Pure, a Bouldering Flick

Dezembro 21, 2009

Uma viagem incrível pelo mundo do boulder. Rocklands, California, Fountainbleau, Aústria e por fim a incontornável Suiça. Com um elenco forte, Nalle Hukktaival, Killian Fischhhuber, Ana Stoehr e os irmãos Fred e François Nicole, somos presenteados com boas linhas e movimentos de pura beleza.

É sem dúvida um filme muito bem explorado a nível de imagens e cor, apesar de excessiva saturação cromática, uma imagem de marca do realizador Chuck Fryberger. A música escolhida oferece outra relevância a essa mesma viagem. Muito bem escolhida e adequada dá outro sentimento ao filme, apesar de falhar em alguns segmentos. É o caso do tema que acompanha o escalador finlândes no bloco The Island em Fountainbleau, dando a sensação de que a música não acompanha a linha em causa.

“Bouldering is the purest form of climbing.” Quem o diz é Nalle Hukktaival, um dos escaladores mais fortes do momento e com exclusiva dedicação ao bloco. Dotado de uma força inumana, somos bombardeados com uma chuva de blocos do V9 ao V15, entre eles, dois dos blocos considerados mais duros no mundo: The Island (V15) aberto pelo Dave Graham, em Maio de 2007 em Fontainbleau e, Amandla (V15), que significa Poder, abertura e primeira ascensão de Fred Nicole em Agosto de 2005.

Este mesmo, Fred Nicole aparece uma única vez no filme demonstrando, como sempre, um estilo de escalada impressionante, dando a ilusão de cristalizar cada movimento à medida que se move bloco acima. Associado ao nome Nicole, aparece também o seu irmão François Nicole. Engane-se quem pensar que este é apenas mais um escalador que vive por trás do nome. Escalador exímio de V13 e 9a+ de via, não deixa qualquer dúvida em relação ao seu potencial. Aparecem destacadamente na Suiça, zona de onde são originais.

Já na Aústria, acompanhando as aventuras de Cody Roth, juntamo-nos aos escaladores aústriacos Killian Fischhhuber e Ana Stoeher. Ambos contam com vitórias no campeonato do mundo de bloco mas, ao contrário de muitos escaladores deste nível competitivo, dizem que não se imaginam sem escalar em rocha.

Kevin Jorgeson aparece, mais uma vez, associado aos highballs. Agora, numa zona secreta em Sonoma County, California, aparece num bloco/via classificado como 5.13a, 7c+, e outros blocos marinhos, um spot que não convence muito.

Apesar de alguns detalhes, Chuck Fryberger realizou um óptimo trabalho com este filme. Sabe-se que anda a preparar outro, que contará com uma extensa entrevista a Fred Nicole. Ficamos ansiosamente à espera.

Curiosamente, este filme chegou a Portugal pelas mãos do representante da La Sportiva, numa espécie de cinema improvisado no bar Labirinto, situado no Porto, oferecendo outro tipo de impacto numa projecção deste género. No final, um sortudo foi presenteado com um par de La Sportiva Speedster, as novas bailarinas da marca. Um final feliz?  Filipe Carvalho


O Resgate do Soldado Magno

Dezembro 11, 2009

Na génese de um bom nome de uma via de escalada ou problema de bloco tem, em minha opinião, de haver uma boa história. Daquelas que recordamos sempre com um sorriso fazendo-nos lembrar bons ou intensos momentos.

Aproveitando a onda das fissuras, que terá este fim-de-semana uma gala com concerto de vários maestros, mostramos este vídeo onde se aprende de tudo menos a escalar uma fissura com eficiência.

Vários maestros do bloco, tentam progredir como podem por uma fissura, – A Fissura da Granja – entalando-se somente quando absolutamente necessário. Uns ficam entalados, literalmente. Outros conseguem, no final, a ascensão, com poucos “entalanços”, mas conseguindo a repetição.

O bloco que dá nome a este post é um projecto que ficou ao lado da fissura em questão.

A fissura em si, aparece num bloco com cerca de 5 metros nos Viveiros da Granja, na Serra da Freita, começa extraprumada em fissura de mãos e depois na passagem para a vertical passa a “mãos e punhos”. Foi aberta pelo Americano Richard Cilley na sua estadia pela Serra da Freita, ver Um Fantasma na Freita. Primeiro, fez o bloco em pé e depois trabalhou a entrada sentada até conseguir ligar tudo, sempre sozinho e sem crashspads. Só para maestros, mesmo. Lembro-me de ele me ter dito que era hard, não sei bem o que isso significa na escala esotérica da classificação de fissuras, mas uma coisa sei, para escaladores, digamos “de face”, será sempre f#@$%hard.

