrível. Acreditas que estava um tipo a faze-la e a meio deixou cair um pé apoiando-se com ele no chão, continuou depois a escalar como se nada fosse e no fim festejou com o spoter o encadeamento, simplesmente não queria acreditar”.

Se a escalada, é sinónimo de liberdade, é difícil pensar numa abordagem mais ascética: Viver nas zonas de escalada, levantar-se ao ritmo da natureza, deambular por montes e vales incorporando no trajecto a rocha, tentando captar a sua essência através do movimento, impermeável a rótulos, classificações e tendências.

Tem, no entanto, por vezes um olhar nebuloso, característica talvez de uma existência centrada em si próprio, temperada por inúmeros dias de conversas apenas consigo mesmo.

As mãos são impressionantes, se as mãos de um escalador são sempre singulares, as dele impressionam por ter uma camada de pele na parte superior que parece geneticamente modificada para escalar fissuras, e de facto escala sem vendar as mãos, mesmo as fissuras mais excruciantes, como se fosse desprovido de terminações nervosas, “ magoa? não é nada, com insistência habituas-te e depois não sentes nada” Diz-me calmamente, enquanto eu desesperado olho para as minhas pobres mãos vendadas. Estamos a experimentar um velho projecto da Freita uma incrível pança com uma fissura de dedos a fugir para mãos. Onde os entalamentos até parecem confortáveis, mas uma vez que nos penduramos, é como se uma prensa nos esmagasse as mãos, tal é a dor.

Este é o seu último objectivo, quer mudar de zona, mas esta fissura que já resolveu em pé, faz com que fique e espere mais uns dias, trabalhando pacientemente os seus movimentos, tempo não lhe falta efectivamente.

São oito e meia da noite, instala-se um nevoeiro típico da Freita, dando uma dimensão fantasmagórica aos montes que nos rodeiam. Estamos ali isolados num microcosmos, suspensos no tempo, na companhia de uma personagem que facilmente se enquadra naquele ambiente, existe? Existiu? Ou será apenas: Um Fantasma na Freita.

 

 

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8 Responses to Recordações da Época Passada

  1. topas diz:

    Muito bom!

    O Saramago à tua beira é 1 menino!!

  2. Bruno diz:

    Boa…grande texto!
    Aproveito para dar os parabéns pelo blog. Está a ser um ponto de passagem obrigatória nas minhas deambulações informáticas, não só pela qualidade das fotos, vídeos e agora, os textos…
    Abraços
    Bruno Gaspar

  3. FCS diz:

    Bem contada esta história improvável.

    …Seria um sábio ou um tresloucado?…
    (Nesta terra que se diz de fanáticos quando é que será que teremos algum escalador a enveredar por essa via?…)

    Abcs

  4. nortebouldering diz:

    Um sábio ou um tresloucado…
    Tremenda questão…que nos coloca talvez no… Fio da Navalha.

  5. Pimentas diz:

    Maanannn!!!! Ganda texto! Até parece que lá estava com vocÊs! Só tenho pena é de não ter estado mesmo!!!

    Bem! Estás e estão todos de parabéns!

    Está aqui um cantinho mesmo à maneira… Com muito futuro!

    Os filmes tb estão muito bons!!

    Aquela Pangea d’Aço ficou-me no gouto!!! Ehheheh!! E a bem dizer senhor Professor Sergio… O senhor está um verdadeiro BICHO!!! Nem que seja só do pescoço para cima!! 🙂

    Muito bom mesmo! Fiquem bem e continuem a apertar!!

    E porque não uma sugestão para me virem fazer uma visita e fazermos uma expedição incursão aqui pela zona de Wales!!!

    EMbraces

    P.

  6. Tiago Ramires diz:

    Muito bom o texto, mas não podia deixar de dizer… o último parágrafo faz-me lembrar o paulo coelho… ehehe

  7. […] de parabéns os “prof’s” e os pais que os aturam, ensinam e trazem para as competições. Richard Cilley disse-me uma vez numa das suas sentenças pseudo-proféticas, nasalando as vogais num típico […]

  8. […] no texto sobre Richard Cilley referi que ele fazia bloco em Espanha quando ninguém sonhava com tal, cometi uma imprecisão, […]

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