(Chikane)

Maio 31, 2010

Uma grande surpresa e de onde menos esperava, isto é aqui do lado de Espanha. Bernardo Gimenez  um fotografo que desconhecia, por mera desatenção, e que tem trabalhos publicados nas revistas Desnivel, Escalar, Rock and ice, e nos catálogos da Black Diamond e Patagonia, etc. Nascido na Argentina, vive pela Europa há alguns anos, estando agora aparentemente em Espanha. Acaba de produzir a sua primeira curta-metragem, a (Chikane). Uma estreia em cheio.

A “curta” segue Danillo Pereyra nas tentativas de encadear a via Chikane (8c+) em Siurana, Espanha e é um dos melhores vídeos de escalada desportiva que alguma vez vi.

O que torna, este vídeo diferente? Em primeiro lugar a narrativa. Existe uma história, muito simples, mas existe. Uma história sem final feliz, isto é sem concretização da via. Emprestando um sentimento de realidade e identificação à acção, que nos coloca, sem querer, dentro dela.

É filmado de modo a dar dimensão, no sentido de profundidade,  à personagem do escalador, daí a importância da sequência inicial, a minha preferida, onde o ambiente claustrofóbico e escuro da caravana nos parece revelar o próprio mundo interior do escalador/personagem voltado sobre si mesmo, concentrado no seu objectivo. Sonhando acordado com a escalada. Um olhar sobre um mundo fechado e autista, característica de muitos escaladores e exacerbado pela própria prática constante da escalada.

Tecnicamente, ao nível da fotografia e escolha dos planos, nota-se a mão de um fotógrafo profissional. A montagem está mais do que perfeita no apoio à narrativa. Resultando um filme curto muito agradável de se ver que se tivéssemos aqui um sistema de classificação de estrelas para filmes de escalada levaria as cinco estrelas. SM


Maia 2010 – O Relógio Não Pára –

Maio 21, 2010

 

Pois é, tal como o relógio do coelho branco do País das Maravilhas o relógio do CEM também não pára e parece estar sempre atrasado. A toca do coelho, vulgo parede interior de escalada do complexo de ténis da Maia, está praticamente pronta, faltando montar as últimas peças do puzzle. Assisti à construção de alguns muros de escalada e construí alguns também, mas nunca nenhum com esta dimensão. Foi construído em duas fases em dois anos de “pura labuta” totalmente voluntária. Uma mobilização de meios e materiais, à base de empréstimos, reciclagem de sucata, restos de outros muros, etc. O meu velho muro, por exemplo, está embebido em peças neste, fazendo agora parte, para minha alegria, de algo novo. Um trabalho voluntário e intenso de todos os sócios que puderam ajudar, puxados por dois motores de muitos cavalos, o José Abreu e o Filipe Cardinal, que revezando-se à frente da empreitada foram titânicos e nunca desistiram e podem agora ver finalmente o trabalho concluído. Começam a chegar as presas e os volumes e está na altura de começar a montar a competição.

As inscrições baratas acabam dia 24, depois é mais caro…

Toda a informação no Abismo Branco. SM


Plastificados

Maio 14, 2010

Este mês, apesar de as condições estarem intermitentes com as temperaturas num carrossel constante, o plástico parece aos poucos tomar conta de nós, senão vejamos:

A Big Up Productions acaba de colocar hoje online uma curta metragem chamada The Insiders, sobre escalada indoor, com Paul Robinson, Sasha DiGiulian, Vasya Vorotnikov, e Ashima Shiraishi como escaladores convidados.

Quando um produtora destas mobiliza todos os seus recursos numa tentativa de tornar a escalada de “rocódromo”, como se diz por aqui, numa coisa apelativa e interessante, vale sempre a pena ver estes 11 minutos de vídeo.

Este vídeo sendo uma apologia da escalada indoor ou mais concretamente sobre estruturas artificiais , tem como paradigma a frase: “There’s an infinite number of movements that can be done in the climbing gym…”,  e como ideia principal: ” to capture the energy and physical thrill of gym climbing and training” segundo os próprios produtores.

