O Verdadeiro C.S.

Em plena Sala de Visitas, Assunção, Santo Tirso, o verdadeiro e único: Rala Canelas (V7 cs). Escalador: José Abreu; Fotos: Sérgio Martins.
Odiado pelos puros falésistas. Levado às ultimas consequências pelos mais inveterados adeptos do bloco. O começo sentado (C.S.) é um dos movimentos do bloco mais mal interpretados e…traficados.
A definição é simples: na posição sentada em frente ao bloco, posicionamos mãos, posicionamos pés, na rocha, e o ultimo ponto a abandonar o chão é o rabo ou nádegas ou cu, bem… como preferirem.
O que não se deve fazer: serem os calcanhares os últimos pontos a abandonar o chão, usar mais do que uma crashpad (a não ser que assim seja especificado), alguns dirão mesmo – em Fontainebleau por exemplo – que nem se deve usar crash, mas talvez seja melhor deixar essa questão na gaveta da ética local, o nosso cóccix agradecerá com certeza.
Portanto, quando por aqui aparece um “Vqualquercoisa C.S.”, quer dizer que o bloco foi feito nas circunstancias acima referidas e não começando com os pés no chão ou com 5 crashs ou …agachado de cócoras.
E, para quem ainda não deixou de ler e quer conhecer o sítio onde melhor pode por em prática os começos sentados, uma escola NorteBouldering: Santo Tirso.
Santo Tirso tem, que eu conheça, o maior numero, os mais duros, os mais mitrados, os mais excruciantes começos sentados de VB a V13, vejamos:
Começamos com o Salto da lama (V2), indescritível. A seguir o Investida Pélvica (V3), bizarro no mínimo. Seguimos para o Devorador de Lanches Mistos (V4), pouco duro, depois o Viagra (V6), inqualificável. Não podemos deixar de fazer o excruciante Rala Canelas (V7) e o Passeio Micológico também (V7). A seguir e numa espécie de Twilightzone dos começos sentados: o Dunfer com uma estratosférica cotação de V13, só de arranque.
Depois desta escola, ou com esta escola, estamos preparados para viajar pelo mundo fora, sem nunca estranhar nem falhar um verdadeiro C.S.
Haverá Sangue
Inimigo número um dos “blocadores”. Pode ditar o fim de uma sessão ou simplesmente acabar com uma roadtrip. Assume vários nomes e variantes conforme a região ou país onde estamos. Mas, no fim, vai dar tudo ao mesmo e de certeza que…haverá sangue.
Estamos a falar de bifes, mas se estivéssemos em Hueco Tanks só nos entenderiam se disséssemos bloody flapers. Se estivéssemos em França teríamos de dizer steak em inglês mas com pronúncia francesa. Por uma vez, fintamos o jogo dos galicismos, anglicismos, espanholismos e neologismos que infestam a escalada portuguesa e ficamos bem servidos com um excelente bife. Que, por acaso, resulta de um aportuguesamento do inglês beef, português, português seria naco ou posta, pois não somos muito dados a filetes, mas não seria prático e muito menos correcto dizer: falta-me um naco no dedo ou saiu-me uma posta da mão.
A Nortebouldering preocupada com o derrame intempestivo de hemácias e leucócitos em presas alheias, deixa aqui algumas sugestões, ou conselhos, para evitar essa festa dos sentidos que constitui a experiência de fazer um bife na pedra. E, também um guia de tratamento para quem não seguir esses conselhos e se vir com um bife em mãos.
O nécessaire
Pois é, mesmo o “blocador” mais endurecido, tem de ter um, especialmente em roadtrip, se quiser escalar o dia inteiro e fazer a sua pele durar para sempre. Eis o que é mesmo necessário o nécessaire carregar.
Lixa fina. Pode ser um, muito pratico, bloco usado para lixar madeira, à venda em lojas de ferragens ou tiras de lixa para unhas, à venda em qualquer supermercado, aqui podem pedir sempre às vossas namoradas, esposas, irmãs ou mães que adquiram o produto se não quiserem ser vistos a deambular por semelhantes expositores.
Bálsamo. Vulgo creme hidratante para mãos. Existem dezenas de marcas e cada um tem a sua preferida, havendo já produtos específicos para a escalada como o excelente Climb-on.
Corta-unhas. Útil para cortar pequenos pedaços de pele recalcitrantes.
Gaze estéril e um desinfectante, uma solução interessante é betadine em pomada.
Adesivo, vulgo Strappal.
Super-cola. Isto merece um comentário mais aprofundado, ver mais à frente.
Cuidados preventivos
Lixar a pele. A ideia aqui é lixar os calos para os deixar uniformes com o resto da pele.
Não vamos lixar a pele que está boa, a rocha encarrega-se disso, mas as irregularidades que podem, digamos, “engatar” na rocha e fazer estragos. Ostentar calos monstruosos, como medalhas de treinos compulsivos, é o caminho mais rápido para um bife.