Portanto, a fissura foi repetida, e abriu-se e ficou como projecto mais um magnífico bloco: O Resgate do Solado Magno, a ver nas cenas dos próximos capítulos.


Haverá Sangue

Dezembro 4, 2009

Inimigo número um dos “blocadores”. Pode ditar o fim de uma sessão ou simplesmente acabar com uma roadtrip. Assume vários nomes e variantes conforme a região ou país onde estamos. Mas, no fim, vai dar tudo ao mesmo e de certeza que…haverá sangue.

Estamos a falar de bifes, mas se estivéssemos em Hueco Tanks só nos entenderiam se disséssemos bloody flapers. Se estivéssemos em França teríamos de dizer steak em inglês mas com pronúncia francesa. Por uma vez, fintamos o jogo dos galicismos, anglicismos, espanholismos e neologismos que infestam a escalada portuguesa e ficamos bem servidos com um excelente bife. Que, por acaso, resulta de um aportuguesamento do inglês beef, português, português seria naco ou posta, pois não somos muito dados a filetes, mas não seria prático e muito menos correcto dizer: falta-me um naco no dedo ou saiu-me uma posta da mão. 

A Nortebouldering preocupada com o derrame intempestivo de hemácias e leucócitos em presas alheias, deixa aqui algumas sugestões, ou conselhos, para evitar essa festa dos sentidos que constitui a experiência de fazer um bife na pedra. E, também um guia de tratamento para quem não seguir esses conselhos e se vir com um bife em mãos. 

O nécessaire 

Pois é, mesmo o “blocador” mais endurecido, tem de ter um, especialmente em roadtrip, se quiser escalar o dia inteiro e fazer a sua pele durar para sempre. Eis o que é mesmo necessário o nécessaire carregar. 

Lixa fina. Pode ser um, muito pratico, bloco usado para lixar madeira, à venda em lojas de ferragens ou tiras de lixa para unhas, à venda em qualquer supermercado, aqui podem pedir sempre às vossas namoradas, esposas, irmãs ou mães que adquiram o produto se não quiserem ser vistos a deambular por semelhantes expositores. 

Bálsamo. Vulgo creme hidratante para mãos. Existem dezenas de marcas e cada um tem a sua preferida, havendo já produtos específicos para a escalada como o excelente Climb-on

Corta-unhas. Útil para cortar pequenos pedaços de pele recalcitrantes. 

Gaze estéril e um desinfectante, uma solução interessante é betadine em pomada. 

Adesivo, vulgo Strappal

Super-cola. Isto merece um comentário mais aprofundado, ver mais à frente. 

Cuidados preventivos 

Lixar a pele. A ideia aqui é lixar os calos para os deixar uniformes com o resto da pele.

Não vamos lixar a pele que está boa, a rocha encarrega-se disso, mas as irregularidades que podem, digamos, “engatar” na rocha e fazer estragos. Ostentar calos monstruosos, como medalhas de treinos compulsivos, é o caminho mais rápido para um bife. 

Usar magnésio com moderação, principalmente o líquido. E, uma vez acabada a sessão lavar rapidamente as mãos. Nada de saltar directamente para o carro, fazer a pequena viagem Pedra do Urso – Porto e chegados a casa cair, exaustos, na cama, só lavando as mãos no dia seguinte. 

Hidratação. Todas as manicuras sabem que a pele tem uma coisa chamada balanço hídrico, que, como é bom de perceber é desequilibrado pelo nosso pó preferido e pelas condições que mais gostamos para “blocar”: frio seco. Assim, uma vez livres do magnésio, toca a hidratar para devolver à pele as condições ideais para a sua regeneração. 

Por fim, a sugestão mais difícil: saber parar. Fazer repetidamente o mesmo passo é o caminho para furar um dedo mas também é o caminho para fazer um bloco por isso a solução é ir observando os dedos e parar antes que seja tarde demais. 