Os escaladores vão-se apresentando. A competidora Sasha DiGiulian que treina cinco dias por semana, para “esmagar” nas competições. A criança- fenómeno Ashima Shiraishi, mostra como se pode escalar na perfeição com apenas 8 anos. Vasya Vorotnikov, que ” gosta de espremer sumo das pinças” faz divertidas e poderosas sequências neste muro perfeito. E, por fim  Paul Robinson apresenta-se de uma forma no mínimo obtusa, que traduzida daria algo como isto: “O meu Nome é Paulo e o meu negócio são movimentos realmente duros”, sem mais. Mas depois assistimos, provavelmente, à melhor sequência do filme, uma emulação em plástico dos movimentos de Lucid Dreaming a sua proposta de V16 em Bishop, uma demonstração clássica  de um  método de treino realmente eficaz.

O filme explora na perfeição as potencialidades de um fantástico ginásio indoor para escalar. É seguro, as quedas circenses são anódinas. Dá para todas as idades. É um potente instrumento de treino. Mas será escalada? Não sei responder. Uma das minhas definições preferidas de escalada é: movimento sobre rocha. Isto aqui é movimento sobre plástico. São coisa diferentes, talvez parte do mesmo jogo. Mas a escalada digamos “artificial” é com certeza parte da vida da esmagadora maioria dos  escaladores, quer seja numas tiras de madeira no galinheiro lá de casa ou em sofisticadíssimos muros indoor com equipadores de vias profissionais.

Agora na senda das competições. Amanha, Sábado, poderemos assistir em live streaming pelas 19.15, horas locais, a uma das competições mais aguardadas dos últimos tempos a The battle in the Bubble. Uma espécie de Festival Outdoor em Boulder, Colorado, que culmina numa grandiosa competição, com um formato original numa tentativa, talvez a enésima, de trazer a escalada para junto do grande público.

Por fim, no fim do mês, Temos a Comp na Maia. O CEM, Clube de Escalada da Maia, está mobilizado, num grande esforço, para fazer desta competição um marco. A competição será também a inauguração do muro, que pela sua qualidade e dimensão será sem dúvida um marco para a escalada no Grande Porto.

Todas as informações sobre inscrições, alojamento, regulamentos, etc. aqui.


Border Country

Maio 7, 2010

“Sometimes a climb is just a climb…sometimes is more than that.”

Oito minutos de filme, para uma história enorme. Border Country documenta um ano na vida de Jeremy Collins, um artista, ilustrador e claro escalador. A acção começa na Patagónia e segue até Yosemite envolvendo no processo a abertura de uma via numa placa gigante mesmo em frente ao El Captain. Uma parede aparentemente virgem de vias, uma espécie de patinho feio ofuscada e esquecida devido à sua vizinhança com o Grande Capitão. Mas, que para estes escaladores tinha o nível, dificuldade e compromisso à medida da sua imaginação e ambição. Por isso meteram-se desde abaixo, como mandam as regras, e foram desbravando o terreno, metendo no processo mais de 70 pernos, à mão, pois em Yosemite é proibido usar máquina.

O filme, ou curta-metragem, pois estamos a falar de uma verdadeira curta-metragem aqui, não é especial pela via, é especial pelo recurso a técnicas de animação, com sequências brilhantes e desenhos, alguns deles, belíssimos muito bem conseguidos.

Assistimos também, segundo os próprios autores, a uma tentativa de mostrar e trazer para o filme alguma alma ou “soul” aliada à própria escalada.

Somos assim forçados a entrar no terreno pantanoso de tentar perceber e definir o que é a “alma” da escalada em si. Desejo, imaginação, tenacidade, força de vontade, sentir na pele a fúria dos elementos, viver e morrer pela necessidade de percorrer planícies verticais. Poderá ser isto a alma da escalada? Não se sabe, a resposta está em cada um. Mas é inegável que estes oito minutos mostram-nos um pouco disso.