Usar magnésio com moderação, principalmente o líquido. E, uma vez acabada a sessão lavar rapidamente as mãos. Nada de saltar directamente para o carro, fazer a pequena viagem Pedra do Urso – Porto e chegados a casa cair, exaustos, na cama, só lavando as mãos no dia seguinte.
Hidratação. Todas as manicuras sabem que a pele tem uma coisa chamada balanço hídrico, que, como é bom de perceber é desequilibrado pelo nosso pó preferido e pelas condições que mais gostamos para “blocar”: frio seco. Assim, uma vez livres do magnésio, toca a hidratar para devolver à pele as condições ideais para a sua regeneração.
Por fim, a sugestão mais difícil: saber parar. Fazer repetidamente o mesmo passo é o caminho para furar um dedo mas também é o caminho para fazer um bloco por isso a solução é ir observando os dedos e parar antes que seja tarde demais.
Se, mesmo com estas milagrosas sugestões as vossas mãos se transformarem em delicatessen, eis o que fazer, conforme os casos:
Cortes e furos
Irmãos mais novos do bife, constituem o dano mais comum nestas paragens, mas se não formos cuidadosos acabam por levar ao famigerado bife. Uma vez o dedo furado, nada a fazer, lavar com água limpa, desinfectar e se quisermos continuar a escalar temos de passar à arte do adesivo, operação que tem de ser feita com algum cuidado para que o adesivo não salte fora ao primeiro ensaio. Eis o que fazer: Colar um pedaço de adesivo ao longo do dedo, em cima e em baixo. Depois, com um pedaço mais fino – aí 0,5 cm de espessura – começar a enrolar o dedo da ponta para trás, desta forma impedimos que as dobras do adesivo engatem na rocha. Conforme a localização do furo enrolar duas ou três falanges.
Gretas, fissuras e crevasses
Frio, magnésio, escalada em excesso em presa muito pequena, leva muitas vezes a estas irritantes ocorrências, a pele simplesmente cede e abre, produzindo-se fissuras extremamente dolorosas, podendo levar dias até que fechem outra vez. Para as evitar: lixa e creme hidratante, uma vez ocorridas um dos remédios pode ser recorrer à super-cola, para as fechar. Já nos debruçaremos sobre o seu uso e aplicação.
Bifes
Um bife verdadeiro, é algo sério e sangrento. Geralmente ocorre na falange intermédia onde a pele levanta toda, sob a acção de uma presa cortante. E aqui, podemos seguir dois caminhos, a famosa “cura de Hueco” que reside em colar a pele outra vez usando KrazyGlue – uma marca de super-cola – , usar adesivo e continuara a escalar. Esta solução é altamente desaconselhada pois o risco de infecção é grande numa ferida destas e essas colas não são propriamente feitas para esse fim.
O outro caminho é simplesmente lavar, desinfectar, fazer um penso com gaze e adesivo e esperar por melhores dias.
A super-cola
O uso da super-cola na escalada, tem a aura de quase um mito urbano, senão vejamos: Uns dizem que foi desenvolvida na Segunda Guerra Mundial para fechar feridas de batalha em cirurgias de emergência. Outros dizem que foi inventada, pelos mesmos motivos, mas na Guerra do Vietname. Isto para garantir que pode ser usada para fechar os nossos famosos bifes. Diz-se ainda que varia com o tipo de cola, a super-cola é cancerígena e a Krazyglue não. Muita desinformação.
Super-cola, krazyglue etc. são produtos similares que tem como base o cianoacrilato, produto inventado em 1942 nos laboratórios da KodaK, e comercializado anos mais tarde como cola sob o nome Eastman 910. Desde o inicio que o seu uso em medicina foi considerado e aparentemente foi mesmo usado em 1966 na guerra do Vietname por equipas médicas especiais. Apesar disto a FDA mostrou-se relutante em aprovar o seu uso “civil”, devido a efeitos irritantes para a pele. Foram por isso desenvolvidas novas versões do composto chegando-se ao “2-octyl-cyanoacrylate” aprovado para fechar incisões cirúrgicas em 1998 pela FDA. Havendo actualmente um produto comercializado sob o nome de dermabond que usa este componente.
Mas, podemos ou não usar a super-cola corriqueira? As super-colas para bricolage usam outro composto o: “methyl-2-cyanoacrylate”, um adesivo mais forte, que não só pode irritar a pele como provocar queimaduras, pois a polimerização da cola provoca uma libertação de calor significativa. Assim, se formos pelo lado da segurança este produto não deve ser usado numa ferida aberta ou mesmo sobre a pele.
Bom, continuaremos a furar os dedos, pois não há cola que nos mantenha em casa quando as condições são perfeitas para blocar. Mas, para quem chegou até aqui, não será por falta de informação.