Se, mesmo com estas milagrosas sugestões as vossas mãos se transformarem em delicatessen, eis o que fazer, conforme os casos: 

Cortes e furos  

Irmãos mais novos do bife, constituem o dano mais comum nestas paragens, mas se não formos cuidadosos acabam por levar ao famigerado bife. Uma vez o dedo furado, nada a fazer, lavar com água limpa, desinfectar e se quisermos continuar a escalar temos de passar à arte do adesivo, operação que tem de ser feita com algum cuidado para que o adesivo não salte fora ao primeiro ensaio. Eis o que fazer: Colar um pedaço de adesivo ao longo do dedo, em cima e em baixo. Depois, com um pedaço mais fino – aí 0,5 cm de espessura – começar a enrolar o dedo da ponta para trás, desta forma impedimos que as dobras do adesivo engatem na rocha. Conforme a localização do furo enrolar duas ou três falanges. 

Gretas, fissuras e crevasses 

Frio, magnésio, escalada em excesso em presa muito pequena, leva muitas vezes a estas irritantes ocorrências, a pele simplesmente cede e abre, produzindo-se fissuras extremamente dolorosas, podendo levar dias até que fechem outra vez. Para as evitar: lixa e creme hidratante, uma vez ocorridas um dos remédios pode ser recorrer à super-cola, para as fechar. Já nos debruçaremos sobre o seu uso e aplicação. 

Bifes 

Um bife verdadeiro, é algo sério e sangrento. Geralmente ocorre na falange intermédia onde a pele levanta toda, sob a acção de uma presa cortante. E aqui, podemos seguir dois caminhos, a famosa “cura de Hueco” que reside em colar a pele outra vez usando KrazyGlue  - uma marca de super-cola – , usar adesivo e continuara a escalar. Esta solução é altamente desaconselhada pois o risco de infecção é grande numa ferida destas e essas colas não são propriamente feitas para esse fim.

O outro caminho é simplesmente lavar, desinfectar, fazer um penso com gaze e adesivo e esperar por melhores dias. 

A super-cola 

O uso da super-cola na escalada, tem a aura de quase um mito urbano, senão vejamos: Uns dizem que foi desenvolvida na Segunda Guerra Mundial para fechar feridas de batalha em cirurgias de emergência. Outros dizem que foi inventada, pelos mesmos motivos, mas na Guerra do Vietname. Isto para garantir que pode ser usada para fechar os nossos famosos bifes. Diz-se ainda que varia com o tipo de cola, a super-cola é cancerígena e a Krazyglue não. Muita desinformação.

Super-cola, krazyglue etc. são produtos similares que tem como base o cianoacrilato, produto inventado em 1942 nos laboratórios da KodaK, e comercializado anos mais tarde como cola sob o nome Eastman 910. Desde o inicio que o seu uso em medicina foi considerado e aparentemente foi mesmo usado em 1966 na guerra do Vietname por equipas médicas especiais. Apesar disto a FDA mostrou-se relutante em aprovar o seu uso “civil”, devido a efeitos irritantes para a pele. Foram por isso desenvolvidas novas versões do composto chegando-se ao “2-octyl-cyanoacrylate” aprovado para fechar incisões cirúrgicas em 1998 pela FDA. Havendo actualmente um produto comercializado sob o nome de dermabond que usa este componente.

Mas, podemos ou não usar a super-cola corriqueira? As super-colas para bricolage usam outro composto o: “methyl-2-cyanoacrylate”, um adesivo mais forte, que não só pode irritar a pele como provocar queimaduras, pois a polimerização da cola provoca uma libertação de calor significativa. Assim, se formos pelo lado da segurança este produto não deve ser usado numa ferida aberta ou mesmo sobre a pele. 

Bom, continuaremos a furar os dedos, pois não há cola que nos mantenha em casa quando as condições são perfeitas para blocar. Mas, para quem chegou até aqui, não será por falta de informação.


Caveira Mágica

Novembro 27, 2009

Corno de Bico, outra vez. Correndo o risco de os maçar com este bloco, pois está amplamente documentado no “Abertura de Caça”, faltava no entanto alguma coisa: a concretização, isto é, fazê-lo.

Apesar de este ser um vídeo do estilo curto, algo a que poderíamos chamar “VídeoBloco”, um vídeo um problema, tentamos ir um pouco mais longe e mostrar as tentativas, os falhanços e as viagens frustradas pelo mau tempo. A insistência talvez. Motivação para uns, determinação para outros. Sem isso, podemos ser hulk’s, malabaristas ou fakir’s, mas não chegamos lá.