Uma noticia inesperada a meio da noite, provoca uma súbita mudança na narrativa. Passamos a assistir a uma espécie de tributo a Jonny Copp  e Micah Dash  que morreram sob uma avalanche na China.

As cinzas do “homem pássaro” são levadas pelo vento de Yosemite e o seu espírito reflecte-se no premonitório poema que escreveu no dia anterior à sua morte. Na melhor sequência, o poema transborda do diário e afirma-se para dar o nome à via em si e uma espécie de sentido ao filme.

Animação, vídeo, fotografia, música e poesia, numa aliança fora do comum, muito fora do comum mesmo, no mundo da escalada. Uma maneira diferente de documentar uma experiencia. A meu ver com resultados plenamente conseguidos.

O filme pode ainda ser encontrado na plataforma multimédia da Patagonia a Tin Shed juntamente com outros vídeos e histórias de escalada, alpinismo, surf, viagens de bicicletas etc. A Tin Shed é uma espécie de recriação digital do barracão onde Yvon Chouinard forjou os seus primeiros pitões com ferro de um velho Ford modelo T.

Para quem quiser saber mais pormenores existe um making of no vimeo, que como todos os making of’s estragam o prazer de ver o filme. Embora traga alguma luz ao processo técnico de fazer uma obra deste género e dá também a dimensão do trabalho envolvido, que é imenso.

“Sometimes a climb is just a climb…sometimes is more than that.” SM


Maia 2010

Maio 4, 2010

Todos os caminhos vão dar à Maia, dias 29 e 30 de Maio.


Recordações da Época Passada. Yosemite – À Sombra de Gigantes –

Abril 29, 2010

  

Camp Four, Yosemite. Se este é um dos centros do mundo da escalada, o centro do próprio campo é centro do mundo do Bloco, pois é lá que está o boulder mais famoso do mundo: o Midnight Lightning, situado no Columbia Boulder.

As manhãs são lentas, a maior parte do campo está à sombra até tarde e à sombra em Yosemite faz frio, um frio de rachar a partir de Outubro. Acendem-se algumas fogueiras das cinzas da véspera e o café começa a ferver nas cafeteiras.

Do meu campsite vejo um tipo seco, alto e de cabelos compridos já bem grisalhos. Umas calças rotas e uma t-shirt sem mangas associadas a um olhar fixo na acção em volta do Midnight Lightning indicam tratar-se de um escalador, como de resto seria de esperar aqui. Aproximo-me um pouco do bloco e a personagem volta a chamar-me a atenção, um bigode tipo Frank Zappa, e uma cara enrugada como um pergaminho onde brilham uns olhos metálicos. Merda! É o Jim Bridwel! Exclamo para mim mesmo, enquanto uma súbita e estúpida emoção apodera-se de mim. O meu primeiro impulso é ir cumprimentar o homem como um fã que vai pedir um autografo ao seu ídolo. Ridículo. Resisto a este impulso, mas fico estático como se tivesse sido atingido por um raio.

As estrelas da escalada, não me causam grande impressão. Mas o Jim Bridwel é o Jim Bridwel. Não é o que escalou ou deixou de escalar, é a personalidade, as aventuras, uma espécie de modelo da escalada beatnik e politicamente incorrecta ou mesmo insurrecta. A personificação da liberdade da escalada. E, uma espécie de personificação deste lugar, não uma personificação new age em que se transformou o Ron Kauk por exemplo, mas uma espécie de símbolo vivo.

O bloco tem ainda uma particularidade, um “lightning bolt” desenhado com magnésio que aparece misteriosamente todos os dias desenhado de fresco. O efémero magnésio tal como a escalada de circunstância e perseguidora de graus necessitam de uma renovação constante para se perpetuarem no tempo. Já a presença de Jim Bridwell envelhecido é uma imagem viva do espírito da escalada onde cada ruga esconde uma história, numa face que se confunde com a própria história da escalada.

Existe um cartaz, que infelizmente não tenho, em que ele aparece em primeiro plano a acender um cigarro, sempre Camel, e em pano de fundo uma montanha, uma das suas últimas ascensões talvez. Esta imagem, de uma provocação extrema, traduz na perfeição o estilo indomável que sempre o caracterizou, principalmente numa América que parece voltar ao puritanismo original e onde fumar se confunde com o pecado capital da religião/culto da eterna juventude. A imagem parece dizer: o alpinismo é viciante e prejudicial para a saúde, o que não deixa de ser verdade.

Alguém disse que um escalador é um semideus quando as suas vias não são repetidas durante dez anos e um deus quando passam mais de 20 anos sem repetição. O Jim Bridwell encaixa provavelmente na segunda parte e para isso muito contribui vias como a The Dance of the Woo-Li Masters na face Este do Moose’s Tooth no Alasca escalada no fim do Inverno de 1981, em estilo alpino e em apenas 3 dias, que, claro está, nunca foi repetida.

Deuses, semideuses, monstros e lendas vivas. Tal como todas as actividades humanas a escalada tem o seu próprio panteão e os seus heróis, uns por direito próprio outros atirados para lá por mecanismos mediáticos. São referências que cada um escolhe e cola na sua caderneta de cromos pessoal, e que acabam por constituir uma teia de mitologias pessoais que nos servem de marcos para superar ou simplesmente percebermos a nossa terrena condição.

Estas lendas deviam viver para sempre num lugar ficcional ideal, uma espécie de terreno onírico onde a nossa imaginação as projecta. Mas, a realidade é como uma locomotiva furiosa para a qual o terreno dos sonhos é mera paisagem. E, a realidade económica em 2010 é das piores de sempre. Jim, agora com 64 anos, parece agonizar em dívidas, talvez vitima da aguda crise que se abate sobre os EUA e o Mundo. Acabou de ocorrer uma espécie de festa de beneficência em Joshua Tree a que chamaram Bridwellfest com o objectivo de angariar 10.000 USD para ajudar a família a fazer face às suas obrigações. Os amigos constituíram um fundo para donativos e organizaram uma espécie de leilão com todo o seu material autografado, uns pés de gato usados  com assinatura personalizada são vendidos a 50 USD por exemplo…. 

A decadência, é terreno fértil para sábios de ocasião tecerem das suas confortáveis poltronas comentários acerca de possíveis “planos de poupança e reforma”. Mas ppr’s e jim Bridwel de certeza que são palavras incompatíveis. Ele vive ou viveu o momento fazendo acontecer coisas impossíveis e tão improváveis como um relâmpago atingir um bloco precisamente à meia-noite.

O relâmpago nunca chegou a atingir o bloco, mas o improvável aconteceu, e acontece, muito por culpa dos deuses da escalada. SM


Origins – JTree –

Abril 21, 2010

A Sender Films juntamente com a BigUp Productions , patrocinados pela Evolv e a Mountain Gear ,  lançaram uma nova série webtelevísiva: a Origins. O  primeiro episódio foi lançado no Youtube de forma gratuita, não havendo garantias no entanto que os próximos seguirão o mesmo rumo. Esta nova série tenta focar a história da escalada fazendo a ponte entre duas gerações de escaladores, usando como elo de ligação uma via icónica.

O primeiro episódio leva-nos a Joshua Tree onde Chris Lindner, uma das primeiras crianças prodígio da escalada, tenta repetir uma via de Kurt Smith, um dinossauro da escalada americana com uma actividade  marcante e prolífera do bloco ao Bigwall.

A via, um “horror show from the past”, nas palavras do próprio Kurt, foi aberta em 1988 desde abaixo e desde então ainda não vira uma repetição, muito por culpa de um bizarro movimento que mistura um mantle, um passo de ombro e um cruzamento. Uma maravilha da imaginação e contorção.