O Caveira Mágica, propriamente dito. Mais um bloco descoberto, aberto e encadeado pelo Júlio. Partilha o extraprumo com o Cubo Mágico. Movimentos amplos levam-nos ao lip onde travamos conhecimento com os simpáticos cristais de Corno de Bico, aqui, num movimento largo, aprimorado tecnicamente pelo José Abreu, desviamo-nos para a esquerda. Posicionamo-nos para colocar o calcanhar com absoluta precisão num dos cristais anteriores, e blocamos a fundo para uma presa que é todo um programa. Apanhada mal ou bem, começamos a tentar ganhar centímetro a centímetro, agarrando o que podemos do lado esquerdo, numa posição extremamente desconfortável e…bastante arriscada…para os huevos, para no último segundo lançar para um puxador salvador. Este era o método original, eu usei uma sequência ligeiramente diferente, num passo explosivo trago o pé direito para esquerda conseguindo assim um dinâmico para o puxador mais controlado e…não arriscando tanto, vocês imaginam o quê.

Esta última sequência é a que faz toda a diferença no bloco, em comparação com o seu vizinho, o Cubo Mágico, uma linha muito mais perfeita e directa. Pois, no final de tudo ter de explodir naquele passo é desesperante, e de cortar a respiração, de tal maneira que quando chegamos à placa e tudo acaba, a descompressão é tal que é necessário ordenar ao corpo para se mexer de forma a fazer os últimos passos que levam ao cimo do bloco.

 Duas grandes linhas, grande ambiente, Corno de Bico no seu melhor.


Ópera Vertical

Novembro 18, 2009

Patrick Edlinger. Quem? Perguntam os nascidos nos anos 80 ou 90. Ha! Dizem os outros. Mito vivo, principalmente em França, é a imagem colada ao nascimento da escalada desportiva no início dos anos 80 e o protagonista dos filmes Ópera Vertical, La Vie Au Bout des Doigs e muitos outros.

Vem isto a propósito de quê? Bom, sendo este um site assente na imagem videográfica, é normal que exploremos as suas origens. E, estes dois filmes estão na origem, quer da escalada desportiva, quer dos filmes de escalada. Recentemente foram editados em DVD, uma peça fundamental para os colecionadores do género, e também estão disponíveis no Youtube embora em péssima qualidade.

Realizados por Jean-Paul Jansen em 1982 são talvez os filmes de escalada, pelo menos na Europa, mais influentes de sempre. Revelando ao Mundo uma nova disciplina que se viria a impor, para o melhor e para o pior, nos anos subsequentes: A escalada desportiva.

Olhemos mais especificamente o Ópera Vertical. A abertura viria a tornar-se clássica, o escalador e os seus atributos físicos: a elasticidade e a força, com exercícios – a famosa Bachar ladder e a slackline – e estilo importados directamente do Camp4 para o Verdon. Depois, passamos para falésia mais propriamente para a via L’Ange en Décomposition, onde Patrick vai explicando em off o que é a escalada desportiva, fala de cordas e quedas e sem mais, manda um mega “balde”, consta que estourou o tornozelo, mas impávido, responde quando Jean-Paul Janssen, atrás da câmara pergunta: “Ça va Patrick? Tu t’es pas fait mal au moins? “…Moi?! Non, non! Impeccable!…” . Esta conversa entre o camaraman e o actor/escalador destina-se a instruir o espectador explicando o que acaba de acontecer. Esta espécie de diálogo é uma marca do cinema documental de cariz jornalístico, que é a origem do próprio realizador, um camaraman muito experiente que esteve na Guerra do Vietnam, onde por exemplo, participou numa famosa entrevista a um piloto americano detido numa prisão Vietcong que era nada mais nada menos que John Mccain o futuro candidato republicano às eleições presidenciais americanas de 2008.

Temos assim uma equipa de realização, literalmente suspensa, incluída no próprio filme, tornando-se parte do espectáculo. Essa postura foi posteriormente abandonada no cinema/vídeo de escalada, à medida que este se foi aproximando de um conceito mais clássico.

Estes filmes são claramente destinados ao grande público, daí a necessidade de estar sempre a explicar em voz off como as presas são pequenas e os equilíbrios são precários. Esta explicação dá o contexto. O perigo e a vertigem de uma falésia de 200 metros fazem o resto. E, para maximizar as emoções temos, perto do final, o truque perfeito. Edlinger é descido para as profundezas do abismo. Faz subir o baudrier, os pés de gato e começa a famosíssima sequencia: o solo integral descalço da via Débiloff . Quando emerge do vazio e o filme acaba a escalada nunca mais será a mesma.

O “Ópera Vertical” tem uma penetração nos meios fora da escalada, sem precedentes e sem comparação com o que se passa actualmente. Se não acreditam, reparem nesta história edificante: Ouve uns tempos, até me custa contar isto, em que a televisão falhava. Sim. Falhava. Imaginem: Está a família tranquilamente a ver o telejornal, e de repente a emissão vai abaixo, deixa de haver sinal do estúdio, então, têm de meter um separador. E o que era que metiam? Pois é. O “Ópera Vertical”. De repente em todos os lares de Portugal aparecia um gajo loiro a escalar descalço e em solo integral, no – viria a aprender muitos anos depois – Verdon. Eram imagens hipnotizantes e muito para alem da compreensão.

Hoje essas falhas técnicas já não acontecem e a escalada foi para sempre banida do prime-time para nunca mais voltar. Mas o mito ficou.

Qual a influência do “mito Edlinger” e dos seu filmes na escalada portuguesa? Dizem por aí que a Catalunha está cheia de clones do Sharma, os colares, o corte de cabelo etc. Por cá só me lembro de um clone do Edlinger: O “Edlinger da Guarda” de seu nome Murzanga. E de facto era parecido, alto, delgado, uma cabeleira a preceito e com feitos “escalatórios” mitificados, disseram-me uma vez, por exemplo, que o Murzanga fez a placa dos Fantasmas em solo integral e sem por as mãos na rocha!

Bom, fait-divers à parte, toda a gente queria escalar como o Edlinger, e se nem todos podíamos ser altos, delgados e gadelhudos, podíamos tentar usar ao máximo o sua famosa pose: a grenouille ou posição de rã, movimento mítico dos anos 80 que com o advento da escalada em extraprumo foi remetido a curiosidade histórica. E, ainda bem pois usar aquela posição, movimento sim, movimento não, revela-se tudo menos prático.

Um mito, ou quando os feitos de um escalador transcendem a realidade nas nossas imaginações. Porque precisamos ou criamos estas personagens, meios homens, meios deuses? Se a viagem de Ulisses pode simbolizar a inquietude masculina. Estes mitos da escalada simbolizam a inquietude do escalador comum, órfão do modo de vida, da força, da técnica e dos feitos destas estrelas de pedra.


Risotto de Blocos – teaser –

Novembro 12, 2009

Novo projecto de vídeo para desenvolver em paralelo com o “Area32” ,que por enquanto, está em stand-by devido ao mau tempo que se tem feito sentir. E, não é por falta de tentativas que não subimos à Area32 na Pedra do Urso, no último Sábado uma rajada de vento atirou, literalmente, um dos membros da Escova d’aço para o “estaleiro” com um pé torcido quando ainda estávamos a meio do caminho.
Assim, vai-se escalando por perto, quando se pode, no meio da humidade e do nevoeiro, e se não está bom para o bloco está bom para o cogumelo – dizem – .
Vamos mostrar algo mais da Serra da Freita e ao mesmo tempo tentar mostrar como se faz um risotto com os blocos apanhados no dia. Blocos ou cogumelos…bom, os cogumelos são menos duros de roer, mas é preciso, tal como os blocos, saber apanha-los.
Então, “Risotto de Blocos”, esperemos que gostem do aperitivo, para já.

 


NBzzz – A Crash Perfeita -

Novembro 9, 2009

Nova rubrica, a NBzzz, assinada pelo nosso novo colaborador o: Crash Pad Dummy. Um voo rasante sobre o mundo da escalada e as suas mais bizarras idiossincrasias.

“Tem saudades do seu gatinho de cada vez que sai para ir blocar? A sua namorada não se contenta com a foto tipo passe que leva na carteira? Para um mundo mais feliz, foi apresentada a revolucionária ideia da Revolution: A crash pad personalizada!

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Na verdade são só protótipos, mas se nos juntarmos todos numa petição em linha, talvez consigamos convencer a marca a passar à produção.