Esta série, tal como a Season já aqui apresentada, tenta assentar em pressupostos diferentes do tradicional vídeo de escalada centrado na acção. Assistimos à tentativa primitiva de introduzir um argumento. Objectivo mais conseguido na Season, série mais ambiciosa quer em termos de âmbito quer em termos de desenvolvimento emocional das personagens.

Na Origins, embora o argumento seja extremamente simples, é  suficiente para constituir uma narrativa, centrada num conflito, o confronto de gerações, e sua resolução, o encadeamento da via.

A via é bem escolhida, e serve para firmar estereótipos de circunstância: nos anos 80 as vias eram placas com movimentos bizarros, que os escaladores novos actuais acham extra-duros e impossíveis de avaliar – nas palavras do próprio Lindner –.

Por outro lado o escalador novo, moderno se quiserem, é apresentado a fazer bloco, onde mostra algumas habilidades circenses. Mas serão suficientes para resolver o “ horror show”? Não tardamos em ver e perceber.

Temos assim, personagens bem definidas e os géneros de escalada bem contrastados, pois as imagens de bloco servem de contraponto perfeito à própria bizarria da via.

Ao nível da construção e fotografia o vídeo é exemplar e cumpre a função, de forma notória, de servir o argumento, sendo o decor, JoshuaTree, uma aposta ganha à partida.

A história da escalada é rica, e fornece histórias e épicos para todos os gostos, e tendo a escalada desportiva mais ou menos 30 anos, atingimos um momento em que varias gerações se cruzam e interagem, sendo por isso o timing para estas histórias mais do que perfeito.

Diz-se à boca pequena, isto é na net, que o próximo par será a Lisa Rands e Peter Croft, um estranho par. Será interessante ver que via servirá de elo de ligação entre os dois.

Na senda da Seasons, Webvideo de qualidade e grátis. SM


Grão de Bico

Abril 13, 2010

Pode um bloco ser a síntese de toda uma zona? Se sim, para Corno de Bico esse bloco é o Grão de Bico.

Alto, difícil, frágil e alta qualidade ao nível do movimento. Estas são as características principais deste bloco e são também as características de Corno de Bico. Até o tipo de presas é o mais comum: régletes e cristais.

Quatro presas em quatro metros e meia dúzia de cristais na saída são o suficiente para subir ao topo deste bloco, que possui ainda uma característica rara: levantar o pé do chão é já duro, uma situação desesperante e que atesta a pureza da linha em si.

O Arranque em duas régletes opostas é explosivo, mas compensado com a presa de chegada, um puxador, no qual não vale a pena parar muito pois segue-se um dinâmico para uma réglete perfeita que é preciso executar em deadpoint. Tendo ganho a réglete atinge-se a saída, que se negoceia com cristais bem separados uns dos outros, numa situação já bem aérea. Uma dobragem dura e de decisão marca assim o fim deste bloco de antologia. Todo um programa para um bloco aberto e encadeado como sempre pelo grande explorador da zona: o Júlio Braga. SM


Os Sete Pilares do Bouldering

Abril 1, 2010

Tomo I – A Agressividade


Recordações da Época Passada – Um Dia em Hueco –

Março 12, 2010

Baú!Aú!Grrrrrr! O rafeiro sai disparado atrás da bola de golfe, que trás diligentemente, passado pouco tempo. Taq! Sai outra bola, e o jogo começa de novo.

Hueco Tanks, Texas, EUA. O green é uma plataforma feita de restos de madeira e um bocado de relva artificial, o resto é providenciado pela imaginação. Fora isto, nada se passa e o Rock Ranch está tranquilo em mais uma gloriosa manhã texana. Os ovos já estão na frigideira prontos a mexer. O pequeno almoço de lei são huevos rancheros e black coffee. Já se vêem os clientes habituais na slack line e o resto é deserto. Literalmente.