Menos feliz foi o nome escolhido para o saco de magnésio, especial bloco, da CASSIN . É certo que poderíamos ser levados a pensar que o saco traz a mais-valia subentendida com o seu nome, mas não, desiludam-se, é um simples saco de magnésio. Se quiser saber mais, aqui fica o link de um teste realizado ao dito”. Crash Pad Dummy

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Banco de Ensaios

Novembro 4, 2009

Um pouco de arrumação. A Página dos Vídeos está actualizada e tem informação relativa a cada vídeo. As Fotos estão actualizadas numa espécie de galeria. Acrescentamos uma nova página – REP – ou Recordações da Época Passada, onde serão publicados ou guardados textos que traduzem vivências no mundo da escalada e por ultimo a página, Banco de Ensaios, onde aperecerão criticas a material de bloco e escalada, livros e vídeos. E para começar uma crítica ao Progression, pelo nosso especialista em filmes de escalada, Filipe Carvalho:

progression

“O novo filme da Big Up productions, segue a mesma linha dos outros que ficaram para trás. Encadeamentos duríssimos atrás de encadeamentos duríssimos, que deixam qualquer um de boca aberta. Qualquer escalador fica fascinado quando vê o Daniel Woods a lançar para uma réglette inexistente e a ficar lá suspenso por apenas um braço. É daqueles movimentos impensáveis! Qualquer um gosta de ver o Sharma a escalar, aliás digam-me um filme da Big Up Productions em que ele não tenha aparecido.

Chris Sharma, Paul Robinson, Daniel Woods, Tommy Caldwell, Kevin Jorgeson, Patxi Usobiaga, etc. Que elenco de luxo! Sítios paradisíacos como as Rocklands na África do Sul, Bishop e Yosemite na Califórnia, Oliana e Siurana em Espanha, aguçam o interesse do mais incauto que, vendo estas aventuras e feitos acaba por ficar com água na boca e também quer um pedaço daquele bolo.

Temos rocha e temos plástico onde quem brilha é  Patxi Usobiaga. Sem qualquer  dúvida, um escalador biónico! Treinos super estruturados, completos e cientificos levam a uma nova geração de escaladores. Vê-se o papel da ciência no treino, e a vontade, motivação e esforço extremo aliados a um desejo de vitória. Mas na minha opinião, a frase proferida pelo mesmo, “Rock Climbing is easy, competitions are complex and intense”, esbarra no ridículo. Não tenho qualquer dúvida sobre a complexidade e intensidade de uma competição e existem movimentos que apenas podem ser criados na resina, mas a escalada em rocha nunca foi, nem nunca será fácil, esta frase simplesmente está invertida.

Como sempre  falta mostrar o trabalho que está por detrás disso tudo, o tempo que o escalador perde numa via. Esse trabalho só é verdadeiramente mostrado em filmes como o “Fanatic Search”, onde aparecem o Chris Sharma e o Dani Andrada a trabalhar uma via vezes e vezes sem conta, onde aparece o Sharma a trabalhar um único passo dias seguidos. Só aí temos uma certa noção de tudo o que está por detrás daquele escalador em especifíco.

No excerto do Tommy Caldwell – sem sombra de dúvida, um escalador perfeito  do bouldering à clássica – é  apresentada a via Mescalito, no El Captain, algo incrivelmente estético, e com toda a certeza duríssimo: Problemas de bloco, dinâmicos, lançamentos, réglettes invisíveis, atestam a  visão deste escalador de uma humildade impressionante. Por estes dias, o Tommy Caldwell uniu esforços com o  Kevin Jorgeson para tentarem libertar este projecto futurista, quem quiser pode  seguir a acção aqui. E, este último aparece no vídeo, mais destacadamente, no seu famoso bloco: Ambrosia. Um bicho de 15m, com um iníco entre o V11/V12 de réglettes  mínimas que levam a um hueco a 6m do solo. Problemas como este  normalmente acabam com um drop off, neste caso a decisão de seguir para cima confronta o escalador  com um solo de 7c+, numa zona onde a queda é proibida, introduzindo um novo conceito: O highball free solo e aqui podemos resvalar outra vez para a polémica do que deve ser ou não gravado, o que deve ser mostrado ou não. Ver o Matt Segal cair na Kaluza Klein e a bater no chão alimenta o desejo de perigo que muitos escaladores procuram. Mas, não terá isto uma repercussão mais grave e preocupante? As novas gerações que, a pouco e pouco começam a dar entrada no mundo da escalada, deixam-se fascinar por este tipo de filmes e fica sempre o pensamento “eu também consigo fazer aquilo!”. Ver o Alex Honnold fazer a Gaia em solo com uma certa “facilidade”, faz-nos acredita que, se calhar não é assim tão difícil.

Mas esta problemática leva-nos de volta ao post “Highballing ou Free solo?”, por isso, voltando ao filme pode-se dizer que a exploração das imagens, da luz, de novos ângulos, dos efeitos e da própria música, tornam-no muito especial, atribuindo-lhe uma qualidade excelente, como os filmes da Big Up Productions nos têm habituado. Mas, como já tinha referido, segue um conceito recorrente: Encadeamentos atrás de encadeamentos, linhas super duras sem mostrar o verdadeiro trabalho que está por detrás desse encadeamento e por último a exploração máxima da fama do escalador.

No geral, o filme não é mau, e a sua visualização é mais do que aconselhável”. Filipe Carvalho

 O Filme está disponível em DVD ou para  download em HD  no site da Big Up Productions.


Pianos Rachados

Novembro 2, 2009

É o grande encontro de escalada com auto-protecção, para quem quiser conhecer o que de mais parecido - dizem – existe com o  Ribeiro Indiano em terras Lusas. A não perder. Toda a informação aqui.

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HighBalling ou Free Soloing?

Outubro 30, 2009

O tema quente do momento. Para quem ainda não deu pela “história”, aqui fica a síntese: Um escalador de Boston, Max Zolotukhin, parte um pé, ao cair numa tentativa de escalar em solo uma via de 8c em Rumney, NH, USA. Nada de mais, diriam vocês. A diferença é o numero à frente do nome da via e ter sido filmado e divulgado, provocando uma grande polémica, ver:  aqui e aqui. Também é possível ler o relato na primeira pessoa. Uma narrativa  muito interessante, honesta, cheia de contradições e de uma ingenuidade desconcertante, enfim o reflexo humano de quem quer voar como os deuses.

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Highballing ou freesoloing? Super-Bidedo V9cs, Pedra do Urso. Escalador: José Abreu; Foto: Oldemiro Lima.

Isto coloca-nos novas e interessantes questões, não tanto sobre a essência da escalada em solitário sem corda, uma pratica tão antiga como a própria escalada. Mas sobre a chamada “comercialização destas performances“. Com a crescente mediatização da prática da escalada um dos caminhos para despertar emoções fortes e apimentar os vídeos é filmar actos cada vez mais arriscados, ver o recente Progression por exemplo. Com alguns “comentadores” a afirmarem que não faltará muito para alguém dar uma queda mortal… com a câmara a gravar.

Vou deixar aqui a minha opinião quer pessoal quer editorial neste aspecto da escalada: Todos sabemos ou deveríamos saber a seriedade que implica escalar em solo onde as consequências de um falhanço são no mínimo extremas, por isso, em meu entender, deve ser uma actividade puramente do foro pessoal e intimo,  a praticar de preferência sem assistência. Uma experiencia pessoal que concretizada com êxito de certeza proporcionará sensações únicas ao seu praticante. Sem êxito, pode proporcionar a derradeira das experiencias: a morte. Mas tratando-se de uma questão de liberdade pessoal, muito importante, não podemos se não respeitar a escolha de quem percorre esse caminho.

Filmar, o “evento” também é uma questão pessoal. Divulgar já levanta questões éticas muito sérias. Deve ou não ser mostrado, deve ou não fazer parte de vídeos comerciais. Editorialmente, a minha resposta, é não. Nem tudo deve ser mostrado, nem tudo deve ser filmado, tem de haver espaço para o indizível, para o invisível, para a intimidade. Mas vivemos a época da internet onde esta questão parece ser simplesmente anacrónica.

Quanto ao Bouldering que é o tema, digamos, forte deste site, a questão é: o que separa a fronteira do Highball do free solo. Esta pergunta não é fácil, e depende muito da experiencia pessoal do escalador. Mas existe uma fronteira, onde por mais “crahs gigantes” que se acumulem na base do bloco, mesmo assim não queremos nem podemos cair. E temos assim um híbrido: highball até certo ponto e free solo depois, ver o Progression mais uma vez. Muitas perguntas se colocam: é bom filmar estas coisas? É cool arrastar os  amigos para assistir ou ajudar? Quando a única coisa que podem fazer é colocarem-se a eles próprios em risco. Este pode ser um terreno minado, pois as crashs e os potenciais seguradores podem dar uma ilusão completamente errada da situação, aos próprios intervenientes, como parece ser o caso da situação que deu origem a toda esta polémica.

No final, o escalador arrumou a questão na gaveta das duras lições. Um final feliz?