Harrrrrghh! Mudança de cenário. Entrada do Parque. Estamos na fila por uma vaga na Northmountain – um dos sectores de Hueco e o único de livre acesso e esperamos há um par de horas. Podemos ver já os primeiros blocos, mas não podemos tocar-lhes. Jogamos à bola, conversamos, mas a impaciência vai tomando conta de nós e os mais irascíveis começam já a saltar e a soltar urros de fúria, especialmente os nossos amigos espanhóis, que como locomotivas a vapor vão acumulando pressão e estão prestes a estourar e a escalar qualquer coisa que apareça pela frente. “Foooooderrrrrrr!” 

Zingh! “ we are leaving now S.A.D.” zongh! “Ok, roger! Out”. O nosso guia acaba de comunicar via rádio a posição do nosso grupo e preparamo-nos para seguir para outros blocos. S.A.D. significa Sex After Death e é o nome de um bloco bem conhecido, só que, pela rádio não podem dizer, digamos, palavrões, e tem de usar as siglas. É sempre hilariante, quando a hipocrisia latente na sociedade americana vem à tona. Os guias e os rangers devem maldizer todos os dias o John Shermam e os seu nomes escabrosos. O humor nunca se dá bem em ambientes autoritários, quanto mais humor politicamente incorrecto. Seguimos. Mudamos de planos. Decidimos entrar num tour pela Eastmountain em vez de esperar por vagas para a North. Um tour são as famosas visitas guiadas, que podem durar de duas horas ao dia inteiro, dependendo do grau de fama de cada um ou amizade com os guias, mas oficialmente são duas horas. 

“Vengaaaaaaaa!!” mais um ensaio, mais uma tentativa num típico problema enfiado num corridor. Aparentemente e visto de fora ninguém dá nada por Hueco, só que as três montanhas têm múltiplas entradas, corredores, falhas e passagens que multiplicam infinitamente as possibilidades para linhas novas. Uma espécie de labirinto de pedra com inúmeros Minotauros sempre à solta. A rocha é excelente e à prova de bala, as linhas são perfeitas. O clima é frio e seco no Inverno, o mau tempo são as ocasionais tempestades de areia, que não interferindo grande coisa na escalada, apenas são incomodativas para quem dorme numa tenda e acorda literalmente a mastigar o pó do deserto. Um paraíso do Bloco. Ainda não perdido, mas severamente condicionado. 

“Some more colesterol, please!” a americana olha para mim, primeiro atónita, depois ri-se às bandeiras despregadas, “ ha…you want more casserole?”. “yah…sim… that´s isso…” Jantar de Acção de Graças. Os donos do rancho, resolveram abrir a casa e fazer por um preço irrisório um grande jantar, diga-se banquete, para todos os escaladores presentes. Nós comparecemos, claro, um jantarinho na acolhedora casa de madeira é uma mudança de cenário bem vinda para fugir à chungaria poeirenta do quintal diga-se camping onde estamos instalados. 

Trásssss! Uma nuvem de faúlhas levanta-se da fogueira gigante. Acabam de atirar mais uma carrada de restos de paletes, cortesia de uma fábrica vizinha. Quando a fogueira não está monstruosa o suficiente alguém voluntaria-se para ir buscar com um carrinho de mão uma carga. Carrega, e ao aproximar-se da fogueira começa a correr e atira o carro contra uma pedra colocada convenientemente, este pára violentamente e a carga desliza com estrondo para dentro da fornalha provocando um efeito pirotécnico…

One! Dos! Three! Quatro!… mais um jogo demente, desta vez trata-se de contar quantas voltas sobre si próprio consegue dar um tipo, enquanto abraça uma trave de madeira. Dois voluntários são destacados para “darem spot” e impedir que com a “oura” o jogador se precipite na fogueira. Começa a rodar e a multidão vai contando em coro  “ um, dois, três…” até que este já não aguenta mais, larga o tronco e cai no chão ou sai disparado para direcção incerta. E, a noite vai seguindo até que a multidão vai dispersando, e o ruído ainda há pouco intenso vai dando lugar a um murmúrio das conversas dos resistentes, e por fim, o silêncio do deserto instala-se só entrecortado pelos uivos ocasionais dos coyotes. Um dia em Hueco. SM